Fabulas de Esopo/O Galgo velho e seu amo

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Galgo velho e seu amo


FABULA XXXIII.


O Galgo velho e seu amo.

A hum Galgo velho, que havia sido muito bom, se lhe foi huma lebre d’entre os dentes, porque já os não tinha. O amo por isso o açoutou cruelmente, e lançou de si, como cousa que nada valia. Disse o Galgo: Deves, Senhor, lembrar-te como te servi bem em quanto era moço, quantas lebres tomei, e quanto me estimavas; agora que sou velho e estou posto no osso, por huma, que me fugio, me açoutas e lanças fóra, devendo perdoar-me e pagar-me bem o muito que te tenho servido.

MORALIDADE.

Deste Galgo tome lição quem serve a senhor ingrato, e verá o pago que ha de ter, principalmente se o serve em cousas contra sua consciencia, porque depois que estiver bem mettido no Inferno, pela primeira vontade, que deixar de lhe fazer, perde quanto tem servido, e muitas vezes o mesmo senhor, por cujo respeito elle perdeo a Deos, e o mundo o accusar, he seu algoz, e o faz castigar dos peccados que lhe fez fazer.