Fabulas de Esopo/O Ladrão e o Anjo

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Ladrão e o Anjo


FABULA VIII.


O Ladrão e o Anjo.

Dormia o Ladrão ao longo de huma parede, e vio entre sonhos hum Anjo, que o acordava, dizendo: Levanta-te e guarda-te daqui. Acordou o Ladrão, e apartando-se da parede, vio-a vir de subito ao chão. Ficou deste acontecimento muito alegre e soberbo, crendo que por sua virtude o guardara Deos. Mas tornando a dormir, tornou a vêr o Anjo que lhe dizia: Não te ensoberbeças, que se hontem te guardei, foi porque não era aquella tua morte, senão a da forca para que estás guardado.


MORALIDADE.


Na forca do inferno vão a parar os que das mercês, que Deos lhes faz, tomão occasião de o offender, e serem mais soberbos. Esta Fabula nos avisa e ensina que a muitos favorece a fortuna por seu mal. Muitos vivem, que lhes fôra melhor morrer. Pelo que hum philosopho escapando de huma casa, que se arruinou e matou muita gente, disse com humildade: Oh ventura, para que occasião me terás guardado?