Fabulas de Esopo/O Pastor e o Lobo

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Pastor e o Lobo


FABULA XLIX.
O Pastor e o Lobo.

Fugia o Lobo de hum caçador que vinha em seu seguimento, e diante de hum Pastor se escondeo em humas moutas, rogando-lhe que se o caçador lhe perguntasse, dissesse era ido. Ficou o Pastor de o fazer. E chegado o caçador, perguntando pelo Lobo, o Pastor lhe dizia que era ido; mas a cabeça lhe acenava para onde estava; não attentou o caçador nos acenos, e foi-se. Sahio o Lobo e disse-lhe o Pastor: Que vai, amigo? Muito me deves, bom valedor tiveste em mim. Valeo-me a mim minha ventura, respondeo o Lobo, e não te entender o caçador; pelo que nada te devo, antes se bemdigo a tua lingua, amaldiçoo tua cabeça, que tanto fez por me descobrir.

MORALIDADE.

Notão-se nesta Fabula os que do mal que urdírão, ainda que não teve effeito, querem tirar agradecimentos, e mostra-se quanto perigo seja quererem os homens em seus trabalhos valer-se de seus inimigos; que quando são muito fieis e primorosos, cuidão que satisfazem com se mostrarem neutraes.