Fabulas de Esopo/O Rato Cidadão e o Montezinho

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Rato Cidadão e o Montezinho


FABULA XXI.


O Rato Cidadão e o Montezinho.


Hum Rato, que morava na Cidade, acertando de ir ao campo, foi convidado por outro, que lá morava, e levando-o á sua cova, ahi comêrão ambos cousas do campo, hervas e raizes. Disse o Cidadão ao outro: Por certo, compadre, tenho dó de ti, e da pobreza em que vives. Vem commigo morar na cidade, verás a riqueza e a fartura que gozas. Acceitou o rustico, e vierão ambos a huma casa grande e rica, e entrados na despensa, estavão comendo boas comidas e muitas, quando de subito entra o despenseiro, e dous gatos apoz elle. Sahem os Ratos fugindo. O de casa achou logo seu buraco, o de fóra trepou pela parede, dizendo: Ficai-vos embora com a vossa fartura; que eu mais quero comer raizes no campo sem sobresaltos, onde não ha gato, nem ratoeira. E assim diz o adagio: Mais val magro no mato, que gordo na boca do gato.

MORALIDADE.

Quanto o estado pobre seja mais quieto e seguro mostra-se bem nesta Fabula; e quão arriscados vivem os que trabalhão por subir a mais riquezas, ou a mais alto foro do que tem. Que os que andão por enriquecer, esses cahem na ratoeira.