Fabulas de Esopo/O Rato e a Doninha

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Rato e a Doninha


FABULA XLVII.
O Rato e a Doninha.

Huma Doninha, como de velha e cançada não podesse já caçar, usava esta manha: enfarinhava-se toda, e punha-se muito queda a hum canto de casa. Vinhão alguns Ratos, que cuidando ser outra cousa, chegavão por comer e ella os comia. Por derradeiro veio hum Rato velho, que tinha já escapado de muitos trances, e posto de longe disse: Por mais artes que uses, não me colherás. Engana tu a esses pequenos; mas eu, conheço-te bem, não hei de chegar a ti. E dizendo isto, foi-se.

MORALIDADE.

Na Doninha se póde vêr que quem he criado em más manhas, nem por velhice as perde. Quem se costuma a furtar, ou o baraço, ou a morte lho ha de tirar; e quando já não podem usar da força, com rebuços, manhas e trahições usão seus máos officios, como gente que tem perdida a vergonha e temor de Deos.