Fantina/XII

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XII
por Francisco Badaró


A porteira bateu: era o Zé de Deus que partia lançando a maldição sobre aquella casa de porcos e de cabras.

—Isto está para ficar um bordel ! atraz della as mulatas ! Dizia o Zé de Deus lembrando-se de que elle é que havia trazido o cravo ; e mordia os beiços furiosamente. Em caminho chegou a chorar. Apeou na descida d'um morro para urinar, e o burro que era inteiro correu atraz de umas egoas pela capoeira dentro.

—Vai, diabo ! alem de tudo inda guisos !

Correu muito atraz do macho, e já suado e cheio de lama dos brejos onde passou, sempre conseguio pegar o animal. Cortou um pé de tuncum e poz-se a esbordoar o innocente burro. O animal corcoveava, mas elle firme como um esteio, e segurando-o pelas orelhas, bradava descompassadamente :

—Socega, diabo ! que juizo poderás ter mais do que eu ; força, não !

E dava bordoadas.

—Que é isso, seu Zé de Deus ? disse Daniel chegando.

—Até o senhor, homem ? Venho desesperado com aquelle ninho de safados e este Frederico ainda correu atraz daquellas Luzias ! Não voltarei aqui. Aquelle sujeito que lá ficou é um precipício. Casar-se-ha com a comadre, e eu, que tanto a servi, que fui até arrieiro da sua tropa, fico esquecido !!

E desparou em tal berreiro, que parecia um pequeno burguez pedindo ao pai que lhe ponha mais farinha na cuia do leite, por demanhã. Daniel que estava com um pé fora do estribu, e um pouco torto sobre o lombilho, disse-lhe :

—Qual, o seu Zé de Deus, D. Luzia não se casará com elle ; porque não sabe quem elle seja.

—Que ! o senhor está muito atrazado ! E ella é velha, mas come muito lombo de porco, muito vatapá, que aprendeu a fazer com a Theresa bahiana; bebe bom vinho, do Porto . . . e . . . depois fica como uma cadellinha em mez de Agosto. Está doida por um rapaz. E' o que ella quer. E elle, Daniel, o diabo que andava perdido lá por onde Judas perdeu a bota, irá por tudo fóra ! E apontava n'um gesto rasgado para as florestas seculares que rodeavam o ventre dos araxás.

—Mas, seu Zé de Deus, o Jucá não ha de consentir, porque o homem é desconhecido e muito bandalho. Se ella soubesse o que elle fez na noite da festa do Divino, em casa da Manoela, com uma sucia de marchadeiras, o Jucá e ella não quereriam.

—Mas como foi o caso ? perguntou o Zé de Deus abrindo muito os olhos.

—Eu lhe conto. Havia muitos dias que elle ia á casa das sujeitas, e depois do castello queimado ajuntou-se lá com o tonico da Sombra, o Antônio Caetano e outros. O senhor sabe . . . e muitas mulheres da roça que tinham vindo ver a festa, tambem se achavam lá. Seu Frederico pintou ! Agarrou n'um pinho e fez bravuras . . . Cantando, dando umbigadas de rechar, e sapateando, berrava o

Eu puz o meu boi na serra

E virou vacca parida ;

Agora nem boi nem vacca,

Nem com que trate da vida.


Cantarolou muito... e deu até abraço em mulheres casadas !

E benzia-se o Daniel, engradando a cara com meia duzia de cruzes.

—Seu Zé de Deus, elle chegou a apostar com o Lino — o trovador — e levou o velho á parede.Na hora em que estava o cateretè para acabar o Frederido chegou a apagar as luzes com o chapéu, entornando azeite nos outros homens e gritando damnadamente :

Aqui vendo azeite,

Lá vendo sabão :

E tu faltas commigo,

Seu gato ladrão ?


Chegou a quebrar a viola, e finalmente escaramuçou até as marchadeiras, que estavam já bebedas.

O Zé de Deus ouviu tudo sem nada dizer, de boca aberta, quasi estupido.

— E' assim — accrescentou Daniel — se D. Luzia souber não ha de querer casar-se com um homem tão pandego. E no mais até amanhã, que está ficando noite e escura como breu.

E pondo as chilenas no rotundo ventre da egoa, sumiu a galope levantando uma nuvem de poeira.


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