Fantina/XXVII

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XXVII
por Francisco Badaró


N'uma manhã D. Luzia acordou e poz-se a pensar em Frederico.

Não dava credito ás intrigas do compadre ; mas lembrava-se da cidade, da Silveria, a do vestido côr de canna, com um penteado muito alto e cheirando a cravo; da Virgínia do Engracio, que andava sempre nos passeios da tarde, de vestidos de ganga, muito engommados, e que no andar produzia um rou-rou encommodativo, de arrepiar a carne. Nessa mesma manhã Frederico acordou com o rumor cheio que invadia a fazenda. Perguntou á Rosa quando lhe levou o café muita coisa de Fantina e do tal Daniel. Soube o que havia entre os dois e concluio dizendo que os casaria. Que podia a tia Rosa dizer isso mesmo á menina.

Todo esse dia D. Luzia passou azafamada, dando ordens, ensinando e fazendo serviços. Achava-se alegre, cantava ; e com uns garganteados petulantes dizia :

« Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse

De amor era terna expansão,
Do peito calara as magoas,
Bem feliz eu era então. »

Ella bracejava n'um lago de alegrias fortes, e sempre que se approximava do quarto de Frederico sentia um prurido discreto, e com voz doce garganteava :

« Nos teus sorrisos
Mil paraisos
Eu sonho ver. »

Frederico ouvindo repetia comsigo :

—Vai haver uma boa pandega !


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