Fantina/XXXII

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XXXII
por Francisco Badaró


Roza estava preparando atraz da cosinha um barreleiro, quando Fantina passou com um jarro na mão.

Roza seguiu a Fantina para a fonte. Quando, porem, Fantina passava por uma tabôa muito coberta de limo que servia de pinguella, Roza que estava atraz fingiu escorregar, e gritando Jesus ! caiu agarrando-a pelo vestido. Fantina com o susto e a força de Roza, também cahiu sob o jarro d'agua.

Ambas ficaram molhadas e sujas de lama.

Sobiu a escada acompanhada de Roza, e ao chegar á cosinha deu á Adelina o jarro que era para o quarto da nhé-nha. Fantina foi para o quarto mudar a roupa, e justamente no momento em que tirava o vestido molhado em cujo bolço estava a chave do estojo, entrou Roza com uma chicara de café.

— Toma, filha, que molhar a estas horas pode fazer mal.

Ainda com o novo vestido desabotoado, Fantina tomou a chicara e poz-se a beber o café. Aproveitou-se Rosa disto, e estendendo o vestido molhado no peitoril da janella, metteu a mão no bolso delle e tirou a chave.

— Fica aqui para não criar tico, menina, disse Rosa retirando-se com a chicara.

Rosa lá pela cosinha exhultava, dando risadinhas gostosas, dizendo graçolas de amuar.

Toda a tarde ella esteve sentada atraz da casa remendando umas camisas do pae Joaquim.

Quem por alli passasse, ouveria um cantar baixo, mas de um timbre vibrante, como o de quem cheio de prazer, procura derramar um pouco da ventura que escorre pelas bordas do cyatho da vida.


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