Fausto (traduzido por António Feliciano de Castilho)/Quadro XIII

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Fausto por Goethe, traduzido por António Feliciano de Castilho
Quadro XIII

Quintal com árvores, pertencente à morada de Marta. Do lado direito a casa. Do esquerdo, vê-se ao fundo a entrada de uma rua de verdura, e à boca do teatro o fim de um caramanchão, com porta para a frente. Ao fundo porta para a rua. Aos pés de algumas das árvores, suas redoiças de flores.

Cena I[editar]

MARGARIDA, FAUSTO, MARTA, e MEFISTÓFELES

(Esta cena complexa é ordenada do seguinte modo: Formam-se dois grupos: Margarida, de braço dado com Fausto; Marta com Mefistófeles. Estes dois pares, cada um dos quais trata assunto inteiramente desligado do do outro, passeiam desencontradamente: um sobe o teatro até o fundo, enquanto o outro desce do fundo até o proscénio. Cada um deles, tanto ao aproximar-se, como já defronte dos espectadores, diz as respectivas falas, enquanto o outro mais distante, só pelos gestos se conhece que está conversando.)

MARGARIDA (pelo braço de Fausto)
Por ver que eu nada sei, é que o senhor só usa
dessas falas tão chãs. Sinto-me até confusa
da minha estupidez. Um sábio viajante
tratar tão mão por mão co’uma pobre ignorante!
É força de bondade!

FAUSTO
O que te sai dos lábios,
o que te luz no olhar... diz mais que dez mil sábios
para o meu coração.

(Beija a mão dela)

MARGARIDA
Jesus! Não se incomode,
meu senhor! Mão grosseira assim, como é que a pode
beijar um cavalheiro? Em casa não há lida
para que a minha mãe não chame a Margarida:
então bem vê que as mãos...

(Vão subindo, enquanto o outro par vem descendo.)

MARTA
Não sei como se atura
andar sempre a viajar.

MEFISTÓFELES
Tive esta sina escura;
que lhe quer? é dever; segui esta carreira.
Deus sabe quanta vez, por mais que um homem queira
dilatar-se num sítio, a atroz necessidade
o arroja para longe, e zomba da saudade!

MARTA
Nos anos verdes, vá; lá pode achar-se gosto
no andar correndo mundo; agora, no sol posto,
quando já vem caindo as sombras da velhice,
acho eu que um solteirão, que não se prevenisse
de um arrimo de amor, enquanto a idade o aprova,
para depois descer manso e chorado à cova,
grande pesar curtira.

MEFISTÓFELES
Essa aflição tardia
já só de a imaginar me assombra de agonia.

MARTA
Então não perca tempo!

(Vão subindo, enquanto o outro par vem descendo.)

MARGARIDA
Ah! sim, longe da vista,
longe do coração. Por mais que afirme e insista,
não me há-de convencer de que esses seus louvores
passem de um comprimento usual entre senhores.
Por força que há-de ter no rol da gente imensa
com quem trata e convive, e que aprendeu e pensa,
quem discorra melhor de que eu, que não sei nada,

FAUSTO
Crê, crê, mulher sem par, que vives enganada.
Bastas vezes no mundo o nome de ciência
é c’roa da vaidade, e véu da insipiência.

MARGARIDA
Não percebo.

FAUSTO
Faz dó ver a simples candura
ignorar sua ingénua e santa formosura.
Pródiga natureza! A modesta humildade
é o mais formoso dom que hás feito à humanidade!

MARGARIDA
Acha que hei-de alembrar-lhe alguma vez por lá?
Eu cá, não se pergunta; a mim não se me dá
de nada mais no mundo; então...

FAUSTO
Vives sozinha
quase sempre?

MARGARIDA
Isso vivo. A casa é pobrezinha,
mas dá bem que fazer. Como não há criada,
sou eu só quem faz tudo, e nunca estou parada.
Eu lido na cozinha, eu varro, eu coso, eu fio,
eu recados por fora... em suma, um corropio
de manhã té à noite. A mãe, coitada, quer
ver tudo num brinquinho; e se eu lho não fizer
não sei como há-de ser; que em realidade a gente
não tinha precisão de andar eternamente
metida nesta frágua. O meu pai, que Deus tem,
deixou, graças a Deus, com que passarmos bem,
e melhor do que alguns que estão à boa vida
fazendo mais figura. A conta, se duvida,
é fácil: ademais da casa, nosso ninho,
temos no arrabalde um lindo quintalinho.
Vivo em paz, isso vivo; agora mui contente
não direi. Meu irmão tem praça, e vive ausente;
e a minha irmã pequena está no céu... Que linda
que era aquela criança! e o que eu a amava! Ainda
oh! permitisse-o Deus, aceitava com ânsia
as canseiras que tinha em na velar na infância.

FAUSTO
Sendo ela como tu, melhor dizer podias
um anjo a velar outro.

MARGARIDA
Alembram-me esses dias
como uma primavera; a sua inseparável
fui eu sempre, e ela a minha; o risinho amorável
com que ela me pagava as festas e as carícias!
Servi-la para mim era colher delícias.

Quando ela veio à luz, tinha já falecido
o nosso pai; a mãe, co’a pena do marido,
esteve vai não vai, tão mal tão mal, que espanta
como pôde arribar; graças à Virgem Santa,
lá foi a pouco e pouco enfim convalescendo;
já vê que nesse tempo era impossível, tendo
tão pouca força ainda, haver sequer lembrança
de empregar-se em tratar da pobre da criança;
quem a esteou fui eu, só eu, com água e leite;
medrou, medrou, medrou, que o vê-la era um deleite;
pois quando eu a trazia ao colo, ou do regaço
lhe fazia bercinho?! aquilo é que era um passo:
vê-la rir, pernear, crescer.

FAUSTO
Assim tiveste
o bem dos bens do mundo.

MARGARIDA
Um bem quase celeste,
certo é, porém rajado às vezes de tormentos:
co’o berço ao pé da cama, a quaisquer movimentos
que a menina fazia, aí ’stava eu já desperta
a enxugá-la, a voltá-la, a pô-la bem coberta,
a dar-lhe de beber, a metê-la na cama,
a conchegá-la a mim, e até (são pensões de ama)
se ateimava no choro, a erguer-me, (pobre linda!)
cantando sem vontade horas e horas! Se ainda
pelo menos, depois da noite assim passada,
se pudesse dormir... mas qual! Vindo a alvorada,
era saltar do leito, era ir lavar na tina
antes de nada mais a roupa da menina;
depois fazer o almoço, ir às compras, e a esmo
assim o dia todo, e cada dia o mesmo.
O que eu lhe digo só, meu senhor, é que a vida
levada deste modo é pouco divertida...
se bem que para abrir apetite à gente
e dar sonos bem bons, não na há mais excelente.

(Vão subindo. O outro par desce)

MARTA
Mau, mau é ser mulher. Os senhores solteiros
são caça tão arisca! e fogem tão ligeiros!

MEFISTÓFELES
É verdade: em geral pouco nos agarramos
ao visco, de que o sexo unta os floridos ramos;
entretanto eu por mim talvez talvez caisse,
se uma dama que eu sei...

MARTA
Vá, inda mo não disse:
Nunca achou até hoje algum ditoso objecto,
que nesse coração causasse muito afecto?

MEFISTÓFELES

«Lar próprio e mulher boa (o provérbio que o diz
é que o sabe) mais são que minas de rubis.»

MARTA
Portanto, é natural que alguma vez... teria
suas... sim, tentações...

MEFISTÓFELES
Nunca até este dia
me receberam mal em parte alguma.

MARTA
Vejo
que não me explico bem. O que eu saber desejo
é se ainda não amou digo amar seriamente.

MEFISTÓFELES
Pois com damas quem brinca?

MARTA
Indubitavelmente
não me entende.

MEFISTÓFELES
Paciência. Entendo todavia
que ninguém vence em graça a Vossa Senhoria.

(Sobem. Vem ao proscénio o outro par)

FAUSTO
Mal que entrei no quintal, pergunto, o meu anjinho
reconheceu-me logo?

MARGARIDA
Ai, logo de caminho,
tanto assim que abaixei os olhos de repente.

FAUSTO
Inda me queres mal pela audácia impudente
com que te ousei falar quando vinhas da Igreja?

MARGARIDA
Causou-me admiração, causou, verdade seja.
Era a primeira vez que tal me sucedia;
ninguém teve jamais que me dizer. Veria
em ti ou no teu ar (dizia-me eu comigo)
alguma leviandade (abr’núncio do inimigo!)
para te vir falar com tanto desempeno?!
Contudo já então no seio mal-sereno
confesso... um não sei quê, novo, desconhecido,
me andava a suplicar perdoasse ao atrevido.
A raiva com que estava a mim própria era tal
que nem lugar me deu para lhe eu querer mal.

FAUSTO
Oh querida, querida!

MARGARIDA (largando o braço de Fausto)
Ai, quero ver.

(Apanha um malmequer, de uma das redoiças de flores, e principia a desfolhá-lo.)

FAUSTO
Que fazes?
Um ramalhete?

MARGARIDA
Nada; um brinco dos rapazes.

FAUSTO
Que brinco?

MARGARIDA
Ai, quer-se rir? não digo; esteja quedo.

(Continua a desfolhar a florinha, falando baixo.)

FAUSTO
Tu, que estás murmurando? Ah!! temos um segredo!

MARGARIDA (sempre na mesma ocupação, mas falando de modo que se oiça)
Bem me quer, mal me quer...

FAUSTO (à parte)
Rosto do paraíso!

MARGARIDA
Bem me quer, mal me quer...

FAUSTO (como acima)
Tem sustos no sorriso.

MARGARIDA
Bem me quer, mal me quer...

(Arrancando a última pétala, louca de alegria)

Bem me quer!

FAUSTO
Sim meu bem!
Falou-te Deus na flor; na flor creio eu também.
Se te quer! o feliz por quem a desfolhaste!
mas com que veras d’alma! Ainda não amaste
de certo; mas por fé procura adivinhar
o infinito que encerra esta palavra: amar
Amo-te, amo-te.

(Pega-lhe em ambas as mãos.)

MARGARIDA
Sinto em mim toda um abalo,
um tremor...

FAUSTO
Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
Consente que este olhar que em ti se está cravando,
consente que estas mãos às tuas abraçando,
te expressem mudamente o que de mim tens feito,
o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,
eterno... sim, que a ser menor que a eternidade,
seria o desespero, o nada. Este não há-de,
não pode já ter fim; jamais, jamais.

(Margarida aperta-lhe as mãos, e foge precipitadamente pela vereda da esquerda, ao fundo do teatro. Fausto fica alguns instantes absorto, e depois como acordando, procura Margarida; não a avistando, corre ao acaso pela mesma vereda por onde ela desaparecera.)

MARTA (que desce com Mefistófeles)
O dia
findou.

MEFISTÓFELES
Força é deixar tão bela companhia.

MARTA
Eu havia de instar para que estes senhores
se demorassem mais; porém murmuradores,
que em toda a parte os há, tem línguas tão daninhas!
e então cá nesta rua!... eu tremo das vizinhas;
o seu modo de vida é estar continuamente
a espiar, a inquirir tudo que faz a gente;
a princípio é zum-zum; depois já são balelas...
Livrar de bachareis... e mais, de bacharelas!...
Mas que fim levaria o nosso casalinho?
onde estarão?

(Durante a fala precedente, tem, do lado esquerdo, entrado no caramanchão Margarida, que se põe ansiosamente a espreitar em todas as direcções.)

MEFISTÓFELES
Descanse; é perto e bom caminho.
Vi-os ir-se um trás outro, além, de fito posto

(Indicando o caramanchão)

na casinhola verde, e voavam que era um gosto!
não lembravam, senão dois pássaros maganos,
acesos co’o verão.

(Vê-se Fausto voltar da alameda por onde saíra, e procurar Margarida por toda a parte)

MARTA
Eu lá desses arcanos
pouco sei, porém ele acho que gosta dela.

MEFISTÓFELES
E ela dele. No amor é jogo usual a pela.

(Continuam ambos a conversar baixo, indo para o fundo do teatro. Fausto aproxima-se do caramanchão. Margarida, de modo que o espectador veja, cose-se com a verdura, e espia para fora.)

MARGARIDA
Lá vem ele!

FAUSTO (entrando para o caramanchão)
Ah velhaquita!
Supunhas zombar comigo.
Toma para teu castigo! (Beija-a.)

MARGARIDA (beijando-o também)
Meu amado! e minha dita!

(Mefistófeles tira uma cana do tecido do caramanchão, e bate com ela na ombreira da porta, como quem pede para entrar.)

FAUSTO (batendo com o pé no chão)
Quem é?

MEFISTÓFELES
Paz.

FAUSTO
Besta!

MEFISTÓFELES
É já tarde.

MARTA (chegando)
Por certo, já não é cedo.

FAUSTO (a Margarida)
Acompanho-a?

MARGARIDA (em decisão e acanhamento)
Eu sei...?

FAUSTO
Tens medo?

MARGARIDA
Minha mãe...

FAUSTO (com pesar)
Pois Deus te guarde.

MARGARIDA
É forçoso que me ausente.

MARTA
Boas noites, meus senhores.

MARGARIDA
Até breve...

(Saem Fausto, e Mefistófeles, pela porta do fundo.)

Cena II[editar]

MARGARIDA e MARTA

MARGARIDA
Ó Deus clemente!
Esclarece os meus temores!
Não há nada que ele ignore;
nada escapa ao seu engenho.
O enleio que ante ele eu tenho
faz que eu de mim própria core.
Digo-lhe a tudo que sim.
Pareço uma criancinha.
Sou mais dele do que minha.
Mas que acharia ele em mim?