Filomena Borges/X

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Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo X: De volta à pátria


E assim se transformava completamente sem dar por isso. Não parecia o mesmo; sabia montar a cavalo, atirar várias armas, bater-se em duelo, andar em velocípede, correr no gelo, jogar o soco e a bengala e até servir-se do terrível bowie-knife de dois gumes.

E no fim de algum tempo, quem o visse à tolda de um paquete inglês, numa dessas madrugadas cor de pérola, enluvado no seu ulster de xadrezinho, o chapéu ao lado, a toalha caída sobre as costas, o bigode retorcido, monóculo no olho, binóculo a tiracolo, e tão pronto ao prazer como ao perigo, lépido, terrível, namorador; quem o visse — seria capaz de acreditar que ali estava aquele mesmo Borges, aquele pacato João Touro, que alguns anos antes atravessava as ruas comerciais do Rio de Janeiro, agenciando a vida, muito atarefado, dentro de suas calcinhas de brim mineiro?!...

Onde iria já o casto, o puro, o doce João Touro do outro tempo?...

As repetidas viagens, o atrito com as populações estranhas, a familiaridade com os costumes de mil povos diversos, a experiência das comoções transcendentes, deram-lhe grande desembaraço aos movimentos, certa elegância máscula de trappeur, que de alguma forma dizia bem com os seus músculos atléticos. Agora tinha exclamações em todas as línguas, anedotas de toda a espécie, termos e frases de todo o mundo. E as correrias, os exercícios, os perigos, fizeram-no intrépido, aventuroso, despejado de maneiras, enérgico como um herói do romantismo.

Por outro lado, o constante entusiasmo de Filomena pelas coisas do espírito acabara por dominá-lo: ensinara-lhe a ter, ou pelo menos suportar de cara alegre certos prazeres delicados, como a música dos clássicos, a conversa sutil das senhoras de boa sociedade, os segredos da literatura, as linhas misteriosas da arquitetura, os primores da estatuária e o valor dos quadros célebres.

Ele! O Borges, aquele mesmo que, em Tebas, classificara o granito vermelho do Syena — boa pedra para construção! — Quem o diria?...

Alguns olhos femininos principiavam de voltar-se para ele com certa insistência; as mulheres descobriam-lhe já na elegância do todo e no espírito da conversa, pretextos de amor e elementos de sedução.

De volta ao Rio de Janeiro, os amigos mal o reconheceram. Acharam-no transformado em tudo; descobriam-lhe novos dotes e novos defeitos, porém estes em número muito maior que aqueles. Fizeram-lhe boas e más ausências,

O Borges, o querido Borges, que até aos quarenta anos não conhecera o gostinho de uma inimizade sequer, ficou pasmado quando, alguns dias depois de sua chegada à pátria, começou de redemoinhar em torno dele um enxame de maledicentes, que o intrigavam, descompunham e malqueriam, tecendo intrigas, publicando mofinas, remetendo-lhe cartas anônimas, cheias de injúrias, procurando covardemente, por todos os meios e modos, injetar-lhe o fel e a amargura no coração, como se, ofuscados pelas aparências, não pudessem admitir um tão completo exemplo de felicidade. As injúrias versavam principalmente sobre o caráter da mulher.

Então um desgosto sombrio principiou a persegui-lo; abominou a pátria — esse covil de maus e de invejosos — qualificou ele, revezando o seu tédio!

Em breve, qualquer maledicência a seu respeito, que lhe chegava aos ouvidos, punha-o num estado lastimável de irritação. E, no despenhadeiro de seu azedume, tudo foi aos poucos lhe parecendo mau e mesquinho; chegou a desconfiar da mulher; a supô-la sem amor, sem gratidão, capaz talvez de uma deslealdade; suspeitou de todos que o cercavam, detestou a sociedade; e, por não encontrar sobre quem descarregasse diretamente o seu ressentimento, bramou contra o atraso do Brasil, contra a falta de distrações, contra a ignorância geral do público, contra a incompetência dos poderes, contra toda a "podridão social enfim"!

— Uma terra de bugres! dizia e repetia ele aos amigos, que o visitavam todas as noites. Uma terra de bugres! Aqui, um homem, para não morrer de tédio, para divertir-se um bocado, precisa atirar-se aos vícios, ou não sair de casa! — País de lama!

E para esquecer-se de seu desgosto, jogava.

De resto, o governo português acabava de o fazer barão de Itassu, e o Rio de Janeiro fariscava em torno de sua casa, atraído pelo som da música e pelo barulho dos pratos.

A casa! A casa, ou antes o museu do Borges, que outra coisa não era esse ninho de raridades de que se falava em toda a corte, dessas magnificências do luxo antigo e moderno, desses ricos objetos de arte de todos os tempos e de todas as paragens. A casa transformara-se, como o dono.

Tudo foi reformado. Exibiram-se novos trastes, novas cortinas, tapeçarias, peles, cachemiras, bronzes, faianças, cristais, porcelanas, quadros, estatuetas, aquários, álbuns, mosaicos, vasos florentinos, lustres de vermeil, espelhos venezianos talhados à biscau, cariátides de Jean Goujon, servindo de peanhas a esculturas de Germain Pilou e uma variedade interminável de tetéias e relíquias, que a baronesa colecionara por todo o mundo. Expuseram-se velhas cadeiras com espaldar e assento de couro de Córdoba, lavrado, e tacheado de metal amarelo; leitos à Renascença de colunas retorcidas e métopes talhados em madeira fusca; jarras do Oriente, sarapintadas de hieróglifos; objetos preciosos de marfim, manufaturados na China; molduras delicadíssimas de porcelana, à Luís XIV, representando grinaldas coloridas; consolos de breche-antique, sustentados por delfins de olhos e barbatanas douro, luzido; sem contar as otomanas asiáticas, os divãs, os fauteuilles, os étagères de xarão, de palissandra, de ébano; enfim o que podia haver de raro, de singular, de extraordinário. Não era uma casa, era um prolongamento do Hotel Cluny. Cada objeto, cada móvel, cada peça representava uma época, um reinado, uma escola.

Mas o barão, quando ficava a sós no meio de tudo isso, sentia-se acabrunhar por uma espécie de remorso; afigurava-se-lhe fugir debaixo dos pés o chão sólido e áspero do dever, para dar lugar aos tapetes felpudos e voluptuosos; parecia-lhe ouvir uma voz austera, que se levantava de tudo aquilo para o argüir e reprovar.

— Pois foi nisto que esbanjaste o teu dinheiro, João Borges?!... Foi nestas quinquilharias que enterraste essa fortuna, que teu pai, à custa de tanto sacrifício, conseguiu juntar para ti, insensato? Perdulário!... E agora vão ver!... Tudo por quê? &mdashPorque o pedaço de asno adora cegamente uma mulher, um demônio, a quem se entrega de corpo e alma e que faz dele o que bem entende, sem talvez lhe dedicar um pouco de afeição, pois, se dedicasse não seria a primeira a cavar-lhe deste modo a ruína!... Oh, sim! dizia o infeliz, deixando-se cair em uma de suas cadeiras preciosas. — Oh, sim! sou um miserável, mas amo-a tanto! adoro-a tão extremosamente, que ainda seria capaz de muito mais para conservá-la sempre ao meu lado!

E procurando fugir ao ferretear dessas considerações, refugiava-se no entorpecimento da embriaguez, nos sobressaltos do jogo e na conversa agitada dos amigos, que o iam cardando e descodeando todas as noites.

Filomena, por outro lado, não se mostrava, apesar do título, completamente feliz.

— Mas que te falta ainda?... perguntou-lhe o marido, sem se poder conter, uma vez que a viu mais triste e desconsolada. — Creio que até hoje tenho cumprido à risca, e com sacrifício de nosso futuro, todos os teus desejos e todos os teus caprichos! Possuis uma casa como ambicionaste; és requestada pela melhor sociedade; ostentas um título, e tens plena certeza de que eu, teu marido, teu amante apaixonado, só vivo por ti, e para ti! Sabes perfeitamente que não há em todo o mundo, por toda a parte onde estivemos, uma única mulher, escrava ou rainha, que me fizesse esquecer um instante de ti, minha querida Filomena! E, no entanto, tu, tu! que és a minha única preocupação, o meu cativeiro, tu, nem por isso te mostras mais satisfeita e mais agradecida! Mas com todos os demônios! Se te falta ainda alguma coisa, fala com franqueza! Exige! Ordena! Mas por amor de Deus não me tortures com essas tristezas e com esses suspiros que me desesperam! Bem sabes que és tudo quanto possuo! És a minha vida! a minha felicidade! Vamos! Fala! fala! diz o que te oprime, Filomena de minh'alma.

— Nada! Não tenho nada! respondia a mulher com um esgar fastidioso. Quero apenas que me deixem!... Que me não apoquentem com perguntas!...

— Tudo isso prova que nunca me amaste!... disse o Borges retraindo-se.

— Aí temos outra! observou Filomena, e, depois de um novo gesto de tédio, afastou-se, resmungando — que não estava disposta àquilo!

Borges atirou-se sobre uma das tais cadeiras, e escondeu o rosto nas mãos,

— Que desgraça a sua! Que desgraça!... pensava. Ora vissem se era possível haver um homem mais infeliz do que ele!... Pois a despeito de tudo que fazia pela mulher, ainda não lhe merecia amor! Mas então Filomena estaria disposta a ser sempre a mesma ingrata?...

— Não! bradou ele, erguendo-se. Não, decididamente é preciso fazer-me forte! É preciso reagir! Talvez até seja este o meio de lhe cair em graça por uma vez!

Mas daí a duas horas, vendo que a mulher não saía do quarto, foi ter com ela.

— Então? Ainda dura a rabugem?

— Deixe-me! respondeu Filomena com uma voz de choro.

Mas o que te aflige, meu amor? Fala, fala com franqueza! Não sou eu porventura o teu amiguinho, o teu confidente, o teu íntimo?... Olha, se estás aborrecida, procura meios de distrair-te; bem sei que aqui não há muito onde ir, mas inventa! Vê se descobres alguma idéia. É verdade — tu ainda não festejaste o nosso titulo... aí tens! Por que não dás tu um baile, um jantar ou coisa que o valha?...

Filomena abraçou e marido, balbuciando palavras de reconhecimento.

— Ainda bem! Ainda bem! disse ele, sem mais se lembrar das apoquentações. E, sentindo que a mulher animava-se-lhe aos beijos. — Assim! assim é que te quero ver sempre!...

Começaram a falar, muito amigavelmente sobre os projetos da festa. Aproximava-se o entrudo. — E se dessem um baile de máscaras?!...

Esta idéia trouxe a Filomena uma alegria convulsiva. — Um baile de máscaras! um baile de máscaras! exclamava ela fora de si. — Mas como já não me tinha eu lembrado disto?!...

E saltou ao pescoço do Borges, radiante.

— Que belo! que belo! Um baile de máscaras!

Deram logo principio aos preparativos da festa, e durante esses dias, Filomena não deixou transparecer sinal de aborrecimento. Ao contrário, muito animada, muito contente de sua vida, era ela própria quem tomava as providências para a grande função.

— Ah! mas havia de ser uma festa sem exemplo no Brasil! Uma festa que desse que falar por muito tempo.

Todavia, Borges andava meio atrapalhado nos seus negócios, e, para não desgostar a mulher, escondia-lhe, sabe Deus com que heroísmo, certas dificuldades de dinheiro, que o principiavam a perseguir.

— Em todo o caso, Filomena teria o seu baile de máscaras!...