Filomena Borges/IX

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Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo IX: Vôos altos



Desde então foi um peregrinar sem tréguas.

Viram muito, atravessaram regiões inóspitas, extensões selvagens, participando de caçadas temerárias, fazendo léguas sobre elefantes, experimentando o enjôo de mil paquetes, a indiferença de mil povos diversos, a monotonia das cidades desconhecidas, a dura insociabilidade dos hotéis, e o tempestuoso embate de todas as paixões humanas.

E Filomena Borges tomou notas, escreveu memórias, fez apontamentos, criou gosto pelas investigações, pelo estudo; enfim, tornou-se filósofa e sentiu necessidade de compendiar em volume as impressões que recebia.

"O Egito", contava ela, depois de longas considerações filosóficas, "desenrolou-se debaixo de meus pés, triste como um sudário. Ajoelhei-me com o meu companheiro (o companheiro era o Borges) defronte dos Spéus arruinados de Ibsambul e dos esborcinados templos d’Efu! Percorri os imensos labirintos subterrâneos de Silsilis, o templo d’Ombos; vi os monumentos da ilha de Philoe, contemplei a esfinge de Gizeh, surgindo da areia ardente do deserto, como um fantasma de granito, que se ergue a meio de um estranho oceano, com os olhos de pedra fitos no levante, o ar atento e concentrado de quem escuta e de quem espera! Que esperas, tu, sentinela do passado?! Monstro! que perscrutas com esse teu olhar imóvel de pedra?!"

"Minh'alma", afirmava ela em outro ponto das memórias "como que se dilatou ao sopro embalsamado das melancólicas legendas do Oriente. Pareceu-lhe ouvir ainda, perdidos no espaço, os últimos ecos dos coros religiosos dos sacerdotes de Horus e o cântico venerando dos escribas reais...

Ouvisse ou não ouvisse, o fato é que, uma vez, depois da costumada excursão pelas ruínas, ela tomou de repente as mãos do marido e perguntou-lhe em segredo, com a voz trêmula de comoção:

— Meu amigo. não sentes alguns sons doces e lamentosos, que rumorejam neste vasto e profundo azul do deserto?...

O Borges vergou a cabeça para o lado donde vinha o vento, concheou as mãos nas orelhas e, depois de escutar durante alguns minutos, disse que sim, por condescendência. — Que sim, supunha ouvir, qualquer coisa — assim como uma espécie de zunido!

Que vinha a ser isso?... perguntou ele, estimulado pelo olhar estranho da mulher.

— É, respondeu Filomena muito grave — é a alma errante do passado que chora as suas grandezas extintas, ou talvez sejam as notas derradeiras dos lamentosos salmos das adoradoras de Hathor!

— Ah!... fez o marido, fingindo interesse, mas sem compreender patavina.

E enfronhados nas suas roupas egípcias, já iam aquelas duas almas perdidas, a jornadear dia e noite, de sol a sol, de ruína em ruína; ela em busca de comoções; ele em busca de coisa alguma, aborrecido, cansado, pedindo a Deus de instante a instante que fizesse a mulher desistir daquela terrível mania de andar a trocar as pernas, pelo mundo e fosse com ele repousar a um canto feliz e calmo de sua terra.

Contudo não se revoltava, nem lhe fugia às mais caras exigências. Na ocasião em que visitavam a quase extinta Mênfis, ela mostrou desejos de que o marido chorasse defronte do colosso mutilado de Ramsés II, que jazia estendido na areia, e o Borges choramingou para fazer-lhe a vontade. Quando desembarcaram no Luqzor, à margem direita de Tebas "a cidade de cem portas, decantada pelo sublime cego de Smyrna" como parafraseava ela, cheia de entusiasmo, o pobre homem já estava mais morto que vivo; Filomena, entretanto, não admitiu que se esbanjasse o precioso tempo com o repouso e exigiu que o Borges prestasse suma atenção às maravilhas que surgiam defronte de seus olhos.

— Sabes?..., disse-lhe ela, atravessando com um passo solene o corpo principal do despojado templo de Luqzor — foi daqui que o solitário de Santa Helene levou o obelisco que orna hoje a praça da Concórdia, em Paris!

— Boa pedra para construção! respondeu o mestre de obras, batendo com a ponta ferrada de seu cajado no granito vermelho das velhas e consagradas esculturas de Secos. Boa pedrinha! Isto deita séculos!

Felizmente a mulher não o ouvia, graças ao encanto melancólico daquelas relíquias, que a arrebatavam para as épocas esplendorosas de Sesostris e a faziam reconstruir mentalmente toda a extinta grandeza da margem ocidental de Tebas.

Neste dia não houve um momento de descanso. Filomena não tinha ânimo de abandonar as ruínas, e como que as queria ver todas ao mesmo tempo. &mdashOh! Ó Karnak! Ó Karnak com a sua avenida de esfinges decimbradas e os monólitos gloriosos de Amenhotep III!

No fim de cinco horas de êxtases e exclamações desse gênero, o Borges cujo estômago reclamava os seus direitos, disse, batendo-lhe meigamente no ombro:

— Não te apetece agora uma costelazinha com batatas?... Creio que não será mal lembrado... hein?...

— Não! disse Filomena, repreensivamente. — O que me apetece neste instante é o Medinet-Abu na outra margem do Nilo. Creio que esse prodígio de sete séculos valerá sempre mais alguma coisa que uma costeleta!...

— Oh! de certo, de certo! apressou-se a confirmar o Borges, pronto já a seguir a esposa, sem o menor vestígio de oposição.

Mas, pelo caminho, indiscretos suspiros partiam-lhe amiúde dos lábios.

— Triste fado o meu! resmungava o pobre homem com os seus botões. — Triste fado!

E lá ia caminhando, de cabeça baixa, a puxar pelo cabresto o seu burrico e o da mulher.

O desgraçado esteve a desfalecer, quando, no fim da estafadora peregrinação pelo Egito, Filomena tratou com assombro de Babilônia, na qual, segundo vagas recordações de Heródoto e Deodoro da Sicília, pensava encontrar panos para as mangas nas estátuas de ouro e nos palácios de Korsabad e Nemrod e nos baixos-relevos e nos caracteres da escritura assíria,

Ah! só encontrou de tudo isso, indícios, quase apagados — ruínas e deserto! sempre o deserto! sempre o deserto!

Veio-lhe então a idéia de recorrer à Grécia: "aí com certeza encontraria alguma coisa; pelo menos os sublimes destroços do Acropólio, do Partenão, do Ágora!".

— Já vejo que não é tão cedo que isto acaba!... considerou o Borges, quando a mulher lhe falou nas riquezas descobertas pelo professor Ihlismann, na Argólida.

— E, custasse o que custasse, ela havia de fazer um almoço no tesouro de Atréu como fizera seu padrinho!...

— Que padrinho é esse? perguntou o Borges.

— D. Pedro II, o nosso imperador.

— Ah!...

Coitada! Mal então sabia ela a influência que o monarca estava destinado a exercer na sua vida!...

— Bem! disse o Borges, depois do passeio à Grécia. Agora, creio que basta de ruínas e que podemos voltar para o nosso canto! Ah! se soubesse, Filomena, as saudades que tenho de meu querido Paquetá!... Aquilo, sim, é que é terra! Estou aqui a ver-me debaixo de uma mangueira, contigo ao lado, depois do jantar... que bom, meu Deus! que coisa boa!...

— Enlouqueceste?! exclamou ela. Pois nós havemos de voltar sem conhecer a Índia?!... A fanática! A terra das superstições brutais! dos faquires sobre-humanos! A Índia, com todos os seus formidáveis budas! A Índia, com o seu Both-Jattrá, essa deslumbrante festa dos carros! Oh, não! isso seria impossível.

O Borges empalideceu.

— E depois da Índia, acrescentou ela — por que não um pouco da Arábia, onde faremos belas peregrinações ao Nedjed, onde percorreremos aldeolas e lugarejos singulares, estudando a vida das mulheres de Hail, com o seu uso original de trazer argolas de ouro nas ventas e nas orelhas; onde teremos ocasião de apreciar os dançados das donzelas de Shakik?!... E a África?! A África então?!! Esquecia-se o Borges de que a África era a única paragem do mundo, em que ainda se podiam encontrar regiões desconhecidas? E, além disso, não valeriam a pena de alguns passos as famosas cascatas de Samba-nagoshi, a aldeia de Mayolo, tão estimada pelos naturalistas?! E as caçadas dos elefantes pretos na terra dos Aponos, e a caçada dos leões de Mogiana e dos gorilas de Olenda?!... Acaso não reconhecia o Borges a necessidade urgente de ver e experimentar todas essas coisas?!...

— Lá se vai tudo quanto Marta fiou!..., disse o pobre homem, gemendo debaixo daquele bombardeamento.

Mas não reagiu. E, no fim de algum tempo, ia-se já habituando ao viver boêmio que a mulher lhe impunha. Dócil, como era, para escravizar-se aos hábitos, afez-se pouco a pouco àquele duro vagabundear, e estaria disposto a seguir Filomena ao inferno, contanto que esta nunca mais lhe fechasse o ferrolho sobre o nariz.