Filomena Borges/XIII

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Filomena Borges por Aluísio Azevedo
Capítulo XIII: Novas torturas


O Borges não conseguiu arranjar os tais negócios de que tratava, e a roda de sua fortuna recebeu o primeiro impulso para desandar.

Desde então tudo lhe foi contrário; todas as suas especulações falharam; todos os capitais que arriscou foram-se pela correnteza.

A idéia de uma ruína completa torturava-o principalmente por causa de Filomena.

— Que seria, se lhes viessem a faltar os elementos do luxo e do prazer?... Desgraçado que sou! pensava ele. Agora que possuo a confiança e a dedicação de minha esposa, é que a fortuna entende de se ir embora! De que me serve uma coisa sem outra?!

E na sua febre de agarrar pela nuca a deusa que lhe fugia, arriscou tudo que lhe restava: vendeu casa, empenhou títulos e atirou-se ao jogo como a uma tábua de salvação. As suas propriedades foram desaparecendo a pouco e pouco, passando a outros; as suas ações de várias companhias foram-se dissolvendo; as suas apólices derretiam-se; os seus últimos recursos evaporavam-se.

Viúva Perdigão & Cia. Faziam-lhe uma guerra atroz; para qualquer lado que se voltasse o Borges encontrava logo a sanha implacável do inimigo. E tudo parecia apostado para destruí-lo, para matá-lo por sua vez. Um jornal diário, de grandes proporções, comercial, amigo do governo, em cuja fundação Borges arriscara cinqüenta mil cruzeiros, acabava de estalar, como estalou o Banco Mauá onde ele possuía em depósito o duplo dessa quantia.

Porém o seu maior desastre foi com as empresas teatrais: o Borges, que ultimamente freqüentava todos os teatros, aparecendo familiarmente nas caixas, não podia passar despercebido aos empresários vazios de dinheiro e transbordantes de projetos e planos gigantescos.

Vira-se em breve cercado de homens de todos os matizes e nacionalidades, que desejavam associá-lo em mil empresas diversas. Um queria estabelecer um grande "jardim-recreio", no qual, à moda do antigo Tivoli parisiense, se encontrasse toda a sorte de divertimentos — representação, sala de tiro, dança, concerto, apostas, e uma infinidade de jogos para toda a espécie e categoria de gente: outro pretendia inaugurar o teatro nacional "levantar a pobre arte dramática brasileira, que João Caetano plantara com tanto gênio!"; outro queria desenvolver o Alcazar, fazer ver uma boa companhia francesa; outro queria a ópera em português, com música nacional e cantores estrangeiros; este trazia o plano de um circo de cavalinhos; aquele o projeto de uma tourada; aquele outro a idéia de um Skating-Rink.

E na fúria de ganhar dinheiro às pressas, Borges, se não aceitou todas aquelas propostas, aceitou grande parte. E tudo isso rebentou, e tudo isso deu com os burros n’água, e os capitais do marido de Filomena acompanharam os burros.

Afinal, restava-lhe apenas uma empresa; também, essa a mais importante e felizmente nada tinha de comum com os teatros: — Tratava-se pura e simplesmente de explorar o carneiro.

— Essa indústria completamente desconhecida no Brasil, dizia o proponente, espanhol sagaz e viajado — essa indústria, Sr. Barão, está destinada a representar um papel importantíssimo neste belo pais. Ela virá fornecer ao povo elementos novos de riquezas; aumentará o valor das terras, equilibrará os capitais, reformará a vida dos agricultores, educará o fazendeiro, dando-lhe novos conhecimentos zootécnicos, novos costumes e novas necessidades: enfim, essa indústria está destinada a fazer aqui uma revolução econômica e social, e levar à posteridade o nome daquele que entre nós a firmar corajosamente, como em Buenos Aires sucedeu com o cônsul norte-americano Haley.

O Borges podia, se quisesse, nem só fazer uma fortuna colossal, como ainda imortalizar-se.

Aí estavam os exemplos da Austrália, do Cabo da Boa Esperança e da República Argentina, os três grandes fornecedores de lã para o mundo inteiro. Ora, por que razão o Brasil, situado tão perto dessas regiões; o Brasil que não está sujeito aos frios da Austrália e aos bochornos do Cabo, por que razão o Brasil não havia de explorar o carneiro?! A alimentação desse precioso animal seria muito mais fácil aqui do que em outra qualquer parte!... Aqui, com as nossas vastas campinas, sempre cobertas de verdura, não se daria o que se dá na Europa, onde a carestia de feno constitui o maior tormento dos criadores de gado lanígero.

E fazia cálculos, apresentava cifras muito bonitas — três tosquias por ano — mais de quinhentos por cento de lucro! E citava os carneiros preferíveis ao Brasil, falava com entusiasmo no merino espanhol, melhorado pelos métodos zootécnicos, o merino da Saxônia, o Bambouillet, o merino da Mauchamp, o merino Loyeuse, os de Lanraguais, os dishley de Montecavrel, o negretti eleitoral! E se o Borges também quisesse explorar a carne do carneiro, podia importar da Inglaterra os Southdown, os Dixley, os Dixley-Leicester, conhecidos pelo nome de — raça precoce, e cujo esqueleto diminui na razão do aumento das banhas e da carne.

Acumulava termos técnicos; fazia divisões de espécies, lembrava os carneiros braquicéfalos e os carneiros dolicocéfalos.

O Borges sucumbia debaixo dessa terminologia estranha aos seus ouvidos.

— E o leite?! gritava o espanhol. — Quem poderia impedir que o Barão, com o leite de suas ovelhas viesse a fazer concorrência aos célebres queijos de Roquefort?... E o comércio das peles? ... Para o curtume das peles bem se podia aproveitar com vantagem a casca de certas árvores brasileiras muito abundantes e não fazer como o Rio da Prata, que exporta as suas peles em bruto. Enfim, o Sr. barão, para v. s. ter idéia do lucro fabuloso que vamos fruir com os nossos carneiros, basta considerar que, só com o produto do esterco, vendido pela mínima, temos quase salvo o capital! Berion trata disso minuciosamente! Leia o grande veterinário Sanson! Leia José Hernandez!

O Borges só compreendeu que era o único carneiro explorado naquela empresa, no dia em que viu o espanhol desaparecer, levando consigo o dinheiro que lhe pôde apanhar.

Dizia-se que havia fugido para S. Paulo; Borges, sem perda de tempo, tomou o caminho dessa província; mas os seus esforços foram baldados — ninguém lhe soube dar notícias do gatuno.

Contudo, a viagem sempre lhe aproveitou alguma coisa: pareceu-lhe que em S. Paulo faria dinheiro; o caso era achar um amigo que lhe desse a mão, e dispôs-se a labutar com o mesmo ardor de quando principiou a vida.

— O mesmo ardor! ... Ah! mas nesse tempo não conhecia ele outra preocupação que não fosse o seu trabalho! Nesse tempo não tinha vícios, não tinha desgosto, não tinha inimigos, não tinha responsabilidades sociais!

Onde iria ele agora descobrir a coragem e a resignação que dantes possuía?! ... Como levantar-se às seis da manhã e só deixar o serviço às seis da tarde?!

Entretanto, estava disposto a principiar de novo a existência; chegou mesmo a fazer algumas propostas de construção; agora toda a dificuldade era descobrir o tal amigo que o ajudasse!

Voltou à corte; percorreu os bancos, consultou vários negociantes — nada! A viúva Perdigão cortava-lhe todas as vazas.

Mais ainda havia o Barroso. — Era impossível que esse também lhe virasse as costas,

Procurou-o.

— Homem, filho!, respondeu o austero marido de Sabina, — Para falar-te com franqueza, não vieste bater a muito boa porta - não estou, para que digamos, em estado de arriscar a quantia que desejas; mas enfim..., havemos de ver...

— Porém é necessário tratarmos disto quanto antes! — observou o Borges. Estou com a corda no pescoço; tenho de seguir de muda para S. Paulo até o fim do mês; não posso ficar nem mais um instante no Rio de Janeiro!

— Havemos de ver!... Havemos de ver... e como vais tu com tua mulher?

— Assim-assim... ela ultimamente está mais meiga e menos caprichosa. Mas então prometes que para a semana realizamos o negócio?

— É possível! É possível! disse o Barroso fugindo ao assunto. Pois lá a minha Sabina continua no mesmo. Não! nisso tenho sido feliz...

O barão tornou a puxar a conversa para o seu negócio. O outro, afinal, prometeu ajudá-lo.

Mas, desde esse dia, Borges principiou a não encontrá-lo em parte alguma, até que uma vez, indo procurá-lo em casa, antes das sete da manhã, e tendo penetrado familiarmente pela chácara, ouviu o amigo ordenar à mulher em tom misterioso:

— Dize-lhe que não estou. Ora sebo! Não gastasse o que tinha! Ninguém está disposto a se amolar pelos outros!... Fosse mais poupado, fizesse como eu! É boa!

Borges voltou na ponta dos pés, sem esperar a resposta. Ia aniquilado, desiludido.

— Pois até o Barroso?!... O único amigo em que ele ainda depositava confiança! O seu velho camarada dos primeiros anos! O seu companheiro de lutas! O seu "outro eu"! também lhe voltava o rosto, também o repelia?! Oh! Com efeito!

Chegou à casa desorientado, perdido. Já lá estava uma carta anônima à sua espera, para mais lhe envenenar a ferida. Era do Guterres, naturalmente; talvez da viúva Perdigão, talvez do Barradinhas!...

O pobre homem, depois de lê-la, atirou-se à cama, desesperado, mordendo os travesseiros para abafar os soluços e não ser ouvido pela esposa.

Esta, porém, correu ao encontro dele, tomou-o nos braços, consolou-o com os seus beijos e procurou transmitir-lhe a sua coragem.

— Não desanimes! bradava-lhe. — Não desanimes, que o mundo é vasto e havemos de descobrir um canto, onde se possa abrigar o nosso amor! Deus há de proteger-nos!... Enquanto tivermos um pouco de sol, um pouco de ar e um pouco de azul, não nos devemos revoltar contra o destino!

Mas os credores surgiam de todos os lados. Era preciso entregar tudo, despedir os criados, abandonar aquela casa, aqueles trastes, os cavalos, os carros, as telas preciosas, as porcelanas de sévres, os talheres de vermeil.

— Seja! exclamou ela, atirando-se radiante nos braços do marido. Que levem tudo, contanto que tu fiques!

E com a estreiteza da situação redobrava o seu amor pelo Borges, como se o reflexo de toda aquela desgraça o tornasse maior e mais brilhante aos olhos dela.

E, na ocasião de sair, antes de abandonar o ninho, Filomena, entre os trastes desarrumados para o leilão, na desordem daquela casa esplêndida que eles iam deixar para sempre, soltou uma gargalhada, foi buscar a última garrafa de champanha que havia na sua adega, outrora tão rica, quebrou-lhe o gargalo de encontro ao mármore secular de um móvel, e, enchendo uma taça, e colando os lábios nos do marido, e chorando de prazer, brindou à nova existência que se ia abrir defronte deles alegre e luminosa, como uma aurora que surge.