Galeria dos Brasileiros Ilustres/A. C. R. de Andrada Machado e Silva

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
A. C. R. de Andrada Machado e Silva


"Eu passarei à posteridade como o vingador da dignidade do Brasil."
Discurso de Antônio Carlos na Constituinte; sessão de 10 de novembro de 1823.

No meio das grandes peripécias do drama social; nas oscilações tempestuosas que soem sempre acompanhar a infância das nações que se constituem, a providência não abandona a humanidade. Quando os destinos da sociedade agitados pela luta das paixões, vacilam incertos a perder-se nos abismos da dissolução, ela envia à Terra esses apóstolos predestinados, a quem entrega o verbo de uma nacionalidade nascente, e confia a missão de dirigir as gerações que, tímidas, tateiam o caminho apenas encetado da existência. Sua passagem na Terra é como um clarão luminoso através dos acontecimentos que os circulam. Engrandecidos pela consciência de sua elevada missão, eles atravessam com serenidade impassível o tumultuar das paixões, que ao redor deles se desencadeiam e realizam seu destino com a onipotência das grandes convicções. Em suas frontes, ungidas pela glória, está estampado o selo da grandeza.

Seus passos são marcados com os benefícios que derramam, com o heroísmo que os engrandece.

O infortúnio e o sofrimento conferem-lhes às vezes a coroa do martírio; e a gratidão dos povos coloca seus vultos venerandos no templo da pátria, alumiados pelo irradiar de uma glória infinda.

Tal foi Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva.

Patriotismo ardente, provado nas lutas do despotismo; caráter romano temperado nas provações do infortúnio; coragem cívica levada até o heroísmo; consciência nobre e orgulhosa de seu merecimento; alma vulcânica, exaltada pela perspectiva da glória; tudo concorreu para tornar Antônio Carlos o homem do povo, o tribuno gigante de nossas liberdades. Sua imaginação rica e fecunda, sua variada e brilhante erudição, a enérgica vivacidade de sua expressão, seu mesmo busto majestosamente talhado — alumiado pelo raio de um pensamento viril, tudo assegurou à sua palavra essa onipotência grandiosa, que força as convicções e arrasta os espíritos. Os talentos da eloqüência brilhavam-lhe na fronte sulcada pelo infortúnio, e cada debate era um troféu, cada discurso um louro, que ajuntava à sua coroa de orador. Sua palavra autorizada dominava as discussões e intervinha para decidir o pleito, como o raio rebenta entre trevas para desfazer a tempestade e serenar o horizonte. Quando ocupava a tribuna, suas palavras, incendiadas pelo entusiasmo, rebentavam em borbotões, e vazavam-se nos moldes de uma eloqüência animada no fogo sagrado do patriotismo. Dir-se-ia que elas levavam consigo a centelha, que lhe ardia no cérebro.

Foi vulto gigante das Cortes de Lisboa, o orador mais preeminente da constituinte; e em nossa galeria parlamentar ninguém lhe disputa a primazia. Seu nome é um monumento nos fastos da pátria; e pois reivindicá-lo do olvido é restaurar um monumento de glórias, esquecido pela ingratidão dos contemporâneos.

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva nasceu na, então, vila de Santos, no dia 1º de novembro de 1773; foram seus pais o coronel Bonifácio José de Andrada, e sua mulher D. Maria Bárbara da Silva.

Feitos seus primeiros estudos em sua terra natal, foi sua educação literária confiada aos cuidados do virtuoso bispo D. Fr. Manuel da Ressurreição, o mesmo que abrira a José Bonifácio os tesouros da inteligência. Munido desses princípios, que faziam-lhe já antever os segredos da ciência, seguiu para Coimbra, o teatro dos talentos brasileiros naquele tempo, e aí obteve com assinalado aproveitamento o grau de bacharel em Direito. Sua inteligência, desabrochada sob o sol dos trópicos, robusteceu-se com os variados estudos da História e da Literatura, e adquiriu esse brilhante cabedal de erudição, que era como o prelúdio do grandioso futuro que o aguardava.

Concluídos seus estudos, começou seu tirocínio na carreira pública; depois de haver servido o lugar de juiz de fora em Santos, foi promovido a ouvidor e corregedor da comarca de Olinda, sendo logo depois elevado à categoria de desembargador da Relação da Bahia.

Seu destino porém estava escrito nas páginas do porvir; não o talhara a Providência para seguir plácido e sereno a vida impassível do juiz; fadara-o para ser o herói de uma nacionalidade. Sua existência devia refletir as oscilações que caracterizam as grandes épocas, e sofrer as duras provações que engrandecem os filhos da liberdade.

Em 1817 Pernambuco, cansado sob o peso de um absolutismo sem grandeza, recordou as tradições de sua história, e levantou um grito prematuro em prol da independência da terra de Santa Cruz. Antônio Carlos não trocou a toga do juiz pela opa do tribuno. Sua inteligência e seu coração negavam-se a um movimento generoso embora, mas que o lúgubre exemplo de um passado ainda recente augurava, que havia de ser esmagado sob a acha implacável do poder, e que o sangue de novas vítimas viria ajuntar-se ao cruento suplício de Tiradentes.

Sua fidelidade entretanto foi posta em dúvida por um poder suspeitoso, e das mãos do algoz só o salvou o seu destino providencial.

Atirado em lôbrego segredo no calabouço das Cinco Pontas, quando, certo de sua inocência, fora voluntariamente apresentar-se ao governo interino da capitania, Antônio Carlos estava votado à mesma sorte, que pesou sobre o padre Roma e tantas vítimas infelizes, que caíram sob o gládio do absolutismo.

O sofrimento exalta e depura as grandes almas; os caracteres superiores contam seus triunfos pelos dias de tribulação. Longe de recuar espavorido diante do cadafalso, seu espírito antolhou a palma sublime do martírio; e a resignação e a coragem cívica converteram-lhe a agonia do supliciado em um cântico de inspiração altiva:

"Sagrada emanação da liberdade, "Aqui do cadafalso eu te saúdo!

"Livre nasci, vivi, e livre espero "Encerrar-me na fria sepultura, "Onde império não tem mando severo, "Nem da morte a medonha catadura "Incutir pode horror num peito fero, "Que aos fracos tão-somente a morte é dura!"

O solo do Brasil não se manchou com esse crime: o patriota resignado, que vira despontar-lhe o sol da glória detrás do cadafalso, teve sua cabeça salva; sua missão não estava ainda cumprida. Sua dedicação pela causa da liberdade ia sofrer a prova do sofrimento para mais acrisolar-se. Transportado aos cárceres da Bahia mais de quatro anos gemeu nas torturas da prisão.

Os seres predestinados porém imprimem o selo de sua grandeza em todas as situações de sua vida. A masmorra, o lugar do crime e do vício, converteu-se para Antônio Carlos em teatro de brilhantes virtudes. Sua inteligência, comprimida pela mão de ferro do poder, não se apagou nas trevas que o cercavam: foi um raio luminoso levado ao canto escuro da prisão. Seus companheiros de infortúnio, ele os enriqueceu com os tesouros da ciência, e derramou sobre eles a resignação de sua alma impassível.

Quanta grandeza encerrada no âmbito estreito de uma masmorra! Quanta elevação no sofrimento! Quanta sublimidade no martírio!

O orgulho nacional deve despertar-se ao influxo benéfico desses grandes exemplos de nossa História, que energicamente proclamam a magnanimidade do caráter brasileiro. Mais de uma epopéia de heróico sofrer tem no Brasil ilustrado as profundezas tenebrosas da prisão. Cláudio Manuel da Costa, esse gênio desdito, cuja alma exalava-se em hinos de suave melancolia, entoou entre grilhões o canto da agonia, e resignado pôs termo à sua existência, por ver apagar-se a luz que a alumiava — a liberdade. Gonzaga, o cantor melodioso, que sonhara um paraíso nos braços de sua querida Marília, que enlaçava as inspirações do poeta com a causa de seu país, foi, coitado! gemer suas poesias plangentes estreitado entre quatro paredes enegrecidas, no meio de gemidos de proscritos! Antônio Carlos, privado da liberdade, vigiado por baionetas, assumiu o sacerdócio augusto da palavra, purificou o crime, e sagrou ao serviço da pátria seus dias amargurados, quando ela lhe imprimia na fronte o ferrete da ignomínia!

Sua grandeza d’alma pareceu sublimar-se no infortúnio. Ao rei, que lhe acenava com a liberdade, se pedisse perdão, respondeu com a dignidade da inocência: "que perdão só a Deus de seus pecados, e ao rei só pedia justiça". Essas palavras notáveis selam a nobreza de seu caráter.

Suas virtudes deviam ter uma recompensa: não podia terminar seus dias em uma masmorra aquele que estava destinado a inscrever seu nome no grandioso monumento da criação de um império. Antônio Carlos adormeceu um dia nos latíbulos do calabouço, e no dia seguinte viu saudá-lo o sol da liberdade, e apontar-lhe para as Cortes portuguesas, como para o teatro de suas glórias. Sua estrela, obumbrada na América, rutilara refulgente em Portugal.

Reconhecido inocente, e proclamado o sistema constitucional pela revolução do Porto, foi o ilustre paulista deputado por sua província às Cortes de Lisboa. Do antro escuro da prisão o destino fê-lo passar para o santuário augusto do legislador. Aí sua voz desprendeu-se majestosa como a do filho da liberdade, e fez ouvir sua palavra eloqüente em defesa de uma causa proscrita, enquanto não lhe chegava o dia de criar uma pátria para sagrar-lhe o culto de sua inteligência, as pulsações valentes de seu coração.

A grande epopéia da independência começava a desenrolar seus largos episódios. Arrastado pela cegueira do interesse, Portugal tentava escravizar o Brasil, como outrora Xerxes lançara cadeias ao mar. O gênio da liberdade americana, encadeado três séculos pelo absolutismo sacudiu seus pesados grilhões, e arrojou-os quebrados aos pés de seu injusto dominador. A metrópole estremeceu de cólera; o congresso português trovejou ameaças contra o Brasil. Era uma luta de morte.

Antônio Carlos ergueu-se como um gigante, e opôs o poder de sua palavra fulminadora à arrogante prepotência dos deputados portugueses. Baldado esforço! Força nenhuma humana pode desvendar os olhos ao fanatismo político, e conter-lhe os desvios: a luz da razão lhe é desconhecida.

Vendo os primeiros arrebóis da liberdade doirarem as plagas de sua querida pátria, deixou um país surdo à voz da prudência, um país em que seu patriotismo esgotava-se em baldadas, posto que generosas, tentativas para abater o poder da força e do despotismo do número. Negou sancionar com sua aprovação essa constituição das Cortes, que fazia desaparecer nossa nacionalidade, declarando a destituição do rei, se viesse para o Brasil; em outubro de 1822 a Inglaterra, o asilo clássico dos foragidos filhos da liberdade, recebia em seu seio o ilustre brasileiro, acompanhado de seis dignos deputados, cujos pleitos pulsavam com igual ardência pelo engrandecimento de sua pátria.

No Brasil já o sistema constitucional começava a frutificar; estava convocada a assembléia constituinte, encarregada de organizar o novo império. Ainda em Inglaterra foi Antônio Carlos a ela deputado pelos sufrágios de sua província; e chegando à sua pátria, foi tomar assento no seio da representação nacional. Novo teatro desdobrou-se para o portentoso orador das Cortes de Lisboa.

Quando o país, longo tempo adormecido sob o jugo de um cativeiro inglório, despertou-se aos doces acenos da liberdade, o seu vulto grandioso desenhou-se com majestade no horizonte da pátria.

Antônio Carlos foi na Constituinte a encarnação viva da reação nacional, que se erguia enérgica contra o passado para abater o absolutismo. Dir-se-ia o gênio altaneiro da liberdade, que quebra as cadeias em cívico denodo, e recupera seus direitos postergados. Sua palavra traduzia as arrojadas inspirações de um patriotismo ardente: parece que o sol dos trópicos depositara em sua alma o raio vivificante de sua luz animadora.

Sua imaginação brilhante e fecunda comunicava a seus discursos uma energia e veemência do mais belo efeito. Falando do bárbaro alvará de 30 de março de 1818, a indignação do patriotismo arrancou-lhe estas enérgicas palavras: "Steterunt comoe, et vox faucibus hoesit". Pareceu-me ver nele os últimos arrancos do assustado despotismo, o qual, certo de largar para sempre o ensangüentado assento que para desgraça do Brasil tanto tempo ocupara, queria ao menos na sua queda rodear-se de vítimas e de sangue!

Ao lado desse poder da palavra, dessa eloqüência superior, que constituía sua preeminência, brilhava o talento do publicista, robustecido por um estudo profundo e severo. Encarregado pela assem-bléia da honrosa tarefa de elaborar com outros dignos deputados o pro-jeto de constituição que devia reger o Império, redigiu esse trabalho luminoso, que será sempre um padrão de glória para seu nome, e um monumento imperecedouro de suas crenças liberais.

Uma auréola de brilhantes glórias veio cingir a fronte do patriota, que sagrava o culto de seu coração, os recursos de sua inteligência ao engrandecimento de sua pátria. Feliz quadra essa, em que a crença vigorosa da primeira idade, a esperança da mocidade-virgem do descrer da velhice, alentada pelas ilusões da liberdade, operava a grande obra da regeneração política do brasileiro no meio dos aplausos jubilosos de uma nacionalidade nascente.

A primeira fase da constituinte porém, límpida e risonha, ia desaparecer, apagada nas trevas de um futuro assustador. A queda dos Andradas produzira no país esse fatal estremecimento, que abalara profundamente o sistema constitucional vacilante ainda. O Ministério de ontem tornara-se a oposição de hoje. Antônio Carlos, arrastado por seu gênio fogoso, pela ardência de seu patriotismo, fulminou na imprensa e na tribuna a marcha de um poder que desenhava em seus atos uma reação ao princípio da revolução da independência.

No meio desse exaltamento político, um fato acompanhado dos mais tristes episódios veio despertar-lhe o espírito, e avivar-lhe as apreensões do patriotismo. Um brasileiro foi por motivos políticos agredido e gravemente ferido por dois oficiais portugueses. O fato revestiu, pelas circunstâncias do tempo, o caráter de uma ofensa feita à nacionalidade. Foi uma centelha atirada ao tumultuar ardente da alma apaixonada de Antônio Carlos. Seu coração revoltou-se, e do alto da tribuna lançou ao país estas palavras de indignação, que pareciam quei-mar-lhe os lábios quando as proferia:

"Como, Sr. presidente, lê-se um ultraje feito ao nome brasileiro [...] e nenhum sinal de marcada desaprovação aparece no seio do ajuntamento dos representantes nacionais? [...] Morno silêncio da morte, filho da coação, peia as línguas; ou o sorriso, ainda mais criminoso, da indiferença, salpica os semblantes. Justo céu! e somos nós representantes?... Não! não somos nada, se estúpidos vemos, sem os remediar, os ultrajes que fazem ao nobre povo do Brasil estrangeiros, que adotamos nacionais, e que assalariamos para nos cobrirem de baldões [...] Os cabelos se me eriçam, o sangue ferve-me em borbotões à vista do infando atentado, e quase maquinalmente grito — Vingança! Se não podemos salvar a honra brasileira, e se é a incapacidade e não traição do governo, quem acoroçoa os celerados assassinos, digamos ao iludido povo, que em nós se fia: "Brasileiros! nós não vos podemos assegurar a honra e vida; tomais vós mesmos a defesa da vossa honra e direitos ofendidos! Mas será isto próprio de homens que estão em a nossa situação? Não... ao menos eu trabalharei, enquanto tiver vida, por corresponder à confiança que em mim pôs o brioso povo brasileiro. Poderei ser assassinado; não é novo que os defensores do povo sejam vítimas do seu patriotismo; mas meu sangue gritará Vingança! e eu passarei à posteridade como o vingador da dignidade do Brasil..."

O poder estremeceu ante essa indignação onipotente do patriotismo, e jurou sufocar nos antros da masmorra essa voz poderosa, cujos ecos repetiam sua condenação. Assestou-se a força armada para dispersar os representantes do povo: na hora suprema da agonia, quando a acha do poder pendia sobre a assembléia, essa gloriosa constituinte, que proclamava como um dever do cidadão o morrer pela pátria, aceitou resignada o sacrifício, e alumiou seus últimos dias ao clarão de uma glória imorredoura! E, nós, em criminosa ingratidão, esquecemos esses episódios grandiosos de nossa História, essa epopéia de civismo romano, e só temos para o passado um estúpido riso de desdém!

Antônio Carlos foi um daqueles a quem o poder conferiu a coroa do martírio.

Preso ao sair da assembléia, foi arrastado aos cárceres, e daí atirado violentamente nas plagas do estrangeiro.

Uma sina misteriosa, uma sorte impiedosa parece perseguir na Terra os filhos da liberdade. O selo do infortúnio foi-lhes impresso na fronte no dia de seu nascer. A grandeza está sempre enlaçada com o martírio; o símbolo do heroísmo é sempre uma coroa de espinhos. Cormenin teve um pressentimento profundo da misteriosa afinidade que liga a virtude e o sofrimento, quando alinhando o busto monumental de Dupont de l’Eure, e descrevendo-lhe o caráter venerando, disse que à sua virtude, para ter um quê de perfeito e de completo, faltava apenas um pouco de proscrição, que entretanto não lhe desejava.

Mais de quatro anos gemeu o ilustre proscrito em França, lamentando nas dores do exílio os males que ameaçavam sua querida pátria.

Em 1828 foi-lhe dado voltar ao Brasil, não como homem restituído à liberdade para saudá-la em jubiloso entusiasmo, mas para entrar no escuro segredo de uma prisão sob o peso de um processo, que procurava imprimir o ferrete do crime na fronte laureada com as glórias da independência. Proclamado inocente pela Relação da corte a 6 de setembro de 1828, volveu à sua terra natal, a vila de Santos, para ali repousar em quieto abrigo das vicissitudes de uma vida tempestuosa, amargurada pela ingratidão de seus concidadãos.

E sua pátria não soube acolher o filho perseguido, que correra a buscar um asilo em seu seio. A província da Bahia pagara a José Bonifácio o tributo da gratidão nacional, e o ministro da Independência aparecera, como uma glória do passado, na legislatura de 1830. Minas dera a Martim Francisco uma voz no Parlamento, e o congresso dos legisladores retumbou com os ecos de sua palavra majestosa. Antônio Carlos, o herói propugnador dos direitos do Brasil, que afrontara as iras da metrópole para nos dar uma pátria, o portentoso orador da Constituinte, teve em recompensa de seus serviços o esquecimento, a ingratidão. Mesmo no retiro os destinos de seu país ocupavam a mente do patriota, proscrito na obscuridade. Seu patriotismo mais de uma vez provado em crises difíceis não podia testemunhar com impassibilidade o fúnebre espetáculo que ante seus olhos se desenvolvia. Essa pátria, que se erguera ao som de sua palavra poderosa, que lhe custara as dores do exílio, ele a via abismada em um pélago insondável de desgraças. O 1º imperador abdicara, e o novo Império, apenas saído do berço, antolhava com dor os males sinistros de uma longa menoridade.

O espírito nacional, abalado pela repercussão do Sete de Abril, abandonado a si mesmo, refletia a divisão, que produzira nos ânimos a queda do monarca. Três partidos políticos desenhavam-se no país, e tentavam partilhar a posse de um poder enfraquecido pela revolta. Os Andradas guardaram generosa fidelidade ao ex-imperador, e afrontaram as paixões do dia, os ódios implacáveis da exaltação política, em defesa da monarquia. Nomeado pela regência enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto à corte de Londres, Antônio Carlos declinou de si essa comissão para não participar dos frutos de uma revolução que lhe despertava as apreensões do patriotismo.

Por este tempo, quando o país oscilava no meio dos receios melancólicos da restauração, partiu para a Europa, depois de haver pela imprensa unido sua voz à de seus ilustres irmãos, em prol da causa pública, ameaçada pela lava revolucionária. O Governo olhou com desconfiança para esse ato, e julgou nele enxergar uma tentativa simuladamente empreendida para trazer ao Brasil o duque de Bragança, como queriam os restauradores.

As paixões do dia aceitaram essa palavra, emanada das regiões do poder, e repetiram-na em ódio a Antônio Carlos. A verdade histórica a este respeito ainda não apareceu em toda sua luz. Cumpre desvendá-la para dizê-la com inteireza ao país e à posteridade.

Em 1835, desvanecidas já as apreensões da restauração, voltou ao Brasil. Sua província lembrou-se então, posto que tarde, do filho esquecido, e pagou-lhe o tributo de sua gratidão, elegendo-o deputado à legislatura de 1838.

Pela primeira vez, após uma ausência de longos anos, sua voz saudosa ia ecoar no augusto recinto dos legisladores. Não era o novel parlamentar, que vinha balbuciar na tribuna a palavra de suas tímidas inspirações. Era o patriota, encanecido no serviço de seu país, que gemera dias amargos na terra do estrangeiro, e voltara com a fronte irradiada pelas glórias da proscrição. Sob aquela coroa de cabelos brancos agitava-se ainda o mesmo pensamento viril, ardia o mesmo fogo de inspiração, que era o segredo de seu poder na tribuna.

Antônio Carlos apareceu com majestade no antigo teatro de suas glórias, e parecia haver-se engrandecido com as lutas do sofrimento. Sua palavra era fecunda, e sob suas fulminações onipotentes o poder recuava terrificado. Essa brilhante oposição de 1838, que conquistou em nossa história parlamentar um lugar de honra, e procurou suster a democracia ferida pela reação monárquica, essa oposição engrandecida pelos talentos dos Álvares Machado, Martim Francisco, Montezuma, Limpo de Abreu, teve por luzeiro de seus triunfos a palavra luminosa de Antônio Carlos.

Um dia sua eloqüência devia abater sob seus golpes audaciosos esse Governo, que vergava sob o peso de uma tarefa superior às suas forças, e abrir uma época nova nos destinos do país. Os grandes oradores são os árbitros dos impérios. Os discursos de Mirabeau desmoronaram um trono secular; e suas palavras cheias de fogo, como saídas de um vulcão, con-verteram-se em outros tantos fatos sociais, que mudaram a sorte da espécie humana. À eloqüência de Antônio Carlos faltava esse triunfo soberano, que devia provar que, confiando-lhe o poder da palavra, Deus lhe dera o verbo de uma nacionalidade e o cetro da situação.

A maioridade apareceu como a estrela que propícia rutilava no horizonte do Brasil: à sua luz radiosa surgiu a personalidade política de Antônio Carlos e revelou-se em toda sua grandeza.

Essa idéia fecunda, que alentava as forças da nação, como fadada a restituir-lhe a vida, pairava em todos os espíritos. Todos os lábios murmuravam trêmulos essa palavra de salvação para o país. A representação nacional recebeu o influxo da opinião, em sua fisionomia desenhou-se a ansiedade que preocupava a todos para apagar de uma vez a luz tíbia e agonizante do governo da regência. Depois de mil oscilações e azares, o deputado Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva propôs na sessão de 21 de julho de 1840 a maioridade do Sr. D. Pedro II. Estava travada a luta. Trazendo para o país a salvação, a nova idéia acarretava para a regência a perda do poder; aceder a ela era, por parte desta, um suicídio. A maioridade encontrou no Governo vigorosa oposição.

Bernardo Pereira de Vasconcelos, chamado no momento supremo para conjurar a crise, adiou assembléia geral por decreto de 22 de julho de 1840. Foi um verbo de morte atirado no meio da indignação pública. "É um traidor, é um infame o atual ministério... quero que estas palavras fiquem gravadas como protesto", disse Antônio Carlos, e suas palavras soarão como uma fulminação terrível contra o Ministério. A câmara resiste à execução de um decreto, que parecia destinado a abismar a nação em um pélago de infindas dissensões. Os deputados correm pressurosos ao Senado, dirigem uma enérgica representação ao trono; o monarca acede à ansiedade geral: o Império está salvo. A maioridade era uma realidade.

Em todo este patriótico movimento, que desenlaça em um dia os anéis do futuro, e decide dos destinos da nação, figura com honra e glória o nome de Antônio Carlos.

Proclamada a maioridade, foi o ilustre patriota chamado a dirigir uma situação criada por ele, e a insígnia do ministro cobriu o peito do tribuno popular, cingido já com o laço glorioso da Independência. O poder e a liberdade deram-se as mãos em união fraternal. A confiança pública renascia, e dias risonhos pareciam aguardar o Império.

Foi o raiar de um dia que alumiou os horizontes da pátria, e sumiu-se vencido pelas trevas, que vieram de novo enlutar os destinos da nação.

A 23 de março de 1841 o Ministério da Maioridade estava caído do poder, e Antônio Carlos descia de novo à arena política para combater pela causa da liberdade, que seu patriotismo via ameaçada pela volta da reação monárquica.

Na assembléia provincial de São Paulo desprendeu contra o poder sua voz prestigiosa, e em uma representação ao trono significou com energia suas melancólicas apreensões pelo futuro do país: "Senhor, as convulsões políticas, como funestos cometas, trazem em sua cauda os estragos, as misérias, o derramamento de sangue mesmo inocente, e o abalo dos governos estabelecidos, e talvez sua ruína inteira; como não deprecará, pois, a assembléia provincial de São Paulo o exercício do poder tutelar do monarca para arredar de si tão medonho porvir? Já se nos antolha lobrigar na lava revolucionária os talismãs quebrados da hierarquia e da autoridade, e só da piedade de VMI esperamos o sossego de nossa inquietação [...] assembléia provincial de São Paulo tem cumprido com o seu dever, sabe que a verdade nem sempre é agradável aos princípios, e decerto nunca aos zangões que os rodeiam e abusam de sua inexperiência [...]

A recompensa deste ato de civismo ele a teve em uma solene desfeita por parte do poder, a exautoração das honras de gentil-homem. A adversidade, que assinala a vida dos filhos da liberdade, devia persegui-lo até a última hora.

Dissolvida a Câmara dos Deputados em 1842, para a qual fora eleito pelos sufrágios de sua província, retirou-se à sua cidade natal, para aí repousar, no tranqüilo remanso da paz doméstica, de uma vida tempestuosa e agitada, cheia de dolorosas tribulações. Ainda o voto da Pátria veio arrancá-lo do plácido retiro, e a legislatura de 1845 viu-o em seu seio como representante do povo. Sua vida fora toda dedicada à causa de seu país; a glória de sua pátria o sol luminoso que lhe alumiava a existência. Seus últimos momentos ainda os empregava em pagar-lhe o tributo de seus esforços para engrandecê-la.

Tantos e tão relevantes serviços, entrelaçados com as glórias da proscrição, que é como a prova suprema da virtude cívica, deviam concitar a gratidão de seus concidadãos. A província de Pernambuco, em cujo peito bulharam sempre ardentes as crenças do patriotismo, essa província, que em cada feito de sua história enumera um louro imarcescível, levantou-se para pagar Antônio Carlos a dívida nacional. Em 1845 o ilustre paulista estava escolhido senador por essa província. Sua palavra luminosa foi lançar seu último clarão no teatro das glórias dos Paulas Sousas, Vergueiros, e Feijós.

Mas era tarde, bem tarde, que a pátria o revocava do esquecimento para pagar-lhe a dívida de sua gratidão. A sina dos grandes homens acompanhava-o sempre. Tasso morreu na véspera do dia em que sua pátria arrependida ia ao Capitólio cingir-lhe a fronte com a coroa de príncipe dos poetas italianos. Antônio Carlos entrou para o Congresso dos Anciãos da Pátria, quando sua vida, esgotada nas lides políticas, buscava o repouso eterno, e sua voz enfraquecida ia a sumir-se nas voragens do túmulo.

No dia 5 de dezembro de 1845 já o país lamentava seu passamento; já seus lábios, consumidos pelo fogo da palavra, estavam pregados pela mudez da morte.

Foi um astro luminoso, que se afundou nas cores do poente; um nome glorioso, que a História conquistou para suas páginas. Sua figura gigante avulta no pórtico da Independência, como um dos criadores de nossa nacionalidade. No meio da geração presente simbolizava um resto do passado, respeitado pela mão do tempo para ilustrar sua pátria com os episódios de seu civismo romano, e no meio da descrença do século ser o modelo vivo das venerandas virtudes de nossos maiores. O brilho de sua glória nunca se marcou com a mancha do crime. Enquanto houver um culto pelos grandes homens, e a virtude cívica inspirar a gratidão, o Brasil inteiro repetirá com religioso respeito o nome de Antônio Carlos, que irá abrindo um sulco luminoso através dos séculos futuros!