Galeria dos Brasileiros Ilustres/Evaristo Ferreira da Veiga

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
Evaristo Ferreira da Veiga


Onde está ele — Esse homem fabricado
De sangue novo, pelo molde antigo,
De grega e de romana contextura,
De têmpera sublime,
Que vale mais que os séculos que o produzem?

Magalhães

A História, farol brilhante erguido nas fronteiras do passado para iluminar a estrada do futuro, nunca mais digna se torna do que quando, espancando as trevas que rodeiam os túmulos, nos mostra em todo o seu esplendor os varões ilustres, cujos feitos honraram o país de seu nascimento, cuja vida foi gloriosa para a humanidade. Esses homens modelos, que provocam a atenção do presente, deixam escapar dos lábios gelados palavras conselheiras de virtude, de valor, de nobreza; os raios da luz, que, como auréola sagrada, circundam suas frontes, acendem na alma o amor da pátria, e ao respeito que acompanha sua memória, excita no coração desejos de limitá-los; nobre e enérgica a ambição desperta, cresce, inflama a vontade, que então opera prodígios. Muitas vezes — quase sempre — a inveja e a ignorância contemporâneas, dando-se as mãos, pagam com desprezo, senão com martírio, as nobres abnegações, os esforços generosos das almas escolhidas. Os interesses, que lutam uns contra os outros por alcançar o predomínio; as paixões, que obscurecem a razão e aconselham o mal; o erro, que calou profundamente nos ânimos e que o falso orgulho ainda mais aferra, temem, odeiam, desconhecem os espíritos elevados e nobres, que os combatem em nome da virtude, da justiça e da razão.

Mas há um momento em que todas essas vozes emudecem, uma época em que a verdade profere a sua sentença definitiva; é quando um túmulo se abre, quando uma nova geração, gozando dos benefícios que resultaram dessas lutas, repele a herança de preconceitos, e, buscando nas sombras do passado o autor de tantos bens, repete o seu nome entre vivas de gratidões. Este juízo da posteridade, sentença da justiça divina, que a humanidade proclama, é a recompensa mais pura, mais duradoura, mais invejável; essa crença da vida futura, essa esperança de merecer um dia as bênçãos de uma geração inteira, constituem o mais nobre incentivo para as almas verdadeiramente heróicas.

Cumpre pois que a História, iluminando com seu facho as sombras do passado, nos deixe ver em toda a luz as imagens dignas de veneração; que de geração em geração uma voz se erga dentre o povo, como a da sentinela quando alta vai a noite, repetindo o nome e os feitos dos homens que ganharam a imortalidade, prestando homenagem ao passado e incitando os ânimos, que desfalecem no presente.

O Brasil, bem que de moderna data no quadro das nações, conta já numerosos filhos, que devem ser apontados como exemplos, e a pode ufanar-se de sua riqueza. Nesse monumento erguido à memória dos grandes homens do Brasil, um dos mais elevados pedestais deve ser reservado para o busto nobre do varão, cuja vida vamos rapidamente bosquejar.

Evaristo Ferreira da Veiga nasceu na cidade do Rio de Janeiro a 8 de setembro de 1799. Seu pai, Francisco Luís Saturnino, era professor de primeiras letras e tinha aula aberta na Rua de S. Pedro, donde mais tarde foi passada para a do Ouvidor. Aí recebeu Evaristo os primeiros rudimentos de instrução, e ao mesmo tempo lições de severa moralidade, que ficaram profundamente impressas em seu coração. Na idade de doze anos passou a estudar gramática latina com o professor Manuel Marques, e retórica com João José Vaia. Pouco tempo depois freqüentou como externo as aulas do Seminário de S. José, onde estudou filosofia racional e moral e as línguas francesas e inglesas, aprendendo mais tarde consigo mesmo o italiano. Contava dezenove anos quando concluiu os estudos. Então seu pai, que deixara a aula de primeiras letras para abrir uma loja de mercador de livros à Rua da Alfândega, chamou-o para o balcão. Depois de cinco anos, tendo perdido sua mãe, estabeleceu, de sociedade com seu irmão, Sr. João Pedro da Veiga, uma livraria à rua de São Pedro, esquina da Quitanda, donde mais tarde saiu para continuar o mesmo negócio por sua conta na Rua dos Pescadores.

Até então Evaristo era apenas conhecido como negociante honrado, homem afável e esposo modelo, que já então se achava casado com D. Edeltrudes Maria da Ascensão, a quem consagrou viva amizade até o derradeiro instante de sua vida.

Não obstante essa perspicaz inteligência, que seus professores tanto haviam apreciado, não dormitava, não; enriquecia-se no estudo, concentrava-se para mais tarde ressurgir cheio de força e de esplendor. A sede de conhecimento, que desde os primeiros anos o atormentava, encontrara fonte abundante para fartar-se nos livros, entre os quais ele vivia. Seu natural discernimento e bom gosto haviam-no levado a fazer uma ajuizada escolha entre as diversas obras de bons autores. Com eles conversava Evaristo durante as longas horas da noite, e nesse continuado lidar sua inteligência mais se desenvolvia, novos pensamentos ensinados pelos sábios, ou inspirados pela meditação, vinham enriquecê-la, e de dia em dia mais vasta se tornava sua erudição.

Limitar-se-ão a isso os desejos de Evaristo? Não, decerto; fora preciso ser profundamente egoísta para, conhecendo-se tão rico, guardar consigo esse tesouro, e Evaristo primava em generosidade. A fortuna, que adquirira no negócio, não a empregava consigo, que eram simples os seus hábitos e seus gostos bem afastados da ostentação; distribuía-a pelos desvalidos, a quem sua caridade ia encontrar até em países estrangeiros. Quem assim tão despegado se mostrava das riquezas materiais, tão pronto em socorrer os infelizes mal aquinhoados, não podia certamente ser avaro das riquezas intelectuais; não, ele as entesourava porque sentia instintivamente que havia de chegar o dia em que infelizes de outro gênero, desvalidos de outra fortuna precisariam também de seu auxílio. Mas a modéstia, que era base de seu caráter, e a desconfiança das próprias forças ainda não experimentadas, não lhe deixavam conhecer que esse dia já era chegado, embora alguns amigos, que o apreciavam em íntimas conversações, assim lho dissessem e lhe vaticinassem um porvir de glória.

Filho do Brasil, nascido em meio desta natureza tão garrida, desta vegetação tão luxuriante, sob este céu tão anilado, escutando as poderosas vozes das florestas, a suave harmonia dos bosques, o doce murmurar dos rios, o estalar das catadupas, Evaristo era poeta; e sua brilhante imaginação, despertada pelo brado erguido nas margens do Ipiranga, celebrou em belos cantos a aurora da liberdade. A pátria foi a musa que acordou o poeta; a pátria, seu primeiro amor, foi também o termo único de todas as suas ambições. Desde então ele publicou vários artigos e folhetos políticos, que respiravam o perfume embriagador do patriotismo, e que desde seu aparecimento atraíram a atenção pública, incerta ainda sobre o nome do autor, porque esses escritos eram publicados sob o anônimo. Bem depressa porém o nome de Evaristo tornou-se conhecido no Brasil de uma extremidade à outra.

A 11 de junho de 1828 os batalhões de alemães e irlandeses se sublevam na corte e perseguem ferozmente o povo: a 6 do mês seguinte o barão Roussin, vice-almirante francês, entra de morrões acesos pela baía do Rio de Janeiro e vem insultar a fraqueza do Brasil! Ao ouvir os clamores do povo, ao sentir as faces abrasadas pela vergonha da afronta, Evaristo esquece a própria modéstia e escreve estas nobres palavras: Desgraçado o povo que sofre o jugo estrangeiro! Os seus mesmos benefícios são amargos e pagam-se a peso de ouro; os seus insultos, quem os tolerará?

A Aurora Fluminense repetiu esse brado de indignação aos ouvidos do povo. Fundado em fins de 1827 por três cidadãos, esse periódico foi desde 1828 exclusivamente redigido por Evaristo, e tor-nou-se a tribuna em que se advogavam os interesses públicos, o púlpito de que baixavam lições para o povo. Despontara o dia esperado; Evaristo abriu o cofre em que amontoara riquezas de conhecimentos e com larga mão as distribuiu.

Não cabe nos limites deste simples esboço uma apreciação de Evaristo como jornalista; diremos somente que a Aurora Fluminense tor-nou-se em pouco tempo conhecida de todo o Brasil, e granjeou para o seu redator uma grande popularidade, que foi de dia em dia aumentando. Durante os oito anos de sua existência a Aurora foi o órgão das necessidades e dos interesses do povo, o defensor estrênuo de seus direitos, o campeão destemido das liberdades públicas, o guia consciencioso da opinião, a ara sagrada em que se venera a pátria. Dotado de vasto talento, rico de erudição, animado pelo mais desinteressado patriotismo, Evaristo discutia com alta superioridade em sua folha todas as questões que importavam ao progresso do país; mas, vivendo no meio do turbilhão das facções, cujos planos ele contrariava e que buscavam afastá-lo jogando-lhe insultos, via-se obrigado a descer às questões individuais; se às declamações respondia com raciocínio, combatia os insultos com uma ironia penetrante, que deixava profundamente ferido o amor-próprio de seus adversários.

O nome de Evaristo espalhava-se por todo o Império, e além do oceano; seu mérito granjeou-lhe os títulos de sócio do Instituto Histórico de Paris e da Arcádia Romana; a Sociedade Amante da Instrução contou-o mais tarde no número de seus membros beneméritos. Ao mesmo tempo a fama de seus talentos, de suas virtudes, reunia na sua loja de livreiro todos os verdadeiros patriotas; aí doutrinava ele o povo, e aqueles que o ouviam iam mais longe repetir sua palavra e aumentar a sua popularidade. A província de Minas três vezes o escolheu para seu representante na Câmara dos Deputados. O Rio de Janeiro não se mostrou ingrato para um filho que tanto o honrava; se nas eleições de 1828 Evaristo ficou no número dos suplentes, nas de 1836 reuniu dois diplomas, o de Minas e o do Rio de Janeiro.

Como deputado Evaristo foi o mesmo homem que no jornalismo, defensor dos mesmos princípios sobre que se baseava sua doutrina: liberdade moderada para o povo, prestígio e força para a Monarquia, respeito às leis, fiel observância da Constituição do Estado. Não quadrava esse programa à administração, e por isso encontramos Evaristo dirigindo a oposição parlamentar de 1830.

Começaram a aparecer nessa época as idéias de reforma da Constituição e federação das províncias, como conseqüências fatais dos erros do Governo. Evaristo viu na adoção de tais idéias uma ofensa à Constituição e o enfraquecimento do Brasil; sua voz poderosa ergueu-se contra os reformistas. Mas embalde! a reação estava na razão direta da opressão; a faísca lançada nos espíritos ardentes devia em breve produzir o incêndio.

Pela primeira vez Evaristo hesitou; pareceu-lhe a princípio que devia resistir à torrente, que dar-lhe o apoio de seu nome seria contribuir para a perdição da pátria; logo porém conheceu que todo o esforço humano seria impotente para suster o rochedo, que, despegado de sua base e impelido por uma força fatal, rolava irresistível e ganhava nova velocidade com a carreira, cujo termo era o abismo da anarquia. Então a alma do herói partiu-se em um soluço, houve um momento de agonia, uma dor sem nome varou-lhe o coração! Pago esse tributo à natureza, Evaristo ergueu a fronte, e, cerrando os ouvidos aos insultos, aos sarcasmos, às maldições com que era pago o sacrifício de seu amor-próprio, passou para as fileiras dos reformistas. Não podendo fazer parar o rochedo, queria ao menos desviá-lo do abismo, arriscando-se a ser por ele esmagado. "Combati a reforma", dizia ele então, "enquanto não a julguei do voto geral; hoje é necessária, eu pugno por ela; faça-se, faça-se, mas a ordem e a tranqüilidade presidam a tudo, e a lei à sua própria alteração."

De dia em dia os espíritos mais se azedavam. D. Pedro I parte para a província de Minas, a fim de com sua presença restabelecer aí a ordem, e publica em Ouro Preto a proclamação de 22 de fevereiro, que foi mais uma faísca para apressar a explosão. Por ocasião de seu regresso à Corte fazem-se grandes festejos, acendem-se fogueiras, bandos armados percorrem as ruas da cidade insultando e maltratando os brasileiros, cujo sangue corre. Evaristo querendo evitar mais graves desordens, escreve estas memoráveis palavras: O sangue derramado pede sangue, tristes efeitos dos ódios e dissenções civis! admoestação prudente, que seus inimigos traduziram como provocação às paixões populares. Longe porém de aconselhar represálias sanguinolentas, o herói apela para a autoridade e redige a representação de 17 de março, assinada por 23 deputados e um senador, na qual se pede ao monarca que desafronte o Brasil vilipendiado e pungido!

Tudo é baldado! O dia 7 de abril vê consumar-se a revolução! Evaristo conhece que é chegado o momento do perigo e redobra esforços para afastá-lo. Ele sabe que na taça das revoluções o povo bebe um licor que embriaga; que a liberdade, virgem santa, veste uma túnica tão fina que se despedaça aos abraços frenéticos do povo em delírio; então a virgem profanada se transforma em medonha fúria, corre nua, soltos os cabelos, sacudindo o brandão da anarquia, e vinga com as próprias mãos o ultraje que sofreu.

Resolvido a encaminhar a revolução, Evaristo começa pregando o esquecimento das ofensas, pedindo perdão para todos; arrisca-se para salvar seus inimigos. Graças à influência do seu talento e de sua virtude ele conseguiu suspender o braço armado da revolução; lutuosas cenas de proscrição e de extermínio, quase inevitáveis em tais momentos, não empanaram o brilho desse quadro majestoso, que representava a liberdade triunfante.

Apenas porém se completa a vitória, os interesses individuais, as paixões exaltadas, os espíritos alucinados ressuscitam os antigos partidos, cada qual mais absurdo em suas pretensões, querendo por cálculo ou por irreflexão arremessar novamente o país para o abismo que ainda está mui próximo. Evaristo conhece que essas mãos malvadas ou ignorantes hão de dilacerar o seio da pátria, seu único amor, e por cuja felicidade tanto tem porfiado; olha em torno de si, procura um lado — não o mais poderoso e mais forte — que lhe importa o poder? — mas aquele onde há mais razão e mais justiça, porque só o seu triunfo pode ser duradouro, só ele pode produzir a paz. Então torna-se chefe do partido moderado, dá-lhe vigor, empresta-lhe sua influência, alarga seu círculo, consegue enfim suplantar seus contrários, isto é, salvar a ordem, a liberdade, a monarquia. Por longo tempo tem em suas mãos os destinos do Brasil, a sorte de um império depende de sua vontade. Podendo ser tudo ele quis ser somente Evaristo, o amigo de sua pátria. Essa imensa influência, de que dispõe, ele só emprega para debelar as facções que renascem, e conservar a conquista que lhe assegura o futuro do país.

Na célebre sessão de 30 de julho de 1832, em que devia ser proclamada a nova Constituição, que lhe pareceu um ato precipitado e perigoso, Evaristo deixou por momentos seu partido, que então tinha na câmara maioria. Seu silêncio e completa abstenção em tal crise contribuíram fortemente para malograr o plano dos moderados.

No entanto, as esperanças de restauração do ex-imperador ganhavam corpo de dia em dia. Evaristo, julgando que a realização dessa idéia seria uma fonte de males para o Brasil, a combatia com todo o vigor, face a face. Na noite de 8 de novembro de 1832, achava-se ele em sua loja discorrendo em companhia de várias pessoas, quando ouviu-se o estrondo de uma pistola, e Evaristo viu três de seus amigos caírem por terra banhados de sangue. O herói levemente ferido corre à porta da loja, explica ao povo a cena que se acaba de dar e termina exclamando: Não nos farão calar com estes argumentos.

Dessa época em diante Evaristo dominou em todas as eleições, e influiu poderosamente na marcha do governo. Em 30 de dezembro de 1835 terminou a publicação da Aurora Fluminense, e desde então conser-vou-se afastado dos negócios públicos.

A 22 de novembro de 1836 partiu para a província de Minas a fim de pagar uma dívida de gratidão para com essa briosa província, que três vezes o elegera deputado. De volta à corte, e já molesto, sentiu tão doloroso abalo ao contemplar o estado das cousas públicas, que atacado por violenta enfermidade faleceu a 12 de maio de 1837, depois de sete dias de sofrimentos, dando à sua esposa e às suas tenras filhas este último conselho: Vivei no santo temor de Deus e nele confiai, e em meu irmão.

Seu corpo foi sepultado na igreja de São Francisco de Paula ao lúgubre som das lamentações da cidade inteira.

O dia 12 de maio de 1837 foi uma data de desolação e de luto para o Império; a grande família brasileira pranteava a morte do seu filho mais querido, do varão que, sempre calmo no vórtice das revoluções, generoso no triunfo, modesto no fastígio do poder, consagrando toda a riqueza de sua inteligência, todo o amor de seu coração, toda a energia de sua vontade, à ventura da pátria, vivendo no período mais agitado da História do Brasil, legou às gerações por vir o exemplo de uma vida pura e bela, como em noite serena o céu estrelado desta terra que ele tanto amou!