Galeria dos Brasileiros Ilustres/Fr. Francisco do Monte Alverne

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
Fr. Francisco do Monte Alverne


Tantos esforços, fadigas tão aturadas eram precisas para deixar um vestígio de minha passagem nesta terra, onde recebi aplausos, coroas e ovações, de que nenhum orador, nenhum filósofo antes de mim usou ainda gloriar-se. (Fr. F. do Monte Alverne. Conclusão de seus sermões, vol. 4, pág. 290.)

§1º

Não é decerto despida de espinhos a tarefa que tomamos sobre os nossos ombros, traçando o quadro histórico da vida de Fr. Francisco do Monte Alverne. A época recente de sua morte, os poucos dias passados do período de sua glória, a falta de inteligência daquele que tanto empreende são dificuldades que só podem ser vencidas pela dedicação do amigo.

Ainda não é tempo para bem julgar aquele que acaba de descer à sepultura. Ainda a luta do sentimento e da paixão pode abrasar os ânimos, e fulminar o que por nossa consciência, aliás pura e sincera, for ditado em prol do ilustre finado.

E ainda mais crescem os embaraços quando se trata da biografia de um religioso franciscano, isto é, do verdadeiro soldado da Cruz, contra quem se conspira infelizmente o século dezenove, por intermédio de cabeças vertiginosas, que em sua descomunal perseguição desabam nos abismos das contradições, desconhecem as necessidades de seu país, e inconsideradamente procuram destruir o elemento único formador da ilustração, moralidade, e virtude de um bom clero.

São esses perseguidores contraditórios, porque quando pedem o direito amplo da liberdade dos povos restringem um dos meios de praticar esse direito, impedindo a vocação natural de qualquer à vida do claustro.

São desconhecedores das necessidades de seu país. Argumentando com os abusos da instituição, proclamam princípios ab-stratos, idéias exaltadas que nasceram com a revolução de 1789, e querem, por força de imitação imprudente, que nas terras virgens do Brasil, em seus sertões e campos despidos de civilização, o monge seja uma inutilidade.

Semelhante doutrina só por uma má e desgraçada aplicação pode fecundar em nosso país. Temos ainda necessidade de conquistar e civilizar tribos numerosas de selvagens: essa conquista feita com a espada e o canhão produziria sombras e cadáveres, alcançada com a palavra e com a cruz, produzirá novos seres, que serão outros tantos elementos de uma boa população para o nosso interior. A catequese pois pede novos Anchietas e Nóbregas, estes só se podem formar no claustro.

E tanto isto é verdade, que ao passo que se parece condenar a ordem monacal, cria-se um centro de missionários estrangeiros. Novo erro. Desprezam-se os núcleos nacionais que bem dirigidos podem prestar relevantes serviços, e são eles substituídos por estrangeiros, que não têm nem mais inteligência, nem mais vontade, e que nessas missões terão sempre o defeito de viciar a língua portuguesa.

Não é só a catequese que exige a conservação e o aperfeiçoamento da ordem monacal, a nossa educação intelectual moral e religiosa também a reclama. Não nos iludamos. O sistema francês pode ser uma realidade nos centros populosos, e ali se encontrará facilmente quem se dedique ao ensino dos meninos; no interior do país é uma infrutífera utopia. Só a resignação evangélica pode chamar os homens a esses pontos remotos do interior, essa resignação pode ser encontrada naqueles que tiverem sido educados na austeridade do claustro.

São aniquiladores do elemento único capaz de formar um clero perfeito. Não acreditamos que o sacerdote moralizado e ilustrado se forme no meio da sociedade, rodeado de prazeres e seduzido insensivelmente por gozos incompatíveis com o seu estado. A mais austera disciplina de um prelado enérgico e virtuoso não pode contê-lo, e sobre ele há de pairar sempre a imputação malévola nascida pelo menos da aparência do contato com o mundo e a sociedade em que vivemos. Essas imputações ainda que vagas são como a fumaça que sobe aos ares do pequeno incêndio, e que torna em brasa o corpo combustível que encontra, e sobre o qual passa constantemente. Entre o sacerdote regular e secular não há dúvida que o respeito é sempre mais decidido para aqueles a quem o povo vê todos os dias encerrado no retiro da oração, coberto com os hábitos da disciplina, praticando atos de penitência, sujeito a regras e costumes que o mais bem intencionado secular não pode apresentar. Não se condenem os conventos. Sejam eles reformados e melhor dirigidos a fim de que prestem os serviços que só eles podem fazer. Extirpem-se os abusos introduzidos pelo correr dos tempos, mas não se aniquile sob o pretexto do abuso prático, o que está reconhecido como bom e proveitoso princípio.

§2º

A nossa história é fértil em provas dos bons serviços prestados ao país pelas ordens regulares religiosas, e entre elas não há dúvida alguma que inferior lugar não ocupa aquela que foi fundada em 1210 pelo grande patriarca S. Francisco de Assis.

Não é preciso para isso compreender lembrar que essa ordem tem cedido ao estado suas melhores casas, que mais de uma vez pobres têm prestado asilo aos desvalidos, que foram sempre os escolhidos para guiar os últimos momentos daqueles que acabavam de ser fulminados pelas justiças da Terra; basta termos em memória que aí floresceram as grandes inteligências, de um Rodovalho, de um S. Carlos, de um Sampaio, do último de seus finados Fr. Francisco do Monte Alverne, e tantos outros.

Quando em 1808 a espada do conquistador da Europa obrigara a ilustre e muito nobre família de Bragança a deixar o velho Portugal e a procurar um asilo na terra de Santa Cruz, a corte portuguesa ficou maravilhada por encontrar nos claustros de sua colônia inteligências superiores, que se haviam formado sem ir a plagas mais remotas, nem a horizontes mais distantes que os muros de um convento: inteligências que se podiam elevar à altura da oratória sagrada tal qual o Sr. D. João VI não tinha sido visto na velha Europa, as quais vantajosamente discutiam com aqueles que eram acompanhados pelos pergaminhos lustrosos das mais notáveis universidades.[1]

Então floresciam no convento dos religiosos de Santo Antônio, entre outros, três distintos pelo saber profundo, ilustração e preeminentes como oradores sagrados. Eram eles Fr. Francisco de S. Carlos, Fr. Francisco de Sampaio, e Fr. Francisco do Monte Alverne. O primeiro faleceu em 6 de agosto de 1829, o segundo em setembro de 1830, e o terceiro acaba de exalar o último suspiro no dia 2 de dezembro de 1858.

Eram três vultos que faziam parte dessa plêiade em que fulguravam Caldas, Monsenhor Neto, e Cônego Januário, oradores sagrados, filósofos e teólogos profundos.

O único que restava era Fr. Francisco do Monte Alverne, testemunho vivo desse saber, e dessa proeminência da oratória sagrada em outros tempos. Era a última das estrelas brilhantes desse firmamento, e como as outras correu a sua órbita, e lá cambou no ocaso -morreu!

Para bem compreendermos a vida de Fr. Francisco do Monte Alverne, preciso é abrir o livro das crônicas dos membros da sua ordem, e nele ler-se-á o seguinte:[2]

"Fr. Francisco do Monte Alverne, que no século se chamava Francisco José de Carvalho, nasceu aos 9 de agosto de 1784 na cidade do Rio de Janeiro, foi batizado aos 24 dias do referido mês de agosto na Sé Catedral daquela mesma cidade. Foram seus pais João Antônio da Silveira, natural e batizado na freguesia do Pico, bispado de Angra, e Ana Francisca da Conceição, natural e batizada na freguesia de Nossa Senhora da Guia deste bispado do Rio de Janeiro.

§3º

"Aos 28 de junho de 1801 entrou para o convento da ordem Seráfica da Conceição, sendo aceito pelo ministro provincial Fr. Antônio de S. Bernardo Monção, e professou a 3 de outubro de 1802 nas mãos do guardião, que era Fr. José Mariano do Amor Divino."

Exulta, Francisco de Assis, que se alistou nas fileiras de teus soldados e irmãos, mais um denodado campeão, que, cingindo-se de glória, há de aumentar o brilho e a reputação daqueles que seguem teus preceitos.

Então possuía a ordem um magnífico convento na cidade de S. Paulo, onde havia estabelecido um colégio, no qual receberam educação e ilustração muitos dos homens que hoje dirigem a Faculdade de Direito em S. Paulo, que ocupam respeitável posição na sociedade.

Para esse convento, ou antes para esse colégio de S. Paulo, fonte única de instrução primária e secundária naqueles tempos, foi Monte Alverne em 1804 como colegial, e aí recebeu as lições do teólogo profundo Fr. Inácio de S. Justina, que já faleceu, e foi sepultado no convento da ordem em Itu.

E tendo adquirido a instrução precisa, recebeu as ordens, que lhe foram conferidas pelo sábio bispo de S. Paulo, D. Mateus de Abreu Pereira.

Tão rápidos foram os progressos do jovem religioso em seus estudos, tão firme a sua aplicação, tão vantajosos os resultados, que ele, que já em 1810 tinha sido eleito pregador e passante, isto é, substituto de Filosofia e opositor das cadeiras de Teologia, foi na congregação de 24 de abril de 1813 eleito lente de Filosofia para aquele colégio de S. Paulo e depois, em 1816, lente de prima do mesmo colégio.

Ainda existem nessa terra ilustre dos Andradas testemunhos vivos e valiosos do saber profundo professado por Monte Alverne nas cadeiras que lhe tinham sido confiadas. Ainda a tradição conserva intacta a memória dos bons serviços prestados à sociedade, à sua ordem e ao seu país na cadeira do magistério pelo mui digno franciscano.

Era então de costume nos conventos a defesa de conclusões magnas, verdadeiras festas literárias que se ostentavam com todo o esplendor, e as quais concorria o que de mais notável em saber e ilustração possuía o país. Monte Alverne, o estudante que não tinha passado em suas pesquisas científicas além dos muros do seu convento, bateu-se com vantagem e vitória com aqueles que ostentavam grande ciência, e que se faziam ainda mais recomendados pelos títulos adquiridos com talento e estudo.

E tais foram os seus serviços na carreira do magistério, que no capítulo em que saiu eleito provincial, Fr. Ângelo de S. José Mariano, o corpo capitular reunido no dia 27 de outubro de 1821, querendo recompensar os serviços prestados na sua brilhante carreira, como consta da ata capitular às fls. 127 e 178, tendo em consideração oito atos de conclusões públicas em Filosofia, e não havendo título explícito legal que obrigue os lentes de prima a defenderem atos públicos de teologia, lhe declararam todos os seus privilégios, e mais os de outra guardiania.

Já então Monte Alverne era teólogo de nunciatura apostólica, título que lhe foi dado em 18 de novembro de 1818. — Examinador da Mesa de Consciência e Ordens, cargo de que foi incumbido desde 20 de setembro do mesmo ano. — Foi guardião do Convento de Nossa Senhora da Penha. —Foi secretário da província em 1824; em 1825 eleito custódio de mesa.

§4º

Não foi só nesse célebre colégio dos franciscanos em S. Paulo que Monte Alverne exerceu com honra e glória o magistério; também no lugar em que havia nascido, no Rio de Janeiro, seguiu a mesma profissão com reputação superior, lecionando, no Seminário de S. José, Retórica, Filosofia Nacional e Moral e Teologia Dogmática.

Se em S. Paulo há testemunhos vigorosos do saber do ilustrado professor, não menos são os que existem na capital do Império. Domingos José Gonçalves Magalhães, Manuel de Araújo Porto Alegre, Antônio Félix Martins, e tantos outros, aí figuram proeminentemente na república das letras, e tornam ainda mais grandioso o nome daquele que eles melhor do que ninguém conheceram, e de quem receberam a ciência, a palavra e a inspiração.

Bem o disse o Sr. Porto Alegre, "aqueles que como ele passaram das lições de Fr. José Policarpo de Santa Gertrudes, o mestre bondoso, para aquelas de quem se diz — rei da palavra: estes mais do que ninguém podem aquilatar quão grande, majestoso e solene era o saber do filósofo brasileiro"[3].

O finado bispo D. José Caetano foi quem o nomeou professor para o seminário de S. José, funções que preencheu até 1836. E também nesse intervalo de tempo recebeu o ilustrado fluminense as nomeações de examinador sinodal e membro correspondente do Instituto Histórico da França.

Seus serviços foram aqui como ali importantes para a ciência, ele próprio o diz com orgulho e franqueza nos seguintes termos: "Empreguei, é verdade, os anos da minha mocidade em dirigir as inteligências que me tinham sido confiadas, revelei verdades que meus antecessores não me tinham comunicado, alarguei a esfera da inteligência; marchei intrépido; pisei o egoísmo; fui sobranceiro à inteligência; não voltei o rosto à injúria, à calúnia; fui conspurcado por a inveja...; mas longe de sucumbir levei de vencida meus adversários.

"Uma nova arena se abriu diante de mim no seminário de S. José. Meus serviços são conhecidos: a mocidade não foi enganada, o que não era conhecido foi apresentado às claras..."[4]

E no entanto, o grande homem, de quem se podia esperar a continuação de serviços senão maiores, ficou quase morto para o mundo! Fatal amaurose acometeu seus belos olhos, sepultou-o em profundas trevas, e privou-o da contemplação do mundo externo, sempre brilhante, magnífico e encantador, como criação sábia de um Deus.

Apenas acometido dessa horrível enfermidade, retirou-se ao claustro, lá ficou esquecido doze anos!

Quão ingrato é o mundo?! Monte Alverne que guiara a mocidade pelas veredas escabrosas da vida. Que com a palavra inspirada pela chama celeste convertera talvez tantos corações estranhos aos influxos benéficos da religião! Que havia descido da cadeira sagrada seu carro triunfal, e estendido o braço de gigante sempre vencedor nos combates da cruz a seus patrícios que lutavam com o gênio da desordem e da anarquia. Que com a sua palavra sagrada e o fogo do patriotismo que abrasava seu peito havia tanto concorrido para que a pedra preciosa do continente sul-americano, a monarquia brasileira, não fosse mareada pela mão impura do audaz e déspota aventureiro. Monte Alverne ficara esquecido! Por doze anos teve por companhia o silêncio de sua sela, a presença muda de seus livros, o braço de um fiel escravo que o guiasse através das massas aglomeradas em nossas ruas, que às vezes por curiosidade apenas perguntavam — quem é esse cego que passa? — e que com indiferença de gelo ouviam a resposta — chama-se Fr. Francisco do Monte Alverne.

É sem dúvida horrível o sentimento de ingratidão! Com ele não é possível o desejo da glória, nem o amor ao trabalho. E onde está a glória, onde a virtude, onde enfim a nobreza da alma? quando o século só tem por divisa — Sê rico e serás feliz!

§5º

Estamos nos últimos dias do ano de 1836. Estamos na época em que a noite se declarou eterna para Fr. Francisco do Monte Alverne. Desde então inauditos são os sofrimentos que cercam a alma do triste e desconsolado velho. Cego não podia prestar os serviços impostos ao seu ministério. Cego viu-se abandonado por aqueles que ainda há pouco pequenos junto de seu vulto de gigante haviam parasitas crescido à sombra de uma grande árvore, e tratavam de fazer cair a seiva daquela de quem receberam a vida.

No meio de seus sofrimentos nem um queixume, nem uma acusação. Resignado, consolava-se implorando o auxílio da religião, de quem sempre fora o mais denodado defensor.

Ele o diz nos seguintes termos: "O resultado de tantas fadigas foi a extenuação de meu cérebro, e a perda irreparável de minha vista. No fim de 1836, terminava todos os meus exercícios literários, e eu me achava impossibilitado para empreender o mais insignificante trabalho. Não é dado a alguns homens avaliar as agonias de meu coração nesta horrível peripécia de minha vida. Deus chegou aos meus lábios a taça da minha tribulação, suas fezes não estejam talvez ainda esgotadas... a vontade do Senhor seja feita..."[5]

Tanta resignação só se podia esperar do filósofo para quem a primeira lei era o Evangelho.

À vista desse deplorável e inesperado estado havia jubilado lente em 24 de abril de 1841, e também em 1847 foi nomeado membro honorário do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, e em 1848, membro honorário da Imperial Sociedade Amante da Instrução.

Seria tão grande abandono devido a essa sorte geral que infelizmente acompanha todos os homens de letras em qualquer parte do mundo?! Seria o ostracismo da Grécia que fazia beber a Sócrates a cicuta?! Seria a decadência dos romanos que condenava a desterro o poeta Ovídio?! Seria a indiferença imperdoável quase contemporânea que se lembra de coroar Tasso quase moribundo, e que abandonava Camões esmolando o pão sobre desprezíveis palhas em um hospital?! Teria Monte Alverne provocado o ciúme das mediocridades, que, carregadas depois com ouropéis, nem sequer se dignavam olhar para o homem que temiam pelo seu merecimento real?!

Se assim foi, maior ainda a ingratidão! Condenar-se ao esquecimento e ao abandono o inteligente e ilustrado Monte Alverne, que teve a ousadia de combater por aquelas mesmas idéias que cobriram de glória, de brasões, e levaram ao poder outros que apenas fizeram número material no grupo, que jamais entraram em combate, porque este podia ser sustentado só pelo saber e pela virtude.

Oh! Não sejamos tão fáceis em condenar o homem que tão nobre, virtuoso e desinteressadamente serviu nas fileiras do cristianismo, que desceu até o mundo para com a luz brilhante do Evangelho sustentar o berço daquele que era o penhor da grandeza e da estabilidade da Nação brasileira, o defensor da religião do Estado — a religião Católica Apostólica Romana.

Ainda é muito cedo para bem julgar essa época memorável, mas hoje todos já concordam que o grande partido que combateu a restauração e perseguiu o republicanismo foi o grande partido que mais serviços prestou ao país porque foi aquele que salvou a Monarquia brasileira.

Que vinha porém fazer o frade nessa luta de paixões, quase de sangue? Que vinha buscar ele no meio do século quando sua missão era toda divina, sendo apenas soldado no reino de Jesus Cristo?

Só a má vontade pôde denegrir os passos do grande Alverne nessa sua conduta. É dirigido pelo sacrossanto amor da Pátria que o inspira, pela dedicação ao seu monarca a quem considera como anjo tutelar da Nação, e portanto corre em socorro desse país, desse monarca, não brandindo uma espada mortífera e desoladora, e sim usando da palavra que subjuga convencendo, que cria novos mundos, que faz vigorar boas idéias. O grande meio e argumento de que se serve é o Evangelho — o grande fim que almeja a religião.

O mais áspero burel, o mais mortificante cilício, pode enfraquecer as paixões satânicas do mundo, embotar a sensibilidade física, pôr em contacto o homem com a divindade, não poderá porém enervar o patriotismo e o amor da nacionalidade nos vôos de suas inspirações nobres — para isso era preciso destruir o Eu e apagar o sentimento da virtude.

Pelo amor da verdade, não se exija do religioso o sacrifício do amor filial, e ainda mais do amor da pátria.

Como quer que seja, Fr. Francisco do Monte Alverne depois de cego ficou esquecido no retiro da sua cela por espaço de doze anos!...

§6º

Corria o ano de 1848. O Dr. Joaquim Pinto Brasil, que com tanto entusiasmo e distinção dirigia as cadeiras de Filosofia, na aula pública, e no Imperial Colégio de D. Pedro II, como substituto ali do conselheiro Sales Torres Homem (hoje ministro da Fazenda), e aqui, em lugar do proprietário Dr. Domingos José Gonçalves Magalhães, agrupou em redor de si os moços inteligentes que cursavam o primeiro ramo da ciência e criou uma associação literária que foi denominada — Ensaio Filosófico —, à qual mais tarde o Exmo bispo diocesano concedeu o título honroso de episcopal.

Essa associação foi solenemente inaugurada no dia 10 de dezembro de 1848 em uma casa do largo de S. Francisco de Paula, canto da Rua do Fogo.

Para assistir a essa solenidade foi convidado o padre-mestre, Fr. Francisco do Monte Alverne, que pressuroso veio assistir à primeira festa literária de moços que reuniam suas forças no estudo da filosofia do Espírito Humano, por meio da associação, a primeira nesse gênero, que então se criava.

Não contava o venerando ancião com o que lá o esperava. Acostumado ao retiro e ao esquecimento, surpreendido ficou quando se apercebeu que o primeiro passo que davam esses moços fracos, cheios apenas de amor de glória, era vingar a sua memória indignamente esquecida, e fazer justiça ao seu mérito transcendente e incontestável. E por isso o proclamaram o genuíno representante da Filosofia do Espírito Humano no Brasil, e como sinal de seus triunfos pediram ao prelado fluminense que lhe oferecessem uma coroa de louros.

Era a primeira vez que Monte Alverne, depois de doze anos de duro esquecimento, via-se restituído à posteridade honrosa a que tinha jus por sua inteligência e por seus serviços. Lágrimas abundantes correram de seus olhos, o prazer inefável reanimou suas feições abatidas e maceradas pelo desgosto, sua voz sonora e grave desprendeu-se de seus lábios quase frios pela indiferença. Ouviu-se um ligeiro queixume da vítima da ingratidão, logo depois um agradecimento a quem lhe sabia fazer justiça. Por meio de uma exortação veemente convidou os moços que o vitoriavam a trilharem o caminho da glória, a prosseguirem com frente altiva, não obstante a má vontade, o desprezo, e a própria inveja que porventura se opusesse aos seus cursos, porque ele havia também encontrado estes óbices, mas com pertinácia continuou, não voltou o rosto, caiu alfim extenuado, sem luz e sem forças, mas nunca vencido.

Era na verdade solene o momento em que orava o venerando

Alverne, sua alma era o embate de violentas comoções, e mais de uma

lágrima verteram seus ouvintes quando ele exclamou:


"Estou fraco e abatido... a posição em que estou é tão extraordinária para mim que talvez não a compreendais!... Se eu soubesse que era arrancado das bordas do meu sepulcro, do seio do meu retiro, para receber das mãos da mocidade uma coroa de louros, honra cívica que premia meus serviços pisados pela ignorância, esquecidos pela estupidez, e mal pagos pela mais fria indiferença, ainda assim talvez não tivesse coragem de apresentar-me para recebê-la.

"Eu sei que ela tem um grande peso, que tem um brilho muito acima de meu merecimento, e que meus trabalhos não correspondem a esta auréola que recebo no fim da minha vida!... Parece-me que sou uma vítima enfeitada para a hora do sacrifício! Tanta honra, tanta consideração para um homem oculto no silêncio de uma cela, passando da obscuridade à glória, a velhice coroada por mocidade, a morte reanimada pela vida... são fenômenos tão grandes, geram sensações tão poderosas que não as posso ocultar.

"Doze anos tenho estado em silêncio!... Sabeis que força é preciso para que escapem estas palavras toscas no meio de tanto entusiasmo, a despeito desta glória que a mocidade acaba de revelar, deste futuro que se apresenta tão radioso!"

Ainda nesse improviso enérgico e cheio de vida, que parece feito nos primeiros anos de Monte Alvarne, respiram as suas idéias dominantes, o amor de sua pátria e a sua dedicação pela religião do Cordeiro Imaculado.

"Sempre vi (continua ele) no caráter dos brasileiros essa superioridade de talentos que ninguém lhes contesta, esse futuro grandioso, essa glória que deveria ilustrar o nosso país tão espezinhado pelo estrangeiro que não conhece e aprecia, porque talvez não nos possa bem avaliar."

"O cristianismo que revelou os verdadeiros destinos do gênero humano enobreceu o coração do homem, elevou sua razão, ilustra o seu espírito e marcha sempre a despeito de todos os reveses à frente da civilização, porque ele é o seu mais forte elemento, porque ele é o tipo nobre e sublime da grandeza, da glória e da liberdade do homem." [6]

São sempre as idéias dominantes do grande homem — a pátria e o Evangelho. E não é Monte Alverne o próprio que nos arroubos de seu entusiasmo de fogo pela pátria invoca a proteção de S. Sebastião em favor da terra brasileira, e apoio decidido em prol da cidade, a rainha da América do Sul, que imediatamente se colocou debaixo de seu prote-torado?7 Não é ele o mesmo que explanando as idéias de seus trabalhos oratórios nos diz que o seu pensamento é a religião do Crucificado e quem invoca o salmo do rei Davi para explicar a sua idéia? [7]

Desde esse seu primeiro triunfo não ficou mais Monte Al-verne abandonado e esquecido no silêncio da cela, quase um túmulo. Em 1851 iguais demonstrações se reproduzem com a criação da sociedade Emulação Filosófica, da qual foi proclamado presidente perpétuo e grande conservador.

E tais foram os seus serviços à sua ordem e à religião que o SS. Padre, por intermédio de seu internúncio nesta corte, monsenhor Bedini, e com beneplácito imperial, em 1850 dispensando a irregularidade contraída pela cegueira, concedeu que ele pudesse ser definidor, representar no capítulo da ordem e assinar de chancela.

Não foram estas as únicas ovações que recebeu Fr. Francisco do Monte Alverne; uma maior lhe estava reservada, verdadeira apoteose, digna de seus talentos, capaz só ela de transmitir o nome do ilustre franciscano às gerações posteriores.

§7º

Os contemporâneos de três reinados, e que floresceram com Fr. Francisco do Monte Alverne, o consideram como um grande filósofo, como o genuíno representante da pura filosofia do Espírito Humano no Império do Brasil. Infelizmente, ainda não é dado ler a prova cabal de seus conhecimentos nesta árvore gigantesca, da qual nascem todas as ciências — o seu compêndio de Filosofia —, que começava a ser impresso quando foi surpreendido pelo sono eterno dos justos.

Improviso feito por Monte Alverne na sessão de inauguração do Ensaio Filosófico.

Impossível pois é darmos um juízo sobre esse trabalho, que, segundo ouvimos a mais de um entendido em tais matérias, e que tiveram o prazer já de o ver, se julga perfeito.

O que é verdade também é que o método de ensino por ele proposto não está em harmonia com o que ultimamente se costuma seguir nas aulas, pois que se nos informa que ele pretende que o estudo se comece pela lógica — e sendo assim devemos lastimar que não lhe sobrasse tempo de fazer o prólogo dessa obra, no qual havia de necessariamente defender o seu sistema, que se acha em oposição com que segue a escola moderna dos psicologistas franceses.

Essa obra estava escrita originariamente em latim tendo o ilustre finado deliberado imprimi-la, propôs-se reduzi-la à linguagem vernácula, visto que o estudo da língua latina, hoje muito desprezado, fazia com que o seu compêndio não tivesse aplicação fértil para a mocidade a quem era destinado.

Não obstante a privação em que estamos do livro complexo de suas idéias sobre a matéria, acreditamos poder afirmar pelos fragmentos de seus discursos, pela doutrina de seus discípulos, que ele repelia com energia as premissas falsas de Condillac, e que, filósofo espiritualista tendo por base o nosce te ipsum, acompanhava a razão até os limites do finito, e abraçava a crença do mistério que consola a alma e que não a martiriza com o racionalismo cético e estúpido, que vai esbarrar no abismo do ateísmo com todos os seus horrores.

Procurava conhecer-se a si — conhecendo-se a si via que a razão tem limites até onde chega — daí preciso é chamar em socorro a revelação, ciência profunda e inabalável, porque é a ciência de um Deus.

Reconhecendo os foros da razão — e admitindo a intervenção da divindade nos casos em que sem ela nada tem explicação, Monte Al-verne não naufragava no sistema do êxtase improdutivo, que tira ao homem a sua qualidade mais proeminente — o ser capaz de se conhecer.

Era um verdadeiro filósofo do Cristianismo.

§8º

Se a reputação do teólogo e filósofo não lhe pode ser contestada, muito menos a de pregador notável entre os primeiros pela eloqüência, linguagem e dicção.

Ainda bem em princípio de sua vida monacal deu ele logo mostras de sua proeminência nessa carreira, porquanto já em 17 de outubro de 1816 tinha sido ele nomeado pregador régio, nomeação que, segundo se exprime a crônica de sua ordem, era digna de seus talentos.

Não se pense que era pequena coisa a reputação de pregador naqueles tempos, em que a cadeira sagrada era a única em que se manifestava gloriosamente o saber, a ilustração e as flores da eloqüência.

Os conventos eram núcleos fertilíssimos das reputações científicas, e na oratória sagrada se manifestava apenas Monte Alverne, quando já neles faziam as delícias da corte portuguesa, e arrebatavam admiração, os provectos e abalizados oradores como S. Carlos, Sampaio, monsenhor Neto, padre Caldas e outros.

Ainda as tribunas parlamentar e judiciária não existiam, e que mais tarde chamando a si recentes talentos eclipsaram a tribuna sagrada.

Grande devera ser o esforço, o trabalho e o estudo de Fr. Francisco do Monte Alverne para poder competir com os contemporâneos, que, segundo ele mesmo diz, na grande arena, a capela imperial, monumento imortal de piedade do Sr. D. João VI, ostentavam toda a pompa do gênio brasileiro.[8]

Não é nossa intenção fazer um exame desses sermões, verdadeiros modelos de eloqüência, monumento inimitável da literatura sagrada brasileira. Eles aí correm impressos, graças aos seus últimos esforços, coadjuvado pelo seu dedicado amigo o Rev. padre João Diniz da Silva. Todo aquele que amar a literatura pátria deve sem dúvida alguma lançar seus olhos para esses livros de ouro. Apenas falaremos do seu sermão monumental, o panegírico por ele feito a S. Pedro de Alcântara que bem se poderá dizer o último cântico do servo de Deus, no grande ofício e desempenho do sacerdócio.

Quem depois de estar dezoito anos cego escreve um panegírico como o de S. Pedro de Alcântara, quem subindo à tribuna sagrada abatido de forças e de sofrimentos, acabrunhado pelo peso de setenta anos, repete essa sua produção com energia e força de vinte anos, quem faz acompanhar essa recitação de um acionado majestoso e grave do qual nem memória havia, esse será com toda a justiça reconhecido pelos contemporâneos como o príncipe dos oradores sagrados.

§9º

Coube a S. M. I. o Sr. D. Pedro II a glória de fazer triunfar em seu reinado augusto a memória daqueles varões do Evangelho e da ordem franciscana que haviam precedido, e sido coevos de Monte Alverne. Coube a S. M. I. o Sr. D. Pedro II o grande fato imortal de evitar que Monte Alverne descesse ao túmulo sem uma lágrima ardente de saudade de seus compatriotas reconhecidos a seu nome e aos seus serviços.

Havia quase dezoito anos que o Alverne não subia à cadeira sagrada, e nem pela lembrança de ninguém passava a possibilidade de um tal fato, e no entanto anunciou-se aos habitantes descuidosos da corte do Brasil, que no dia 19 de outubro de 1854 o padre-mestre Fr. Francisco do Monte Alverne faria o panegírico de S. Pedro de Alcântara.

Pressurosa corre a população ao templo da capela imperial. Os velhos iam recordar-se de seus tempos triunfantes da oratória sagrada, os moços verificar se a tradição não faltava à verdade, e se com efeito o Alverne era o primeiro entre aqueles que tanto se diziam gloriosos nesses misteres.

O resultado foi além da expectativa: os velhos sonharam com os belos dias de seu passado e mal acreditavam que no homem de setenta anos estivesse aquele mesmo Monte Alverne, que outrora com tanto saber fazia compreender os mistérios divinos da religião; que com tanta energia atacava o vício, e os vaidosos dominadores da Terra; que com tanta melancolia e saudade pranteara a morte da primeira imperatriz do Brasil; e que finalmente com tanto fulgor descrevia os feitos daqueles que bem haviam merecido de Deus, e que a Igreja reverenciava como seus heróis: os moços mal compreendiam o que diante deles se passava, e com dor confessavam que à vista do sermão de Monte Alverne, o intérprete fiel do passado, a tribuna sagrada era hoje triste sombra, pálido reflexo do que fora em tempo de S. Carlos e Sampaio.

Novas sensações, novos combates para a alma do velho franciscano. Com o corpo alquebrado pelos anos, pelos desgostos e pelos trabalhos, sem vista, sem ciência do compacto auditório que o cercava, bem se pode dizer que Monte Alverne falava para o céu, e qual o imortal fundador de sua ordem, apresentava nos gestos, nas feições e na voz aquela divina inspiração que guiara o grande servo de Deus, que mereceu em recompensa gravar em seu corpo os mistérios vivos da paixão do Redentor.

Abre a boca, desprende a voz, e vem depressa esse auditório compacto e imenso, arrebatando pela eloqüência, pela dicção correta, pelas imagens, e pelo acionado animador da palavra, foi levado espontaneamente ao aplauso. Fato virgem e sem exemplo nos anais dos povos.

Mal pensava Monte Alverne que lhe estava reservada uma significação mais grata, mais notável e mais sensível ao seu nome, do que uma mitra sobre a fronte, refulgentes condecorações sobre o peito e títulos pomposos, porque as mitras, as condecorações e os títulos são muitas vezes partilhas da mediocridade, e no entanto o aplauso espontâneo na própria casa de oração, a ovação inesperada pela massa do povo, só pode ser conquistada pelo gênio na circunstância em que estava Fr. Francisco do Monte Alverne.

Na verdade grande peça de eloqüência é esse sermão do qual infelizmente não podemos dar completa notícia, porque não se acha publicado.

Os pequenos trechos que passamos a citar dão uma idéia da grandeza do todo.

Assim é que depois de fazer um brilhante exórdio, ele o continua fazendo transpirar ligeiro queixume que solta sua alma, queixume repassado de unção, porque ele não blasfema contra o autor de seus dias, mostra-se resignado, e só diz — É tarde... É muito tarde!...

"Não, não poderei terminar o quadro que acabo de bosquejar: compelido por uma força irresistível a encetar de novo a carreira que percorri por 26 anos, quando a imaginação está extinta, quando a robustez da inteligência está enfraquecida por tantos esforços, quando não vejo as galas do santuário, e eu mesmo pareço estranho àqueles que me escutam, como desempenhar esse passado tão fértil de reminiscências? Como reproduzir esse transporte, esse enlevo com que realcei as festas da religião e da pátria?... É tarde... É muito tarde!...

Ao terminar estas palavras, levanta-se o sinal de aprovação das massas que aí se agrupavam, parecia que todos sentiam profundamente a dor que nutria o seu peito, traduzida nestas tocantes e eloqüentes frases.

"Seria impossível (continua ele) reconhecer um carro de triunfo neste púlpito que há dezoito anos é para mim um pensamento sinistro, uma recordação aflitiva, um fantasma infenso e importuno, a pira em que arderam meus olhos, e cujos degraus desci só e silencioso para esconder-me no retiro do claustro. Os bardos do Tabor, os cantores de Hermon e de Sinai, batidos da tribulação, devorados de pesares, não ouvindo mais os ecos repetirem as estrofes de seus cânticos, nas quebradas de suas montanhas pitorescas; não escutando a voz do deserto que levava ao longe a melodia de seus hinos; penduraram seus alaúdes nos salgueiros que bordavam o rio da escravidão; e quando os homens que apreciavam suas composições, quando aqueles que se deleitavam com os perfumes do seu estilo, e a beleza de suas imagens, vinham pedir-lhes a repetição dessas epopéias em que perpetuavam a memória de seus antepassados e as maravilhas do Todo-Poderoso, eles cobriam suas faces umedecidas de pranto e abandonavam as cordas frouxas e desafinadas de seus instrumentos músicos ao vento das tempestades."

Bela e sublime comparação ampliativa com que o orador descreve o seu estado, e a impossibilidade em que está de repetir aquelas epopéias, que faziam as delícias das gerações que outrora o ouviam.

Termina o seu exórdio com a seguinte apóstrofe, cheia de belezas inumeráveis, e que também faz ver cada vez mais a crença existente de seu espírito, que a religião é a fonte inesgotável e a única de todos os seus bens e de suas inspirações.

"Religião divina, misteriosa e encantadora. Tu que dirigiste meus passos na vereda escabrosa da eloqüência, tu a quem devo todas as minhas aspirações, tu, minha estrela, minha consolação, meu único refúgio, toma esta coroa... Se dos espinhos que a cercam rebentar alguma flor, se das silvas que a enlaçam reverdecerem algumas flores, se um enfeite, se um adorno renascer dessas vergônteas já secas, deposita-a nas mãos do Imperador para que a suspenda como um troféu sobre o altar do grande homem a quem ele deve o seu nome e o Brasil a proteção mais decidida."

Depois de traçar com mão de mestre a vida do herói denodado do Evangelho, depois de fazer a defesa dos serviços prestados pelo claustro, depois de descrever com cores inimitáveis a abdicação de Carlos V, termina a sua narração pintando a morte de Pedro de Alcântara de um modo tão patético que novos murmúrios de aprovação partem do meio do povo que silencioso e absorto o escutava.

"O lidador (diz ele) tinha já dobrado a meta do estádio que levara de vencida. Exausto de forças caiu sobre montões de palmas e grinaldas, que merecera por sua perseverança. Pedro de Alcântara está rodeado por seus irmãos que o observam, choram e admiram. O pobre de Jesus Cristo despe o hábito e pede outro mais velho em que se envolva depois de morto. O superior olha em torno de si, e não encontrando quem ostenta igual desprezo, veste a relíquia inestimável e lhe dá em troco a sua túnica. O corpo do penitente assemelha-se às raízes ressecadas, sua pele está denegrida e queimada com o fogo da mortificação. O frio da morte agita seus membros luzidos e descarnados. Um moço religioso aproxima-se e intenta estender sobre ele um lençol: re-tira-te, grita o lidador: ainda há perigo, o inimigo está em presença, ainda não cessou o combate! O justo imprime os seus lábios no sinal adorável da redenção... Pedro de Alcântara subiu ao trono de Deus."

Era na verdade aquele mesmo orador sagrado que nos tempos de sua força e mocidade, fazendo o panegírico de S. Sebastião, exclamava:

"Eis aqui, senhores, o protetor que o céu nos concedeu, o anjo tutelar que defende os muros desta cidade heróica, desta pátria amada, país clássico da liberdade brasileira, escolho terrível do despotismo; que debaixo de mil cores, que debaixo de mil formas tem procurado enxovalhar a terra de Camarão, de Bueno e de Negreiros. Salve, ó pátria minha, ó terra de minha mãe, ó país em que descansam as cinzas veneráveis de meu pai! São passados duzentos e sessenta e quatro anos que teus bravos filhos proclamaram no meio dos mais ardentes aplausos a intervenção do homem extraordinário, que reanimando o valor de nossos batalhões afugentou de nossas praias esses ferozes opressores que pretendiam lançar sobre nossos pulsos o cadeado infame da escravidão e do opróbrio. Cingida de glória, cercada de ilustração, tu justificas da maneira a mais completa que a sorte dos povos está confiada a uma providência que zomba das paixões e ilude a política dos homens. Tu serás grande, tu serás venturosa, assim está escrito, assim está decretado."

É ainda o mesmo Monte Alverne que, pregando por ocasião do aniversário do juramento da Constituição, proclama idéias de puro direito público e dá conselhos salutares àqueles que tiveram a ventura de nascer em um país regido por código tão sábio e tão perfeito; assim se exprime:

"Quando todas as nações da Terra se deixassem envilecer pelo cativeiro, quando todo o mundo se desonrasse abraçando uma di-reção que degrada e embrutece o homem; cada um de nós cerrando o coração às suas mais caras afeições deve defender a todo o transe esta árvore misteriosa que encerra a semente da prosperidade nacional. Não permita Deus que tenhamos outro procedimento. Os verdadeiros filhos de uma pátria degenerada não podem encontrar algum pretexto para violar uma convenção regulada pelos princípios da justiça. Repeli com horror todas as insinuações que tendem a destruir o edifício social. Um anátema de execração fulmine aqueles que pregando a doutrina do absolutismo apagam os brasões de vossa glória; e lisonjeando-vos com as idéias de uma liberdade sem limites procuram submergir-vos em horrores da anarquia, depois de mostrar-vos à face do universo, como infra-tores desta constituição, que só pode afiançar o vosso engrandecimento."

Eis aí a doutrina de um verdadeiro sectário da monarquia constitucional, que odeia o despotismo e que despreza e fulmina a liberdade licenciosa.

É esse trecho eloqüente paráfrase de versículos do livro dos Macabeus.

É sempre o grande Monte Alverne, o defensor da religião, o amigo dedicado de seu país, propugnador pela conservação das instituições e de trono.

Eis como de repente passou o gênio do silêncio à vida brilhante! Maiores serviços lhe foram ainda exigidos. Monte Alverne não se negou a eles, e, obediente ao convite do excelso monarca brasileiro, fez o panegírico da Virgem Mãe do Salvador, hino pomposo tecido à sua Assunção, e recitado na igreja da Glória do Outeiro, no dia 15 de agosto de 1855.

Este novo sermão, complexo de beleza, é ainda digno do saber e da ilustração de Fr. Francisco do Monte Alverne. Depois de um magnífico exórdio, entra o orador no assunto de seu discurso, pinta com cores celestes, extraídas dos livros dos profetas e dos evangelistas. Aquela a quem Deus criou para ser a Mãe sempre Virgem do Salvador do homem: a estrela salvadora em nossas tribulações, e a rainha dos anjos, que em contínuos coros evangélicos rodeiam o seu trono de luz; e depois de descrever assim esse quadro do mistério sublime de nossa Santa Religião, ele nos faz ver que essa mulher Santa ab initio, que veio como segunda mãe dos homens reparar os males que causara a primeira, e que, dando à luz o Homem-Deus, regenerou a humanidade, era a pro-tetora sempre constante, sempre vigorosa da Cristandade. E como sempre depois do tributo à Religião, ele não se esquecia de sua outra mãe querida — a pátria, demonstra numa rápida descrição dos acontecimentos históricos, quanto essa proteção fora decidida, e muito principalmente quando as trombetas dos exércitos tocavam festivas a última vitória. A esse som amado desperta-se eloqüente o setuagenário franciscano e exclama:

"Não nos pesamos de asseverar: o Brasil não tem que pretender de sua preclara interventora outros documentos da afeição mais apurada. A concórdia restabelecida; a tolerância extirpando ou moderando ódios inveterados e animosidades mal extintas; melhoramentos materiais considerados outrora qual a representação de um sonho; a façanha de Monte Caseros, restaurando a vergonha de nossas armas nas margens do Ituzaingó, e afugentando esse déspota popular que nos atirava a todo o instante o cartel de desafio, e cuja presença no poder era uma ameaça para o Brasil, e uma afronta ao Império; a passagem do Tonelero ganhando para a marinha militar uma auréola que deslumbrou as proezas do Obligado e São João de Ulloa, são o mais belo relevo a este reinado que levará ao término do orbe o renome brasileiro, e com ele a alta fama de seu abalizado monarca."

E se alguém houver ainda que pense que a causa que deu lugar ao esquecimento do infeliz cego, por doze anos, foi quiçá alguma idéia vertiginosa que sustentasse na época do perigo para a monarquia, risque de sua lembrança semelhante pensamento, e para capacitar-se que o Alverne falando ao século foi sempre sustentador da monarquia constitucional, leia o seguinte trecho do panegírico de Nossa Senhora da Glória:

"Não está ainda tão viva a lembrança desses dias de luto, de terror e incerteza em que o Brasil achou-se a braços com essa fatal mi-noridade, o escolho em que tem vacilado as monarquias mais bem organizadas? Quem acreditaria que um príncipe de cinco anos pudesse comprimir a anarquia, e assegurar um paradeiro à guerra civil, que assolava nossas sociedades e todas as nossas províncias? Quem se jactaria de predizer as conseqüências dessas idéias exageradas, desses projetos sinistros, dessas aspirações criminosas, que punham em risco o padrão indelével do bom senso dos brasileiros? oh! nunca foi mais justamente apreciado o influxo benéfico da realeza; nunca foi mais valioso este prestígio que torna tão venerável a majestade dos reis!... Ao fragor do incêndio que reduzia a cinzas nossas povoações, ao tinido lúgubre dos punhais fratricidas que votavam a uma vingança estúpida centenares de vítimas, à inauguração desses festins selvagens, em que o canibalismo dava os mais frenéticos emboras ao roubo, à devastação, à barbaridade e à ignorância, Deus nos deparou no Príncipe com que nos mimoseara, o termo de tantos danos, e a aurora de uma felicidade que não nos era dado lobrigar."[9]

A peroração desse panegírico é igualmente de um magnífico efeito, e só respirando os perfumes das flores delicadamente colhidas pelo exímio Alverne na fonte fecunda de suas inspirações — a Religião e o Evangelho.

Este belo sermão já não pôde ser recitado como fora o de S. Pedro de Alcântara. A enfermidade tinha caminhado a passos de gigante, e Monte Alverne havia-se levantado do leito da dor, para ir prestar essa homenagem à Glória de Maria, em nome do magnânimo chefe dos brasileiros.

Apesar dos sofrimentos do corpo, continuava sempre ativo o seu espírito, e assim ainda depois disso fez o exame e crítica do poema —Tamoios — composição do distinto poeta Domingos José Gonçalves Magalhães; preparava-se para dar o seu parecer sobre a obra do mesmo —Fatos do Espírito Humano — sobre a grande questão mais importante da atualidade — o casamento misto — e ainda em sinal de respeito a SS. Padre Pio IX propunha-se a fazer o panegírico da Conceição, no dia 26 de dezembro do corrente ano na igreja da Ordem Terceira da Conceição, quando foi surpreendido pela morte.

Eram vãos desejos de seu espírito que não recuava logo que se tratasse de glorificar a religião de Jesus Cristo, mas que se quebraram de encontro à fria laje da sepultura.

§10º

Não foi só do grande mundo do século que Monte Alverne sofreu desprezos e perseguições; no mesmo claustro houve quem, desconhecendo seu mérito, e sua reputação, o tratasse desapiedadamente, e o que é mais para admirar que esse pouco caso tenha partido de quem com ele havia sido contemporâneo.

A Providência Divina fez com que o século acabasse respei-tando-o e reconhecendo seus serviços, fez com que também no claustro fosse ele reverenciado: e esta consideração e esse respeito deram-se logo que saiu ministro provincial o mui distinto e esperançoso fluminense Fr. Antônio do Coração de Maria e Almeida, que era seu extremoso amigo, e havia sido seu discípulo, coadjuvado pelo guardião Fr. João do Amor Divino Costa.

E assim devera ser, porque Monte Alverne acreditava firmemente no futuro, acreditava que só os moços lhe haviam de fazer justiça: sua crença era bem fundada, porque a mocidade não é egoísta, e comentusiasmo tributa veneração e respeito àqueles que fazem a glória do passado, e que lhe podem servir de modelos para o presente e o futuro.

§11º

No dia 29 de novembro de 1858, estando Monte Alverne em Niterói, em casa de um amigo, para onde se havia retirado, não só para distrair seu espírito, como para completar o seu trabalho sobre os casamentos mistos, foi acometido de uma congestão cerebral, que pela terceira vez o atacava, e apesar dos esforços da arte, rodeado de seus amigos, e de seus irmãos, que haviam corrido em seu socorro, e que lhe ministraram os últimos serviços da religião, às 11 horas da noite do dia 2 de dezembro do mesmo ano passou ao sono eterno e à mansão dos justos.

Morreu justamente no dia em que o excelso monarca, o amigo a quem sempre dedicara grata afeição, completava 33 anos, como se quisesse que o monarca brasileiro quando pensasse no dia faustoso de seu nascimento tivesse uma lembrança do pobre franciscano, a quem tanta consideração dera em sua vida, a ponto de o ir ver em sua própria cela depois de seu grande sermão de S. Pedro de Alcântara.

Apenas S. M. I. teve notícia do passamento de Fr. Francisco do Monte Alverne, ordenou que o seu corpo fosse conduzido ao cais da cidade, em uma de suas galeotas, e daí aos jazigos de sua ordem em um coche de sua imperial casa; e por outro lado o mui digno provincial Fr. Antônio do Coração de Maria mandou que o corpo fosse antes embalsamado, em sinal de respeito e piedade ao preclaro varão que acabava de desaparecer da face da Terra; os desejos do provincial encontraram no Dr. Peixoto a melhor execução, o qual generosa e gratuitamente tudo fez para esse fim.

Na tarde de 4 de dezembro, pelas 5 horas da tarde, abordou ao cais a galeota imperial, que vinha impelida por branda viração trazendo os restos mortais de Monte Alverne; numerosos e dedicados amigos aí o esperavam, e pegando no caixão o levaram até o carro que o conduziu junto à ladeira do convento. A comunidade trazendo à sua frente os irmãos da Ordem Terceira da Penitência, de cruz alçada e dirigida pelo provincial, recebeu o caixão que levado à igreja foi daí conduzido, depois das orações do estilo, à capela onde foi depositado.

Grande foi o concurso de povo que assistiu às últimas honras prestadas ao talento, aos serviços e às virtudes do digno fluminense.

S. M. I. querendo ainda por sua alta vontade dar um sinal do apreço e consideração que lhe merecia o finado mandou assistir ao funeral o seu mordomo-mor, conselheiro Paulo Barbosa da Silva, general Cabral, e o camarista Nogueira da Gama. Encerrado o caixão e fechado, foram as chaves entregues ao mordomo de S. M. I.

Descansa em paz, ó Monte Alverne! Lidador forte e invencível das glórias do cristianismo e de tua pátria. Foste ainda assim mais feliz que os companheiros de tuas lutas.

Como eles, morreste simples frade da Ordem Seráfica da Imaculada Conceição, e assim devera ser para maior glória, porque teu saber, teus serviços traduziam-se em um nome que não devera desaparecer, e com esse nome desceste ao túmulo. Então como hoje, és sempre Fr. Francisco do Monte Alverne.

Mas, enquanto dos outros só existe a memória, porque nem de seus jazigos, nem de seus restos há notícias, o teu corpo aí está como relíquia das glórias dessa casa, para ser mostrada aos vindouros, re-sumindo-se em teu cadáver tudo quanto de grande ostentou o passado desse claustro.

Descansa em paz, ó Monte Alverne! Teus desejos estão cumpridos: querias sair deste mundo com a doce consolação de que de ti se tivesse uma lembrança honrosa, e que sobre a tua sepultura se derramasse uma lágrima ardente.[10] A memória não se destruirá jamais, as lágrimas de teus amigos foram abundantes e espontâneas.

Está vingada a memória do grande S. Carlos, do imortal Sampaio: gratidão ao atual prelado da Ordem Franciscana Fr. Antônio do Coração de Maria!

Notas[editar]

  1. Prólogo das Obras oratórias de Monte Alverne.
  2. Livro dos assentos dos religiosos da Ordem Seráfica da Conceição do Rio de Janeiro, à fl. 34.
  3. Discurso recitado por Porto Alegre junto ao cadáver por ocasião de se dar este à sepultura.
  4. Improviso feito por Monte Alverne na inauguração do Ensaio Filosófico.
  5. Prólogo das suas obras oratórias.
  6. Panegírico de S. Sebastião. Obras oratórias.
  7. Prólogo das mesmas obras.
  8. Prólogo das Obras oratórias de Monte Alverne.
  9. Panegírico de Nossa Senhora da Glória, em 15 de agosto de 1855.
  10. Conclusão de suas Obras oratórias.