Galeria dos Brasileiros Ilustres/Nicolau Pereira de Campos Vergueiro

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
Nicolau Pereira de Campos Vergueiro


A vida deste varão ilustre é uma das mais importantes entre todas que têm avultado no Império do Brasil. Este nome já era conhecido na revolução constitucional de 1820, que tinha abalado todo o Império português, e se foi engrandecendo todos os anos à proporção que as idéias liberais iam triunfando da rotina, e dos princípios velhos de opressão.

Desde que tomou assento nas Cortes portuguesas, como deputado pelo Brasil, até hoje, o Senador Vergueiro tem sido fiel e firme às convicções liberais moderadas. A inconstância dos interesses, a modificação que o tempo imprime sobre quase todos os homens e até sobre as próprias coisas, não arrefeceram seu ânimo robusto na defesa das máximas constitucionais.

Nunca foi surpreendido em contradição política, nem tampouco em divergência com o passado. Firmou-se no Partido Liberal por espontânea tendência, progrediu com ele, e sofreu resignado nos dias infelizes.

Sempre que subiu as escadas do poder, foi por provocações de seus correligionários e exigências da situação, e não por solicitações suas. Pode-se dizer com toda a franqueza que o Senador Vergueiro não possui o vaidoso amor do poder. Por mais salientes que tenham sido os postos de honra e governança que ocupou, não serviram para a prosperidade de seus parentes. O nepotismo não anuviou seu governo, de justiça e abnegação.

Dotado de um espírito ilustrado e tenaz, de uma vontade robusta, e lógico no governo, jamais voltou o rosto à verdade e à desgraça, não desanimou aos amigos, não ofendeu aos adversários, não provocou excessos, ainda nos períodos mais críticos. Nos grandes conflitos consultava sua consciência como a um juiz infalível; a decisão dela equivalia à ação.

Na vida pública tem sido um exemplo de fidelidade, na vida privada um belo modelo de cidadão e pai de família.

Eis os contornos gerais de sua bela fisionomia moral; entremos nos fatos históricos, não para traçar sua biografia, que só mais remota posteridade escreverá como cumpre, porém simplesmente uma breve notícia, que sirva para atestar que tão avultado é o seu mérito que, sendo ainda vivo, nem por isso é esquecido.

Nicolau Pereira de Campos Vergueiro nasceu em 20 de dezembro de 1778, na freguesia de S. Vicente Ferrer, no lugar de Valporto, termo naquela data da cidade de Bragança, no reino de Portugal.

Em 1801 formou-se na Universidade de Coimbra bacharel em direito civil. Passou no ano seguinte a residir na província de São Paulo, onde exerceu a advocacia, e ali casou com D. Maria Angélica de Vasconcelos, filha do capitão José Andrade de Vasconcelos.

Menos afeiçoado às chicanas do foro do que dedicado ao serviço da sua pátria adotiva, e obedecendo tanto aos próprios desejos, como ao exemplo de seus maiores, consagrou o seu tempo aos melhoramentos agrícolas; e para executá-los, deixou a banca e foi residir no sertão Piracicaba, onde a sua influência inteligente produziu em pouco tempo notável desenvolvimento na pequena indústria que ali então se mantinha.

Em 1821, rebentando a revolução em São Paulo, foi inopinadamente nomeado membro do governo provisório; e apesar da pouca afeição que votava aos cargos públicos, aceitou aquele, dizendo: "Não sei como sairei: mas embora fique mal com todos, hei de ficar bem com a minha consciência."

Seguindo-se logo depois as eleições para as Cortes constituintes de Lisboa, foi nomeado espontaneamente deputado, contra o voto do Dr. José Bonifácio de Andrada, vice-presidente do governo provisório, que na mesa eleitoral disse-lhe mostrando a sua cédula: "Sou franco, não voto no senhor, porque faz muita falta ao governo."

Partiu no entanto o novo deputado para Lisboa, onde chegou em fevereiro de 1822, encontrando a notícia dos decretos que mandavam regressar o príncipe regente, e aboliam os tribunais do Rio de Janeiro.

Constando então a impressão desagradável que esses atos do poder haviam causado no Brasil, nomearam as Cortes para sindicar do seu alcance a uma comissão mista de doze membros, em cujo número entrou o Sr. Vergueiro.

Como membro dessa — comissão política dos negócios do Brasil, — provou o Sr. Vergueiro o quanto lhe fervia na alma o afeto generoso que consagrava ao Brasil.

Apreciador e juiz imparcial dos fatos, escreveu sobre eles um voto em separado, que se denominou justamente — a proclamação mais enérgica da independência do Brasil.

Achando-se fora de Lisboa foi convidado pelo secretário das Cortes para assinar a constituição, e respondeu por escrito que "quando estivesse presente, a não assinaria, por não serem nela atendidos os interesses da nação constituída".

Voltando ao Rio de Janeiro, tomou assento na Assembléia Constituinte que funcionava, e ali defendeu, como o fizera nas Cortes lis-bonenses, a causa do país novo, que devia medrar sob o auspício da liberdade constitucional, que a opinião menos provecta do povo começava a preferir ao jugo rotineiro das praxes e das doutrinas do absolutismo.

Em 12 de novembro de 1823, dissolvida a Assembléia Constituinte, e invadida a casa dos trabalhos legislativos, foi o Sr. Vergueiro preso com outros representantes e conduzido à fortaleza de Santa Cruz, onde se achavam os Srs. José Bonifácio de Andrada, e vigário Belchior, ilustres sócios de seu martiriológio, que uma semana depois viu arrastar ao degredo entre outros encarcerados.

Solto, o Sr. Vergueiro regressou talvez com mais ardor ao pacífico remanso onde a sorte ainda não permitiu que corressem calmos os seus dias.

Eleito deputado nas subseqüentes eleições, e proposto senador pelas províncias de S. Paulo e Minas Gerais, tomou assento no ano de 1826 na câmara eletiva e nela continuou no seguinte, distin-guindo-se com assiduidade nos importantes debates que ali foram encetados.

Em 1828, tendo apenas assistido à primeira sessão preparatória, foi atacado de uma violenta febre cerebral que pondo em risco a sua existência como que tornou mais evidente o seu mérito sendo, enfermo como estava, escolhido senador sob nova proposta da província de Minas Gerais.

Em 1830, sofrendo ainda os efeitos da moléstia que o prostrara, foi o Sr. Vergueiro chamado a formar o novo gabinete, encargo que aceitou convidando para as diferentes pastas aqueles de seus amigos de cujo devotamento e patriotismo mais esperava, na época turva em que assumiam o poder.

Na revolução de 1831, tendo o Sr. Vergueiro ficado no Rio de Janeiro durante as férias parlamentares, foi um dos signatários de uma representação enviada ao governo por 24 deputados, sobre as necessidades urgentes da situação.

Progredindo porém a onda revolucionária apareceu no dia 6 de abril a demissão do Ministério seguida da relação dos novos ministros, da suspensão de garantias, e de ordens de prisão em que figurava o seu nome.

No dia seguinte em face do novo gabinete, que nada empreendia a bem da tranqüilidade pública, reuniram-se os revoltosos no Campo da Aclamação, e ali pediram em massa a reintegração do ministério demitido.

Apesar de aceita a substituição dos ministros, e declarando-se que o Sr. Vergueiro seria incumbido dessa tarefa, não diminuiu a efervescência do povo ao qual começavam a reunir-se alguns corpos de linha.

Seguiu-se a abdicação do Imperador, tendo sido demitido o novo gabinete com exceção do Sr. marquês de Inhambupe.

Houve então uma reunião em assembléia geral dos deputados e senadores existentes na corte, que concordaram na nomeação de uma regência provisória para a qual foi eleito o Sr. Vergueiro com mais dois membros.

Nessa posição suprema o já encanecido servidor do estado não desmentiu os precedentes honrosos de seu belo caráter, mantendo a ordem e semeando a paz em uma quadra tão melindrosa.

Em 1833, apesar do mau estado de sua saúde, entrou no Ministério do Império, e serviu interinamente no da Fazenda.

Em 1835, sofreu uma gravíssima moléstia do coração cujos estragos nunca mais pôde sanar.

Em 1837, foi nomeado diretor do curso jurídico de S. Paulo, cargo que por comprazer exerceu até 1842, tendo antes pedido, por enfermo, ser dele dispensado.

Em 1840, discutindo-se a grave questão da maioridade votou a favor dela como necessidade irrecusável, e em 1841 por ocasião da coroação do Sr. D. Pedro II, foi agraciado com a grã-cruz do Cruzeiro.

Em 1842, um desgosto profundo veio ferir inesperadamente o honesto e leal representante do partido liberal do país. Abafada a revolução de S. Paulo, era mister responsabilizar por ela a alguém, e contra toda a expectativa recaiu a escolha no cidadão pacífico, que jamais pretendera firmar com o sangue e o fogo os princípios políticos que abraçava e sustentara na tribuna.

O Senado porém julgou improcedente esse processo, em que em vão se procurava lançar um labéu desairoso sobre um benemérito do país.

Em 1847, ocupando provisoriamente a pasta da Justiça, fê-lo por mais tempo do que esperava, do que resultou-lhe novo acesso de febre cerebral que quase o deixou sem vida.

Aqui se pode considerar terminada a aura política do Sr. Vergueiro, pois, se ainda hoje, como senador, eleva a voz trêmula no mesmo recinto em que colheu as palmas de orador, é para pugnar pelos interesses da colonização do país, a cujo estudo e desenvolvimento há longos anos se dedica, colhendo lisonjeiros frutos dessa pertinácia na prosperidade da colônia que tem estabelecida em suas terras, na província de S. Paulo.

Contando atualmente oitenta anos de idade, o Sr. Vergueiro aparece aos olhos da geração presente como um vulto grandioso do cidadão probo e honesto, do estadista íntegro, e do representante fiel de um partido que se ufana de o ter por decano.