Galeria dos Brasileiros Ilustres/Teófilo Benedito Otoni

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
Teófilo Benedito Otoni


<bi>A</bi> cidade do Serro, antiga Vila do Príncipe, orgulha-se com justa razão de ter sido o berço do cidadão eminente, de cuja vida vamos dar uma rápida notícia.

A 27 de novembro de 1807 nasceu naquela povoação do norte da província de Minas Gerais o Sr. Teófilo Benedito Otoni, fruto da união legítima de Jorge Benedito Otoni e de D. Rosália Benedita Otoni.

Sua família paterna é originária da Itália, terra clássica dos grandes cidadãos. Em princípio do século passado seu terceiro avô Manuel Antão Otoni, forçado a deixar Génova, sua pátria, asilou-se em Portugal. Depois de cinco anos de residência em Lisboa naturalizou-se súdito português a 7 de dezembro de 1723, e transportou-se com sua família para a cidade de São Paulo.

Ignoramos se desta cidade a família Otoni passara-se imediatamente para a Vila do Príncipe. É porém certo que Manuel Otoni, avô do Sr. Teófilo Otoni, ali exerceu o emprego de fundidor na intendência do ouro.

Jorge Benedito Otoni não possuía riquezas; vivia com sua família nessa modesta abastança que dá o trabalho honesto. Em compensação era rico de sentimentos elevados e conhecia com justiça todo o valor de uma boa educação.

Deus concedeu-lhe um favor que raras vezes dispensa: numerosos filhos que fizeram o enlevo e o orgulho de sua vida.

Ao Sr. Otoni, seu filho primogénito, deu a educação literária que era possível em uma povoação central da colônia portuguesa. No estudo da língua latina revelou o Sr. Otoni essa memória vasta, essa inteligência fácil e brilhante que com o correr dos tempos desenvolver anise com tanta felicidade.

Terminados os estudos de latim, o jovem Otoni dedicou-se à carteira comercial. No círculo acanhado de uma povoação central, cujo comércio aliás estava peiado pela disposições vexatórias e tirânicas da administração dos diamantes, os recursos de sua inteligência eram impotentes. O jovem Otoni achava-se evidentemente fora do elemento que seu espírito buscava. A vida comercial consumia-lhe o tempo, sem vantagem alguma.

Uma circunstância feliz veio dar à vida do jovem serrano a direção que mais lhe convinha. Os acontecimentos políticos de Portugal, que por sua vez quis associar-se à obra da regeneração social que desde os fins do século passado ocupava a Europa e as colónias americanas, repercutindo com força no Brasil, encheram de entusiasmo pela causa da liberdade a todos que possuíam sentimentos generosos. Desde então ficou assentado que o jovem Otoni viria pedir à capital do Brasil a instrução superior que não podia obter em uma povoação de província.

Matriculado em 1827 na academia de marinha, dedicou-se seriamente ao estudo das matemáticas, e dentro em pouco tinha conquistado a reputação de primeiro estudante da academia.

O brilhante exame que fez no fim do primeiro ano valeu-lhe uma portaria do ministro da Marinha de então, Diogo Jorge de Brito, ordenando que se lhe desse praça de aspirante graduado em guarda-ma-rinha, distinção que nem antes, nem depois, nem na armada portuguesa, nem na brasileira fora conferida a estudante algum.

Ao passo que se aplicava com ardor aos estudos académicos, o jovem Otôni achava tempo para explicar geometria, e para relacionar-se com os patriotas mais distintos daquele tempo.

Como ele mesmo o diz, Evaristo e Vasconcelos o acariciavam como que pressagiando-lhe brilhantes destinos.

Bem pudera o Sr. Otôni continuar tranquilamente a carreira que havia escolhido. Se o seu comportamento não se tornasse suspeito, se se houvesse limitado às suas matemáticas, estamos certos que não teria encontrado embaraços. Mas um estudante de inteligência superior, que travava relações com homens como Evaristo e Vasconcelos, os anarquistas de então, que fazia parte de sociedades secretas e que tinha a audácia de, como escru-tador liberal da mesa paroquial do Sacramento, advogar com calor a causa popular e propor que fosse multado o ministro da Guerra, um tal estudante não podia pretender as boas graças do poder.

Cedo teve o Sr. Otôni ocasião de conhecer as boas disposições que haviam a seu respeito. Tendo completado o curso de marinha, requereu para continuar os estudos matemáticos na escola militar. Os crimes de que se havia tornado réu não lhe davam direito ao menor favor. Negou-se-lhe a licença requerida!

Entretanto, esperando talvez que mais tarde lhe fizessem justiça, começou a frequentar, como ouvinte, as lições do ilustre patriota, o Sr. Joaquim José Rodrigues Torres, hoje visconde de Itaboraí, então lente de mecânica na Escola Militar.

"Não sei, diz o Sr. Otôni na sua circular aos eleitores de Minas, onde o Sr. Rodrigues Torres enlevava mais o seu discípulo, se na academia, iniciando-o nas fórmulas de Francoeur e de Poisson, se nas palestras do livreiro patriota, explicando as belas teorias de Jefferson, de que S. Ex^ era caloroso encomista e eloquente expositor."

A ligação do Sr. Otôni com o Sr. Rodrigues Torres incomodava sobretudo os homens do poder, que lhe moveram a mais desabrida perseguição. A decidida má vontade do Governo, que se traduzia em ordens de embarque para a costa da Africa e para o baixo Amazonas, e em outros vexames de natureza semelhante, desviou o Sr. Otôni da carreira das matemáticas a que se dedicava com gosto. Aceitou baixa do posto de guarda-marinha e voltou para sua terra natal.

Era no ano de 1830. O Sr. D. Pedro I, por seus desvios, preparava a revolução que trouxe sua abdicação em 7 de setembro[1] de 1831. Os ministros abusavam de um modo revoltante e atraiçoavam o monarca, cujo temperamento ardente dificilmente se acomodava às fórmulas do sistema representativo. As nossas instituições livres que pela prática mal conhecíamos, pois que a Constituição só começara a terprincípiode execução em 1826, eram seriamente ameaçadas. O patriotismo então era um sentimento muito verdadeiro, muito real. A lembrança ainda bem viva do despotismo dos tempos coloniais, o desvanecimento de uma nacionalidade que se fundava, o ódio a estrangeiros que pouco antes eram senhores, os receios de uma recolonização, tudo isso despertava o civismo dos brasileiros e levava-os a fazerem séria oposição ao governo.

A alma ardente, entusiasta e sinceramente patriótica do Sr. Teófilo Otôni não podia ser indiferente ao movimento de resistência que se organizava. Pelo contrário, ninguém sentiu melhor do que ele a necessidade de fazer ao governo uma oposição enérgica, que pusesse um termo aos males do país. A imprensa era a arma mais poderosa contra a tirania. Esclarecendo o povo sobre seus direitos, fazendo-lhe conhecer que as liberdades estabelecidas pela Constituição eram sacrificadas, e que o governo absoluto preparava-se para instalar-se em lugar do constitucional, formava a opinião que de uma ou de outra forma acabaria por triunfar.

Animado destas idéias o Sr. Otôni levou para a cidade do Serro uma pequena tipografia na qual a 4 de setembro do mesmo ano começou a publicar a Sentinela do Serro.

Os contemporâneos sabem a influência que a Sentinela exerceu nos acontecimentos que precederam, acompanharam e sucederam a revolução de 7 de abril. Apesar de ser escrita em uma povoação central a Sentinela estava no caso de exercer grande influência no país, já porque a imprensa da corte, pouco desenvolvida então, não tolhia os movimentos das províncias, já porque Minas compreendendo as vantagens de um governo livre tornar-se o principal centro da resistência, e já porque era escrita por um talento superior que tornava interessantes todos os assuntos de que tratava.

As colunas da Sentinela eram animadas de um patriotismo verdadeiramente antigo. Nenhum dos jornais da época profligou com mais talento, com mais calor, com mais eloquência os fatais desmandos do primeiro reinado.

A Sentinela inspirava ao povo amor à liberdade, ódio à tirania, iniciava-o no conhecimento dos seus direitos e pregava francamente a resistência à opressão. A divisa da Sentinela era o seguinte: o fim de toda a associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem; estes direitos são a liberdade, a segurança, a propriedade e a resistência à opressão.

A doutrina da Sentinela não era simplesmente uma teoria pregada no silêncio do pacífico gabinete do jornalista. A época era de sacrifícios, de dedicações, de civismo. Os cidadãos, sempre que a pátria o reclamava, traduziam em fato essas teorias em que confiavam.

A notícia das cenas de 13 e 14 de março do Rio de Janeiro o redator da Sentinela chamou o povo às armas, no dia 6 de abril reuniu-o na câmara municipal, formou uma caixa militar, organizou completamente a existência armada.

Ninguém faz ideia do entusiasmo da população daquela cidade central com a notícia do 7 de abril recebida poucos dias depois. O triunfo da democracia foi dignamente celebrado com festejos populares.

Não havia mais receio de despotismo. Funcionava o governo democrático da regência; mas a obra patriótica não estava terminada. Cumpria realizar nas instituições as aspirações da opinião, traduzir em leis as idéias que haviam dado o triunfo à oposição nacional.

A Sentinela do Serro continuou, pois, sua missão. Pouco depois, em 25 de junho de 1831, o Sr. Otôni propunha as reformas constitucionais que julgava necessárias. Essas as reformas consistiam no cerceamento das atribuições do Poder Moderador, na organização das assembleias provinciais e na abolição da vitaliciedade do Senado.

Pouco tempo depois o redator da Sentinela organizava no Serro a sociedade Promotora do Bem Público, que se tornou célebre em todo o país por ter convidado as sociedades patrióticas de Minas e das outras províncias a influírem para que os eleitores dessem aos futuros deputados poderes constituintes, se acaso o Senado rejeitasse o projeto de reforma que havia passado na Câmara.

As opiniões arrojadas do redator da Sentinela suscitaram-lhe perseguidores. A folha foi chamada aos tribunais e absolvida. Algum tempo depois, a 17 de março de 1832, cessava a publicação da Sentinela com o nº 80.

Ocupamo-nos deste jornal com alguma extensão porque entendemos que nele se acha a explicação de tudo quanto o Sr. Otôni tem sido e tem feito posteriormente. Aí estão consignadas as opiniões políticas que fazem sua glória, e que ao mesmo tempo têm servido de pretexto às perseguições que seus inimigos lhe têm movido.

Nessas folhas escritas aos 23 anos encontram-se esses sentimentos puros e patrióticos que mais se têm acrisolado com a idade e com experiência, e que desde então tornaram o objeto das simpatias populares.

A Sentinela recomenda-se ainda por uma qualidade bem rara naquela época — um estilo correto, fluente e por vezes eloquente. Jamais empregava essa linguagem pouco nobre de que, à exceção da Jlurora^ usavam quase todos os jornais do tempo.

Depois de março de 1832 o Sr. Otôni continuou na vida comercial a que se havia dedicado desde que regressou para a cidade do Serro. Dessa profissão, exercida com a honestidade que sempre caracterizou sua família, é que o Sr. Otôni tirava seus meios de subsistência, lançando ao mesmo tempo as bases dessa fortuna que depois sacrificou em parte em benefício do país.

No fim do ano de 1834, o nome do Sr. Otôni, ilustrado pelo talento e patriotismo revelado na imprensa, foi lembrado pelos mineiros na ocasião da primeira eleição de membros da assembléia provincial, à qual não foi candidato.

Os louros de jornalista não emurcheceram na tribuna. O jovem deputado tornou-se imediatamente notável pelo seu talento oratório, realçado pelo patriotismo mais ardente.

Em 1837 foi eleito deputado à assembléia geral legislativa. Aí estão os jornais do tempo para provar que desde sua entrada para a Câmara o Sr. Otôni conquistou na representação nacional um dos lugares mais distintos. Com a coragem que sempre o distinguiu censurava energicamente a tendência retrógrada dos governos do regente Araújo e Lima.

O profundo descontentamento que o governo da regência havia causado a todo o país tornou popular a ideia da maioridade. O Partido Liberal iniciou-a, propagou-a e afinal realizou-a. O Sr. Otôni não se separou dos seus correligionários. Com eles partilhava a ideia da necessidade de uma mudança no governo do país em ordem e assegurar as conquistas liberais realizadas depois da revolução de 1831. Mas apartava-se deles em um ponto essencial: entendia que o artigo 121 da Constituição não podia ser reformado por lei ordinária, porque contém matéria constitucional. A maioridade para ele era uma medida de salvação pública que os representantes da nação deviam tomar, sujeitando-se depois ao juízo popular.

Neste sentido fez um discurso notável que transcreveu na sua circular. Impressionado com os argumentos do empoeirado direito divino de que alguns liberais pouco adiantados, ou algum tanto tímidos se serviam para justificar a maioridade, declarou bem alto que a legitimidade do segundo imperador nascia da soberania popular manifestada na revolução de 1831, assim como a do primeiro tinha por fundamento a revolução da independência.

Transformadas em decepções as esperanças que os liberais haviam concebido quando conspiraram contra o governo da regência, convertido em lei o projeto de reforma judiciária, restaurado o conselho de estado, dissolvida previamente a câmara temporária, as deputações de S. Paulo e Minas entenderam que o único recurso dos liberais estava em um apelo às armas. Os representantes paulistas comprometeram-se a levantar em sua província uma força respeitável, capaz de fazer recuar as tropas regulares do governo; os mineiros obrigaram-se por sua parte a promover uma manifestação que distraísse as forças legais em proveito dos insurgentes paulistas.

Os mineiros cumpriram o prometido. A 10 de junho de 1842 fizeram o pronunciamento revolucionário na cidade de Barbacena. Quis, porém, a fatalidade que a manifestação coincidisse com a derrota dos liberais paulistas na Venda Grande, e com a retirada da Ponte dos Pinheiros. Vencida a revolução em S. Paulo o movimento em Minas não tinha mais objeto. Entretanto era tal o entusiasmo dos mineiros, tal a indignação causada pelos atos do governo, que o pronunciamento planejado como um acessório da revolução de S. Paulo tomou as proporções que todos conhecem.

O Sr. Teófilo Otôni achava-se no Rio de Janeiro, onde havia fixado sua residência desde 1838. Na noite de 15 de junho, quando o governo festejava na capital do império a derrota dos paulistas, seguiu para Minas, pelo caminho da terra, iludindo a vigilância da polícia, fazendo viagens forçadas, e arrostando toda a casta de perigos. Ia partilhar a sorte dos seus amigos, já comprometidos com o pronunciamento de Barbacena.

Depois de alguns recontros em que a vantagem ficou do lado dos revoltosos marcharam estes para Santa Luzia. Nas proximidades da

capital da província propôs o Sr. Otôni aos seus amigos que o presidente interino fizesse uma proclamação às forças insurgentes, convidando-as a deporem as armas, visto estar pacificada a província de S. Paulo; que a proclamação fosse presente ao sr. barão, hoje marquês de Caxias, a quem se deviam apresentar os homens mais notáveis que se achavam no acampamento dos revoltosos.

Esta proposta, feita nos últimos dias de julho, não foi levada a efeito. Entretanto desenvolveram-se os acontecimentos, e no dia 20 de agosto foram os revoltosos derrotados em Santa Luzia. Apesar desta derrota os liberais podiam continuar o movimento. O valor de que os mineiros deram provas irrecusáveis, as forças de que dispunham, podiam ter determinado os chefes a prolongarem indefinidamente a revolução, opondo ao exército do governo uma resistência tenaz. Quem sabe se em pouco uma ação decisiva não teria apagado a lembrança da derrota de Santa Luzia, convertida em simples revés?

Prevaleceu, porém, a ideia do Sr. Otôni manifestada perto da capital da província. Depois da ação os chefes deram o movimento por terminado; os militares, acompanhados ainda de forças respeitáveis, foram em Matosinhos declarar perante o subdelegado que as debandavam para evitar o derramamento de sangue mineiro; o Sr. Otôni com alguns outros chefes insurgentes esperaram em Santa Luzia a entrada do exército vencedor e entregaram-se ao Sr. marquês de Caxias.

De Santa Luzia seguiu preso até a capital da província. Homens que não possuíam a inteligência necessária para compreender que um réu de crime político, longe de parecer-se com um criminoso ordinário, revela as mais das vezes uma alma nobre e patriótica, não duvidaram usar para com o Sr. Otôni e seus companheiros de injustificáveis rigores. Cumpre, porém, confessar que esse procedimento indigno cessou no segundo dia de viagem.

Recolhido à prisão do Ouro Preto o Sr. Otôni não ficou silencioso. Nas colunas do líacolomi^, periódico liberal da capital de Minas, discutiu largamente as questões políticas que haviam levado os mineiros ao campo da batalha. Publicou o seu interessante itinerário de Santa Luzia a Ouro Preto, e numerosos documentos relativos ao movimento. O Sr. Otôni preservou das chamas o arquivo da revolução com que prestou um relevante serviço à História, e a todos os comprometidos, que desta puderam confundir as calúnias dos seus adversários e justificar seu procedimento perante a opinião.

"Ainda as algemas nos roxeavam os pulsos", diz o Sr. Otôni na sua circular, "e já estávamos apelando para a imprensa, que tudo salvou."

"Reparávamos assim o grande erro que havíamos cometido recorrendo às armas, mas não cessávamos de estigmatizar os atos inconstitucionais que tinham dado causa ao movimento."

A assembléia provincial de Minas, liberal em sua maioria, pretendeu dirigir uma representação ao Poder Moderador, pedindo anistia para todos os comprometidos na revolução de Minas. Tal era, porém, a confiança do Sr. Otôni e dos outros chefes no juízo da opinião, que influíram para que a assembléia não realizasse seu intento.

A opinião estava com efeito pronunciada a favor dos revoltosos. Na assembléia provincial do Rio de Janeiro discutiu-se a conveniência da anistia; e o autor da ideia, o falecido José Augusto César de Meneses, tratando do Sr. Otôni, pronunciou as palavras que aqui transcrevemos: "Merecerá aqueles epítetos (inimigo da ordem pública, ousado, turbulento, vilipendiador das leis) esse moço, por quem mais se deve encher de orgulho o Serro do que pelas pedras preciosas que rolam pelos leitos dos seus rios, esse moço no qual todas as vezes que penso digo: — Assim foi decerto Catão na sua idade, esperanças do Brasil, se alguma comissão militar lhe não fizer saltar a cabeça, ou se alguma taça ministrada por algum fingido amigo lhe não corroer lentamente as entranhas?"

O cativeiro do Sr. Otôni durou pouco mais de um ano. No fim de setembro de 1845 o júri de Mariana absolveu-o por unanimidade de votos.

Restituído à liberdade, voltou ao Rio de Janeiro onde se entregou à vida comercial com toda a atividade que o distingue.

Político de convicções, patriota sincero, o Sr. Otôni não é desses que entendem que o homem público deve ser um eterno pensionista do orçamento. Desde 1830 tem tido uma larga participação em quase todos os acontecimentos políticos do país, mas não consta que, à exceção do cargo de deputado, tenha exercido emprego público algum retribuído pelo estado. É político porque tem idéias sobre as coisas públicas, e deseja vê-las realizadas; mas nunca formou o mesquinho cálculo de viver à custa dos cofres públicos. Entregou-se com ardor à honrosa profissão de comerciante a fim de conquistar uma posição que lhe garantisse a mais completa liberdade na sua vida pública.

Chamada ao poder em 1844 a opinião liberal, o Sr. Otôni voltou à Câmara dos Deputados. Seu procedimento durante o quinquénio chamado liberal tem sido censurado por alguns. O Sr. Otôni, durante esse período, contra o seu costume, absteve-se da palavra, ou usou dela com muita parcimônia.

Sendo o homem mais popular do partido, passando no público como o inspirador de quase todas as combinações ministeriais desse tempo, não quis aceitar a responsabilidade do poder, como estava nos votos de todos os seus correligionários.

Essas acusações hoje caíram por terra. Não há ninguém que ignore que o quinquénio só por ironia podia ser chamado liberal. É verdade que os liberais estavam no poder, mas acima deles existia uma entidade inconstitucional, uma camarilha que lhes tolhia os movimentos e lhes tirava toda a liberdade de ação. Parece mesmo que havia intenção de inutilizar os liberais, condenando-os a não realizarem nenhuma das idéias por que pugnavam.

Esta situação anómala explica e justifica o procedimento do Sr. Otôni. Deveria ele aceitar o poder sabendo previamente que não poderia pôr em prática suas idéias? Deveria combater os ministérios liberais que faziam esforços para derrocar a influência da facção dominante?

Ao sacudir o jugo colonial o Brasil era um país virgem em todos os sentidos. Não existia a liberdade de enunciar o pensamento. O grande movimento político, científico e literário que agitava e transformava a Europa desde o século passado, era ignorado da máxima parte da nossa população. Apenas alguns homens mais felizes podiam beber algumas noções das novas doutrinas em um ou outro livro que escapava à censura, e à vigilância da polícia colonial, que procuravam entreter no Brasil a mais completa ignorância. Não havia imprensa que discutisse os atos da administração e esclarecesse a população acerca de seus direitos. A declaração da independência e as instituições livres que se lhe seguiram encontraram o povo em um estado quase primitivo. Era preciso pois educá-lo, ensinar-lhe o verbo da era de regeneração que começava.

A imprensa encarregou-se dessa nobre missão. Se o povo brasileiro tem hoje consciência de seus direitos; se, como ninguém desconhece, existe na grande massa da população amor profundamente arraigado às instituições livres, devemo-lo à imprensa e aos seus corajosos sacerdotes.

Nos primeiros vinte anos que se seguiram à independência, a principal questão era a fundação da nacionalidade, a conquista e consolidação de instituições livres, a organização política e administrativa do país. Não havia tempo para mais nada. Essa questão primordial fazia esquecer todas as outras. Conseguidos, porém, ao menos em parte, esses resultados, era mister volver a atenção para outro lado. Tínhamos uma pátria, uma pátria livre, instituições como não possuíam muitas das velhas nacionalidades europeias; mas o Brasil estava inculto, a população pobre pisando sobre tesouros, matas ubérrimas entregues ao selvagem e às feras; não possuíamos estradas; estávamos privados de todos os grandes melhoramentos com que a ciência e a arte modernas têm melhorado a condição do homem.

O desenvolvimento dos recursos materiais do país chamava, pois, a atenção dos homens patriotas e empreendedores. O Sr. Teófilo Otôni foi o primeiro brasileiro que bem compreendeu essa grande necessidade e tratou de realizá-la. É uma glória que não se lhe pode contestar.

Em 1832, quando ninguém pensava em estradas e em navegação de rios, já o Sr. Teófilo Otôni compreendia perfeitamente a necessidade desses grandes melhoramentos. Dominado desde a sua mocidade pela ideia de ligar as povoações do norte e do centro de Minas Gerais com o litoral do Espírito Santo que fica a poucas léguas de distância, acolheu com entusiasmo a companhia inglesa que se propunha navegar o rio Doce e seus afluentes, e foi um dos seus mais úteis auxiliares. Infelizmente a companhia, por não estar o país então preparado para essas grandes empresas, ou por falta de recursos, ou por qualquer outra razão, morreu sem realizar a navegação do rio Doce, que é sem contestação o caminho natural por onde perto de 500.000 habitantes do norte e centro da província de Minas, em um futuro mais ou menos próximo, entrarão em comunicação com o litoral.

A ideia era útil e digna de sacrifícios. O insucesso da Companhia de Navegação do Rio Doce não desalentou o Sr. Otôni. Em 1846 começou ele com seu finado irmão o Sr. Honório Benedito Otôni a estudar a navegação do Mucuri, que explorações recentes apresentavam

como uma via fluvial da maior importância. Feitos os exames necessários, os dignos empresários trataram de obter do governo geral e da província de Minas os privilégios necessários para a realização da sua ideia. Aprovados os privilégios em 1847 passaram a tratar da organização da companhia, para o que em 17 de outubro do mesmo ano apresentaram suas condições, acompanhadas de uma exposição das vantagens da empresa.

Infelizmente a crise financeira que se fazia sentir nas nossas praças embaraçou a incorporação da companhia, que só se realizou, mediante uma prorrogação de prazo, no ano de 1851.

Ninguém faz ideia dos sacrifícios de toda a ordem que o Sr. Otôni fez para levar avante a navegação do Mucuri, que por causa das opiniões políticas do diretor da companhia encontrou adversários desde os seus princípios. Abandonou interesses muito reais do seu comércio, vendeu o seu acreditado estabelecimento e deixando as comodidades do lar doméstico ia passar grande parte do ano a disputar aqueles sertões inóspitos ao selvagem e às feras.

A navegação do Mucuri para o Sr. Otôni não era uma especulação destinada a enriquecer os empresários à custa da credulidade de acionistas iludidos. Os diretores recusaram o favor que a assembléia provincial de Minas quis fazer-lhes subscrevendo previamente a quarta parte das ações da companhia que organizassem. Esse favor realizou-se somente depois que a empresa se achava em plena atividade. Na incorporação provisória da companhia, feita em 1851 com a emissão de mil ações apenas, o Sr. Otôni e seus parentes subscreveram nada menos de 700 ações. A fortuna por ele acumulada em muitos anos de trabalho ia correr os azares da empresa do Mucuri. Nisto, como em tudo o que diz respeito a essa infeliz empresa, sobressai a boa-fé, a lealdade, o desinteresse do Sr. Otôni, e revela-se de um modo inequívoco a confiança que tinha nas vantagens futuras dessa navegação.

Os sacrifícios do infatigável diretor no fim de alguns anos acharam-se de certo modo compensados. Aquilo que há pouco não passava para muitos de um belo sonho convertia-se em realidade. O vapor sulcava as águas do rio levando o calor da civilização àquelas brenhas onde pouco antes dominavam as hordas ferozes dos giporoques. Uma bela estrada, larga e feita segundo todas as prescrições da ciência atravessava o mais espesso das matas, e mais adiante, como por encanto surgia do meio das florestas virgens uma povoação improvisada de um dia para outro, fundada segundo o plano largo e ambicioso dos ianques. As matas onde há pouco as tribos de estúpidos botocudos exterminavam-se reciprocamente, entregues ao braço civilizado do mineiro e do colono europeu transformaram-se em belas fazendas, em ricas plantações. O comércio do norte de Minas encontrava enfim um caminho fácil e cómodo para comunicar-se com o grande mercado do Rio de Janeiro.

É realmente admirável que com o pequeno capital de 1.200 contos o diretor da companhia pudesse fazer tanto. Mais de 50 léguas de estradas regulares, sendo cerca de 30 próprias para rodagem, grande número de colonos europeus dos melhores que têm vindo ao Brasil, importantes estabelecimentos, vapores para a navegação marítima e fluvial, e muitos outros objetos que representam não pequeno valor foram obtidos com esses pequenos recursos.

No ponto em que se achava a companhia não era possível recuar. Havia ainda muito a fazer. Era necessário ligar Filadélfia com Mi-nas-Novas por uma estrada de rodagem igual à que daquela povoação vai a Santa Clara. O Sr. Otôni meditava ainda outras muitas vias de comunicação, muitas outras obras que em pouco deviam mudar completamente a face do norte de Minas e do sul da Bahia.

Esgotados os recursos da companhia, dirigiu-se ao corpo legislativo que autorizou e garantiu um empréstimo de 1.200 contos. Já o governo havia contraído o empréstimo e a companhia recebido por conta 300 contos de réis, quando súbito mudaram-se as vistas do governo imperial em relação à empresa do Mucuri. O Gabinete de 10 de agosto de 1859 suscitou as maiores dificuldades a propósito do empréstimo, e como solução da questão passou o corpo legislativo uma lei autorizando o governo a encampar o contrato, o que se realizou em março deste ano.

Nesta última fase da existência da companhia ainda o Sr. Otôni deu provas do interesse com que procedeu nos negócios do Mucuri: não fez questão da indenização a que tinha direito pelos privilégios que cedeu à companhia.

Na administração do Mucuri o Sr. Otôni prestou um serviço relevante à causa da civilização e de humanidade: provou que os infelizes habitantes das nossas selvas não são incapazes de receber o influxo civilizador. Nas suas relações com os selvagens só empregou os meios dignos de um provo cristão e civilizado.

Proibindo absolutamente que contra eles se empregasse a violência, afagando-os com presentes e com um tratamento humano, conseguiu domar a tradicional fereza das diversas tribos de botocudos, terror de quantos se aproximavam do centro das matas. Ficou plenamente demonstrado que o melhor sistema de catequese não é pólvora e bala como até pensam homens mais ferozes do que os selvagens.

Não é só isto. O Sr. Otôni esclareceu um ponto obscuro da história dos nossos aborígines. Antes da descoberta do Brasil a costa de Porto Seguro era habitada por selvagens da raça dos tapuios. Muitas tribos da raça dos tupis invadiram a costa e obrigaram os antigos habitantes a internarem-se pelas matas. Os tupis, sob diferentes denominações, são os selvagens que os portugueses encontraram na costa, e com os quais contraíram a mais íntima aliança. Passados muitos anos os aimorés, abatirás, pataxós e outras tribos tapuias desceram das suas serras, acometeram os portugueses e seus aliados tupis, e instalaram-se na colônia que de rica e próspera tornou-se mineral. Desfrutaram por algum tempo a sua conquista; mas afinal, vencidos pelas forças que o governo da Bahia mandou contra eles, regressaram ao centro das matas.

A questão histórica a resolver era a seguinte: quais os descendentes atuais dos aimorés, abatirás, pataxós, etc?

Na ausência de dados positivos supôs-se que os botocudos eram os descendentes dos aimorés. Esta hipótese não contestada ia passando como verdade histórica.

O Sr. Otôni depois de amplos e minuciosos exames chegou às seguintes conclusões: 1- Todas as tribos que habitam o vale do Mucuri pertencem à raça dos botocudos; 2- Antes destes, habitaram aquelas matas selvagens de outra raça mais civilizada, da qual restam vestígios no solo como taperas, telhas de antigas habitações, etc; 3- Esta raça foi dizimada pelos botocudos, e seus últimos representantes, sob os nomes de malalis, maxacalis, etc, há alguns anos apresentaram-se em um quartel no Alto dos Bois, pedindo a proteção dos cristãos, que os transportaram para o Jequitinhonha onde existem aldeados; 4^ Os malalis e maxacalis, mais inteligentes, mais aptos para receberem a civilização do que os botocudos, pertencem incontestavelmente à raça tapuia, e são portanto os descendentes dos valentes aimorés. Todas as tribos de botocudos pertencem à raça estúpida dos tupis.

O Sr. Otôni aduz minuciosamente as provas destas proposições em uma interessante carta que em 1858 escreveu ao Sr. Dr. Joaquim Manuel Macedo e que corre impressa.

Os árduos trabalhos da grande empresa do Mucuri não absorviam a extraordinária atividade do Sr. Otôni. O tempo que qualquer outro consagraria ao repouso, empregava ele em assuntos do mais subido interesse social e humanitário. Eleito em fim de 1853 presidente do Monte Pio Geral, fez uma administração que por si só bastaria para fazer a reputação de um homem de inteligência superior, e de um filantropo digno da estima da humanidade. Os fundadores do Monte Pio formulando as idéias das jóias e anuidades, reguladas pela vida média dos instituidores e dos instituídos, tomaram por base o juro de sete por cento que então davam os fundos públicos. Esqueceram-se, porém, de prevenir a hipótese de uma alteração no juro e, o que é pior, não deixaram a fórmula segundo a qual haviam organizado as suas tabelas.

Logo que tomou a si a suprema administração daquele pio estabelecimento, o Sr. Otôni tratou de estudar escrupulosamente a sua organização, e chegou a convencer-se que a continuarem as tabelas existentes, dada a alteração na taxa dos juros, em um futuro mais ou menos próximo o Monte Pio não teria recursos para fazer face a todos os seus empenhos. No notável relatório que apresentou à assembléia geral dos acionistas em 1854 demonstrou que as jóias e anuidades, com os respectivos juros compostos contados até o fim da vida média dos instituidores, não perfaziam a quantia necessária para fornecer a pensão ao instituído durante a sua vida média. Demonstrado isto por algarismos, e por um processo inteiramente seu, estava descoberto o vício que poderia trazer a ruína do Monte Pio no fim de algum tempo, e ao mesmo tempo indicado o meio de prevenir a catástrofe. Ficou demonstrado que a tabela das jóias e das anuidades deve basear-se não só na vida média do instituidor e do instituído, como também na taxa dos juros. Desprezar este último elemento do cálculo seria expor um estabelicimento da maior importância social aos azares das oscilações dos fundos públicos.

O Sr. Otôni organizou novas tabelas de jóias e anuidades tendo em vista o juro de seis por cento então corrente, apresentando o processo de que se serviu para chegar a esse resultado. Não contente com esse trabalho, organizou outra tabela para o caso de descer o juro a 5 1/2 por cento.

Para dar uma ideia da influência benéfica da administração do Sr. Otôni basta lembrar que o fundo do Monte Pio que em 1853 era de 614.000$000, no fim de 1857 elevou-se a 1.531:000$000. Este magnífico resultado é devido às extensas relações do Sr. Otôni e à confiança que a todos inspiravam sua alta inteligência e sua conhecida probidade.

O decénio de 1848 a 1858 foi consagrado todo à patriótica empresa do Mucuri; foi um período de abstenção política. Entretanto o lidador que se assinalara em todas as nossas lutas desde o ano de 1830, não procurava esconder nas solidões do Mucuri a memória de seus feitos, de suas opiniões de outrora. Preocupado com a ideia do grande melhoramento com que queria dotar sua província natal, e além disso bem persuadido que a mão de ferro da reação não dava respiro à opinião liberal, deixou a milícia ativa, mas conservou puras todas as crenças que desde a juventude faziam-lhe palpitar o patriótico coração.

Em 1851 chamado a tomar assento na Câmara dos Deputados como suplente pela província de Minas não aceitou o convite, resignou o lugar de deputado. Procedeu desse modo porque havia anteriormente protestado contra a legalidade da eleição dessa Câmara.

Em 1856 tratando-se de preencher no Senado as vagas deixadas pelos finados marqueses de Paraná e de Valença o Sr. Otôni e seu digno irmão o Sr. C. Otôni dirigiram ao corpo eleitoral mineiro uma circular em que insistiam sobre a opinião que em outros tempos haviam manifestado de tornar-se temporário o Senado brasileiro.

O Sr. Otôni não se apresentou candidato nessa circular; entretanto o corpo eleitoral distinguiu-o com perto de 800 votos, que o colocaram no sétimo, ou, segundo a opinião de muitos, no sexto lugar da lista sêxtupla.

Em 1859 entendeu o Sr. Otôni que era chegado o tempo de volver à vida política. Apresentou-se francamente candidato à eleição de senador a que se ia proceder em 21 de agosto para preencher a vaga deixada pelo finado barão de Pontal. Os mineiros colocaram-no no 1-lugar da lista tríplice.

A morte de Vergueiro abriu uma outra vaga no Senado. O Sr. Otôni de novo dirigiu-se aos seus comprovincianos, que lhe deram mais um testemunho do alto conceito em que o têm, elegendo-o primeiro da lista tríplice.

Não havendo sido escolhido nessa ocasião, em 28 de abril, um dia depois da publicação da escolha do Sr. Manuel Teixeira de Sousa, dirigiu aos eleitores uma circular em que declarava que não era candidato à vaga aberta pela prematura morte do Sr. Luís António Barbosa.

Apesar de declaração tão explícita foi de novo oferecido em lista tríplice à escolha imperial.

Avizinhava-se a eleição de deputados gerais para a legislatura de 1861 a 1864. O Sr. Otôni apresentou-se candidato ao lugar de deputado pelo % distrito de Minas Gerais. A circular que então dirigiu aos eleitores, sendo uma memória completa de toda a sua vida pública, é também um dos mais interessantes documentos para a história política de 1829 até 1860. O ilustre mineiro nunca manifestou com mais brilho seu ardente patriotismo e os dotes superiores de sua inteligência. Escrita com a nobre franqueza que o distingue, em um estilo vivo e cheio de animação, essa circular foi um verdadeiro acontecimento político. Foi lida com avidez por amigos e adversários, que confirmaram a elevada opinião que formavam de seu autor.

Restituído à vida política o Sr. Otôni desenvolveu uma atividade admirável nas eleições primárias da corte. Soube despertar nas massas populares o entusiasmo pelas idéias democráticas; provou aos mais incrédulos que o povo brasileiro é essencialmente liberal, e que as urnas serão contrárias à opinião conservadora sempre que não forem prostituídas pela fraude ou pela violência.

O Sr. Otôni distingue-se pelo seu amor às letras. Os numerosos relatórios do Mucuri, a circular que temos citado, a memória sobre os nossos indígenas, e outros escritos seus provam que o ilustre patriota aprecia o belo literário e sabe aliar matérias muitas vezes áridas com uma forma agradável.

Em 1851 escreveu uma interessante Notícia Histórica sobre a vida do seu falecido tio, o poeta José Elói Otôni. É um trabalho sob todo os pontos de vista recomendável. É escrito em estilo singelo, dá uma informação cabal da vida do ilustre poeta, e faz sobre as suas obras apreciações literárias de muito merecimento. A política insinuou-se no trabalho do literato. A propósito da tradução versificada dos Provérbios de Salomão, o biógrafo lembrou-se do — Per me reges regnant - famoso provérbio com que por muito tempo se escudou o direito divino. O Sr. Otôni provou que o famoso — me — não é pronome de — Deo — como queriam, mas simplesmente de — sapientia. Esta opinião é confirmada pela tradução de José Elói.

O Sr. Otôni é um dos mais abalizados latinistas deste país. Sua conversação e seus escritos brilham pelas felizes reminiscências clássicas com que sempre as ameniza. Na literatura latina, que conhece a fundo, acha sempre um texto que com a maior propriedade aplica à situação presente.

Quem sabe se a lição de Tácito, de Cícero, de Séneca, de Tito Lívio com a sua narração épica das grandezas de Roma republicana não concorreram poderosamente para dar uma têmpera antiga a essa alma que foi formada para amar a liberdade?

Os inimigos do Sr. Otôni em todos os tempos fizeram-lhe crua guerra, reconhecendo-lhe porém inteligência superior e honestidade a toda prova. Seus amigos e correligionários depositam nele a mais cega confiança. O partido liberal de todo o império considera-o seu chefe. Os liberais mais esclarecidos e que desejam ardentemente que o partido se eleve à posição que deve ocupar no Brasil, lamentam que o Sr. Otôni, levado pela natural bondade de seu coração, não se resolva a dirigir o partido com mais decisão e energia.

O Sr. Otôni é atualmente o homem mais popular do império e o ídolo do partido liberal. A sua posição de chefe popular é a mais honrosa, a mais elevada que um cidadão pode ambicionar em um país livre; mas ao mesmo tempo envolve uma tremenda responsabilidade. Se o Sr. Otôni não souber usar do poder que os liberais lhe confiam; se, levado pelo receio de ofender susceptibilidades particulares, deixar de dirigir o partido como o deve fazer um chefe, o futuro lhe tomará contas muito severas.

Notas[editar]

  1. Embora a data da abdicação seja 7 de abril de 1831, respeitou-se nesta edição o texto original.