Girândola de Amores/XXIII

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Girândola de Amores por Aluísio Azevedo
Capítulo XXIII: Portela em apuros


Portela saía do escritório para almoçar, quando lhe entre­garam a carta, principiada por Teresa e terminada pelo comen­dador. Sorriu ao recebê-la; já contava com aquilo. Teresa, estava segura, havia de sacrificar tudo por amor dele.

E, na sua presunção de homem sagaz, sentia-se lisonjeado pelo bom êxito daqueles planos. Foi com um riso vitorioso que ele abriu a carta e leu o seguinte:

"Meu caro Luiz.

Estou por tudo o que desejas. Manda o frasquinho pelo portador e escreve-me como hei de ao certo ministrar as doses a meu marido. Hoje mesmo podemos principiar a obra. Tua Teresa."

— Venha comigo, disse Luiz ao portador da carta, logo que terminou a leitura e, sem mais pensar no almoço, tomou a direção da casinha em que morava.

Ia muito agitado com as palavras da amante.

— Agora sim! considerava ele pelo caminho; tudo se vai transformar em torno da minha vontade! O comendador daqui a dois meses já não existirá... Algum tempo depois estarei amarrado à viúva e entrando na fortuna do defunto!

E o velhaco, sacudido por estas idéias, sonhava-se já em todas as regalias do dinheiro. Via-se rico, cercado de adula­ções, no meio da opulência de um bom palacete; imaginava a cor da libré dos seus lacaios, o feitio do seu cupê, a estampa dos seus cavalos. Sentia-se já estendido nos custosos divãs de damasco, a olhar para os quadros e para os ricos espelhos do seu salão. Via-se em viagem para a Europa; imaginava-se em Paris, a passear nos bulevares o seu vigoroso tipo meridional.

E Portela, sem parar na rua, sentia despejar-se-lhe no coração uma abundante cornucópia de deslumbramentos e de prazeres de todos os gêneros, cujos vapores lhe subiam à cabeça como uma vaga sufocadora, tomando-lhe a respiração e produzindo-lhe um princípio de vertigem. Carruagens, dan­çarinas, bailes, espetáculos, cavalos, baixelas de prata, dia­mantes, crachás, banquetes, brindes, todo o bric-à-brac da sua ambição e da sua fantasia, lhe dançava confusamente dentro do cérebro. Em torno do seu delírio passavam as sombras dos transeuntes. Tudo lhe parecia pequeno, miserável, ao lado dos seus futuros esplendores. Olhava com desdém para os vultos que se cruzavam pela rua, e a sua fisionomia armava já insensivelmente o ar superior dos ricos fartos e aborrecidos.

Ao entrar em casa, acompanhado pelo portador da carta, atirou-se a uma cadeira.

— Espera um pouco, disse ao outro, procurando acalmar-se; e foi a alcova, encheu um cálice de conhaque e bebeu. De­pois assentou-se à secretaria e escreveu o seguinte:

"Teresinha.

Aí vai o frasco. Uma gota por dia é o bastante. No caso que chamem o médico, procura evitar que ele veja e analise qualquer líquido já preparado por ti.

Ânimo! Lembra-te da felicidade que nos espera.

Teu Luiz."

— Pronto! exclamou, fechando a carta. E passou-a junta­mente com o frasco, ao sujeito que estava à espera, entregan­do-se ele de novo aos seus sonhos de ambição, logo que o portador saiu.

Apesar da grande sobreexcitação em que se achava, uma idéia fria atravessou-lhe o espírito. Era a leviana facilidade com que entregara àquele homem desconhecido o veneno e a resposta à carta de Teresa.

— Ora! não haverá novidade! disse, levantando-se disposto a ir almoçar.

Mal porém tinha chegado à porta, quando foi surpreen­dido pelo barulho de passos apressados no corredor.

— Oh! exclamou Portela, vendo Teresa entrar esbaforida e atirar-se sobre a primeira cadeira. Tu aqui?! Que significa isto?!

Ela não podia responder logo; vinha ofegante. O caixeiro empalideceu.

— Tudo perdido! disse afinal a desgraçada entre dois arquejos.

— Hein?! Como?! perguntou o miserável, sem poder orde­nar suas idéias. Perdido?!. Explica-te!

— Meu marido sabe de tudo!

— E a tua carta então?

— Foi escrita por ele...

— E a minha resposta?!

— Não sei...

— Jesus! exclamou Portela, segurando a cabeça com ambas as mãos.

— Eu disparatei com ele! acrescentou Teresa, respirando com dificuldade. O Jacó, escondido aqui, ouvira toda a nossa conversa àquela tarde em que combinávamos dar cabo da peste! Meu marido quis obrigar-me a escrever-te uma carta e eu não consenti...

— Mas por que não me preveniste, criatura?!

— Não pude. Ele prendeu-me no quarto. Só agora con­segui sair, arrombando uma porta. Não volto mais ali, nem à ponta de espada!

— Ora esta!... exclamou o rapaz, atirando-se no sofá e escondendo a cabeça nas palmas das mãos.

Ouvia-se Teresa resfolegar de tão cansada que estava.

— E agora?!... disse afinal Portela, descobrindo o rosto.

— Agora é que estou resolvida a sujeitar-me a tudo... Fico contigo! respondeu a mulher do comendador.

— É impossível, filha! sentenciou o perverso, erguendo-se e pondo-se a passear em todo o comprimento da sala.

— Hein?! interrogou ela, fazendo-se lívida.

— Eu te preveni! Só casado podia tomar conta de ti!...

Teresa ergueu-se; deu dois passos para a frente.

— Tu és um canalha! gritou com a voz arrastada, e dei­xou-se cair sem sentidos.

Portela correu a suspendê-la do chão. A infeliz havia batido com a cabeça contra um móvel, fazendo uma pequena brecha no crânio, donde corria sangue.

— Com todos os diabos! praguejou o caixeiro, sentindo-se entalar cada vez mais pela situação. E eu que nunca me vi nestes apuros!... Ó seu Antônio!! seu Antônio! principiou ele a gritar.

Antônio era um sujeito da vizinhança, que se encarregava de fazer-lhe a limpeza da casa. Ninguém respondeu.

— Isto não é para pôr um homem doido?! exclamou Portela, no auge da perplexidade.

Rebentaram então duas palmas na porta.

— Quem é?! perguntou ele.

— Da parte da justiça bradou de fora uma voz.

Portela estremeceu.

— Abra!

— Já vai! respondeu o caixeiro, arrastando Teresa para a alcova.

O sangue, que escorria da cabeça desta, desenhava no chão arabescos vermelhos.

— Abra! insistiu a voz, fazendo-se desta vez acompanhar por duas fortes pancadas na porta. Portela abriu finalmente, e deu de cara com um homem magro e alto, vestido de negro até ao pescoço.

— O senhor é Luiz Portela? perguntou o recém-chegado.

— Como?...

O homem fez um gesto de impaciência e repetiu a pergunta.

— Que deseja dele? indagou o caixeiro, sem conseguir disfarçar a sua perturbação.

— Venho intimá-lo a comparecer em presença do chefe de polícia.

— Para quê?...

— Saberá depois.

— Eu agora não posso ir! Estou muito ocupado...

O oficial de justiça afastou-se um pouco da porta, fez um sinal para fora, e apareceu então o comendador, acompanhado de duas praças.

É este o homem? perguntou aquele ao comendador.

— Justamente, disse o velho, que havia entrado na sala e olhava atentamente para as manchas de sangue no soalho.

— Guardem esse homem à vista! ordenou o oficial aos dois soldados, franqueando-lhes a entrada. Um destes foi defender as janelas, e o outro se conservou de vigia à porta da sala.

— Naquele quarto está alguém, que acaba talvez de ser ferido neste instante! disse o comendador, apontando para a alcova. Este sangue ainda não coagulou. E dizendo isto in­vestiu para o quarto onde Portela escondera a amante.

— O senhor não pode entrar aqui! opôs o dono da casa, atravessando-se na porta da alcova.

— Ali dentro está talvez o corpo do delito de algum novo crime!

— Vejamos! disse o homem da justiça. Creio que não será preciso empregar a força, acrescentou ele, desviando Portela.

— Pois entrem, respondeu este; mas peço-lhes que me deixem ao menos explicar a razão por que esta senhora se acha aqui neste estado.

— Descanse que terá ocasião oportuna de explicar tudo. A mim não compete sindicar de semelhante coisa.

E dizendo isto, o oficial de justiça principiou a tomar notas.

O comendador havia parado perto da cama em que estava Teresa, e olhava para a desfalecida com um frio olhar de ódio.

— Conhece esta senhora? perguntou-lhe aquele.

— É minha mulher, respondeu secamente o comendador.

— Ah!... disse o outro, mostrando certa solicitude. Que tem ela?...

— Perdeu os sentidos e quebrou a cabeça, explicou Portela. E preciso socorrê-la. Os senhores não me deram tempo para isso...

— Bem, disse o marido, isso lá com o senhor; eu nada mais tenho que ver com essa mulher.

— Sr. comendador, suplicou-lhe Portela em voz baixa; peço-lhe que não proceda contra mim, antes de ouvir-me...

— Eu nada tenho a lhe ouvir, senhor! Sei, pelos documen­tos em meu poder, que alguém tentou dar-me cabo da vida; não faço mais do que a defender e entregar os criminosos à justiça.

— Mas eu não quero fugir à punição da lei, explicou o rapaz, com um aspecto infeliz; desejo apenas que o senhor não me fique julgando um monstro; desejo apenas explicar-lhe as circunstâncias que me colocaram na atual situação...

— E que se adiantava com isso?...

— Adiantava-se muita coisa, para mim e para o Sr. comen­dador. Ao menos ficaria bem patente que eu lhe não tenho ódio e que lamento em extremo lhe haver causado tamanho desgosto...

— Mas afinal o que quer o senhor de mim?!

— Quero que me ouça a sós por alguns instantes. Tenha a bondade de afastar esses homens.

O comendador ordenou aos soldados que se retirassem para o corredor. Portela cerrou a porta do quarto em que estava Teresa, e chegando-se para junto do velho, disse-lhe com voz alterada e trêmulo:

— Minha vida está em suas mãos! O senhor vai decidir da minha sorte!

E acrescentou, tirando um revólver da gaveta da secretária:

— Estou resolvido a matar-me aqui mesmo, em sua pre­sença, se o senhor não me conceder o seu perdão...

O comendador sacudiu os ombros, com a mais profunda indiferença.

— Do que me pode servir a vida, continuou Portela, tendo eu de representar no mundo o papel de um criminoso, de um homem mau e corrompido? Entretanto, juro-lhe comendador, que o que acaba de suceder não foi conseqüência da perversi­dade, nem da baixeza de sentimentos. Sei que procedi como um infame, mas sei igualmente que não podia proceder de outro modo. Na situação em que me colocou a fatalidade desta desgraça, eu não tinha outro caminho a seguir! Fui talvez mau e desumano; juro-lhe porém que não o fui por cálculo e premeditação. Para cumprir o meu destino, precisei abafar todas as vozes que me arguiam de dentro, precisei de amargar todas as lágrimas envenenadas pela consciência do crime. Quantas vezes não amaldiçoei este amor insensato, que me fazia esquecer tudo o que eu devia à sua generosidade e à sua filantropia? Oh! sofri! sofri muito! Para sua completa vingança bastava que o senhor pudesse avaliar a dor, o re­morso, a vergonha, a humilhação, que me pungiam constante­mente, ao lembrar-me de quanto era eu ingrato e desconhecido! Uma terrível mão de ferro empolgara-me o coração e espremia de dentro dele todo o fel das minhas negras dores. Tudo me atormentava, tudo me perseguia! Dormindo ou acordado, tinha sempre defronte dos olhos o fantasma do meu cruel segredo. Nem uma hora de repouso! nem uma hora de feli­cidade! Não podia encarar para o senhor, sem sofrer todos os tormentos do inferno; a sua figura, austera e veneranda, produzia-me o efeito de punhaladas no coração; o seu calmo ar de bondade, brandura do seu gênio, a franqueza do seu caráter, eram para mim um suplício constante! Pensei na morte; quis por uma vez destruir esta vida inútil e miserável, e só Deus sabe quanto me custou não poder consumar esse desejo!...

— Faltava-lhe coragem para suicidar-se, disse o comenda­dor; mas não lhe faltava para matar-me...

— Juro-lhe que me custaria muito mais destruir a sua vida do que a minha própria!

— Nega então que tentou contra os meus dias?...

— Não, não nego. Afianço-lhe, porém, que o fazia, não por mim, mas pelos seus próprios interesses e pelo interesse de sua mulher.

— Explique-se!

— Eu não podia fugir da fascinação que Teresa exercia sobre mim, mas igualmente não queria aviltá-la, fazendo dela minha amante; como não queria que o senhor em qualquer tempo corasse defronte da adúltera. Matando-o, ela passaria a ser minha esposa legítima, e a memória do primeiro marido ficaria intacta e respeitada...

— De sorte que ainda lhe tenho de agradecer essa deli­cadeza?... observou o outro, com um ligeiro sorriso de ironia amarga.

— Não zombe, Sr. comendador. Juro-lhe que é sincero o que acabo de dizer; eu queria evitar a sua desonra! Entre­tanto, está tudo perdido; está tudo acabado! Resta-me apenas propor-lhe uma última coisa...

— Uma proposta?!...

— E verdade. Estou convencido de que o senhor não me perdoará. Pois bem! Tomarei outro expediente: mato-me no mesmo instante, e o comendador, depois de minha morte, releva minhas culpas e recolhe de novo Teresa à sua proteção. Aceita?!

E, dizendo isto, Portela engatilhou o revólver e aproxi­mou-o da boca.

— Nunca! respondeu o comendador. Para Teresa não há perdão possível!

— Nem com a minha morte? interrogou o rapaz, desviando a arma.

— O senhor não morrerá! exclamou o velho. Prefiro que viva e tenha de trazer aquela miserável às costas. É essa a minha vingança! Mais tarde, ou o senhor a desprezará ou ela lhe dará de beber as mesmas amarguras que me entornou ao coração! Em qualquer dos casos, eu me julgarei satisfeito. O amante será enganado muito mais facilmente do que foi o marido...

— Mas, disse Portela, se era esse o seu propósito, para que então me denunciou à polícia?... para que me perseguiu desta forma?...

— Descanse que não o quero punir judicialmente; quero obrigá-lo a tomar conta da sua cúmplice. Foi para isso que vim prevenido!

— Não era necessário tanto! respondeu Portela, com um gesto de orgulho. Eu sei cumprir com os meus deveres...

— Mas eu tenho pouco confiança em tais promessas, e prefiro assegurar melhor o negócio...

— Que diz o senhor?

— Digo-lhe que exijo uma obrigação por escrito, um termo de responsabilidade em que se comprometa o senhor a tomar conta de Teresa e manter-lhe os meios de vida enquanto ela existir. Eu tinha preparado tudo isso para mais tarde, o senhor porém precipitou os acontecimentos. É o mesmo! O que tinha de ser feito por intimação da autoridade policial, far-se-á por minha simples intimação. Leia!

E o comendador tirou da algibeira um papel selado que passou ao rapaz.

— Mas para que toda essa formalidade?... perguntou Portela, depois de ler.

— Caprichos de marido enganado respondeu o comen­dador. Assine!

— Eu não assino semelhante coisa!

— Bem! nesse caso o entregarei à justiça. Escolha!

— Prefiro isso! Este papel, assinado por mim, seria uma terrível arma com que o senhor poderia perseguir-me em qual­quer tempo!

— Bom, meu caro senhor, visto isso, deixemos seguirem as coisas o caminho que eu lhes havia traçado, e repito então o que disse no princípio da conversa: "Nada tenho a ouvir do senhor". Entenda-se com as autoridades competentes!

— Espere! atalhou Portela, quando o viu disposto a sair. Pense um instante! Que interesse tem o senhor em perse­guir-me deste modo?!... Para que exige a minha assinatura em um documento humilhante e vergonhoso para mim?!... Sei perfeitamente que o comendador não está seguindo os im­pulsos do seu coração... Não queira fazer-se mau! Não queira fingir o que não é! Lembre-se de que sou pobre e preciso conservar limpa a minha reputação para poder ganhar a vida...

— Oh! disse o comendador. E a sua bela resolução de suicidar-se?!

O outro abaixou a cabeça. E o comendador acrescentou:

— Quanto à sua reputação... se o senhor não se importou com ela, quanto mais eu!

— Mas do que lhe pode servir esse documento assinado por mim?

— Isso é cá comigo! respondeu o marido de Teresa, e, fazendo nova menção de sair, acrescentou resolutamente:

— Então, assina ou não assina?!

— Assino, malvado, mas juro-te que te hás de arrepender desta violência!

— Pode ser! disse o comendador, perfeitamente calmo.

Portela assinou o documento.

— Aí o tem! exclamou, empurrando o papel com arremesso.

— Bem! respondeu o comendador, dobrando o escrito e guardando-o na algibeira. Está o senhor livre! Deixo-o em plena liberdade!

E saiu, depois de despedir os soldados.

Portela deixou-se cair em uma cadeira.

— Não há de ser como supões, meu pedaço de asno! mo­nologou ele. Tu não sabes com quem te meteste!