Girândola de Amores/XXIV

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Girândola de Amores por Aluísio Azevedo
Capítulo XXIV: Tia Agueda


Quando Teresa voltou a si, inutilmente chamou repetidas vezes pelo amante; afinal levantou-se, apoiando-se aos móveis, e foi até à sala próxima. Não havia viva alma em casa.

— Com efeito! disse ela.

Portela antes de sair, pensara-lhe a pequena ferida da cabeça com esparadrapo.

— Que teria sucedido na ausência da sua razão? consi­derava a infeliz, consultando a memória; recordava-se vagamente de ter escutado, na sonolência do desmaio, o som de passos repetidos no corredor e a voz do marido com as de outras pessoas que pareciam altercar. Mas tudo isso podia ser causado simplesmente pelo delírio...

De repente uma idéia lhe atravessou o espírito. Calculou que Portela, denunciado pelo comendador, estivesse àquela hora detido na polícia.

— Com certeza não é outra coisa! pensou ela aflita a con­templar as suas roupas sujas de sangue. E como havia de sair daquela situação?... No estado em que se achava, não tinha ânimo de aparecer na rua... Portela não poderia vir natural­mente em seu auxílio... Ah! se chegasse ao menos o tal Antônio que fazia a limpeza da casa!...

E Teresa arrastava-se de um para outro lado, cada vez mais ansiada e oprimida. O sangue que derramara, produzia-lhe certa fraqueza, e os olhos enfumaçavam-se-lhe como por efeito de uma formidável enxaqueca.

— Além de tudo, sinto vertigens! disse ela, deitando-se na cama.

E, daí a pouco, dormia de novo.

Vejamos, entretanto, o que por esse tempo fazia Portela.

Logo que se retirou o comendador, o astucioso caixeiro, depois de curar a cabeça da amante, meteu o revólver na algibeira e ganhou a rua com direção à casa do seu compadre Leão Vermelho, que então, como se deve lembrar o leitor, morava no Campo de Santana, em companhia daquela nossa conhecida Henriqueta, de cuja extinta casa de pensão, já outrora fizera parte o amante de Teresa.

Leão Vermelho sofria por essa época a implacável perse­guição de que falamos, e partia no dia seguinte para Buenos Aires.

— Compadre, exclamou Portela, assim que se achou defronte dele; venho disposto a seguir com você!

O comissário fez um gesto de espanto e pediu ao outro que se explicasse.

— Vai sempre amanhã? perguntou o padrinho de Clorinda.

— Definitivamente.

— Pois vamos juntos. Não me convém ficar mais tempo no Rio de Janeiro. Tenho poucos recursos; irei como seu empregado, serve-lhe?

— Mas que resolução foi essa? interrogou Leão Vermelho.

— Questões de amor! explicou Portela, fazendo-se contra­riado. Não posso ficar aqui... Já deixei o emprego. Já liqui­dei todos os meus negócios. Só desejo saber se posso ou não contar com você...

— Pois não; eu até estimo. Nunca lhe propus semelhante coisa, porque sempre me pareceu que ela lhe seria pouco van­tajosa; mas uma vez que você o quer...

— Posso então preparar-me?

— Decerto.

— Pois até amanhã.

E Portela saiu da casa do compadre para se ir despedir do emprego, que lhe havia arranjado o comendador; recolheu as suas economias, pagou uma ou outra pequena dívida, e seguiu afinal para Catumbi.

Encontrou Teresa dormindo.

— O quê?! disse ele entrando assustado no quarto. Pois esta mulher ainda não voltou a si?!...

Ela acordou logo, fez um grande espanto quando o viu e desfez-se em perguntas; queria saber tudo o que havia suce­dido, os perigos a que o amante se expusera.

— Tu deves estar caindo de fome! observou ele. É quase noite. Eu vou arranjar-te o que comer. Espera.

— Não, conta-me primeiro o que há, o que se passou aqui. Estou louca por saber de tudo!

— Resume-se tudo em duas palavras, disse Portela: Teu marido procedeu contra mim, tenho a justiça sobre a cabeça e fujo amanhã mesmo do Rio de Janeiro...

— Eu vou contigo! exclamou ela, abraçando-o.

— Impossível! respondeu o rapaz. Para fazer semelhante viagem, precisei arranjar-me como secretário de um sujeito que sai, amanhã ou talvez depois, para a Europa; ele consente em levar-me com a condição de que eu vá só...

— E eu?! perguntou a mulher do comendador, empali­decendo.

— Tu voltas para a companhia de teu marido. Ele está resolvido a perdoar-te tudo e a receber-te de novo.

— Isso é que é impossível, nem tampouco me convém!

— Mas, filha, olha que é o único recurso que há!

— Pois então mato-me!

— Deixa-te de tolices!

— Duvidas?!

— Não duvido, mas reprovo.

E ficaram calados por algum tempo.

— Eu vou buscar-te a ceia, disse afinal Portela, erguendo-se da cama, onde se tinha assentado.

— Não quero nada! respondeu ela de mau humor.

— Deixa-te disso comigo! pediu o outro, ameigando-a por condescendência.

— Solta-me! resmungou ela, empurrando-o. Deixa-me! Deixa-me!

E pôs-se a chorar.

— Agora temos choro! disse o rapaz, coçando a cabeça.

Teresa soluçava a chamar-se desgraçada, a maldizer-se, a pedir que a matassem.

— Tu me fazes perder a paciência! exclamou Portela, zan­gando-se afinal. Estou a dizer-te os apuros em que me vejo; e tu a te fazeres desentendida! Ora sebo!

E depois de passear pelo quarto, com as mãos nas algi­beiras, parou defronte da amante e disse-lhe em voz áspera:

— Pois, filha, se não queres ir para a casa de teu marido, vai para o inferno! Eu não posso tomar conta de ti! Aí tens!

— Tu és um vilão! respondeu ela, quase sem alento.

— É melhor não puxarmos pela língua! replicou Portela, porque te sairias muito mal!

— Quem sabe se tenho medo de ti?!

— Pior!

— Se te parece dá-me agora bordoada! Também é só o que falta!

— Ó mulher! cala-te com todos os diabos!

— Foi bem feito! Quem me mandou acreditar em um canalha de semelhante espécie!?

— Não! Isso agora tenha a paciência... Foi a senhora quem me provocou... Eu estava perfeitamente sossegado!

— Hein?! Como?! Você não me provocou?! É a quanto pode chegar o cinismo!...

E, ambos, de fato convencidos que o sedutor era o outro e não ele próprio, discutiram, a palavrões, ainda por algum tempo. Teresa afinal declarou que não saía daquela casa e que o Portela não faria a tal viagem, ou ela o havia de acompanhar!

— Esta casa está paga somente até amanhã. Tu hás de ir hoje mesmo para a companhia do comendador!

— Eu não hei de apresentar-me lá neste estado! Você não vê que estou toda suja de sangue?!

Ficou resolvido que Teresa iria primeiramente para a casa da madrasta, que morava nesse tempo no Catete, e daí então escreveria ao marido. Com muita repugnância aceitava ela esse alvitre, porque entre as duas senhoras houvera antes do casamento constantes desavenças, e depois deste poucas vezes se visitaram.

A madrasta de Teresa era mulher de mau gênio, muito inculta; não sabia estar em sociedade e dizia asneiras na con­versa. O comendador a recebeu sempre com uma indiferença repulsiva; às vezes dava festas e nunca se lembrava de con­vidá-la. Quando havia visitas então, era uma desgraça! Conhecia-se na cara do homem toda a sua má vontade para com a sogra.

Nessas condições, Teresa tinha sérios receios de pedir socorros à madrasta. Parecia-lhe já estar a ver a terrível ma­trona a olhá-la por sobre os óculos, indignada, com as mãos nas cadeiras, a boca muito aberta e um grande espanto na fisionomia.

— Definitivamente não serei bem recebida!... observou Teresa ao entrar no carro, que Portela fora buscar. Assen­taram-se ao lado um do outro. Ele a acompanharia até à porta.

À proporção que caminhavam, Teresa parecia cada vez mais sobressaltada. Que não diria a velha?! Que não suporia?! E daí, se a madrasta entendesse de não a receber?! Sim! por­que aquela víbora era capaz de tudo! Não gostava de inco­modar-se por ninguém e, quando a coisa então lhe cheirava, a responsabilidade, não havia meio de obter dela o menor serviço!

— Há de arranjar-se tudo! disse Portela impaciente. O suor caía-lhe em bagas pela testa.

Mas Teresa, ao passar em certa travessa do Catete, teve uma idéia: recolher-se de preferência à casa da preta que a criara, tia Agueda. Era uma boa mulher, fora escrava de seu pai e sempre a conservara na mesma estima respeitosa. Essa também ficaria espantada com a sua visita, mas ao menos havia de prestar-se a socorrê-la com muito boa vontade.

O diabo era que a pobre mulher morava em uma espécie de cortiço, onde vendia angu. Teresa talvez não encontrasse lá um lugar decente para esconder-se.

— Tudo se arranjará! repetiu Portela.

E, com efeito, ficou tudo arranjado. Teresa recolheu-se ao domicilio da boa preta, e Portela voltou a casa para tratar das malas.

Tia Agueda, ao lobrigar a sua querida filha de criação, que ela há tanto tempo não via, duvidou dos próprios olhos e ficou perplexa, a fitá-la com grande enlevo; afinal abriu os braços e exclamou sinceramente comovida:

— Gentes! Olha Neném!...

Teresa quis pedir-lhe que não fizesse espalhafato; quis falar, mas não pôde; ao ouvir o doce tratamento familiar que lhe davam em pequenina, as lágrimas saltaram-lhe logo dos olhos e os soluços tomaram-lhe a garganta.

Ah! nesse bom tempo seu pai ainda era vivo e seu coração ainda era feliz! Que de transformações se não tinham pro­duzido entre esse passado de inocência e aquele presente de dissabores?... Que de mudanças não sofrera sua alma! que de novas informações não padecera seu corpo! Quantas decep­ções em tão pouco tempo!... Quantos desgostos em tão pe­quena existência!... Dantes não conhecia Teresa as frias responsabilidades da vida, não suportava as duras necessidades do sangue, não compreendia outro amor que não fosse o da família e o dos folguedos da infância. Mas tudo se transformara em torno e dentro dela; as suas mais gratas afeições, as suas mais simpáticas ilusões se foram pouco a pouco dissolvendo como as nuvens transparecendo em dias de estio.

Foi tudo isso o que a presença da pobre negra disse de relance ao coração oprimido de Teresa. As saudades do pas­sado e as apreensões do presente chocaram-se no espírito da infeliz, produzindo-lhe uma grande crise nervosa, que parecia preparada durante o dia e só à espera daquele sinal para rebentar.

Não havia meio de suster-lhe as lágrimas e os soluços; embalde tia Agueda procurava tranqüilizá-la. Teresa não podia dar uma palavra.

— Mas, Neném, que é isto?! que lhe sucedeu?!...

E a negra, vendo que Teresa não respondia, carregou-a para o quarto, fê-la deitar-se na cama e ajoelhou-se aos seus pés, beijando-lhe as mãos e afagando-lhe os cabelos.

— Sossega, Neném! sossega! dizia ela com a mesma ter­nura dos outros tempos em que a acalentava no berço.

Só meia hora depois Teresa sossegou um pouco. Suas primeiras palavras foram para pedir o que comer.

Tia Agueda improvisou logo uma ceia.

Descobria-se nela, na sua presteza, nos seus movimentos, a boa vontade com que fazia tudo aquilo. Em breve, de um quarto próximo ao em que estava a mulher do comendador, vinha um cheiro picante de peixe que se frigia e chilrava ao fogo. A segurança do lugar, a boa hospitalidade e a expec­tativa da ceia principiaram a reanimar totalmente as forças de Teresa. Quando a negra acendeu mais um candeeiro, cobriu a mesa com uma branca toalha de algodão e trouxe o primeiro prato, já não havia sinal de lágrimas.

— Você está se incomodando muito, tia Agueda! balbu­ciou a senhora.

— Hê, Neném! Não diga tolice! repreendeu a preta, a saracotear pela sala.

E declarou que só o que sentia era não ter uma casa melhor para receber a sua querida filha de leite.

— Está tudo muito bom, emendou Teresa, procurando já tentar um sorriso.

Agueda era uma preta muito asseada. As paredes da sua pobre casa estavam limpas, o chão cuidadosamente varrido e os raros trastes escovados. Havia uma cômoda, já velha, com puxadores de vidro verde, sobre a qual se estendia uma clás­sica toalha de rendas e se perfilavam várias imagens de santos. Pelas paredes viam-se litografias de assuntos religiosos emoldu­radas em madeira. A um canto destacava-se um pequeno ora­tório, forrado de papel de cor e guarnecido de galões amarelos; duas velas o iluminavam e faziam sobressair de dentro a figura mal talhada de um Santo Antônio, vivamente colorido e cer­cado de alecrim seco e de flores viçosas.

Uma mesa forrada de lençóis e um tabuleiro cheio de camisas engomadas, denunciavam o trabalho desse dia; e, ao lado, um grande cesto, pejado de roupa lavada, prometia o serviço do dia seguinte. Tia Agueda vestia saia e camisa. Viam-se-lhe as grandes espáduas gordas, o pescoço forte, enfei­tado de corais e contas redondas de ouro. Os braços saíam nus das rendas do cabeção em toda a sua negra exuberância; os quadris jogavam rijamente quando ela apressava o passo nos arranjos da ceia.

Teresa parecia já consolada e gozava intimamente da novi­dade daquela situação. O estômago reclamava alimento e o corpo pedia repouso. Foi com prazer que ela se deixou con­duzir para a mesa pela carinhosa mulher. Os pratos escaldados, as facas de ferro reluzente, os copos nitidamente areados, fa­ziam apetite. Uma travessa de peixe frito enchia o ar com o seu aroma apimentado e quente.

Tia Agueda foi ao armário buscar mais o que havia, e convidou Teresa a principiar.

— Sente-se então aqui, ao pé de mim, reclamou a amante do Portela.

— Já vai Neném; deixa primeiro ver uma garrafa de vinho aqui dentro...

Ela há muito tempo que possuía e guardava com cuidado essa garrafa. Dera-lhe o seu ex-senhor por ocasião de uma festa.

— Ainda é lá de casa, declarou a preta, mostrando a Te­resa a preciosa garrafa. Presente de sinhô velho!...

— E mal sabia você, tia Agueda, que o seu presente ainda havia de servir para mim...

— Então?! É para uma ocasião destas que se guardam as coisas!

Aberta a garrafa de vinho, Agueda encheu o copo da que­rida hóspede, e foi assentar-se ao lado dela.

— Ah, tia Agueda! disse Teresa, comendo com muita vontade; se você soubesse o que me tem sucedido ultimamente!...

— Está bom, come primeiro, que depois se conversa...

Mas a rapariga, quando acabou de saciar a sua fome, declarou que se sentia incomodada; tinha o corpo mole e abor­recido, a comida caíra-lhe na fraqueza.

— Descansa, Neném, aconselhou a negra.

Teresa deitou-se; pediu à amiga que a despisse e descalçasse, e recomendou-lhe depois que fosse à casa do comendador e se entendesse com a criada Rosa para lhe trazer roupa limpa.

— Seu Ferreira não precisa saber que você foi lá buscar roupa... ouviu?... disse ela bocejando, com os olhos fechados.

— Não durma sem tomar café! objetou tia Agueda, apre­sentando-lhe a xícara. Teresa tomou o café, quase dormindo.

— Bem, vá, recomendou ela; não se demore, ouviu?

E, voltando-se na cama, adormeceu.

No dia seguinte, quando acordou, o sol entrava já pela janela e projetava no chão grandes manchas luminosas. Teresa dormira um sono completo e acordara bem disposta. Agueda preparou-lhe o banho, e, como desjejum, café com leite e pão com manteiga.

— Veio a roupa? perguntou aquela.

— Está tudo aí, Neném; mas há o diabo em casa de seu Ferreira ...

— Conta! conta o que há!

— Ele caiu doente esta noite...

— Doente? de quê?

— Ataque. Jacó é quem sabe da história; diz que estava despindo seu Ferreira, quando o homem cambaleou, cambaleou, e caiu como morto.

— Uma congestão! exclamou Teresa em sobressalto. E depois, como ficou ele?!

— O Dr. Roberto está lá...

— Dá-me a capa, tia Agueda; vou já para casa!

E Teresa, agradecia interiormente ao marido aquela mo­léstia, que vinha de qualquer forma desviar as atenções asses­tadas sobre ela.

Mas também, ter de apresentar-se assim em casa, sem mais nem menos, era o diabo: considerava a leviana, enquanto ajustava o chapéu e endireitava a roupa. Olímpia sem dúvida estaria lá! Que não ficariam julgando de tudo aquilo?!...

— Ora! concluiu ela, completamente resolvida; é preciso tomar uma deliberação! Luiz afiançou-me que Ferreira está pronto a receber-me; vou! Não tenho outro recurso; além disso, já estou arrependida!... Agora é ter coragem!

E depois de abraçar a ama e lhe agradecer os obséquios recebidos, meteu-se no carro, que se fora buscar, e mandou tocar para casa.

À proporção porém que se aproximava, contraía-se-lhe o coração e a sua coragem ia minguando. Teresa tinha já de­fronte dos olhos a fisionomia repreensiva de Olímpia, o riso sarcástico de Jacó e a recriminadora figura do comendador; mas contava com o auxílio da Rosa, a criada que lhe remetera a roupa, que lhe protegera sempre os amores com Portela e que, naquela ocasião, já estaria seguramente à sua espera no portão traseiro da chácara.

Rosa era muito discreta e muito fina; falcatruas arranjadas por ela produziam sempre bom resultado. Teresa dava-lhe roupas, vestidos pouco usados, sapatos ainda novos, leques à moda; mandara ornar-lhe a cama com um cortinado e cedera-lhe até um dos tapetes de seu quarto. Sabia que a criada usava dos seus perfumes, dos seus sabonetes e dos seus cosmé­ticos, mas fechava os olhos a tudo isso e ainda intercedia por ela sempre que o comendador a acusava.

O carro afinal parou defronte do portão, e Teresa apeou-se, ligeiramente trêmula.

Seriam oito horas da manhã e o dia estava magnífico.

Ficou por um instante à porta, sem querer entrar.

A chácara apresentava-lhe uma fisionomia repreensiva e severa; a casa, as árvores, o repuxo do tanque, tudo tinha então para ela um duro aspecto de censura e de queixa.

A luz penetrante do sol, derramando-se por toda parte, parecia ralhar, argüir, fazer reprovações. Toda a natureza a intimidava com a sua mudez austera e com a sua inalterável tranqüilidade.

Teresa sentia-se envergonhada, corrida; não tinha ânimo de levantar a cabeça. Os empregados públicos desciam para os seus empregos, devagar, no passo metódico dos homens que regulam a vida pelo ordenado, a caminharem na imperturba­bilidade de funcionários pagos por mês. Passavam os bondes, cheios, pesados; singravam os caixeiros de cobrança, os pretos de carga, os vendedores de jornal, as carroças de pão, os estudantes, os meninos de colégio e as costureiras. E todo esse mundo da atividade e do trabalho esfervilhava ao sol, como um exemplo humilhante.

Teresa fechou os olhos para não ver esse doloroso espe­táculo. A vida real entrava-lhe na imaginação como um jato de água fria. Ainda na véspera, ela se persuadira que ia por uma vez desprezar tudo aquilo; que nunca mais veria tal vizi­nho passar a horas certas para a sua repartição; que não ouviria tal piano de casa próxima tocar certa e determinada música; que não suportaria mais a voz da preta que de manhã passava impreterivelmente na rua a apregoar frutas; julgara que nunca mais daria com os olhos no vizinho da frente, um taverneiro barrigudo, de perninhas curtas e barbas debaixo do queixo; persuadira-se enfim que se havia por uma vez libertado de todas aquelas misérias positivas, que a constrangiam, que a matavam de vergonha e de tédio.

As próprias casas da vizinhança, a má pintura das tabu­letas, o desenho de um boi impassível na parede de um açougue que ficava defronte, as desgraçadas alegorias da taverna da esquina, o farmacêutico pequenino, magro, amarelo, que vinha todas as tardes assentar-se debaixo de um flamboyant fron­teiro à farmácia; tudo isso a enjoava, tudo isso lhe produzia efeitos insuportáveis.

A malograda fuga com o Portela havia sorrido ao espírito de Teresa mais pelo lado do imprevisto, do desconhecido, do aventuroso, do que mesmo pelo amor que ela lhe pudesse ter. Desejara aquela fuga como um doente deseja mudar de um lugar para obter novos ares; outro qualquer moço, igualmente vigoroso e bem disposto, é natural que produzisse nela iguais efeitos. A sua imaginação precisava de atividade dramática, como seu corpo precisava de atividade sexual.

Mas, as decepções da véspera faziam-na por um instante esquecer tudo isso, para só pensar na possibilidade de resti­tuir-se de novo ao lar doméstico.

— Ah! se Deus me tivesse deixado uma de minhas filhas... dizia ela consigo, a subir muito apressada a pequena escada de pedra que conduzia da chácara para o jardim; não estaria eu agora com certeza a sofrer deste modo: haveria de sentir-me escudada por ela e pelo meu amor de mãe...

Rosa veio ao seu encontro e, sem lhe dar uma palavra, sem fazer um gesto de espanto, abriu com pressa a porta da cozinha que dava para o jardim, e fê-la passar, empurrando-a familiarmente pelas costas.

— Entre aí para o meu quarto, ordenou a criada. Eu já lhe venho dizer quando deve subir. Espere um pouco!

E Rosa, apanhando as saias, ganhou a primeira escada e desapareceu.

Teresa ficou só, à espera, com o chapéu na cabeça, a capa nas costas, imóvel, como se estivesse muito empenhada em observar os objetos que tinha defronte dos olhos. E, sem querer, começou a calcular o efeito da sua aparição ao lado do marido; via-se toda confusa a fazer-lhe festinhas, a con­solá-lo do que havia sucedido, a adulá-lo. E, ainda sem querer, começou a considerar como devia entrar, se depressa ou vaga­rosamente; se devia deixar embaixo o chapéu e apresentar-se inalterável, como se não houvesse a menor novidade; ou se deveria entrar com espalhafato, fingindo indignação por qual­quer coisa; se devia não dar palavra ao marido e esperar que tudo voltasse por si mesmo aos seus eixos, ou se devia lançar-se-lhe aos pés e pedir-lhe perdão com palavras ardentes, com soluços e gestos teatrais.

Mas antes de chegar a qualquer conclusão, já a criada voltava a dizer-lhe apressadamente da porta:

— Agora! Agora! Passe agora. Ande! Não há ninguém na varanda! Suba e vá para o seu quarto!

Teresa cumpriu aquela ordem, como se a recebesse de um superior.

— Ligeiro! gritou-lhe Rosa, assim que ela atravessou a cozinha e ganhou a escada. E logo que a viu desaparecer, espocou uma risada surda e soltou entre dentes uma excla­mação injuriosa.

Depois, muito satisfeita com aquele episódio que humilhava a senhora, entrou no seu quarto, donde acabava de sair Teresa, e principiou por desfastio a arrumar os objetos sobre os móveis e a cantar em voz alta, com desembaraço, uma chula sua favorita.

Quando saiu do quarto, disse "Ai, ai!" e subiu a escada lentamente, com maneiras de dona de casa.

Teresa não apareceu à mesa, almoçou nos seus aposentos, esperando que Olímpia deixasse a cabeceira do pai, para então apresentar-se ela.

Mal, porém, havia feito a refeição, soaram duas pancadi­nhas à porta. A leviana retraiu-se.

— Sou eu, abra, disse de fora uma voz amiga.

Era Olímpia.

Teresa corou; a outra, porém, passando-lhe um braço na cintura, beijou-a na face.

A madrasta estranhou muito aquela inesperada amabili­dade. A enteada fora sempre muito seca para com ela; e a sua surpresa cresceu, quando a filha do marido começou a declarar que estava muito aflita, receando que mãezinha não voltasse, e que desejava ser a primeira a dar ao pai a boa notícia da sua chegada.

— Não! disse Teresa; ele deve estar muito zangado comigo... o melhor é esperarmos que...

— Qual! eu obtenho de papai o que bem quero... Hei de falar-lhe por tal modo a seu respeito, mãezinha, que ele nem só a receberá de braços abertos, como ainda me ficará reconhecido.

— Não; é melhor esperar. Talvez que a minha presença agora lhe faça mal...

— Nesse caso vou consultar primeiro o Dr. Roberto! lem­brou a outra com um repente de menina esperta.

— Está doida! Meter nisto um estranho?!...

Mas Olímpia afiançava que havia de arranjar tudo. E, com crescente surpresa da outra mostrava-se cada vez mais interessada pela madrasta. Não parecia a mesma; aquela falta ridícula e censurável de Teresa, longe de lhe produzir indigna­ções, como era de esperar, despertava nela estranhas simpatias e inexplicáveis condolências.

Entretanto, Olímpia fazia tudo isso sem compreender bem por quê. Teresa ganhava a seus olhos certa auréola de poesia e sofrimento; a sua penosa situação dava-lhe, aos olhos da romântica menina, uns tons sedutores de heroína de romance; sem prever a pobre criança que, toda essa desordem moral e toda essa desorganização doméstica, haviam fatalmente de influir na sua própria educação e determinar, mais tarde, os lamentáveis sucessos de que já o leitor tem notícia desde as primeiras cenas da Avenida Estrela.

Nenhuma lição é tão poderosa como a do exemplo. Fil­tra-se ela pelo nosso espírito sem que o sintamos; e ela nos invade, nos conquista, nos possui totalmente, sem que possamos determinar ao certo qual foi o fato, o acontecimento que em nós estabeleceu este ou aquele sintoma, esta ou aquela incli­nação, sem que possamos dizer o que foi que nos trouxe tal vício, tal idiossincrasia, tal propensão boa ou má. Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos livros, se evapora com o tempo e desaparece; só essas lições, que nos entraram pelos olhos e nos espalharam na alma as suas raízes, só essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.

Teresa, sem que ela fosse responsável por isso, não por maldade, mas unicamente em conseqüência das circunstâncias especiais do seu temperamento, da sua má educação e da des­proporção de sua idade com a do marido, havia fatalmente de ser um elemento de corrupção ao lado de Olímpia.

A filha do comendador beijou ainda uma vez a madrasta, e saiu, com destino ao quarto do pai. Ia sondar em que dis­posição de espírito se achava ele para receber a mulher.

O pobre homem permanecia estendido na cama. Tinha os olhos cerrados, mas não dormia, porque os abriu logo que a filha pisou na alcova com o seu andar sutil de ave impúbere.