História da Mitologia/IV

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História da Mitologia
por Thomas Bulfinch
IV - Juno e suas rivais - Io e Calisto - Diana e Acteon - Latona e os Camponeses


Capítulo IV[editar]

Io[editar]

Latona e os Camponeses da Lícia

Juno um dia percebeu que de repente tudo estava ficando escuro, e imediatamente desconfiou que seu marido houvesse levantado uma nuvem para esconder alguma coisa que ele tivesse feito e que ele gostaria que ninguém soubesse. Ela removeu a nuvem, e viu seu marido nas margens de um rio de águas transparentes, com uma bela novilha parada ao lado dele. Juno desconfiou que o formato da novilha pudesse ocultar alguma bela ninfa sob a forma de uma mortal – como de fato era esse mesmo o caso; pois, tratava-se de Io, filha do deus dos rios Ínaco, com quem Júpiter estava cortejando, e, quando ele percebeu que sua esposa se aproximava, fizera com que ela se disfarçasse daquele jeito.

’’’Io e Zeus
Giovanni Ambrogio Figino (1553-1608)’’’

Juno reuniu-se ao marido, e ao ver a novilha, fez louvores à sua beleza, e perguntou de quem se tratava, e de que rebanho era ela. Júpiter, para que ela parasse de fazer perguntas, respondeu que ela era uma criação recente da terra. Então, Juno lhe pediu que ela lhe fosse oferecida como presente. O que Júpiter poderia fazer? Ele relutou em entregar a sua amante como presente para sua esposa; no entanto, como poderia ele recusar um presente tão insignificante tal como uma simples novilha? Ele não conseguiria, pois despertaria desconfianças; então, concordou. A deusa ainda não havia se livrado de todas as suspeitas; então, ela entregou a novilha aos cuidados de Argos, para que fosse vigiada constantemente.

Ora, Argos era um gigante com cem olhos na cabeça, e quando ele ia dormir nunca fechava mais do que dois olhos de cada vez, de modo que permanentemente ele mantinha vigilância sobre Io. Ele permitia que ela pastasse durante o dia, e à noite ele a amarrava impiedosamente com uma corda em torno do pescoço. Ela tinha vontade de estender os braços para implorar a Argos por sua liberdade, mas ela não possuía braços para estender, e sua voz era um mugido que até ela mesma se assustava. Ela via seu pai e suas irmãs, aproximava-se deles, e permitia que eles passassem a mão em suas costas, e ouvia quando eles comentavam sobre sua beleza. Seu pai apanhou para ela um punhado de grama, e ela lhe lambia as mãos que lhe eram estendidas. Ela desejava que ele a reconhecesse, e sentia vontade de externar-lhe o desejo; mas, ó infortúnio! faltava-lhem as palavras. Finalmente, ela considerou a hipótese de escrever algo, e grafou seu nome – era um nome curto – fazendo uso de seu casco nas areias. Ínaco a reconheceu, e descobrindo que sua filha, a quem ele há muito tempo vinha procurando, estava oculta sob tão singular disfarce, chorou sobre ela, e, abraçado ao seu pescoço branco, exclamou, "Que desgraça! minha filha, teria sido menos pesaroso jamais tê-la reencontrado!" Enquanto assim se lamentava, Argos, observava o entorno, e se aproximou, afastando-a para longe, e sentou-se sobre uma margem alta do rio, de onde ele podia vislumbrar tudo ao redor em todas as direções.

Júpiter ficou preocupado ao contemplar o sofrimento da sua amada, e mandando chamar Mercúrio disse para ele que fosse e executasse Argos. Mercúrio se apressou, vestiu suas sandálias aladas nos pés, colocou o barrete na cabeça, pegou sua varinha mágica indutora de sonolência, e se lançou das torres celestiais para a terra. Ali chegando, pôs de lado duas asas, mantendo apenas sua varinha mágica, que ele havia presenteado a si mesmo como um pastor que chefia seu rebanho. E enquanto passeava ele tocava flauta. Esta flauta era também chamada de Flauta de Pã ou flauta de Siringe. Argos ouvia embevecido, pois ele nunca tinha visto um instrumento como aquele. "Meu jovem," disse Argos, "vem e senta-te ao meu lado sobre esta rocha. Lugar melhor pelas redondezas não há como pasto para teu rebanho, e aqui encontrarás uma sombra agradável que os pastores apreciam muito." Mercúrio se sentou, conversou, e contou histórias até que ficou tarde, e tocou com sua flauta os acordes mais balsamizantes, esperançoso de embalar olhos vigilantes, mas todos os esforços eram em vão; pois Argos continuava ainda se esforçando para manter alguns de seus olhos abertos embora os demais se fechassem.

Dentre outras histórias, Mercúrio contou para ele como o instrumento que ele tocava havia sido inventado. "Havia uma certa ninfa, cujo nome era Siringe, que era muito adorada pelos sátiros e pelos espíritos da floresta; ela porém, a nenhum deles privilegiava, porque era uma fiel adoradora de Diana, e seguidora da caça. Você poderia pensar que se tratasse da própria Diana, caso a visse em seus trajes de caça, apenas com a diferença de que seu arco era feito com chifres e o de Diana era de prata. Certa feita, quando ela retornava da caça, a encontrou, disse-lhe exatamente isto, acrescentando mais alguns detalhes com o mesmo teor. Ela fugiu, sem se dar ao trabalho de parar para ouvir-lhe os elogios, e ele correu em perseguição até que ela chegou às margens do rio, onde ele a surpreendeu, e ela teve tempo apenas de pedir ajuda para suas amigas: as ninfas das águas.

Elas ouviram o pedido e acorreram pressurosas. Pã estendeu seus braços em torno do que ele supunha que fossem os contornos da ninfa, e descobriu que ele abraçava apenas um maço de juncos! Quando ele exalou um suspiro, o ar percorreu por entre as fibras dos juncos, e produziu uma canção lamurienta. O deus, encantado pela novidade e embevecido pela doçura da música, disse, “Pelo menos assim serás minha.” E ele pegou alguns juncos, e os colocou todos juntos, embora fossem desiguais em tamanho, um ao lado do outro, e fez um instrumento que ele chamou de Siringe, em louvor à ninfa." Antes que Mercúrio tivesse terminado esta história, ele percebeu que todos os olhos de Argos estavam se fechando. E quando a cabeça do gigante pendeu para a frente sobre seu peito, Mercúrio com um só golpe cortou o pescoço dele, e sua cabeça rolou por entre as rochas. Ó desafortunado Argos! a luz dos seus cem olhos se extinguiu imediatamente! Juno retirou os seus olhos e os colocou como ornamentos na cauda de seu belo pavão, onde eles permanecem até os dias de hoje.

Mas a vingança de Juno ainda não fora sacida. Ela enviou um moscardo:[1] para atormentar Io, que percorreu o mundo inteiro fugindo da sua perseguição. Ela atravessou o Mar Jônico ou Iônico, cujo nome tem nela sua origem, depois perambulou pelas planícies da Ilíria, subiu o Monte Hemo[2], além de cruzar o Estreito da Trácia, daí a sua denominação para o Estreito de Bósforo (que significa local para a vaca pastar), perambulou pela Cítia, e pela região dos cimérios, chegando finalmente às margens do Nilo. Por fim, Júpiter decidiu interceder por ela, e diante de sua promessa de que não mais voltaria seus olhos para admirá-la, Juno permitiu que a sua forma original lhe fosse devolvida. Foi curioso observá-la ao reassumir pouco a pouco a sua forma anterior. Os rudes pelos caíam de seu corpo, seus chifres encolheram, seus olhos foram ficando pequeninos, a boca diminuiu de tamanho; mãos e dedos surgiram no lugar dos cascos em suas patas dianteiras; no final nada restou da novilha, com exceção da beleza. No começo ela tinha medo de falar, com medo de se sentir humilhada, mas foi recuperando a confiança pouco a pouco, sendo devolvida à companhia de seu pai e das suas irmãs.

Em um poema dedicado a Leigh Hunt, escrito por Keats, ele faz à seguinte alusão à história de Pã e de Siringe:

“Então, ele sentiu que puxou o galho para o lado,

Para que pudéssemos olhar a imensa floresta

Nos dizendo porque a bela Siringe fugia trêmula

De Pã, deus da Arcádia, com medo assustador

Pobre ninfa — pobre Pã — como ele chorou ao encontrar

Nada além de um doce suspiro do vento

Ao longo do riacho repleto de juncos, esforço inaudito

Assolado por suave desolação, e dor balsamizante

Calisto[editar]

Júpiter e Calisto
François Boucher (1703-1770)

Calisto era uma outra beldade que despertou o ciúme de Juno, e a deusa a transformou numa ursa. "Porei um fim," disse ela, "à beleza com que seduziste meu marido." Calisto cai de joelhos e com mãos súplices, tentou estender os braços a implorar – nesse momento eles já estavam começando a ficarem cobertos com negra pelagem. Suas mãos cresceram em tamanho e ficaram arredondadas, armaram-se como garras retorcidas, e serviram de patas; a sua boca, que Jove normalmente elogiava por causa da beleza, se transformou num assustador par de mandíbulas; a sua voz, que se não fosse alterada teria enchido o coração de piedade, se transformou num gemido, mais apropriado para inspirar terror. Contudo, sua doçura de antes permaneceria, e gemendo continuamente, lastimava a própria sorte, e ficando de pé tão alto quanto podia, levantava as patas como a pedir por misericórida, e sentia que Juno era refratária, embora não lhe pudesse dizer isso. Ah, quantas vezes, com medo de pernoitar na floresta todas os dias sozinha, ela vagava pelos arredores de suas antigas caçadas; quantas vezes, assustada com os cães, ela, que também ultimamente vivia caçando, fugia apavorada por causa dos caçadores! Fugia com frequência dos animais selvagens, esquecida de que agora, ela própria, era também um animal selvagem; e mesmo sendo ursa, ela tinha medo dos ursos.

Um dia um jovem a espionava enquanto ela estava caçando. Ela o viu e reconheceu que era seu próprio filho, agora homem já adulto. Ela parou e sentiu vontade de abraçá-lo. Quando ela tentou se aproximar, ele, assustado, levantou sua lança de caça, e no momento que ía trespassá-la, apareceu Júpiter, que vendo o que estava para acontecer, deteve o ato criminoso, e pegou os dois, e os colocou nos céus como as constelações Ursa Maior e a Ursa Menor.

Juno ficou furiosa ao ver a rival homenageada em seu trono celestial, e correu a procura de seus antigos amigos: Tétis e Oceano, que eram as divindades das águas salgadas, e em resposta à curiosidade deles, assim descreveu o motivo da sua presença: "Estais me perguntando, porque eu, a rainha dos deuses, me ausentei das planícies celestiais em busca de vossos subterrâneos? Pois saibais vós que fui substituída no céu – o meu lugar foi tomado por uma outra. Reconheço a dificuldade em aceitarem tal despropósito; mas prestem atenção quando a noite descer sobre a terra, e vocês verão os dois, dos quais tenho muitos motivos para me queixar, exaltados pelo firmamento, bem no local onde o círculo se faz diminuto, nas vizinhanças do polo. De hoje em diante, porque alguém temeria diante da ideia de ofender Juno, quando tais galardões são o resultado do meu infortúnio?

Vejam o que fui capaz de fazer! Eu a impedi de vestir a forma humana – e ela foi colocada entre as estrelas! É nisso que resulta os meus castigos – tamanha é a extensão do meu poder! Seria melhor que ela tivesse reassumido a sua forma antiga, como permiti que Io também fizesse. Talvez ele tivesse a intenção de desposá-la, e me repudiar! Mas vós, meus pais por adoção, se concordais comigo, e reconheceis o desprazer deste tratamento indigno à minha pessoa, mostrai-o, vos imploro, impedindo este casal abominável de mergulhar em vossas águas." Os poderes do oceano aquiesceram, e consequentemente as duas constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor se movem em círculo no céu, porém, jamais mergulham, como as outras estrelas, nas profundezas do oceano.

Milton alude ao fato de que a constelação da Ursa nunca se esconde, quando diz: "À meia-noite, deixa que a minha Luz Seja vista por alguma gigantesca torre solitária, Onde eu possa vigiar a Ursa todos os dias," etc.

E Prometeu, no poema de J. R. Lowell, diz o seguinte:

"Uma depois da outra, as estrelas nascem e se põem,

Farfalhando sobre o frio gélido das minhas correntes;

A Ursa que rondava nos refolhos da noite

Da estrela polar, que penetrou em seu reduto,

Assustada com os passos joviais da Aurora."

A última estrela na cauda da Ursa Menor é a Estrela-Polar, também chamada de Cinosura[3]. Onde Milton diz o seguinte:

"Diretamente meus olhos foram presa de novos prazeres

Enquanto a paisagem mede os contornos.

Para visualizar torres e ameias

Protegidos até as alturas por árvores frondosas,

Onde talvez viva alguma divindade

A Cinosura de olhos amigos"

A referência aqui é tanto em relação à Estrela-Polar na qualidade de guia para os marinheiros, quanto à atração magnética do norte. Ele também a chama de "Estrela da Arcádia," porque o filho de Calisto se chamava Arcas, e eles viviam na Arcádia. No poema "Comus," o irmão, surpreendido pela noite na floresta, diz:

"... Alguma vela pálida! Tal qual uma vela impetuosa, que do emaranhado De alguma habitação de barro, nos visite Com teu longo e coordenado domínio do rio de luzes, E serás nossa estrela da Arcádia, Ou a Cinosura do deus Tyr."

Diana e Acteon[editar]

Diana e as ninfas
ilustração de Peter Paul Rubens (1577-1640)

De maneira que, nos dois exemplos anteriores, constatamos o rigor com que Juno tratava suas rivais; agora nós vamos saber como uma deusa virgem puniu um invasor de sua privacidade.

Era meio-dia, e o sol estava em posição igualmente distante de amtt as metas, quando o jovem Acteon, filho do rei Cadmo, desse modo se dirigiu aos jovens que com ele estavam caçando o cervo nas montanhas:

"Amigos, nossas redes e nossas armas estão manchadas pelo sangue de nossas vítimas; já exercitamos o bastante por um dia, e amanhã poderemos reavivar os nossos cometimentos. Agora, que a terra está sendo por Febo ressequida, descansemos os nossos instrumentos de caça e nos entreguemos ao repouso."

Era uma vez um espesso vale rodeado por árvores ciprestes e por pinheiros, e que eram sagradas para Diana, a rainha da caça. Nas fronteiras do vale havia uma caverna, sem os atavios da arte, mas a natureza simulou a arte durante a sua construção, pois ela havia ornamentado o arco do seu teto com pedras tão delicadamente posicionadas como se tivessem sido colocadas pelas mãos dos homens. Uma fonte jorrava de um lado, cuja bacia aberta era delimitada por uma borda enfeitada de grama. Aqui a deusa da floresta costumava repousar quando estava cansada de caçar, e banhava seus membros virginais em suas águas reluzentes.

Um dia, tendo ali adentrado em companhia de suas ninfas, ela entregou seu dardo, a aljava e o arco para uma, e sua túnica para outra, enquanto uma terceira desatava-lhe as sandálias dos pés. Então, Crócale, a mais habilidosa delas, penteava-lhe os cabelos, enquanto Nefele, Híale, e as demais transportavam água em recipientes gigantescos. Enquanto a deusa assim se dedicava às tarefas de higiene, eis que Acteon, tendo dispensado seus companheiros, passeando sem qualquer objetivo específico, chegou até o local, ali conduzido pelo destino. Quando ele apareceu na entrada da caverna, as ninfas, ao ver um homem, gritaram e correram em direção à deusa para ocultá-la com seus corpos. Mas ela era mais alta que as ninfas e se elevava acima da altura da cabeça de todas delas. Uma coloração singular que tinge as nuvens durante o crepúsculo ou ao amanhecer cobriu repentinamente o rosto de Diana. Como estava rodeada por suas ninfas, ela deu meia volta, e impulsivamente procurou pelas suas flechas. Como elas não estivessem ao seu alcance, ela jogou água no rosto do invasor, e disse: "Agora você pode sair daqui e dizer, se quiser, que você pegou Diana deprevenida." Imediatavamente um par de chifres semelhantes aos de cervos cresceu na cabeça de Acteon, seu pescoço ficou mais longo, e suas orelhas ficaram pontiagudas, suas mãos se transformaram em patas, seus braços se tornaram pernas compridas, e seu corpo ficou coberto de uma pele cabeluda e toda pintada.

O medo tomou lugar da coragem que ele tinha, e o herói fugiu assustado. Ele mesmo ficou admirado com sua desabalada carreira; mas quando ele viu os seus chifres refletidos na água, ele teve vontade de dizer: "Ah, que desgraçado que sou!" mas nenhum som foi pronunciado. Ele gemia, e lágrimas caíram de seu rosto que havia assumido um outro aspecto. Todavia a sua consciência permanecia. O que ele deveria fazer agora? – voltar para casa e retornar para o palácio, ou ficar escondido no meio da floresta? Tinha medo de tomar a primeira decisão, e vergonha de optar pela segunda. Diante de sua hesitação, os cachorros o encontraram. Primeiro Melampo, um cão espartano, que com seu latido fez sinal de atacá-lo, depois Pânfago, Dorceu, Lelaps, Teron, Nape, Tigre, e todos os outros, correram em direção a ele mais velozes que o vento.

Atravessando rochedos e despenhadeiros, por gargantas montanhosas que pareciam intransponíveis, ele fugia seguido pelos cães. Nos campos onde ele frequentemente perseguia os cervos e corria atrás da sua matilha, era agora perseguido por eles, e os caçadores corriam em seu encalço. Queria gritar, "Eu sou Acteon; vocês não reconhecem o seu mestre!" mas as palavras não obedeciam ao seu comando. O latido dos cães ecoava por toda parte. De repente um deles se agarrou em suas costas, outro abocanhou-lhe nos ombros. E enquanto eles imobilizavam o próprio dono, o resto da matilha apareceu e cravaram os dentes em sua carne. Ele gemeu, -- não com a voz humana, mas que certamente também não era a de um cervo, -- e caindo de joelhos, ele elevou os olhos, e teria levantado os braços em posição de súplica, caso os tivesse. Seus amigos e os caçadores que os acompanhavam açulavam os cães, e por toda parte procuravam por Acteon, gritando pelo seu nome para que viesse se juntar ao grupo. Ao ver que o chamavam ele virou a cabeça, e os ouviu que lamentavam que ele ali não estivesse. Ah, como ele gostaria que não estivesse mesmo naquela situação. Ele teria sentido grande satisfação em assistir as proezas de seus cães, mas sentí-los foi um castigo. Estavam todos eles ao redor dele, rasgando-o e dilacerando-o; e o ódio de Diana só foi satisfeito quando os cães lhe arrancaram o último suspiro de vida.

Shelley em seu poema "Adonais" faz a seguinte alusão à história de Acteon:

"No meio de outros uma sombra débil surgiu, Um fantasma em meio às criaturas: sem amigos Como se fosse a última nuvem de uma tempestade derradeira, Cujo trovão se ajoelha; ele, creio eu, Contemplou a ternura pura da natureza, E imitando Acteon, fugiu qual desesperado Mal conseguindo caminhar sobre a selvageria do mundo; E seus próprios pensamentos, por caminhos acidentados, Como pai e presa, eram perseguidos como cães raivosos."

A alusão provavelmente era feita ao próprio Shelley.

Latona[4][5] e os Camponeses[6][editar]

Alguns acreditam que a deusa nesta história foi mais severa do que justa, ao passo que outros louvaram a sua conduta de forma estritamente consistente com a sua dignidade virginal. Como sempre, o evento que acabamos de narrar traz à lembrança outros dos tempos passados, e um destes espectadores nos relatou o seguinte fato: "Alguns compatriotas moradores de Lícia em certa ocasião insultaram a deusa Latona, mas não ficaram sem impunidade. Quando ainda era jovem, o meu pai, que estava velho demais para os trabalhos habituais, me enviou para Lícia para que trouxesse de lá um certo touro, e lá tive a oportunidade de ver o próprio lago e o pântano estas maravilhas onde se realizaram. Um antigo altar ficava nas imediações, já enegrecido por causa da fumaça do sacrifício e quase que sepultado no meio dos juncos.

Quis saber de quem seria aquele altar, se era de Fauno ou das Náiades, ou de algum deus nas montanhas das vizinhanças, e um dos moradores daquela região respondeu, "Nenhum deus da montanha ou dos rios é o dono deste altar, mas aquela a quem a Juno real, num acesso de ciúmes, expulsou de muitas terras, negando a ela o direito a qualquer lugar na Terra onde pudesse criar seu casal de gêmeos." Trazendo em seus braços as divindades infantis, Latona chegou à estas terras, cansada com o pesos dos bebês e abrasada pela sede. Por acaso, ela divisou no fundo do vale este lago de águas límpidas, onde os camponeses locais colhiam juncos e vimes. A deusa se aproximou, e se ajoelhando junto às margens do lago, teria saciado sua sede em suas águas geladas, mas os camponeses a impediram. “Porque me recusais água?” exclamou ela; “a água é propriedade de todos”.

A Natureza não permite que ninguém se autoproclame com direitos de propriedade sobre a luz do sol, do ar ou da água. Estou aqui para compartilhar de uma graça que pertence a todos. Mesmo assim, gostaria de lhes pedir um favor. Não pretendo lavar os meus pés e os meu braços dentro dele, por mais extenuada que esteja, peço apenas para saciar a minha sede. A minha boca está tão seca que mal consigo falar. Um gole de água seria néctar para mim; ela me ressuscitaria, e este sentimento de gratidão por vocês me acompanharia pelo resto da vida. Permita que estas crianças vos convençam pela piedade, ao estenderem seus pequenos bracinhos como se estivessem pleiteando a meu favor;” e as crianças, de fato, tinham seus braços estendidos.

"Quem não teria se comovido com estas gentis palavras da deusa? Mas aqueles bufões persistiam na sua insolência; chegando até a zombar e a fazer violentas ameças caso ela não se retirasse dali. E isso não era tudo. Eles entraram dentro do lago e com seus pés agitaram a lama, de modo a tornar a água imprópria para beber. Latona ficou tão aborrecida que ela deixou de se preocupar com a sua sede. Já não fazia mais súplicas aos bufões, mas levantou suas mãos para o céu e exclamou, "Que eles nunca mais saiam desse lago, mas passem aí a vida inteira!"

E foi isso mesmo o que aconteceu. Eles agora passaram a viver na água, algumas vezes totalmente submersos, ora elevando suas cabeças acima da superfície ora nadando sobre as águas. Algumas vezes eles saíam em direção à margem, mas logo saltavam de volta para suas águas. Usavam de termos impróprios para expressarem sua indignação, e embora tivessem toda água do lago para si mesmos, não se envergonhavam de coaxar dentro dele. O som que emitiam era desagradável, suas gargantas incharam, a boca deles se alongou por ralharem constantemente, o pesçoco deles encolheu chegando a desaparecer, e suas cabeças ficaram coladas diretamente ao corpo. As costas deles ficaram verdes, seus estômagos desproporcionais e brancos, e para concluir, eles se transformaram em sapos, e passaram a morar no lago lamacento."

Esta história explica a alusão em um dos sonetos de Milton, "Sobre a calúnia decorrente de sua autoria acerca de determinados tratados."

"Nada mais fiz do que preparar a história para impedir sua estagnação

Por meio de leis já conhecidas da velha liberdade

Quando o brado dos bárbaros me atingiu diretamente

Com corujas e cucos, asnos, macacos e cães.

E quando aqueles camponeses foram transformados em sapos

Ralhando diante dos gêmeos de Latona,

Que o sol e a lua cobraram resgate."

A perseguição que Latona sofreu por parte de Juno é mencionada na história. Diz a tradição que a futura mãe de Apolo e Diana, fugindo da ira de Juno, partiu em busca das ilhas do Egeu para lhe proporcionar um lugar de descanso, mas todos tinham muito medo da poderosa rainha do céu para ajudar a sua rival. Apenas Delos concordou em se tornar berço das futuras divindades. Na época, Delos era somente uma ilha flutuante; mas quando Latona chegou a esse lugar, Júpiter prendeu-a com correntes de diamante até o fundo do mar, para que a sua amada encontrasse um aí um lugar seguro para descansar. Byron faz menção a Delos em seu "Don Juan":

"As ilhas da Grécia! as ilhas da Grécia!

Onde a ardente Safo amou e cantou,

Onde se desenvolveu a arte da guerra e da paz,

Onde Delos surgiu e Febo nasceu!"

Notas e Referências do Tradutor[editar]

  1. Moscardo ou tavão: espécie de mosca que afeta o gado. Aparece na mitologia grega como um dos torturadores de Io, a donzela que fora transformada em novilha por Zeus.
  2. Na antiguidade, a Cordilheira dos Bálcãs eram conhecidas como Monte Hemo. Acredita-se que este nome, que significa “sangrento”, deva sua origem a um rei da Trácia chamado Hemo, filho do rei Boreas. Ele era vaidoso e arrogante, e comparou a si mesmo e a sua esposa como se fossem os deuses Júpiter e Juno.
  3. Cinosura, na mitologia grega, era uma ninfa do Monte Ida, em Creta. Cinosura, junto com Helike, amamentou Zeus quando ele se escondeu de seu pai, Cronos. Por gratidão, Zeus a colocou no céu como a constelação Ursa Menor. Cinosura é também uma outra denominação para a constelação Ursa Menor, ou sua estrela mais brilhantes, a Estrela-Polar.
  4. Mundo da Filosofia
  5. O Unicórnio da Deusa
  6. Veja também:Brasil Escola