História da Província de Santa Cruz/IV

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História da Província de Santa Cruz por Pero de Magalhães Gândavo
Capítulo IV: Da governança que os moradores destas capitanias tem nestas partes e a maneira de como se hão em seu modo de viver


Depois que esta Provincia Santa Cruz se começou de povoar de Portuguezes, sempre esteve instituida em huma governança na qual assistia Governador Geral por ElRey nosso Senhor com alçada sobre os outros Capitães que residem em cada Capitania. Mas porque de humas a outras ha muita distância e a gente vai em muito crescimento, repartio-se agora em duas governações, convem a saber da Capitania de Porto Seguro para o Norte fica huma, e da do Spirito Santo para o Sul fica outra: e em cada huma dellas assiste seu Governador com a mesma alçada. O da banda do Norte reside na Bahia de Todos os Santos, e o da banda do Sul no Rio de Janeiro. E assi fica cada hum em meio de suas jurisdições, para desta maneira poderem os moradores da terra ser melhor governados e á custa de menos trabalho.

E vindo ao que toca ao governo de vida e sustentaçam destes moradores, quanto ás casas em que vivem cada vez se vão fazendo mais custosas e de melhores edificios: porque em principio nam havia outras na terra sinam de taipa e terreas, cobertas somente com palma. E agora ha já muitas sobradadas e de pedra e cal, telhadas e forradas como as deste Reino, das quaes ha ruas mui compridas, e formosas nas mais das povoações de que fiz mençam. E assi antes de muito tempo (segundo a gente vai crecendo) se espera que haja outros muitos edificios e templos mui sumptuosos com que de todo se acabe nesta parte a terra de enobrecer.

Os mais dos moradores que por estas Capitanias estão espalhados, ou quasi todos, tem suas terras de sesmaria dadas e repartidas pelos Capitães e Governadores da terra. E a primeira cousa que pretendem acquirir, são escravos para nellas lhes fazerem suas fazendas e si huma pessoa chega na terra a alcançar dous pares, ou meia duzia delles (ainda que outra cousa nam tenha de seu) logo tem remedio para poder honradamente sustentar sua familia: porque hum lhe pesca e outro lhe caça, os outros lhe cultivão e grangeão suas roças e desta maneira nam fazem os homens despeza em mantimentos com seus escravos, nem com suas pessoas. Pois daqui se póde inferir quanto mais serão acrecentadas as fazendas daquelles que teverem duzentos, trezentos escravos, como ha muitos moradores na terra que nam tem menos desta contia, e dahi pera cima.

Estes moradores todos pela maior parte se tratão muito bem, e folgão de ajudar huns aos outros com seus escravos, e favorecem muito os pobres que começão a viver na terra. Isto geralmente se costuma nestas partes, e fazem outras muitas obras pias, por onde todos tem remedio de vida, e nenhum pobre anda pelas portas a mendigar como nestes Reinos.