História da Província de Santa Cruz/VIII

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História da Província de Santa Cruz por Pero de Magalhães Gândavo
Capítulo VIII: De alguns peixes notaveis, baléas e ambar que ha nestas partes


He tam grande a copia do sabroso e sadío pescado que se mata, assi no mar alto, como nos rios e bahias desta Provincia de que geralmente os moradores sam participantes em todas as Capitanias, que esta só fertilidade bastara a sustenta-los abundantissimamente, ainda que nam houvera carnes nem outro genero de caça na terra de que se proveram como atras fica declarado.

E deixando á parte a muita variedade daquelles peixes que commumente nam differem na semelhança dos de cá, tratarei logo em especial de hum certo genero delles que ha nestas partes, a qué chamam peixes bois, os quaes sam tam grandes que os maiores pesam quarenta, cinquoenta arrobas. Têm o focinho como o de boi e dous cotos com que nadam á maneira de braços. As femeas têm duas tetas, com o leite das quaes se criam os filhos. O rabo he largo, rombo, e nam muito comprido: nam têm feição alguma de nenhum peixe, somente na pelle quer se parecer com toninha. Estes peixes pela maior parte se acham em alguns rios, ou bahias desta costa, principalmente onde ha algum ribeiro, ou regato se mete na agua salgada sam mais certos: porque botam o focinho fora e pascem as hervas que se criam em semelhantes partes, e tambem comem as folhas de humas arvores a que chamam Mangues, de que ha grande quantidade ao longo dos mesmos rios. Os moradores da terra os matam com arpões, e tambem em pesqueiras costumam tomar alguns porque vem com a enchente da maré aos taes logares, e com a vazante se tornam a ir para o mar donde vieram. Este peixe he muito gostoso em grande maneira, e totalmente parece carne, assi na semelhança, como no sabor, e assado nam tem nenhuma differença de lombo de porco. Tambem se coze com couves e guiza-se como carne, e assi nam ha pessoa queo coma que o julgue por peixe, salvo se o conhecer primeiro.

Outros peixes ha a que chamam Camboropins que sam quasi tamanhos como atuns. Estes têm humas escamas mui duras e maiores que os outros peixes; tambem se matam com arpões, e quando querem pesca-los poem-se em alguma ponta ou pedra ou em outro qualquer posto accomodado a esta pescaria. E o que he bom pescador, pera que nam faça tiro em vão, quando os vêem vir deixa-os primeiro passar e espera até que fiquem a geito que possa arpoa-los por detraz, de maneira que o arpam entre no peixe sem as escamas o impedirem, porque sam, como digo, tam duras que se acerta a dar nellas de maravilha as pode penetrar. Este he hum dos melhores peixes que ha nestas partes, porque alem de ser muito gostoso, he tambem muito sadio, e mais enxuto de sua propriedade que outro algum que na terra se coma. Tambem ha outra casta delles, a que chamam Tamoatás, que sam pouco mais ou menos do tamanho de sardinhas, e nam se criam senam em agua doce. Estes peixes sam todos cobertos de humas conchas distinctas naturalmente como laminas, com as quaes andam armados da maneira dos Tatús, de que atraz fiz mençam, e sam muito sabrosos, e os moradores da terra os têm em muita estima.

Ha tambem hum certo genero de peixes pequeninos da feição de xarrocos, a que chamam Mayacús: os quaes sam mui peçonhentos por extremo, especialmente a pelle o he tanto, que se huma pessoa gostar hum só bocado della, logo naquella mesma hora dará fim a sua vida, porque nam ha nem se sabe nenhum remedio na terra que possa apagar nem deter por algum espaço o impeto deste mortifero veneno. Alguns Indios da terra se aventuraram a come-los depois que lhe tiram a pelle e lhe lançam fora por baixo toda aquella parte onde dizem que tem a força da peçonha. Mas sem embargo disso, nam deixam de morrer algumas vezes. Estes peixes tanto que saem fora da agua incham de maneira, que parecem uma bexiga cheia de vento; e alem de terem esta qualidade sam tam mansos que os podem tomar ás mãos sem nenhum trabalho; e muitas vezes andam á borda da agua tam quietos, que nam os verá pessoa que se nam convide a toma-los, e ainda a come-los se nam tiver conhecimento delles.

Outros peixes nam sinto nestas partes de que possa fazer aqui particular mençam: em todos os demais, nam ha como digo, muita differença dos de cá, e a maior parte delles sam da mesma casta, mas muito mais sabrosos, e tam sadíos que nam se vedam nem fazem mal aos doentes, e pera quaesquer enfermidades sam muito leves, e de toda maneira que os comam nam offendem á saude.

Não me pareceu tambem cousa fóra do proposito tratar aqui alguma cousa das balêas e do ambar, que dizem que procede dellas. E o que ácerca disto sei, que há muitas nestas partes, as quaes costumam vir d'arribação a esta costa, em huns tempos mais que outros, que sam aquelles em que asinaladamente sae o ambar que o mar de si lança fóra em diversas partes desta Provincia, e daqui vem a muitos terem pera si que nam he outra cousa este ambar, senam esterco de balêas e assi lho chamam os Indios da terra pela sua lingoa, sem lhe saberem outro nome. Outros querem dizer que he sem nenhuma falta a esperma da mesma balêa. Mas o que se tem por certo (deixando estas e outras erradas opiniões áparte) he que nasce este licor no fundo do mar, nam geralmente em todo, mas em algumas partes delle, que a natureza acha dispostas pera o criar. E como o tal licor seja manjar das balêas, affirma-se que comem tanto delle até se embebedarem, e que estes que sae nas praias he o sobejo que ellas arrebessam.

E se isto assi nam fora desta maneira e elle procedera das mesmas balêas por qualquer das outras vias que acima fica dito, crer he, que tambem houvera da mesma maneira em qualquer outra costa destes Reinos, pois em toda parte do mar sam geraes. Quanto mais que nesta Provincia de que trato se fez já experiencia em muitas dellas que sahiram á costa e dentro das tripas de algumas acharam muito ambar cuja virtude iam já digerindo, por haver algum espaço que o tinham comido. E noutras lhe acharam no bucho outro ainda fresco, e em sua perfeição, que parecem que o acabaram de comer naquella hora antes que morressem. Pois o esterco naquella parte onde a natureza o despede nam tem nenhuma semelhança de ambar, nem se enxerga nelle ser menos digésto que o dos outros animaes. Por onde se mostra claro, que a primeira opinião nam fica verdadeira, nem a segunda tam pouco o pode ser: porque a esperma destas balêas, he aquillo a que chamam balso, de que ha por esse mar grande quantidade, o qual dizem que aproveita pera feridas e por tal he conhecido de toda pessoa que navega. Este ambar todo quando logo sae vem solto como sabam, e quasi sem nenhum cheiro, mas dahi a poucos dias se endurece, e depois disso fica tam odorifero como todos sabemos.

Ha todavia ambar de duas castas, s. hum pardo, a que chamam gris, outro preto: o pardo he mui fino e estimado em grande preço em todas as partes do mundo: o preto he mais baixo nos quilates do cheiro, e presta pera muito pouco segundo o que delle se tem alcançado: mas de hum e doutro ha sahido muito nesta Provincia e sae hoje em dia. de que alguns enriqueceram e enriquecem cada hora, como he notorio.

Finalmente que como Deos tenha de muito longe esta terra dedicada á Christandade e o interesse seja o que mais leva os homens tras si que outra nenhuma cousa que haja na vida, parece manifesto querer interte-los na terra com esta riqueza do mar até chegarem a descobrir aquellas grandes minas que a mesma terra promete, pera que assi desta maneira tragam ainda toda aquella céga e bárbara gente que habita nestas partes, ao lume e conhecimento da nossa Santa Fé Catholica, que será descobrir-lhe outras maiores no céo, o qual nosso Senhor permita que assi seja pera gloria sua e salvação de tantas almas.