História das Psicoterapias e da Psicanálise/III/IV

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Princípios básicos de psicologia no terreno da psicanálise, Os nossos condicionamentos


1) O problema da LIBERDADE humana foi debatido, discutido e polemizado em todas as épocas, sob todos os ângulos e com opostas soluções. A Genética e a Citologia, por um lado, e a Psicologia e Parapsicologia, por outro, estão nos fornecendo explicações mais científicas sobre tão momentoso problema. De um lado somos terrivelmente CONDICIONADOS, na área INCONSCIENTE e biológica e nessa porcentagem carecemos de liberdade. Na área racional, porém, resta-nos um pequeno campo de escolha, e na mesma medida, uma pontinha de liberdade.

2) CONDICIONAMENTO BIOLÓGICO — Sem contar as inúmeras circunstâncias em que não é permitida a ESCOLHA, como lugar, nacionalidade, data de nascimento, país, parentesco, condição social, nome, etc., todos nós nascemos geneticamente condicionados. A genética de um lado, e a reflexologia de outro, estão começando a nos explicar os porquês dos reflexos incondicionados, que formam o que podemos chamar de "memória herdada" ou código de vida. Ao que parece, nos próprios gênes nos é transmitido o fundamento de todo o nosso comportamento ulterior, não só biológico, como temperamental, caracteriológico, moral, e, inclusive dos nossos comportamentos intelectual e racional.

UMA SEGUNDA NATUREZA foi formada em nós por verdadeiro condicionamento, através de milênios ou milhões de anos. Poderosas forças adicionais, verdadeiras tendências ou necessidades, hábitos não aprendidos inatos e congênitos, designados como INSTINTOS, foram formados no correr dos tempos por verdadeiro condicionamento, acrescentando ao comportamento químico-biológico, um outro comportamento artificial (formado-condicionado) psíquico-fisiológico. A tendência a sugar o peito, a rir, chorar, erguer-se, andar, o grau de temperatura normal, a atitude para amar ou para agredir, são formações filogenéticas, que escapam a todo condicionamento atual, mesmo que provenham de um condicionamento ancestral e milenar.

O SEXO: por exemplo, sujeito inicialmente ao princípio do prazer e do desprazer, de uma necessidade biológica do homo-animalis, transformou-se por condicionamento e hábito, em necessidade psicológica do homo-sapiens, determinada pelo princípio do prazer pelo prazer. O ato criou o hábito, e o exagero criou a necessidade, viciando a natureza primitiva, como o cigarro e o álcool vicia agora criando novas necessidades artificiais.

3) CONDICIONAMENTO AMBIENTAL-EDUCATIVO — Para a maioria dos pais (as exceções são mínimas) a criança é considerada como um OBJETO. Ela representa o objeto do amor dos pais, do prazer dos pais e do interesse dos pais. Normalmente, em seus primeiros anos, a criança é criada e educada (ou condicionada) pelos gostos dos pais, pelos hábitos dos pais, pelo exemplo dos pais, que marcam e condicionam a criança, deixando nela estereotipado aquilo que a PSICANáLISE chama de IMAGO paterna.

A criança cria-se e educa-se também em contato com os irmãozinhos e os amiguinhos, ou com os irmãos maiores, tios, avós, etc., que também a consideram como um objeto e a condicionam com seus comportamentos e ensinamentos. A luta pela vida, o direito do mais forte, a necessidade de auto-afirmação e de sobrevivência, que exercidas em sua vida de brinquedos e dirigidas sempre pelos princípios de maior prazer ou desprazer e pelo da realidade, deixam nela igualmente grandes marcas de novos condicionamentos.

4) CONDICIONAMENTO CULTURALA ESCOLA: Nenhuma escolha sobre a escola, nem do professor ou da professora, nenhuma escolha das matérias a aprender. Os pais escolhem, (quando podem) no máximo o lugar, e mais nada, o resto é tudo imposto pelas circunstâncias. Tudo planejado. E a seguir, começamos a ser educados-ensinados (condicionados) pela sociedade e para a sociedade. Outra vez, a luta pela vida, a necessidade de auto-afirmação e de vitória, a IMAGO dos professores e professoras, o exemplo dos colegas norteiam e condicionam a formação dos princípios e motivos do comportamento.

5) CONDICIONAMENTO SOCIAL, POLíTICO E RELIGIOSO — Nem quando maiores deixamos de ser condicionados. O ambiente familiar, social, político e religioso continua a marcar e a dirigir os nossos passos e os nossos comportamentos. A convivência familiar impõe-nos, diariamente, inúmeras normas de vida, que indubitavelmente não queremos e, intimamente rejeitamos, mas que nos vemos obrigados a praticar. No social, as boas maneiras e a moda nos ditam as normas, o cinema, as amizades, as festas, etc., controlam-nos muito mais do que nós pensamos. No religioso é a mesma coisa. Queiramos ou não queiramos, outros nos guiam, nos conduzem, nos ensinam, nos marcam os caminhos, nos condicionam. E na política, então não digamos. Basta saber que jornal lê, para saber como pensa.

6) De onde resulta que, perante um condicionamento genético-biológico (memória biológica ou herdada) surge em nós um determinismo inconsciente biológico (Freud — ID).

Perante um condicionamento educacional e cultural (familiar — religioso — escolar) surge, também, um determinismo cultural, igualmente inconsciente: (Jung, From e a Escola Americana — SUPER-EGO).

E perante um condicionamento político-social surgirá assim mesmo um determinismo social, inconsciente: (Sullivan, Horney, Reich, e todos os socialistas, principalmente — SUPER-EGO).

Nosso condicionamento e determinismo psíquicos resulta de uma soma de todos os anteriores.

7) Ao final terminamos sendo uns CONDICIONADOS. Mesmo em nossa superfície consciente, às vezes, nos revoltamos com tantas imposições, nas camadas profundas do inconsciente, aceitando essas normas de comportamento, que nos impõe o ambiente externo (SUPER-EGO), convertendo-nos, a maioria em seres autômatos e não livres. E os que estão revoltados também no seu íntimo inconsciente, acabarão frustrados, angustiados e finalmente neuróticos. Pode ser que nosso EGO consciente tenha a pretensão de ser bastante livre. Na verdade ele está sendo pressionado pelo ID de um lado e pelo SUPER-EGO, de outro. E, neste sentido, nossa liberdade fica normalmente a 5% ou 10%, no máximo.