História das Psicoterapias e da Psicanálise/IV/II

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
A teoria freudiana de libido e da sexualidade, Os desvios sexuais


1) Em todas as fases do desenvolvimento da libido, pode acontecer que tal processo não se efetue normalmente o que dará origem a uma série de desvios sexuais ou anormalidades, chamadas também de perversões.

A fixação: Pela repetição dos atos, o reflexo condicionado e o hábito adquirido poderão causar um processo normal de fixação. No caso da libido, pode ocorrer o fenômeno da fixação do prazer libidinoso em algum dos focos ou zonas próprios das fases anteriores, a boca, o ânus, zonas genitais, etc., determinando nos caracteres das personalidades, marcadas qualidades de comportamento oral, anal, fálico, etc. Nesta base, Freud desenvolveu um tipo de caracterologia: pessoas de caráter oral, as que sentem o máximo prazer na boca; os fumadores, os bebedores e os grandes gastrônomos, e sexualmente os cunilingues. De caráter anal, os avarentos, sovinas, ultra-conservadores, etc. bem como os vingativos, médicos e os homossexuais invertidos ou passivos; de caráter fálico, os narcisistas, os egoístas, egocentristas, etc., e os homossexuais ativos.

O mecanismo da fixação é uma das descobertas freudianas mais brilhantes e preciosas. A fixação seria produzida por experiências infantis, quer de frustrações ultra-penosas, quer de satisfação intensa em determinadas zonas corporais. Em situações especialmente difíceis e tensas a satisfação ou frustração proporcionaria um colorido todo especial e a criança nunca mais poderia abandonar esse tipo de atividade infantil, que lhe ocasionou tamanha satisfação ou frustração. Chupar os dedos, morder as unhas, fumar ou beber exageradamente, em momentos de aborrecimentos ou tensão nervosa, poderia interpretar-se como manifestações de fixação à fase de prazer oral, que sentiam ao serem amamentadas e pelo excessivo uso da chupeta, quando crianças, ao qual voltam quando se sentem inseguras. O prazer excessivo na acumulação de riquezas, seria um reflexo de fixação do prazer na retenção das fezes, na fase anal, bem como certos tipos de constipação ou prazer intenso no ato da evacuação. Do mesmo modo, algumas formas de masturbação e de narcisismo poderiam ser consideradas como efeitos de fixação da zona fálica.

A regressão: Igualmente brilhante foi a descoberta do mecanismo de regressão feita por Freud. Tem-se notado, na análise dos neuróticos, que em muitos casos adotam modos de comportamentos e atitudes correspondentes às que usaram em tempos remotos de fases passadas. Parece comprovar-se que, ao encontrar obstáculos difíceis de transpor, durante o desenvolvimento de sua personalidade, escolha a solução de regredir ou retornar a determinadas formas passadas de prazeres libidinosas, que representaram um significado especial de satisfação em tempos de fases antigas. Todos sabemos que, quando uma pessoa, que já fora sadia e correta, começa a ficar neurótica, seu estado comportamental torna-se infantil e imaturo tanto mais quanto mais intensa for a sua neurose. Parece regredir, do estado de madureza para o antigo estado de criança. Aí começa a adotar padrões de comportamento que já tivera noutras épocas. Por exemplo, uma moça cuja necessidade de amor seja frustrada no casamento, procura regredir, em certos casos, a determinados estados de sua infância que lhe foram ocasiões de grandes satisfações desta mesma necessidade de afeto, revivendo o mesmo tipo do comportamento daquelas épocas.

2) A explicação dos desvios sexuais parece uma base correta nesses tipos de fixação e de repressão.

O narcisismo primário, que nas fases anal e fálica, leva a criança a adotar comportamentos egoístas, monopessoais, egocentristas e de auto-erotismo, nada mais é do que a volta à libido do EGO, própria da fase oral, que já devia ter ultrapassado, transferindo sua libido interior para a libido objetal ou dos objetos exteriores, pais, irmãos, amigos, etc. é no entanto na época da fase fálica em que a criança se mostra mais egoísta que nunca, tudo querendo para si, brigando por tudo e contra todos, defendendo o que julga ser seu e tirando dos outros o que não é seu. E se prolongar através do período de latência, fixações e regressões posteriores, darão origem a caracteres extremamente egoístas e narcisistas, que tudo querem para si com prejuízo dos demais. O fumador, o beberrão, o comilão e o jogador, são indivíduos que gastam lindamente todo o dinheiro de seu ordenado, sem preocupar-se com as necessidades que passa sua família, adotando um tipo de comportamento chamado de narcisisno secundário, reflexo da fase oral, respectiva e ultra-egoísta.

3) O mesmo tipo de fixação e repressão vamos encontrar nos comportamentos sádicos e masoquistas de muitos adultos, que não fazem mais do que voltar ao tipo de comportamento já estabelecido quando criança, durante a fase anal, época de comportamentos dominadores próximos à crueldade, que podem ver-se nas crianças dessa idade. De fato e nessa fase sádico-anal, coincidindo com a saída dos dentes e o robustecimento dos esfíncteres, que os desejos infantis adquirem tal vigor, algumas vezes, que de não ser satisfeitos, provocam nas crianças reações extremamente agressivas e destrutivas, mostrando como que grande prazer na destruição e no sofrimento da coisa ou pessoa amada. E igual a criança, o adulto que se sente impedido de alcançar um objetivo apetecido, diante do desprazer ocasionado por essa frustração, é levado a uma reação de irritabilidade e conseqüentemente de agressividade destrutiva. Qualquer tipo de frustração pode levá-lo à mesma reação sádico-masoquista ou as mesmas frustrações registradas quando criança.

Fatos infantis de intensa satisfação prazerosa ou de intensa frustração costumam provocar imagens e lembranças carregadas de afetividade, como em tempos posteriores, surgindo de novo na memória pelo mecanismo da associação, e produzindo nova afetividade semelhante à primeira e levarão o adulto, por regressão, ao mesmo tipo de comportamento anteriormente fixado.

4) Homossexualidade: Houve um tempo em que se acreditava que o homem homossexual (passivo) o era porque num corpo de homem habitava uma alma de mulher; e vice-versa, a mulher homossexual (ativa) tinha em seu corpo de mulher uma alma de homem! Hoje se fala do terceiro sexo, ou melhor, de sexos indiferenciados. De qualquer modo, as tendências afetivas desses indivíduos tornam-se invertidas.

Em muitos casos é possível que existam causas somáticas ou orgânicas que ocasionem essa inversão de tendências anormais. Elementos hormonais ou uma constituição somática inversa poderão originar tendências também inversas.

Comumente, sem embargo, parece constatar-se que as causas verdadeiras, próximas ou remotas do homossexualismo, nos homens ou nas mulheres, residem mais em razões educacionais, culturais e sociais.

Estatisticamente falando, parece que a porcentagem de homossexuais é muito menor no campo que na cidade. Isto nos leva a pensar que a causa freqüentemente não é somática, mas psíquica e educacional.

Psicologicamente, o homossexualismo teria várias causas. Os meninos muito apegados aos pais e as meninas muito ligadas às mães podem desenvolver um comportamento regressivo de afeição por parceiros do mesmo sexo. Máxime quando os meninos constantemente escutam o pai falando mal das mulheres e as meninas escutam sempre a mãe falando mal dos homens. Meninos que de crianças se criam exclusivamente com meninos e vivem em colégios e externatos exclusivamente de meninos, por falta de convívio, podem desinteressar-se pelas meninas e desenvolver atitudes de timidez e inibição diante das mulheres posteriormente. Nestes casos é fácil desenvolver relações unilaterais com o mesmo sexo quando criança e por fixação e regressão fazê-lo igualmente quando adultos. O mesmo ocorre em tratando-se de meninas.

O desinteresse havido pelo sexo oposto, nascido da falta de convívio, e as fantasias infantis e dos adolescentes a seu respeito, podem explicar muitos dos casos de homossexualismo, nesses casos é fácil criar amizades profundas entre indivíduos do mesmo sexo, capazes de resultar esse tipo de sexualidade.

Freqüentemente o medo da responsabilidade de ter filhos, da carga de um lar e de sustentar uma mulher, o ganho fácil de dinheiro e posição social, bem como os maus exemplos e a iniciação alheia, podem ser outras tantas causas de ordem educacional, cultural ou social e econômica que possam dar margem ao início da homossexualidade.