História das Psicoterapias e da Psicanálise/IX/III

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Psicoterapias fora da psicanálise, Psicoterapias combinadas com a psicanálise


1) A Hipnoterapia psicoterápica e a Hipnoanálise: Mais antiga que todas as outras psicoterapias e métodos psiquiátricos, exceto a psicoterapia religiosa, o Hipnotismo junto com a sugestão eram quase as únicas formas de psicoterapia antes do aparecimento da psicanálise. Sabemos como Freud utilizou a hipnose catártica, como ponto de partida para a elaboração de seu sistema, terminando finalmente por combatê-lo acirradamente, tanto ele como os seus discípulos. Hoje, porém, está se processando uma tendência à uma espécie de síntese ou combinação de ambos.

Inegavelmente o Hipnotismo representa uma grande força de múltiplas aplicações, especialmente na terapia psíquica e psicossomática, constando em seu haver um grande número de curas, das mais variadas, inclusive de úlceras, tumores e até de câncer. A própria profissão médica, depois de tê-lo rejeitado e combatido drasticamente, durante mais de duzentos anos, bem a seu contragosto, o está admitindo ultimamente dentro dos recintos sagrados da matéria médica, em clínicas públicas e em cursos e cátedras universitárias. E o que é pior, está querendo guardá-lo agora a sete chaves como propriedade exclusiva sua.

2) A faixa de aplicação da hipnoterapia é enormemente ampla, mas em tratando-se de certos tipos de desordens nervosas, o Hipnotismo, em suas diversas formas de aplicação, é hoje reconhecido como o tratamento mais aconselhável. O nosso inconsciente é o mais vasto e importante reservatório do nosso EU, onde se armazenam lembranças demasiado dolorosas para serem toleradas pelo consciente. Mas quando estamos doentes dos nervos é necessário abri-lo para desenterrar seus complexos e aceitar que são as causas de nossas enfermidades, e assim modificar os nossos comportamentos e personalidades. E a chave mágica para abrir e perscrutar esse vasto fundo do inconsciente é a hipnose, quer produzida pela sugestão, por drogas ou por outros procedimentos diversos. Exceto o longo e laborioso processo da Psicanálise, não existe outro melhor e mais prático.

Principalmente é o inconsciente do hipnotizado que obedece sem questionar e cumpre cegamente as ordens do operador, não só durante o transe hipnótico mas também depois dele, o que não acontece assim com o paciente e as ordens do psicanalista. Freqüentemente, à mera sugestão do hipnotizador, são removidas diversas inaptidões físicas de longa data e se fazem desaparecer todos os sintomas da enorme lista das doenças psicossomáticas, bem como suas próprias causas, quando o operador é suficientemente hábil para isso. A uma palavra sua, qualquer parte do corpo do hipnotizado se tornará insensível ou hipersensível, a ponto de sentir ou não sentir a menor dor se for picado, queimado ou mesmo cortado, durante uma operação de pequena ou de alta cirurgia, desde que nas mãos de um experiente hipnotizador. A temperatura, as pulsações cardíacas, o tônus total ou parcial de seus membros e as secreções glandulares aumentarão ou diminuirão ou ficarão alteradas sob o seu comando. Durante o transe hipnótico, um paciente habilmente sugestionado poderá fazer coisas que lhe pareciam incríveis de se fazer em situação normal, tais como suportar ou levantar enormes pesos ou desenvolver forças, que ficarão além de sua capacidade normal. Poderá falar um idioma desconhecido, talvez aprendido durante a infância, mas agora totalmente esquecido, de modo a não ter dele a menor lembrança, quando acordado. Respondendo a sugestões do hipnotizador, pode enxergar, como se estivessem presentes, pessoas e cenas ausentes ou inexistentes e parecer-lhe-ão invisíveis as pessoas e coisas visíveis e presentes. Acordado, lembrará ou esquecerá tudo o que o hipnotizador queira que lembre ou esqueça. Numa palavra, o inconsciente do hipnotizador torna-se incrivelmente crédulo, receptivo, dócil e obediente a toda e qualquer ordem do hipnotizador. é, portanto, altamente INFLUENCIáVEL e susceptível de ser modificado e REFORMADO, tanto em seus defeitos físicos como psíquicos, bem como respeitado as boas qualidades e hábitos que deseje que sejam adquiridos.

Nestas circunstâncias, não cabe dúvida de que o Hipnotismo é e pode tornar-se um instrumento médico e psicoterápico de valor excepcional desde que utilizado por um hábil operador, e à luz da Hipnologia científica moderna. Infelizmente, quando falamos em hipnose e hipnotismo, automaticamente nos vêem à mente a imagem tradicional e tão batida do hipnotismo de "palco". Mas, certamente, atrás dessa fachada impopular é que se escondem valores autênticos e inestimáveis, não só na área da medicina e da psicoterapia, como em outros diversos setores.

3) Atualmente um bom número de psiquiatras e muitos psicoterapeutas estão preparados para usar o Hipnotismo como método auxiliar, quando se fizer necessário ou recomendável, e muitos médicos de outras especialidades reconhecem seu valor excepcional, principalmente na área das doenças psicossomáticas, que reconhecem serem a maioria.

Diz a este respeito o Dr. Morris do Hospital Bellevue dos Estados Unidos: "Consideramos o Hipnotismo mais útil para casos de amnésia e conversões histéricas, quando os pacientes converteram seu medo ou ansiedade em sintomas fisiológicos, como a paralisia ou cegueira psíquicas. Também, nas neuroses agudas e mais recentes é um recurso excelente para habilitar o paciente a contar seus conflitos emocionais e livrar-se deles".

E um psicanalista tão eminente como o Dr. Sandor acrescenta o seguinte testemunho, que se tornaria inacreditável para a psicanálise das décadas precedentes: "A hipnose torna-se mais eficiente para as neuroses agudas e as de origem mais recente, onde usualmente se reconhecem as causas imediatas dos sintomas, mas se estes são baseados numa personalidade neurótica, então a cura não se tornaria permanente e outros sintomas aparecerão mais tarde, devendo recorrer à Psicanálise para desenterrar os complexos que estão por baixo".

Diz-se, em efeito, que a hipnoterapia é fácil e rápida, mas muito superficial; porém, o método psicanalítico, embora longo, dispendioso e difícil, resulta mais profundo e eficiente na reforma de uma personalidade. O hipnotizador não cura uma condição neurótica, dizem os psicanalistas, mas simplesmente faz desaparecer os sintomas e, assim que um é eliminado, logo um outro aparece. O neurótico crônico, seguidamente, ficará abrigando e produzindo novos sintomas durante todo o tempo que perdure a condição de que se originam. Curadas as úlceras estomacais, ele se refugiará na insônia e curada esta ele contrairá uma doença da pele, e assim por diante. Por isso, concluem, o Hipnotismo só serve para casos agudos e recentes e não para os crônicos e profundos.

Tolice replicam os hipnólogos psicoterapeutas. Essa é uma opinião, apenas dos psicanalistas, e ainda uma argumentação sinuosa e inverídica. Admitamos, em primeiro lugar, que um hipnotizador inábil, pouco experiente da psicoterapia, mau psicólogo e nada conhecedor da psicanálise, não passe de superficial, conseguindo chegar, apenas, aos sintomas e não às causas. Isso mesmo acontecerá a um psicanalista inábil, que, apesar da sua psicanálise, não conseguirá nem sequer eliminar os sintomas. Mas um hipnotizador experiente e hábil, bom psicoterapeuta e que ainda por cima conheça os princípios da psicanálise, poderá facilmente, através da hipnose, utilizando a regressão da idade, chegar muito mais facilmente e mais profundamente ao âmago dos problemas crônicos e complexos infantis, do que qualquer psicanalista armado unicamente de seus recursos psicanalíticos. E dominando tão perfeitamente o inconsciente do paciente, poderá, a seguir, convencê-lo a reformar e remodelar como quiser sua personalidade e seu comportamento.

Mas o paciente hipnotizador ficará condicionado, freqüentemente, ao hipnotizador, acrescentam, ainda, os psicanalistas. é estranho retrucam os hipnólogos, que vocês psicanalistas não compreendais que o psicanalisado, após cinco ou seis anos de psicanálise, deverá ficar muito mais condicionado e dependente de seu psicanalista.

4) Para evitar essa disputa longa e improdutiva, eis uma fórmula altamente eficiente: a da combinação da hipnose rápida e fácil com a psicanálise profunda e eficiente, e que se tem tornado utilíssima aos que já souberam utilizá-la. Essa fórmula se chama HIPNOANáLISE e constitui uma das mais modernas e mais eficientes formas ou métodos de Psicoterapia.

De fato, essa combinação, de um lado encurta o tempo de um dos métodos, e de outro lado aprofunda os efeitos do outro. é preciso entender, acima de tudo, que muitas vezes, o paciente do psicanalista chega a entender, de fato e perfeitamente, todos os seus problemas, mas só INTELECTUALMENTE, e não tendo o verdadeiro sentimento disso, torna-se rebelde, medroso ou impotente de enfrentá-los. E isto porque, no neurótico, seu pensar e seu sentir, entender e agir, precisam estar fundidos.

Mas tudo é fácil de se conseguir, através da hipnose. De um lado, ela habilita ao psicoterapeuta experimentado a descobrir rápida e facilmente porque a separação ocorreu, e de outro lado, um breve e sábio aconselhamento (que o doente aceita e obedece cegamente a partir do sono hipnótico), lhe possibilita reuni-los novamente na consciência do paciente com os mais benéficos resultados, até nos casos mais pertinazes, que são capazes de resistir a própria psicanálise, agindo isoladamente.

5) Narcoanálise, Narcosíntese e Narcohipnose: abordemos, a seguir, um outro casamento feliz, uma outra combinação sábia e muito eficiente: a da psicanálise, as drogas e a hipnose.

Nas últimas décadas, está-se usando um certo tipo de droga, que coloca o paciente numa situação muito semelhante à do transe hipnótico. é o caso do amital e do pentotal, que injetados num indivíduo lhe produzem o transe ou sono químico.

Aparentemente adormecido e de olhos fechados, mas capaz de ouvir, de responder e de fazer perguntas, se o desejar, quem tomou uma injeção intravenosa de sódio-amital, se acha na melhor das situações para iniciar a sua psicanálise, rápida e eficiente, como acontece com a hipnotizado em seu transe hipnótico. Debaixo de sua influência, rompem-se até as inibições mais pertinazes, e toda classe de recordações enterradas no inconsciente podem ser afloradas para o consciente. Tem, portanto, a estranha propriedade de abrir uma por uma todas as portas do subconsciente, as quais ninguém, nem o próprio paciente, as poderia forçar jamais. E no caso da neurose ou doença psíquica, uma vez descoberta a ferida psíquica e sua verdadeira causa, e revivido o episódio traumatizante, com todo seu conteúdo emocional daquela ocasião, o doente experimenta tamanha sensação de alívio, que desde já se sente capaz de encarar aquela realidade, que tanto o amedrontava antes e à qual tinha procurado escapar. Até um fato conscientemente guardado no íntimo de um espião ou de um criminoso, altamente traquejados e decididos firmemente a não revelá-lo, ficará aberto, entretanto, sob a influência do amital, sendo-lhe de todo ponto impossível sentir ou dissimular, negando-se a manifestar seus segredos contra a própria vontade. Por isso foi dado a essa droga o nome de Soro da Verdade, e a esse tratamento, quando aplicado à psicoterapia, os médicos o designam como "catarse verbal", ou "tratamento de conversa", como lhe apelidam os pacientes.

Narcoanálise é o nome mais técnico desse tratamento ou "entrevista do sódio-amital", que se tornou possível com o avanço da química depois da I Guerra Mundial e que foi o responsável principal do grande número de curas das chamadas "neuroses de guerra", ocorridas nas últimas guerras. No entanto, outros psiquiatras preferiram usar uma nova variante, que veio tomar o nome de Narcosíntese, utilizando uma injeção de sódio-pentotal, outra das drogas também descoberta após aquela guerra, à qual se atribuem, igualmente, um grande número de curas de estados neuróticos.

6) A diferença entre esses dois tratamentos ou técnicas não reside no processo, mas sim em seus efeitos. Segundo o Dr. Grinker, grande utilizador e entusiasta do pentotal, o uso desta droga produz efeitos melhores e mais permanentes do que o amital. Com o pentotal , diz ele: "consegue-se uma suave transição do inconsciente para o consciente, os dolorosos acontecimentos e fortes emoções são rememorados e aceitos, e os sintomas desaparecem imediatamente o que não acontece com o sódio amital, com o qual, a situação emocional, embora exposta e superada, não é sintetizada. As lembranças enterradas e recuperadas são logo esquecidas ao acordar, e daí não haver perda dos sintomas. Há uma diferença de dinamismo entre estes dois sistemas, comparáveis e existentes entre a Psicoterapia de Grupo e o Psicodrama. No processo do amital, o diálogo é mais estático e, no do pentotal, resulta muito mais dramático e movimentado".

Neste tratamento, após o paciente ter tomado a injeção intravenosa, enquanto deitado na penumbra de um quarto, conta para trás de cem até que a contagem se torne confusa ou se acabe. Aí o terapista suscita uma conversa, aparentemente acidental, mas de algum modo relacionada com alguma das situações possivelmente traumatizantes, nas quais o doente tenha tomado parte. Como no psicodrama, alguns dos espectadores presentes entram, também, na conversa. Freqüentemente a reação do paciente torna-se assustadora, rápida, dinâmica ou violenta. Tomando o papel principal, revive inteiramente as cenas, gesticula, se põe em movimento, anda e se dirige aos presentes, como se fossem as personagens reais da cena, revivendo todos os lances, com a mesma emoção e violência com que ocorreram realmente. Ao acordar, ainda emocionado e sufocado, o terapista que terá representado habilmente vários papéis, segundo o caso, lhe ajuda a relembrar conscientemente os acontecimentos narrados e a aceitá-los, até poder enfrentar abertamente as dolorosas emoções das situações passadas. Usualmente, daí em diante, o EGO do paciente fica suficientemente fortalecido e aprende a dominar aquela classe de emoções enterradas e neurotizantes, seguindo-se a eliminação dos sintomas e a cura da doença. Com o amital, entrentanto, as coisas acontecem muito mais calmamente. Os fatos esquecidos ou zelosamente guardados não vêm à tona violentamente e como aos borbotões, mas precisam ser "puxados" como uma sacarrolha.

Para maior eficiência e controle, ambos os sistemas são usados atualmente por vários psicoterapeutas em combinação com a hipnose e a psicanálise. Perto da hora de acordar, toma parte no diálogo um hipnólogo e suavemente lhe conduz, do sono químico ao sono hipnótico, e a seguir passa a aplicar-lhe todos os processos da hipnoanálise, melhorando consideravelmente os resultados. Tal procedimento tem recebido o nome de narcohipnose.

7) Também combinados com a hipnose e a psicanálise, outros dois processos psicoterápicos semelhantes aos já citados, estão sendo usados com resultados sempre melhorados ali onde os pacientes se mostram mais resistentes ou rebeldes, ou pouco sensíveis a esses métodos simples e isoladamente praticados. Trata-se do subchoque elétrico e insulínico, que se utilizam juntamente com a hipnose e a psicanálise.

Assim, quando uma dose ínfima de insulina é injetada ou uma pequena corrente elétrica de alta freqüência é aplicada ao neurótico ou psicótico, uma reação suave é produzida nele, que nem de leve se assemelha com o assustador choque convulsivo insulínico ou elétrico. No segundo caso, a corrente passa durante meio segundo e se interrompe outro meio segundo, chegando a quinze choques exatamente em quinze segundos, tratamento aplicado diariamente enquanto se considerar aconselhável.

Através destes dois processos aplicados aos estados neuróticos, depressões, fobias e ansiedades, que costumam resistir à psicanálise, freqüentemente cedem a essa dosagem mínima de insulina e de corrente elétrica, principalmente quando auxiliados pela hipnoterapia. Em ambos os casos, quando produzida uma espécie de sonolência característica de tipo hipnoidal, o hipnólogo entra em ação, como nos casos do amital e do pentotal, ou do mesmo eletrosono, obtendo da hipnoanálise, que se lhe segue, os mais benéficos resultados.