História das Psicoterapias e da Psicanálise/IX/II

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Psicoterapias fora da psicanálise, Psicoterapias para-analíticas


1) Ao lado da Psicanálise freudiana pura ou ortodoxa, outras psicoterapias analíticas têm surgido, que têm ampliado o campo da psicoterapia e facilitado a aplicação dos princípios freudianos, de modo mais fácil e mais acessível a um número maior de doentes.

Já nos dias de Freud surgiram, como vimos, a Escola Adleriana, com sua Psicologia Analítica, e a Escola Jungiana, com sua Psicologia Complex, que tem dado excelente resultados em diferentes setores sociais. Posteriormente, surgiu a Escola Culturalista Americana, que também ampliou enormemente o campo da psicanálise, dotando-a de formas mais flexíveis e com maiores facilidades de atingir um número maior de doentes. E coisa parecida têm tentado fazer outros muitos psicanalistas em suas respectivas esferas.

Reconhecem, em princípio, os próprios psicanalistas que a psicanálise pura, tal como idealizada por Freud e como praticada pela Escola Ortodoxa, torna-se um método de luxo e restrito a uma pequena elite de pessoas abastadas, muito longe da massa comum e cada vez mais numerosa dos doentes mentais, psicoemocionais e psicossomáticos. Atingir o número sempre crescente dos pacientes desta nossa sociedade, que está ficando neurótica toda inteirinha, não é possível com o método clássico a exigir uma hora diária, 5 dias por semana, durante 4, 5 ou mais anos seguidos. Nem a massa do povo conta com o tempo e o dinheiro necessários para suportar esse tratamento prolongado, e nem seria possível arranjar tantos psicanalistas hábeis para atender a tão elevado número de doentes neuróticos ou neurotizados. Daí a preocupação e a tendência de muitos dos psicanalistas atuais a procurar novos métodos e formas psicanalíticas, que possam atingir a massa, sem essas limitações de tempo e dinheiro, embora esses métodos possam parecer menos eficientes aos psicanalistas ortodoxos.

2) A psicanálise Breve ou Condensada: em Chicago, nos Estados Unidos, o psicanalista Franz Alexander iniciou, nos últimos anos, esse método de tratamento, embora reconheça não servir bem para aquelas pessoas, que sofrem de neuroses crônicas e profundas com enraizados defeitos de caráter e de personalidade. Têm dado, porém, segundo a experiência confirma, excelentes resultados para os casos mais benignos e nas crises agudas e mais recentes.

Em poucas entrevistas, afirma ele, pode-se dar a uma pessoa suficiente informação para a necessária compreensão de seus problemas, propiciando curas rápidas ou notáveis melhorias, em não mais de oito ou dez entrevistas ou sessões de tratamento. Deve-se partir do princípio de que um quarto da população, pelo menos, precisa dessa classe de tratamento. Onde antes se tratava de centenas, com o método clássico, desta forma pode-se tratar de milhares. E se não se pode reformar toda a personalidade, em seus alicerces inconscientes, pelo menos, pode-se remodelar a sua superestrutura consciente.

3) A Psicoterapia de Grupo ou de Massa: por esta classe de tratamento a Psicanálise abandona o aspecto individual e adota o aspecto grupal. Parte do princípio de que o tipo de neurose seja fundamentalmente o mesmo em um grande número de pessoas (neurose de guerra, por exemplo), embora possam variar os sintomas e as causas originárias. Nessas sessões abertas de psicoterapia grupal, o chamado, "episódio" ou causa precipitante, aparece rapidamente e com relativa facilidade, em muitas das neuroses não-crônicas e não-profundas. E quando um episódio insuspeito do passado fica esclarecido como sendo a causa dos sintomas presentes, o doente fica ciente de não haver razão para eles no presente, a neurose resultante desaparece totalmente, ou melhora tão sensivelmente, que fica aberta a porta para uma rápida recuperação.

Assim sendo, utilizando alguns princípios da Psicanálise e juntando-os a uma grande dose de senso comum, após ter analisado o perfil individual de cada paciente (infância, juventude, vida de trabalho, sua situação de solteiro ou de casado, etc.), os doentes são classificados em grupos de 10 a 20 pessoas, no máximo, e são obrigados a freqüentar sessões semanais, onde recebem preleções e abertamente se analisam e criticam os problemas de cada um, com o benefício mútuo de todos os componentes do grupo, vendo a inutilidade e irracionabilidade do proceder próprio à luz da irracionabilidade do preceder dos outros, em seus respectivos casos.

Nos casos de neuroses crônicas e profundas, muitos psicanalistas atuais utilizam este método de psicoterapia grupal juntamente com a psicanálise individual, tratando, assim, de diminuir e abreviar o tempo de tratamento global. Tal prática parece que está trazendo apreciáveis resultados, beneficiando, sensivelmente, os interessados.

4) A Psicoterapia Psicodramática: este outro tipo de psicoterapia analítica derivada, oriundo da Europa e conhecido vulgarmente pelo nome de "psicodrama", tem sido amplamente desenvolvido pelo Dr. Moreno da Escola Psicanalítica Argentina. Trata-se de um auditório composto dos próprios pacientes, onde um outro paciente (alternadamente) representa o papel de ator, exemplificando o próprio problema, que indiretamente é vivido e criticado pelos demais espectadores. Outras vezes, os atores são artistas, não dentre os doentes, especialmente preparados para representar os respectivos papéis referentes aos problemas dos pacientes. Com tais procedimentos, o psicodrama vem a ser uma espécie de psicoterapia de grupo intensamente dinamizada, que em terceira pessoa propicia aos pacientes o estudo e solução de seus próprios problemas.

Baseada nos princípios psicanalíticos, a Psicoterapia Dramática leva à compreensão das situações neurotizantes, dando ensejo ao conhecimento dos respectivos problemas, que são assim vividos e "transferenciados", tendo como resultado o esclarecimento de suas causas, a remoção dos sintomas e a cura da condição neurótica. Segundo os patrocinadores deste sistema psicoterápico, os resultados se apresentam altamente compensadores, de modo que seu uso está se estendendo rapidamente, alcançando um número cada vez maior de doentes que dele se beneficiam.

5) Ludoterapia e Arteterapia: A Ludoterapia para crianças e a Arteterapia para pessoas adultas, constituem outros dois subtipos da psicoterapia analítica. Brincando ou trabalhando com algo de seu interesse, os pacientes expressam através de seus brinquedos ou de suas obras artísticas, de um modo inconsciente, aqueles problemas que, agitando o seu psiquismo interior, são a causa de suas condições neuróticas. Como na grafologia e nos psicotestes são manifestados inconscientemente os respectivos problemas, assim neste caso, manifestam-se, também, abertamente durante os brinquedos e através das realizações artísticas, sejam pictóricas, gráficas ou plásticas.

E o princípio é sempre o mesmo da psicanálise: conhecer os problemas, suas causas respectivas e seus sintomas, tratando, assim, de resolvê-los pelo auto-conhecimento, ao qual deverá seguir-se a cura. Todavia, estes procedimentos representam bem mais novos e valiosos métodos de análise dos comportamentos inconscientes, como auxiliares ou substitutivos da análise dos sonhos, atos falhos, livre associação, etc., do que verdadeiros métodos terápicos, a não ser que os tomemos como formas diversas de psicoterapia ocupacional, que analisaremos adiante. Diretamente quem mais lucra com eles é o próprio psicoterapeuta, dispondo assim de mais elementos para o conhecimento da situação do doente, que poderá utilizar para levá-lo à respectiva cura.