História das Psicoterapias e da Psicanálise/IX/I

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Psicoterapias fora da psicanálise, A psicoterapia multiforme


1) Tanto se tem falado nos últimos tempos a respeito da psicanálise e dos métodos psicanalíticos que existe uma falsa impressão, no público e até no meio de alguns mais especialistas, tendente a identificar a Psicanálise com a Psicoterapia, como se ambas fossem uma só e a mesma coisa. Outra corrente de opinião, principalmente entre os médicos, tende a confundir a Psicoterapia com a Psiquiatria. Mas já sabemos que nenhuma dessas interpretações é certa.

Já vimos como muitos séculos antes que se descobrisse a psicanálise e de que existisse Freud e os freudianos psicanalistas já eram praticados uma série de métodos psicoterápicos, e muito antes que se conhecessem os princípios neurológicos da psiquiatria. Os métodos psicoterápicos da Filosofia grega (mística e psicológica), os da Yoguia ou Yoga oriental e da Magia persa-babilônica (melhorativa ou pejorativamente interpretada) bem como a hipnoterapia egípcia, que constitue outros tantos exemplos. A fé sugestiva, religiosa ou profana, fez prodígios psicoterápicos em todos os tempos como todo mundo sabe, repetidos modernamente sob diversas formas hipnóticas, espíritas, etc. Os silvícolas primitivos, nossos índios brasileiros, e as tribos dos povos subdesenvolvidos, africanos e asiáticos, nada sabem de medicina, de psicologia e de termos psicanalíticos e, a seu modo, se defendem com diversos métodos da psicoterapia primitiva. Nos meios civilizados do ocidente, diversos métodos de terapia psicológica não-analítica são aplicados com êxito por terapistas médicos ou não-médicos, que desconhecem e não desejam conhecer os métodos psicanalíticos.

2) Uma lista de métodos de psicoterapia, mesmo que longa e não completa, daremos a seguir, para conhecimento e escolha dos alunos. O princípio funcional de todas elas parece ser o seguinte:

Um certo estímulo externo ou interno produz uma corrente de energia eletro-química-nervosa, que se transmite ao cérebro, médio ou superior. Essa corrente nervosa ou eletroquímica, na sua passagem ou na sua chegada ao cérebro, converte-se numa corrente de energia psíquica, que a seguir se transforma em conteúdos psíquicos, como imagens, idéias, pensamentos, sentimentos e desejos. Como isto acontece, é claro que ninguém sabe, por enquanto.

Mas sua reversibilidade também é inteiramente certa, mesmo que sua essência nos permaneça igualmente desconhecida. A imagem-idéia-pensamento-sentimento-desejo transforma-se, de algum modo, em energia e corrente psíquica, que gera primeiramente a EMOçãO, geradora, por sua vez, de outra corrente nervosa, eletroquímica ou hormonal, que transformada em energia motora vai ser descarregada, gasta ou consumida através de um gesto, de um movimento, xingo, pulo, palavrão, punição, riso, gargalhada, etc. Temos absoluta certeza desse processo, mesmo que seus passos e natureza íntima dessa conversibilidade nos sejam desconhecidos. Estímulo, corrente eletro-química-nervosa ou hormonal, força ou energia psíquica, imagem-idéia-pensamento-sentimento, desejo ou apetite, carga psíquica ou afetiva-emoção-corrente hormonal e eletroquímica ou nervosa, energia motora-impulso-ato exterior, esses são seus passos certos. Como um gera ou se converte no outro, isso é o que não sabemos.

3) O estímulo pode ser externo ou interno, pode ser atual ou anterior, feito presente como lembrança; pode ser voluntário ou involuntário, consciente ou inconsciente; convertido em necessidade, tendências ou hábito, pode atuar de um modo quase permanente, como idéia fixa, mania, fobia ou obsessão; qualquer passo intermediário pode servir de estímulo do passo seguinte (imagem-lembrança do sentimento e estes do desejo, etc.).

As diferentes forças, correntes ou energias (físicas e psíquicas) podem agir em graus diferentes de excesso ou de defeito respondendo ao mesmo estímulo diversamente, em se tratando de diversos indivíduos ou no mesmo indivíduo, em situações diversas. As diferentes cargas energéticas podem variar, por constituição somática e por circunstâncias de temperamento, caráter, etc., de indivíduo para indivíduo, ou no mesmo indivíduo, de acordo com sua idade, ou condição somática ou psíquica do momento. Existem indivíduos mais e menos nervosos ou totalmente abúlicos; um mesmo indivíduo pode achar-se em diversos estados: de super-excitação nervosa ou de completa depressão e inércia. Seu comportamento diante de um mesmo estímulo, dependerá muito de todas essas situações. Nem as suas glândulas, tiróide e supra-renais, principalmente, estarão funcionando sempre da mesma maneira, provocando estados psíquicos diversos, ou sendo influenciadas diversamente por estados psíquicos diferentes.

4) Cada uma dessas forças ou energias pode ser desviada, aumentada, diminuída, impedida ou repressada em cada um de seus estágios, principalmente a energia emotiva antes de ser convertida em energia motora e ser descarregada em algum ato externo. Isto provocará estados de tensão (ou "stress"), que levarão, logicamente, a estados de insegurança, ansiedade, angústia e neuroses. Se pudesse ser medida ou pesada essa energia psíquica ou eletroquímica, veríamos que toneladas dela ficam diariamente acumuladas ou recalcadas em nosso interior em expressão exterior. Principalmente em nossa vida moderna de excessiva excitação sexual e de frustração psíquica contínuas, devido ao autocontrole e recalque exigidos pela vida social civilizada, uma grande quantidade de energia e força deixa, a cada momento, de ser gasta, consumida ou convertida em seus correspondentes atos para que fora gerada. Energia que, subsidiariamente, costuma ser descarregada e gasta pelo comilão em seus exagerados repastos e pelo beberrão em suas excessivas libações; no sexual, em seus excessos sexuais ou em sua sexualidade fantasiada; no agressivo, em suas explosões de ira e agressividade verbal ou efetiva; nos histéricos, em suas perturbações psicossomáticas; e nos neuróticos e psicóticos, em suas ações e fantasias disparatadas.

5) A terapêutica empregada, que queira ser eficiente, sob a forma que for, deverá consistir na conveniente evasão, libertação, limpeza ou exteriorização dessa energia acumulada, recalcada ou interiorizada, que em seu dinamismo inconsciente interior ou em seus sintomas externos, tanto prejudica o organismo e deteriora a personalidade.

A Psicanálise, sob a forma que for, desde que mantenha sua estrutura rija e seus complicados processos de esclarecimento analítico e de descarga transferencial, nem é a melhor nem a única forma de fazer-se psicoterapia. O menos que se pode dizer dela é que, mesmo nos casos que se torna eficiente, já o doente se cansou de sofrer e de ser doente...! Além do mais, pode-se acrescentar que, em sua forma ortodoxa ou quase ortodoxa, nem é possível que ela atinja a grande massa de doentes mentais, nem as possibilidades econômicas da grande massa permitir-lhe-ão que a possa atingir.

Tempo e dinheiro, na formação do número necessário de psicoterapeutas, são fatores muito importantes; tempo e dinheiro, no tratamento da maioria dos doentes, o são da mesma maneira; tempo e dinheiro significam muito, inclusive, quando o tratamento deve ser pago pelas próprias entidades estatais, Juizado de Menores, Recolhimento Juizário, etc.). De onde se faz necessário que se encontrem maneiras de formar o mais depressa possível o grande número necessário de psicoterapeutas, suficientemente hábeis, para socorrer essa grande massa de pacientes necessitados de tratamento e maneiras também para que o tratamento seja tão rápido e eficiente que possa fazer-se acessível ao poder aquisitivo do povo.

é por isso que já nos últimos tempos se estão adotando muitas formas diversas de se fazer psicoterapia. A partir da psiquiatria, quando a intervenção do médico psiquiatra se faça indispensável, todos os métodos deverão ser tentados e aproveitados, que possam oferecer alguma probabilidade de cura, algum conforto para o sofrimento do paciente, e alguma diminuição de seus sofrimentos. Daremos a seguir uma lista ou esquema dos diferentes tipos de psicoterapias, postos em prática em tempos remotos e nos atuais, e cuja eficiência a tradição e o uso têm comprovado.

Psicoterapias derivadas da Psicanálise: como a Psicoterapia de Grupo, a Psicoterapia Psicodramática e os métodos da psicanálise abreviada.

Psicoterapias combinadas com a Psicanálise: como a Hipnoanálise, Narcoanálise, Narcosíntese e Narcohipnose.

Psicoterapias não-analíticas:

a) Higiene Mental ou Psicoterapia preventiva: entre outras a Psicologia de apoio, a Psicologia de aconselhamento, todo o método educacional de orientação sanitária e todo método religioso que ajude a manter o "equilíbrio" e evitar o "stress".

b) A Relaxterapia ou Psicoterapia de autocontrole e de relaxamento: que levam o paciente "supertenso" a uma benéfica "distensão" e relaxamento, como a Sonoterapia e o eletrosono.

c) A Psicoterapia de descarga ou Ecloterapia: capaz de distrair a imaginação do doente ou de lhe ajudar a descarregar energias e agressividade, ao tempo que lhe dão segurança: como a Ludoterapia, Esporterapia, Judoterapia, Ergoterapia ou Laborterapia, Arteterapia e Subduterapia, etc., e a que resulta de estados emocionais havidos através dos rituais e crenças religiosas e práticas semelhantes.

d) A Psicoterapia sugestiva: como a Psicoterapia Religiosa, a Hipnoterapia, etc., que ajudam o doente, convencendo-o a ver-se já curado.

e) A própria Fisioterapia de efeitos psíquicos: como a cirurgia psíquica ou lobotomia, a Quimioterapia (Insulina, Metrazol, Tiroxina, e os psicotrópicos em geral); a Radioterapia, Eletroterapia e Eletrochoque, a Hormonoterapia, Vitaminaterapia, Acupuntura, etc.