História das Psicoterapias e da Psicanálise/VIII/III

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Psicopatologia, diagnóstico e psicoterapia em psicanálise, A psicoterapia analítica de Freud e seus discípulos


1) Ainda que inicialmente um médico neuropatologista, Freud se converteu mais tarde em psicologista. Seu lugar, portanto, deve situar-se entre os médicos psicoterapeutas e não entre os psiquiatras.

Freud iniciou sua especialidade de psicoterapeuta como ouvinte, ajudante ou associado de Breuer, aperfeiçoou-a com Charcot e Bernheim e adotou um método próprio especial. A psicoterapia de Charcot e Bernheim não passava da tradicional prática da hipnose, que tanto podia ser só informativa, quanto sugestivamente curativa. A psicoterapia de Breuer era também hipnótica, mas continha um elemento particularmente novo: a famosa KATARSIS.

Breuer e Freud tinham descoberto primitivamente que a histeria e a neurose pareciam ter sido provocadas pela ação traumatizante de um fato vergonhoso que por sê-lo tinha relegado ao esquecimento e até sua própria lembrança fora recalcada e eliminada da memória consciente, porém, para permanecer dinâmica na memória inconsciente. A emoção produzida por aquele fato vergonhoso ou por sua lembrança, posteriormente, aparecia como a verdadeira causa responsável da doença atual e seus sintomas. Conseqüentemente, a única terapia viável e eficiente que podiam utilizar para ela era a de dar saída àquela força emotiva reprimida causadora da doença. Essa evasão da energia ou força perniciosa, assemelhava-se a uma limpeza interna ou psiquíca ao modo de uma purga. Por isso lhe foi dado o nome mesmo de purga, mas em grego, naturalmente, para fazer mais bonito, isto é: "katarsis".

Verificaram ainda que, durante a hipnose ou num estado pré-hipnoidal, os paciente podiam evocar a lembrança recalcada daquele fato esquecido ou reprimido e traumatizante, fazê-la presente à consciência onírica no "transe", primeiramente, e passá-la, depois, para a consciência vigílica, quando acordados; e verificarem, também, que a lembrança, agora evocada, aparecia carregada do mesmo grau de afetividade ou emotividade com que, presumivelmente, fora arquivada, esquecida ou recalcada. Essa evocação emocionante resultava numa verdadeira eclosão ou saída da força perniciosa e neurotizante. A esta eclosão Breuer deu o nome de "ab-reação", ao procedimento purgativo de katarsis e a hipnose de catártica. Conseguido isto, o paciente ficava curado, ou pelo menos, aliviado de seus sintomas histéricos.

2) Freud imaginou, posteriormente, que o tal fato vergonhoso recalcado era sempre (?) um fato sexual realizado, ou um desejo fantasioso de realizá-lo. Mais tarde concluiu que a força traumatizante e neurotizante não era mais a emoção, mas sim uma energia que ele chamou de "libido". Quanto ao procedimento terapêutico, também abandonou a hipnose catárica, da qual só conservou o divã e a posição esticada do paciente, e com ela a eclosão ou "ab-reação" e seu efeito purgativo ou "katarsis". Substituiu ele a parte informativa da hipnose pelos processos da livre evocação, a "livre associação", e o exame dos sonhos, dos "atos falhos", das piadas e de todas as manifestações do "inconsciente". Esta parte informativa, mesmo que extremamente demorada, levava o paciente a um "auto-conhecimento" consciente dos acontecimentos e processos inconscientes que causaram as suas doenças e seus sintomas. A parte purgativa era realizada pelo processo da "transferência", que ele mesmo descobrira nos pacientes, e a parte de reforma do caráter ou da personalidade se efetuava pelo auto-esclarecimento adquirido através de todo o processo psicanalítico.

3) De fato, a livre evocação, a livre associação e seus recursos auxiliares, substituem a evocação da lembrança necessária conseguida por Breuer, durante a hipnose, e a "transferência", com vantagem ou não, é o equivalente psicanalítico da "katarsis" hipnótica. Sob o ponto de vista terapêutico, que é o que mais interessa no caso, o clímax essencial de todo o processo psicanalítico é, sem nenhuma dúvida, a "transferência" e seus resultados benéficos ou, por ventura, nocivos. A ela vai dirigido todo o processo informativo, como um meio, ainda que indispensável. Uma análise sem transferência não é concebível, nem pode ter êxito. Freud deu a ela importância primordial, pois, todo o seu esforço de psicanalista a ela fora encaminhado. “Onde falta a tendência à transferência efetiva diz ele ou onde ela se tornou impossível ou negativa, como na demência precoce e na paranóia, a possibilidade de influenciar psiquicamente o doente não existe absolutamente”.

Reduzido ao estritamente essencial, o método da psicoterapia analítica freudiana se resume ao fato de colocar ou levar o neurótico a uma situação tal que o comportamento concreto e especifico chamado "transferência" se realize. Conseguido isto, como no caso da "katarsis" de quem é substitutivo, a cura estará realizada, ou pelo menos a finalidade da análise terá sido cumprida.

4) A psicoterapia freudiana consta, portanto, destas três etapas:

a) Quebrar as resistências ou ensinar o paciente a superá-las, para dar vazão à necessária informação dos fatos ou situações provocadoras das atitudes ou tendências que formam o âmago da histeria, da neurose ou da personalidade deformada.

b) Provocar, facilitar ou simplesmente dar a oportunidade para que o paciente verifique a transferência. Esta consiste em projetar ou transferir para outrem os problemas conflituosos de amor (libido) ou ódio (agressividade), que ficaram inibidos, reprimidos ou recalcados, durante a infância (ou época do conflito) e não puderam ser expressados e levados à pessoa (pai, mãe, etc.) a quem eram destinados. Esse outrem é agora (geralmente) o próprio psicoterapeuta, para quem serão canalizados aqueles mesmos sentimentos de amor ou ódio, de submissão ou agressividade, que não puderam ser exprimidos naquela época do conflito.

c) Proceder à reeducação do caráter ou da tendência perniciosa que o deformou na realidade "a reconstrução consciente do Ego consciente do paciente", deformado inconscientemente, pelas tendências inconscientes derivadas dos fatos ou situações conflituosas, feitas evidentes através da parte informativa (ou tomada de consciência), durante a análise. Essa resistência à informação e ao processo terapêutico, em geral, que todos os pacientes oferecem, formam parte do seu desejo inconsciente de continuarem na situação em que se encontram. é a resistência à própria cura, que tanto dificulta e prolonga o tratamento psicanalítico.

5) Tal como idéia dada por Freud, a psicanálise é uma técnica especial com fins terapêuticos específicos. Seus meios são psíquicos ou psicológicos exclusivamente, com acentuado caráter informativo. No decorrer dos tempos, o mesmo Freud deu ênfase excessiva à análise informativa, perdendo quase de vista a finalidade terapêutica. Eis três técnicas diferentes, reunidas no método freudiano da Psicanálise.

a) Uma técnica de análise dos motivos do comportamento, principalmente dos inconscientes;

b) Uma técnica de diagnóstico das causas e raízes das doenças psíquico-mentais e do caráter, e das doenças emocionais e psicossomáticas, quando se supõe que suas causas sejam psíquicas e não-orgânicas;

c) Uma técnica de cura dessas doenças, por meios psíquicos especiais, uma vez que suas causas foram descobertas como sendo psíquicas. Esta parte é a mais prática e deveria ser considerada a mais importante.

6) Todavia, a eficiência e vantagens e desvantagens terapêuticas da psicanálise têm sido muito discutidas. Alguns a consideram como a única ou mais eficaz das psicoterapias para uma longa lista de casos. Muitos outros a acham muito demorada, muito cara e muito pouco eficiente. Alguns preferem o procedimento da hipnose catártica (de onde Freud se desviou) por achá-la mais breve, mais barata e mais eficiente, embora menos completa. Escutado o depoimento de seus críticos contestadores, que os vêm aos milhares; escutando o testamento de inúmeros psicanalisados capazes de autobalanceamento; e, sobretudo, escutada a confissão franca de muitos psicanalistas não fanatizados e não comprometidos; alguns críticos, ditos imparciais, têm chegado à seguinte conclusão:

1) Como psicologia analítica a Psicanálise é 80% eficiente;

2) Com o diagnóstico revela-se com 40% de eficiência somente;

3) Como técnica terapêutica, sua eficiência não passa de 10%.

Pois, dos muitos doentes que procuram o psicanalista, 80% interrompem seu tratamento antes de serem curados; e dos restantes, nem 10% o são totalmente. Para conseguirem resultados práticos apreciáveis e compensadores todos os psicanalistas, de qualquer corrente que sejam, se vêem obrigados a utilizar-se de outros recursos complementares não-psicanalíticos, sejam psiquiátricos ou psicológicos.

Essa precariedade do método freudiano, íntegro e exclusivo, foi, desde o início, uma das discordâncias de seus discípulos, muitos dos quais preferiram a prática de outros métodos, e por isso é que surgira essa “pleyad” de escolas e correntes em que se acha, hoje, fragmentado o movimento psicanalítico.

7) Filósofo nato e pesquisador Empedernido, mais do que terapista, Freud se interessou mais em ampliar o conhecimento básico do homem do que em curá-lo. Daí o seu método de análise prolongada e sem fim, que não acabava mais e nem lhe interessava que acabasse enquanto houvesse algo que pesquisar. é interessante observar a este respeito, que tenha dado a esse método o nome de psicanálise e não o de psicoterapia...!

Seus discípulos mais ortodoxos seguiram, em geral, o mesmo princípio. Procuraram novas fontes de pesquisas bem mais do que a eficiência do tratamento dos doentes. Estes representavam apenas um excelente campo de pesquisa e, até certo ponto, rendoso, em vez de oneroso. Se a cura se seguia, parecia acontecer como acidente; o interesse principal parecia ser o profundo conhecimento dos tortuosos motivos do comportamento anormal do paciente. E esta tradição de pesquisa na maioria das Sociedades Psicanalíticas, talvez tenha sido uma das razões pelas quais o tratamento psíquico não tenha mudado muito desde sua origem. Pelo menos não tanto como corresponderia à enorme importância dada aos princípios teóricos.

8) O primeiro dissidente das teses fundamentais de Freud e do grupo restrito de seus primeiros discípulos, a Sociedade Psicanalítica de Viena e Internacional, foi o médico vienense, Alfred Adler, entusiasta da higiene nos meios sociais do trabalho e, logo, psicólogo e psicanalista, um dos seus mais significativos colaboradores e amigo íntimo, como colega e como judeu. Adler contestou, em primeiro lugar, a tese mais querida do Mestre, a de que a etiologia das neuroses residia na "sexualidade libidinosa dos comportamentos infantis", que ele considerava apenas como símbolo da instintiva vontade de vencer e de auto-afirmação da personalidade incipiente. Essa etiologia ele colocou "num conflito existente entre o mais profundo sentimento humano, o sentimento (complexo) de inferioridade e o mais fundamental dos instintos, o de querer ser ou de auto-afirmação (do "eu criador"), o EROS construtivo, na linguagem freudiana.

Mudada esta orientação da análise teórica, tratou de mudar também a análise prática ou terapêutica. Não estando muito interessado em descobrir os motivos sexuais e libidinosos infantis, considerados por ele como pouco influentes na doença, sua orientação "finalista" levou-o a pensar mais no futuro do que no passado. Por isso não estava tão interessado em conhecer e mostrar ao doente o seu comportamento inconsciente da infância, mas sim em resolver a situação atual ajudando o paciente a fugir de seu sentimento de inferioridade e alcançar a desejada superioridade.

Assim sendo, pretendendo mais curar do que analisar e pesquisar, propôs reduzir ao máximo o período de tratamento, com menos sessões e mais curtas. Três ou quatro meses ao máximo achava suficientes, para que seu tratamento da psicologia individual, como ele chamava a seu método, pudesse apresentar os resultados, em contraposição aos cinco, seis ou mais anos exigidos pelo método freudiano original.

Ponto básico da psicoterapia adleriana era o de "diminuir o sentimento de inferioridade do paciente". Para isso era mister que ele não se sentisse em desigualdade diante do analista, o que não poderia acontecer, estando ele deitado no divã, como doente, e o analista sentado atrás dele, como médico. Adler preferiu o método de sentar-se de frente em duas cadeiras e entabular uma conversação livre e franca, em vez de ficar esperando passivamente a evocação do passado através da livre associação, segundo o mandamento freudiano. Mais ainda: achava que a hostilidade e receio normais do paciente de estar sendo espiado, atacado ou criticado, deviam ser atenuados pela dedicação, interesse, cordialidade e atividade do analista, em contraposição à "passiva neutralidade" do prescrito por Freud.

Embora não aplicável a todos os casos de neuroses e psicoses, este método de psicoterapia adleriana tem parecido bastante interessante a muitos psicanalistas e conta com muitos adeptos entre os assistentes sociais, conselheiros matrimoniais, educadores de crianças e praticantes da psicoterapia de grupo e da psicologia de apoio e de aconselhamento.

9) O segundo dissidente a afastar-se do grupo freudiano e da psicanálise de Freud foi Jung, o mais prestigiado e promissor dentre seus discípulos. Foi também um dos seus primeiros adeptos, pois, juntamente com seu mestre Breuer, já desde 1903 estudava e praticava as doutrinas freudianas em sua clínica do hospital psiquiatra de Zurich, na Suíça. Em 1911, foi eleito primeiro presidente da recém-constituída Sociedade Internacional de Psicanálise, com sede em Viena, cargo em que foi reeleito em 1913. Mas em 1914 pediu demissão de seus cargos de diretor do Jornal Informativo de Psicanálise e de Presidente daquela associação.

Jung tinha criticado e continuou pondo reparos a algumas das teses principais de Freud, como à teoria da libido, à etiologia sexual das neuroses, à interpretação restrita dos sonhos a um passado recente e a um inconsciente limitado à parte pejorativa do psiquismo, e finalmente, à própria teoria do inconsciente freudiano e a estrutura da personalidade segundo Freud. Isto era o suficiente para marcar a irredutibilidade de suas posições; mas ainda acrescentou mais: suas conseqüentes variações nas técnicas práticas da psicoterapia.

Renunciou cedo, ou nunca usou a prática da posição deitada no divã e "passiva neutralidade" do psicanalista. Tendo aprendido de Breuer a técnica da "associação de idéias" mediante certas listas de palavras escolhidas para marcar as reações dos pacientes, que Francis Galton iniciara anteriormente, Jung lhe dedicou toda a sua atenção: publicou um livro sobre ela, foi um grande especialista nessa técnica e provavelmente foi através de ambos que Freud a aprendeu. Estudioso também dos sonhos desde antes de conhecer a Freud, e ótimo intérprete deles. Jung aplicou essas excelentes técnicas em seu método de psicanálise. Bem entendido que os sonhos não só significam para ele os desejos inconscientes do passado e a parte pejorativa do inconsciente, como quer Freud, mas também a projeção do futuro e a parte superior da natureza racional.

Em terapia propôs e praticou o método de "imaginação ativa" e do diálogo dinâmico e construtivo. O paciente, segundo esse método, deve ser estimulado a praticar alguma atividade espontaneamente, (desenhar alguma imagem, por exemplo), sendo ajudado pelo analista a anotar as mudanças e facilitar a distensão. O analista deve explorar, positivamente, as potencialidades do paciente, tentar ajudá-lo a conseguir sua "auto-realização" e avaliar seus "padrões" neuróticos, bem como considerar as situações de tensão atuais, que se procura corrigir, ao modo da "terapia ativa" adleriana.

A psicoterapia jungiana parece que se pode reduzir a dois pontos: a análise chamada "causal" e a chamada "funcional". Pela primeira se procura descobrir as origens dos sintomas e das perturbações, que são comuns (sexualidade, ânsia do poder, etc.) ou particulares (choque traumatizante, conflito de infância, e etc.). Muito necessária esta análise não é aos olhos de Jung a mais importante (ao contrário de Freud). Pela análise funcional o psicanalista deve resolver a situação presente e preparar a saúde futura.

10) Mesmo sem chegar a formar escolas independentes como as anteriores, a partir de 1925, mais dois dos melhores amigos e colaboradores de Freud abandonaram a ortodoxia de seus ensinamentos: Rank e Ferenczi.

Teoricamente, Rank assinalou como causa etiológica originária da neurose o trauma inicial do nascimento e a ansiedade primordial dele derivada, negando a validez da tese freudiana da libido. Terapeuticamente falando, toda a essência do tratamento deve consistir em "desfazer finalmente o medo de separação da mãe e dos substitutivos maternos", pois a personalidade normal e anormal depende da correção desse traumatismo inicial.

O papel do terapista consiste, segundo ele, em ajudar o neurótico através da transferência a atingir sua individualização criativa, e ajudá-lo a aceitar sua própria vontade e personalidade sem sentir-se culpado por opôr-se à vontade dos outros. A este fim, compartilhou com Ferenczi sua teoria do “tratamento abreviado”, com data fixada de término, a fim de evitar a "fixação do paciente ao terapista". Seu objetivo final passou a ser substituir, por meio de técnicas, os processos intelectuais do esclarecimento do método ortodoxo, por fatores afetivos, acentuando "as experiências emocionais, mais do que as reconstruções intelectuais do passado".

Depois de vinte anos de psicanálise ortodoxa, Ferenczi começou a interessar-se mais pela cura dos pacientes que pela pesquisa teórica. Passando a considerar a psicanálise mais como experiência emocional do que intelectiva, pôs toda ênfase terapêutica na modificação dos padrões neuróticos através da intensificação das experiências emocionais durante o tratamento ao estilo de Breuer e Adler, desinteressando-se pelo conhecimento dos antecedentes históricos dos sintomas dos pacientes. Sua primeira técnica inovadora, nesse sentido, foi a introdução da "terapia ativa", na qual o terapista devia assumir o papel ativo na proibição ou encorajamento de certas atividades do paciente contra a tese ortodoxa freudiana que preconizava o papel "passivo e neutralista" para o analista.

Outra das suas técnicas inovadoras foi a de não considerar muito necessária para a modificação dos padrões neuróticos do paciente a tendência a despertar as lembranças esquecidas, como mandava Freud. A seguir introduziu seu princípio de "relaxamento" ou "neocatarse", com o que objetivava aumentar o significado emocional do tratamento e a liberação da energia reprimida, criando a "distensão", segundo a técnica que chamou de "indulgência", paralela com a de "participação ativa", com a qual outras vezes tratava de criar "tensão", estimulando algumas atividades. Preconizou assim a técnica do "método flexível" de adaptação aos problemas especiais e características peculiares das personalidades dos pacientes.

Finalmente, introduziu também a inovadora técnica de limitar o tempo de tratamento, fixando, inclusive, de antemão, a data do seu término, a fim de evitar a "fixação do paciente ao analista, que considerava nociva e neurotizante, razão pela qual muitos doentes não se curam, nem progridem no tratamento psicanalítico ortodoxo.

11) De íntimo colaborador, amigo e discípulo de Freud, o médico psiquiatra e diretor da Faculdade de Medicina de Viena, N. Steckel, tornou-se também um dos dissidentes. Sua insistência inovadora foi no sentido da "análise rápida e ativa" como a dos inovadores precedentes. Acreditava que um prolongamento indevido das sessões de análise tendiam a provocar, no paciente, uma preocupação exagerada de si mesmo. Steckel acreditava poder conseguir resultados satisfatórios, num máximo de 12 a 16 semanas. E não admitia, outrossim, o silêncio do analisado durante o tempo da "resistência", suportado passivamente pelo analista. Ainda, como "finalista", se preocupava muito mais dos problemas imediatos e das atitudes futuras dos doentes, do que de seus problemas passados e das raízes de seus traumas, em cuja descoberta achava desnecessário gastar muito tempo.

12) Finalmente, nas últimas décadas, surgiram diferentes escolas na Europa e na América com tendências renovadoras, que se afastam cada vez mais da ortodoxa freudiana. Entre elas a escola culturalista, representada por Franz, Sullivam, Horney, etc., cujo "determinismo" cultural e social vem substituir o determinismo biológico da libido freudiana.

Em Chicago, o antigo psicanalista freudiano do Instituto Psicanalista de Budapeste, Franz Alexander, preocupa-se mais pelo desenvolvimento do "ego" consciente do que pelo "id" inconsciente, como o fazia Freud. Assim sendo, a análise dos conflitos infantis é reduzida, não sendo sempre necessário que os pacientes adquiram consciência dos conteúdos recalcados. Nesse sentido dá pouca atenção à sexualidade infantil. Como as perturbações mentais, nesta perspectiva, aparecem como defeitos de organização ou evolução do "ego", que assume uma atitude de "dependência", o analista deve encorajar o paciente por todos os meios, para que aprenda a ter confiança em si mesmo, a afastar-se e a adquirir a "auto-realização". Nesse sentido, Alexander tende a suprimir as regras clássicas da análise freudiana, procurando "fórmulas curtas e flexíveis". Seu método parece inspirar-se na idéia da "máxima eficácia", não duvidando utilizar qualquer técnica auxiliar, inclusive a "anarco-análise". A "transferência", segundo ele, deve ser atenuada e transformada numa experiência realista e amigável, desejando evitar criar uma atmosfera de mistério e de irrealidade que acabaria numa "neurose de transferência". Alexander pode ser considerado como um freudiano "progressista".

Para Sullivam, todo homem é orientado por dois objetivos: satisfazer seus instintos e garantir a sua segurança. O primeiro objetivo é determinado pelo condicionamento biológico (o "id") e o segundo pelo condicionamento do meio social ("super-ego"). A organização e evolução do "ego" é, para Sullivam, um complicado processo de socialização. é o mecanismo pelo qual o indivíduo idealiza uma pessoa que lhe serve de "eu ideal" e chamada por ele de "paratoxic distortion". Na análise, Sullivam procura explicar o verdadeiro valor da "tal pessoa" que tenha podido influenciar, para o bem ou para o mal, o comportamento do paciente. O tratamento deve levar o paciente a reportar-se constantemente às relações com as pessoas que o cercam e descrever seus fracassos e suas vitórias nesse terreno. Assim sendo, Sullivam é um dos mais entusiastas corifeos da "psicoterapia de grupo", na qual o paciente, comparando o que uns e outros dizem, aprende a corrigir suas próprias impressões e julgamentos. De outra banda Sullivam pouco ou nada se utiliza da narração dos sonhos, e acha que a participação do terapista deve ser mais "uma participação ativa" do que mera "neutralidade" passiva.

Filósofo e sociólogo, Eric Fromm acredita como Sullivam que o homem é sobretudo o produto das influências sociais e culturais de seu meio ambiente. Dotado de liberdade, o homem anormal, não sabendo utilizá-la com conhecimento de causa, expressa-se por modos irracionais como o “sadismo masoquismo”, o “vingativismo”, o "conformismo" automático, etc. Para ele, o objetivo de uma verdadeira terapia seria não só adaptá-lo ao meio ambiente social ou cultural, mas o de dar-lhe o verdadeiro senso de sua própria vitalidade e liberdade. O paciente deverá ser libertado de todas as "autoridades irracionais" e o próprio analista deverá aparecer-lhe no fim do tratamento como um amigo, sem mais autoridade que a de seu saber e competência.

Psicanalista freudiana ortodoxa durante muito tempo no Instituto de Berlim, onde se formara, K. Horney, reconhecendo o valor indiscutível de Freud, terminou discordando de algumas de suas principais teorias como sua interpretação do Complexo de édipo, dos instintos de morte, seu determinismo instintivo quase biológico, de sua concepção da sexualidade e, sobretudo, de sua teoria da "compulsão de repetição". Culturalista antes de tudo, põe a angústia como centro do problema neurótico, a qual se origina da impossibilidade de superar o meio ambiente, que o neurótico combate por vários meios: pela racionalização, pela negação, pelo uso de narcóticos, pelo excesso de atividades sociais, pelo deboche sexual, uso do fumo e do álcool, etc. O ideal neurótico, favorecido ou contrariado por este ou aquele meio, produzirá ou a neurose de afeto, a neurose de poder, de conquistas, de prestígio, de riqueza, etc., ou a neurose de submissão, ou finalmente a neurose de independência e de revolta. Ela distingue três tipos ou caracteres: o tipo obediente, que aceita o mundo como ele é e procura adaptar-se a ele; o tipo independente, que foge do mundo colocando barreiras afetivas entre si e ele; e o tipo agressivo, que vendo inimigos por todas as partes, se revolta contra todos.

A terapia de Horney consistirá portanto, em diminuir ou fazer desaparecer os modos neuróticos e dar novamente à personalidade do indivíduo seu autêntico valor humano e social. O principal interesse do analista deve ser não somente a própria situação analítica com sua transferência, mas a vida ordinária do paciente e a solução de seus problemas "Eu divirjo de Freud, diz ela, em que ele após ter reconhecido as tendências neuróticas procura antes de mais nada sua gênese, enquanto eu procuro, primeiramente, suas funções e suas conseqüências atuais". A sexualidade, que para Freud era a mais importante das tendências instintivas, para Horney resulta em um de tantos problemas, e em muitos casos, não dos mais importantes.

CONCLUSÃO: Temo-nos limitado, de propósito, ao estudo de variantes psicanalíticas apontadas, precisamente, pelos discípulos mais íntimos de Freud que o conheceram, receberam dele diretamente a sua doutrina e por muito tempo colaboraram com ele. Mesmo assim, sentiram a necessidade de divergir dele em questões teóricas e práticas, que ele considerara da maior importância. Nada dissemos da opinião de seus críticos opositores, cujas divergências, logicamente, são muito maiores. E diante de tanta variedade de opiniões, aventamos uma pergunta: falsa a psicanálise freudiana ou falsas as opiniões de seus discípulos dissidentes? No terreno prático da psicoterapia, optamos por acreditá-las todas elas verdadeiras e igualmente válidas. Visando a formação dos alunos analistas, recomendamos-lhes um SADIO ECLETICISMO, que saibam escolher, entre todas as teorias a que considerarem mais prática e adequada ao temperamento do analista, à situação atual e aos diversos aspectos do caráter do paciente, pois muito dependerá da fé que este depositar, tanto no método como no analista. Olhemos para o que acontece em outras formas de psicoterapia não-analista, lembremos que a fé é o todo; se o terapista acreditar mesmo no método que aplica, seja qual for, o resultado será positivo: e se o doente acreditar em seu médico e no remédio que lhe ministra, a cura será certa, não importando que classe de remédio lhe seja ministrado.