História das Psicoterapias e da Psicanálise/VIII/II

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Psicopatologia, diagnóstico e psicoterapia em psicanálise, Diagnóstico e etiologia patológica das doenças psíquicas


1) Vimos, no primeiro esquema da obra, como as doenças mentais, igual que as orgânicas, foram confundidas pelos primitivos e explicadas em sentido místico-religioso como intervenções dos espíritos malignos e como simples efeitos ou resultados dos pecados morais.

A Psiquiatria moderna dos últimos tempos considerou-as como conseqüências de distúrbios orgânicos neuronais e estabeleceu o capítulo da neuropatologia. Os doentes mentais passaram a ser considerados como neuropatas ou sofredores dos nervos e suas moléstias como neuroses ou perturbações funcionais de um sistema nervoso enfraquecido, ou de alguma maneira lesado, ou deficiente em seus elementos essenciais.

A histeria, um dos sintomas mais concretos considerados pela Psiquiatria, dentro do esquema da neuropatologia, ou era um dos muitos resultados das neuroses, ou não passava de uma manifestação fantasiosa e simulada, provavelmente originada nos câmbios anormais das funções ovarianas e uterais das mulheres. Por isso, desde Hipócrates até Charcot, a histeria, de histeron — útero, foi considerada sempre como uma moléstia exclusiva das mulheres.

2) Mas quando através do "transe" hipnótico os comportamentos sonambúlicos e histéricos começaram a ser melhor estudados e melhor compreendidos, em forma de pesquisa experimental, quase de laboratório, chegou-se a entrever a possibilidade de que a causa determinante de tais moléstias fosse mais psíquico-emocional do que nervosa.

Recolhendo os resultados de seus predecessores e apoiado em suas próprias experiências, Charcot fez a surpreendente declaração de que: "a histeria não só não era exclusiva das mulheres e podia encontrar-se também nos homens, como que ela era mais bem psicológica do que nervosa".

Na mesma época, estudando também os comportamentos dos doentes histéricos e neuróticos, descobriram as bases do inconsciente dinâmico, que abriam enormes portas à compreensão das verdadeiras causas psíquicas desses comportamentos doentios.

Apoiado nesses resultados e nas experiências mais concretas do mestre Breuer, Freud — juntamente com ele — estabeleceu o princí-pio geral de que "a histeria (ou neurose) tinha como causa a lembrança recalcada de um fato, emocional ou psiquicamente traumatizante".

Mais tarde a interpretação pessoal de suas próprias experiências com doentes neuróticos levou Freud a concretizar a qualidade dessa lembrança recalcada como sendo uma lembrança de um ato sexual profundamente vergonhoso, razão pela qual tinha sido energicamente recalcada para o profundo inconsciente, fazendo-a muito mais traumatizante e perturbadora.

3) Posteriores estudos experimentais em seus pacientes obrigaram a Freud a reformar sua primeira definição etiológica. Ele comprovara que, em muitos casos, seus doentes mentiam ao referir-se a atos sexuais anteriormente praticados. Compreendeu, assim, que a lembrança sexual recalcada freqüentemente não era a de um ato sexual realmente praticado, mas a de um desejo fantasioso, inconsciente e doentio, de praticá-lo...! A criança ou adolescente não fora realmente abordada sexualmente por parte de um de seus progenitores, mas ela teria desejado inconscientemente que assim acontecesse...! e a lembrança desse desejo insatisfeito, mas ainda assim profundamente vergonhoso, uma vez recalcada, vinha a ser causa traumatizante de um distúrbio histérico-neurótico.

Continuando a estudar a razão de ser desses desejos fantasiosos das crianças referentes a atos sexuais com seus próprios pais, coisa aparentemente inadmissível, veio a estruturar a sua famosa teoria da LIBIDO, uma energia vital construtiva, tornada sexual, que, se biológica ou psiquicamente reprimida, frustrada, inibida, contrariada ou desviada, deveria ser a causa traumatizante e perturbadora responsável pelo desencadeamento da doença.

Mas, ao colocar a causa das neuroses do repressamento de uma energia quantitativa e física (segundo suas palavras), com efeitos psíquicos (coisa não muito compreensível), parecia a Freud regredir do terreno psíquico para o somático novamente colocando a etiologia das neuroses na disfunção orgânico-hormonal em vez de buscá-la na perturbação psíquico-emocional, mais condizente com o novo campo e as novas conquistas realizadas pela Psicanálise.

4) Esta regressão incoerente, e a universalidade dada à libido como causa única da nova psicopatologia, que Freud quis imprimir à sua teoria da LIBIDO-SEXUALIDADE, começou a criar uma certa incompatibilidade entre Freud e seus discípulos e entre a nascente Psicanálise e o mundo da Moral, da Medicina e da Psicologia.

Fato, lembrança, desejo ou quantidade de energia libidinosa recalcada, sempre no fundo de toda neurose, como causa etiológica radical, iríamos encontrar o "recalque", gerador de ansiedade e da neurose.

Foi por isso, que no I Congresso de Psicanálise de Viena, em 1910, seus melhores discípulos, Adler e Jung, discordaram da teoria etiológica de Freud, expuseram publicamente suas opiniões e repreendidos pelo mestre se afastaram da corrente psicanalítica freudiana, para formar suas próprias escolas, de acordo com suas particulares opiniões.

Adler colocou a estrutura da personalidade madura na auto-afirmação, mediante a superação dos sentimentos de inferioridade, na luta constante de cada dia pela conquista da maioridade biológica e psíquica ao mesmo tempo. "O neurótico, escrevia ele em 1912, não sofre do passado; ele cria o passado". Em seu sentir a etiologia das doenças psíquicas radica na "frustração" repetida na luta permanente de superação do sentimento, ou complexo de inferioridade". Na medida em que vencer nesta luta, terá construído a sua personalidade madura e sadia; na medida em que fracassar, terá ficado neurótico.

Jung estabeleceu por sua parte, a teoria da "LIBIDO= =PRIMORDIAL", considerando-a apenas como uma energia indiferenciada, que só se tornava sexual no começo da puberdade, sendo somente a partir dessa idade que podia constituir problema patológico. Para ele, não era "no passado que se deveria situar o conflito, mas sim no presente doloroso; isto é o que o torna doente". Assim sendo, ele sustentou uma etiologia psíquica poliforme e devida a diversos fatores igualmente frustrativos e causadores da doença, especialmente os de caráter educacional, por parte de pais neuróticos.

Para Rank, outro dissidente, "todas as dificuldades neuróticas arrancariam do trauma do nascimento, por si mesmo traumatizante, pois ele considerava o nascimento como um choque emocional dos mais profundos". Na forma mais ou menos traumática do nascimento teria origem "a ansiedade primordial", como uma espécie de reservatório de ansiedade colocado dentro da pessoa. Porções dessa ansiedade primordial seriam libertadas em todas as situações conflituosas posteriores, capazes de gerar problemas neuróticos.

5) Com Sullivam, psicólogo social treinado na escola freudiana clássica, o fator da ansiedade básica ou primordial, ponto de partida do comportamento neurótico segundo Freud, e estudado pela primeira vez em termos de ação cultural sendo um dos primeiros iniciadores da escola culturalista americana. Para ele a aprovação pelo adulto ou adultos significantes (pais e mestres) na vida da pessoa, constitui a atmosfera essencial para o desenvolvimento cabal e sadio da jovem personalidade. Conseqüentemente a desaprovação ou repressão envolve uma sensação de insegurança, geradora de ansiedade e causa etiológica da neurose. São, pois, os fatores culturais e educacionais os que produzem situações de ansiedade especialmente significativas e neurotizantes.

Na mesma linha, Fromm salientou que a desaprovação de um pai destruidor pode inutilizar as melhores potencialidades construtivas do indivíduo, sendo sacrificadas aos desejos e interesses dos educadores. Em tais circunstâncias, qualquer tentativa de manifestar potencialidades positivas pode chocar-se com a ação repressiva do educador, gerar ansiedade e produzir a neurose.

6) Foi Sorokin quem primeiramente chamou a atenção para uma série de problemas, complicações e contradições, próprias dos grandes agrupamentos sociais e sua ação destruidora e neurotizante. Mas foi Karem Horney a primeira psicoterapeuta que soube colocar na motivação social a etiologia fundamental das perturbações neuróticas modernas, saturadas de "stress", de ansiedade, de medo e de insegurança. Proclamadas por Horney as teses da escola culturalista são as seguintes:

a) Ninguém é neurótico senão pela pressão da sociedade;

b) A neurose é a reação individual ao conjunto de exigências complexas e contraditórias da sociedade;

c) A neurose é o efeito patológico dos fatores neurotizantes que existem na sociedade;

d) O fator causador da neurose não é uma instância que reside dentro do doente, como apontaram Freud e os primeiros psicanalistas, mas fora dele. Quem lhe causa a doença é a sociedade.

Assim sendo e conforme as teses desta escola, em vez de falarmos de neuroses, melhor faríamos em falarmos em socioses, ou comunicoses...! Será por isso que dificilmente os silvícolas e nunca os animais ficam nervosos...?

7) Uma outra escola inglesa, que poderia ser representada pelos Drs. Fraz Dicks, Fraibainr e Guntrip, tem tratado de harmonizar mais recentemente os fatores internos do indivíduo e os condicionamentos educacionais e sociais como sendo as causas coadjuvantes dos comportamentos neuróticos.

Para o Dr. Fairbainr, "as causas das neuroses devem situar-se no legado do medo, na fraqueza infantil e na necessidade de dependência dos pais, falsamente confundida com o famoso complexo edipiano de Freud". E o Dr. Dicks, seguindo a linha acrescenta: "Todo paciente acusa um medo infantil muito maior do que poderia suportar quando bebê, e os efeitos de sua estrutura psíquica representam as desesperadas tentativas para aliviar esse sentimento intolerável, pelos meios a sua disposição".

Finalmente, o Dr. Guntrip, mais expressivo, escreveu o seguinte: "Deixando de lado este ou aquele sintoma, a causa fundamental da neurose achar-se-á num estado basicamente dominado pelo medo infantil, intimamente debilitado, emocionalmente abalado e paralisado no desenvolvimento do paciente como um EU total". "A investigação moderna, acrescenta, vai deslocando o problema da etiologia das doenças mentais para além dos problemas do sexo, agressão, culpa, conflito moral, complexo e depressão, alcançando as mais remotas e mais profundas experiências da fraqueza, dependência e medo primordiais da infância, motivadas numa idade bastante precoce".

8) Nossa opinião assemelha-se bastante ao afirmado pelos representantes desta última escola. Generalizando mais um pouco os seus dizeres, achamos oportuno concluir que:

"Toda neurose tem origem numa falta intolerável de afetividade positiva (amor e seus derivados) ou na presença de uma quantidade intolerável de afetividade negativa", que enfraquece e impede o desenvolvimento da personalidade amadurecida (neurose), sendo capaz, por vezes, de levá-la a uma cisão total, que seria a psicose".

Essa falta ou presença da afetividade positiva ou negativa, no caso, dependerá dos fatores educacionais e sociais que o indivíduo achar na família, e na sociedade, onde se vê obrigado a viver; e sobretudo, a eclosão de sua neurose em maior ou menor grau dependerá fundamentalmente DO PODER DE ADAPTAçãO E RESISTêNCIA, que o caráter e personalidade do indivíduo possam oferecer.

Acreditamos que esta nossa posição abrange e coaduna tudo o dito pelos demais psicanalistas numa teoria etiológica poliforme e poligenética, pois, com certeza, tudo o que foi apontado por eles, termina gerando esse tipo de falta de afetividade positiva necessária ao indivíduo, e o excesso de afetividade negativa, que quando chega a um grau intolerável para um determinado indivíduo, provoca nele mais negativismo, mais medo, mais ansiedade e insegurança, mais enfraquecimento e inibição, mais neurose e até psicose, segundo os casos.