História das Psicoterapias e da Psicanálise/IX/V

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
Psicoterapias fora da psicanálise, Novos tipos de psicoterapias não-analíticas


1) Para finalizar esta nossa longa exposição, não poderíamos deixar de referirmos, nem que seja de leve e em forma mais sintética, a outros tipos de psicoterapias, desenvolvidas também fora dos limites da psiquiatria e da psicanálise.

Formas de Psicoterapia Oriental. Desde muitos séculos e milênios, os orientais vêm praticando seus métodos de psicoterapia. Os princípios básicos do Budismo, renovados modernamente pelo Zenbudismo, representam formas novas das mais eficientes das psicoterapias.

Pesquisador nato, gastou Buda a metade de sua vida estudando e procurando resolver os problemas da dor e do sofrimento, o que significa, em termos ocidentais, os problemas das doenças e da saúde. E quando pensou ter resolvido o enigma, gastou o resto de sua vida na pregação das soluções práticas que tinha achado.

De fato, a essência do Budismo se reduz à explicação e resolução prática desse problema fundamental. A origem de toda dor e de todo sofrimento se acha no DESEJO. O desejo desregrado, descontrolado, desequilibrado, naturalmente. E se essa é a gênese de toda dor e de todas as doenças, a terapia necessária e conveniente deverá ser, conseqüentemente, a do controle, educação e, se possível, da SUPRESSãO DO DESEJO. Isto, é claro, não significa simplesmente a REPRESSãO e o RECALQUE tão temidos por Freud e seus discípulos, os psicanalistas. Controle, educação e supressão dos desejos maldosos e nocivos, significa uma terapia preventiva de higiene mental, educativa e formativa, antes que a doença venha a aparecer; e uma terapia elucidativa e compreensiva, de esclarecimento e de ACEITAçãO consciente, após o aparecimento da doença, que dessa forma deverá ser eliminada, como ensinaria Freud, vinte e cinco séculos mais tarde.

Eis uma fórmula psicoterápica digna de figurar entre os cânones da psicanálise freudiana e que em nada desmerece diante dos mais eficientes sistemas das psicoterapias ocidentais.

2) "Irmãos: Suprimi, controlai, ao menos, os vossos desejos, se quereis ser felizes e sadios". Assim falou Buda, o ILUMINADO; esse é o legado cultural repleto de humanismo, transmitido, de geração em geração, pelo budismo e por todas as religiões, orientais e ocidentais, dele derivadas, e sintetizado novamente no Sermão da Montanha do místico nazareno, Jesus Cristo; suas “Benaventuranzas” são as melhores fórmulas de felicidade e saúde psíquica, base da saúde física, que formam a síntese do Cristianismo.

Desse princípio, sábio e benéfico, têm-se derivado uma série de fórmulas ou filosofias de vida, contendo excelentes regulamentos normativos da mais eficiente psicoterapia. Nessas fórmulas se baseiam todas as formas das Psicoterapias Religiosas, cujas crenças de conforto e de segurança, purgação e libertação, sob os mais variados aspectos, tanto contribuíram e contribuem, para prevenir ou minorar os sofrimentos desta humanidade aflita e infelicitada.

Um fato fácil de comprovar, mediante uma pesquisa estatística: no oriente místico e religioso, que mais viva mantém a filosofia budista, existe um NúMERO MUITO MENOR de neuróticos e doentes psíquicos do que no ocidente. Da mesma forma, poder-se-á comprovar que entre as pessoas religiosas do ocidente, enquanto que aceitam, sentem e vivem a sua forma religiosa, a SAúDE PSíQUICA é muito maior que entre as pessoas não religiosas. Os problemas psíquicos começam, normalmente, nas pessoas religiosas, quando começam as dúvidas, porque a dúvida é um foco de insegurança, que gera a ansiedade, a angústia, o medo, etc., que leva à neurose.

3) A Yogaterapia. Originariamente muito anterior ao Budismo e atualmente incorporando muitos dos seus princípios, a Yogaterapia ou simplesmente Yoga, em seu aspecto teórico, representa toda uma Filosofia de Vida, e em seu aspecto prático, todo um tratado de terapia física e psíquica. A Yoga, em vários de seus aspectos, é hoje bastante divulgada, estudada e praticada no ocidente, e nas principais cidades do Brasil, existem vários Centros ou Institutos onde se ensina e se pratica.

De um lado, as prática yogaterápicas visam o desenvolvimento físico do organismo, como base para o bem-estar psíquico, dentro daquele sábio princípio, que os gregos, herdeiros e imitadores dos orientais, nos transmitiram em tempos passados: MENS SANA IN CORPORE SANO. Em grande parte, uma série de exercícios de ginástica física, Hatha Yoga, com sua respiração ritmada e controlada e suas clássicas posturas, tendentes, antes de tudo, ao desenvolvimento harmonioso do homem integral.

De outro lado, a Raja Yoga envolve outra série de exercícios de desenvolvimento e controle psíquicos, que visam mais diretamente a HARMONIOSA PERFEIçãO do psiquismo superior, cuja conseqüência imediata se traduz no bem-estar físico e psíquico do organismo integral. Ambas essas práticas constituem um tipo de psicoterapia em todo semelhante às formas ocidentais de psicoterapia preventiva e educacional.

4) Mas um terceiro tipo de Yoga, a Yoga Monástica, em seu estudo teórico e em seu exercício prático de muitos milênios, chegou a desenvolver técnicas de alto psiquismo, que se traduzem numa outra espécie de psicoterapia, ainda totalmente ou quase totalmente desconhecida no ocidente, cujas práticas se ligam à medicina secreta dos mosteiros orientais. A Parapsicologia moderna tem estudado e dado validez a esses princípios básicos, que envolvem um controle quase total e perfeito do psiquismo superior, e se traduzem numa prática psicoterápica altamente eficiente no tratamento e na CURA dos inúmeros transtornos, perturbações e distúrbios psíquicos, que tanto afligem a sociedade ocidental, inclusive os de mais alto grau, como a esquizofrenia, o alcoolismo, as fobias, as insônias e as toxicomanias mais avançadas.

PARAPSICOTERAPIA-YOGA é o nome que nós damos a esse tipo de psicoterapia, que representa uma feliz combinação entre as práticas estudadas pela Parapsicologia e as desenvolvidas através da Yoga Monástica.

E não sendo possível um resumo mais amplo que mostre o conjunto dessas técnicas e seus altamente auspiciosos resultados, deixaremos para um outro tratado a exposição detalhada e específica do seu conteúdo.

5) Treinamento Autógeno e Subudterapia. Derivadas dos estudos yogas orientais, existem também no ocidente essas duas práticas psicoterápicas, o Treinamento Autógeno e a Subudterapia. O primeiro é um estudo mais prático e teórico do yoguismo oriental feito pelo médico alemão, Dr. Schultz, bastante divulgado inclusive em São Paulo, que se enquadra entre as práticas psicoterápicas de aquietação, acalmação, relaxamento e autocontrole, tendentes a combater os estados de "stress" e seus perniciosos efeitos, tão comuns em nosso meio ambiente, que tem conseguido ótimos resultados, quando nas mãos de um hábil terapista.

Contrariamente a Subudterapia, também conhecida e já praticada no Brasil, constitui um método psicoterápico que deve alinhar-se entre as psicoterapias de descarga, incluindo uma violenta "catarse". Como o anterior, pratica-se individualmente ou em grupos, sob a direção de um terapista, e tende a deixar o indivíduo em condições de permitir a evasão das forças de tensão ou "stress"', provocadas pela ação do ambiente exterior ou pelos complexos internos.

6) Sonoterapia e Relaxterapia. Duas práticas psicoterápicas que se complementam ou agem em duas linhas paralelas, tendentes, também, ao controle ou descarga controlada e suave do "'stress". A sonoterapia é praticada sob diversas aplicações, ou com o auxílio de aparelhos elétricos com drogas ou pela hipnose. A relaxterapia age, geralmente, via sugestiva, ou de outras formas, e sua finalidade é a indicada de propiciar a saída ou dissolução do "'stress".

7) A reflexologia. Derivada e apoiada na doutrina reflexológica do russo Pavlov, é uma técnica psicoterápica de grande aceitação nos consultórios médicos da atualidade, que pretende ultrapassar em eficiência as próprias práticas das psicoterapias psicanalíticas e outras. Seu princípio é o de que o reflexo cria o complexo, a tendência e o hábito. E se são perniciosos, pelo mesmo procedimento, com novos reflexos mais benéficos, novos complexos, novas tendências e novos hábitos, contrários e benéficos poderão ser criados.

8) Tudo isto e muito mais, que poderíamos acrescentar, cai sob o conceito de PSICOTERAPIA em seu significado amplo, que vai muito além, como se vê, e não pode encerrar-se nos estreitos limites das técnicas psiquiátricas e psicanalíticas, único campo de psicoterapia, como pretendem, de um lado e de outro, os seus respectivos corifeus e fanáticos defensores, ao ponto de negar validade e direitos de '"cura'" aos demais sistemas que não sejam o seu.

A este respeito seja-nos ilícito acabar com as sábias e eloqüentes palavras do Dr. americano Lawrence Kubie:

"A psicoterapia abrange e deve estender-se a qualquer esforço para influenciar os pensamentos, sentimentos e conduta humana, pelo ensinamento, conselho ou exemplo, com graça e humor, pela exortação e apelo à razão, por distração, recompensa ou castigo, com fé, caridade ou serviço social, pela ação educativa ou contagiante do espírito benéfico de outras pessoas, seja através da música, da arte, do rádio, da televisão, do teatro, ou da literatura, etc."

"Além dos expedientes específicos da psiquiatria e da psicoterapia analítica, podemos acrescentar os expedientes mais simples da psicoterapia analítica, que podem ser agrupados nas três classes principais seguintes:

a) Técnicas de apoio prático, como o conselho, orientação, ajuda e assistência prática no manejo e solução dos problemas nascidos das situações individuais e das dificuldades ambientais, através do Serviço Social, Cultural, Educacional e Religioso, etc.

b) Técnicas de apoio emocional, como a exortação, admoestação, simpatia, encorajamento, divertimento, arte, recreação, camaradagem e coisas semelhantes.

c) Técnicas de reeducação e reorientação tendentes a alterar as atitudes negativistas e destrutivas de culpa, medo, ódio, angústia e depressão do paciente, educando-o para tolerar suas próprias necessidades conscientes e inconscientes, seus desejos instintivos, ciúmes e ódios familiares, em um esforço comum de todos e para todos, em busca da saúde e da felicidade comum."

9) Eis aí um quadro encorajador, onde o conceito de psicoterapia e psicoterapeuta se abre com perspectivas longas e construtivas, que possibilitarão a multiplicação de técnicas novas e eficientes e o aumento considerável ou suficiente do número de indivíduos dedicados à psicoterapia, que profissionalmente ou em profissões paralelas propiciarão o número de atendentes necessários para enfrentar o número cada vez maior de doentes portadores de distúrbios mentais ou emocionais, em benefício da sanidade comum de nossa sociedade.