História das Psicoterapias e da Psicanálise/X/I

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História das Psicoterapias e da Psicanálise por Nelson Valente
A psiquiatria e seus métodos, O começo


1) Histórico. A história da psiquiatria se inicia quase tão cedo como a história da psicoterapia. Os habitantes das cavernas, quando obrigados a tratar de algum dos seus doentes "esquisitos", portadores de doenças incompreensíveis, que, em sua ignorância atribuíam à ação perturbadora dos espíritos, freqüentemente recorriam aos dois métodos: ao que hoje podemos intitular de psicológico (psicoterapia religiosa-sugestiva) e ao que poderíamos chamar de psiquiátrico. Os homens da medicina, obrigados a tratar daqueles doentes "'desequilibrados'", armados de toscos instrumentos de pedra, rebentavam o crânio dos pacientes e praticavam a "trepanação". Abriam uma janela no cimo do crânio com o intuito de que "os maus espíritos perturbadores saíssem" e, a seguir, a fechavam e ficavam a esperar que o doente recuperasse o juízo. Quando isto não acontecia ou mesmo para ajudar a que acontecesse, recorriam ao "exorcismo", ou deixavam aos parentes ou aos magos e "sacerdotes" que o fizessem, tentando expulsar o diabo que atormentava o doente, por meio de rezas e magias.

Provas arqueológicas e vestígios destes procedimentos os encontramos em muitas das culturas primitivas desde os alvores da pré-história, tendo, na cultura egípcia, provas documentadas dos mesmos. Mas o princípio básico desta “psico-cirurgia” primitiva era sempre o mesmo: a causa do distúrbio era sempre externa. O espírito mau, vindo de fora ou agindo de fora, era o causador da doença. A cura tinha que consistir, necessariamente, em neutralizar sua ação. E uma coisa boa para isso era o método da "expulsão".

Que saibamos, foi Hipócrates o primeiro que SOUBE ou se atreveu a afirmar que: "'A origem da doença mental, sua causa intrínseca, se achava no próprio cérebro do doente". E se ali estava a causa, ali devia ser aplicada a cura.

2) O caminho difícil. Todavia, isto não era mais que o princípio. O condicionamento religioso-espiritualista estava demasiado arraigado, não só no espírito do povo, como no dos próprios médicos-curadores para admitir esse princípio tão revolucionário. Desde os alvores da experiência médica, os médicos-sacerdotes e mesmo os leigos não-médicos tinham realizado curas assombrosas baseados naqueles princípios e utilizando métodos que parecem não-ortodoxos à medicina de hoje. Reis, santos, sacerdotes, camponeses meio analfabetos e magos-feiticeiros, haviam curado a seus semelhantes doentes com a mera "imposição das mãos", o "toque dos reis", amuletos, orações, exorcismos, santuários, etc. Todavia, a medida que a medicina leiga (não-religiosa) a que pretendia ser científica progredia, de todos esses processos, considerados não ortodoxos, não-científicos e não-médicos, ela lavava as mãos. Se não podia suprimi-los, tratava de ignorá-los. Com a mesma teimosia que os espiritualistas defendiam seus princípios, que hoje consideramos psicológicos, os médicos defendiam também os seus princípios da medicina física ou orgânica.

De fato, o cérebro terminou revelando os seus segredos de um milhão de anos, não aos filósofos, nem aos teólogos, nem aos metafísicos, nem mesmo aos psicólogos, em primeiro lugar, mas sim aos médicos cirurgiões e neurologistas, em pesquisas inteiramente válidas e consideradas científicas, como as iniciadas pelo grande neurólogo e cirurgião Paul Broca e seu imediato seguidor o Dr. Vincent e outros; aos psiquiatras que aplicaram essas pesquisas aos métodos de tratamento e cura das doenças mentais, e revelara-os, sobretudo, aos psicanalistas, através de seus estudos do comportamento inconsciente anormal e patológico.

Mas quase um século antes de Broca ter descoberto um caminho fisiológico seguro para chegar ao espírito, Mesmer tinha já aberto o caminho psicológico para o mesmo espírito. Esse caminho foi a HIPNOSE sob a forma do magnetismo. E à medida que esses dois caminhos se alargavam, vemos como iam emergindo do nada as duas ciências, mesmo que antagônicas, paralelas e dirigidas ao mesmo objetivo: a Psicoterapia e a Psiquiatria.

3) O antagonismo gera a Ciência. A prova científica do psicologismo se iniciou com o "'magnetismo"' de Mesmer, e achou o seu remate na psicanálise de Freud. Todavia, do magnetismo à Hipnose, do mesmerismo ao hipnotismo e do hipnotismo à psicanálise, é um caminho que a muitos poderá parecer não tão longo. Mas se não foi tão longo (pouco mais de um século), pelo menos foi extremamente difícil. Repudiado inicialmente o mesmerismo, e levantando por causa dele mil barreiras ao hipnotismo, a ciência médica jogou-os aos charlatões, que os exploraram durante quase dois séculos. Só a teimosia de alguns espíritos lúcidos e fanáticos conseguiu manter acesa a luz da verdade a seu respeito continuando os elos da cadeia que o levaria de novo àquela ciência que o tinha repudiado. Nessa disputa, foi a psicanálise que conferiu ao psicologismo a prova científica de que necessitava.

De certo, desde que a medicina começou a considerar-se como uma ciência, a psiquiatria, julgando-se ligada à medicina, não podia renunciar a sê-lo. A ciência, afirmam os médicos, ocupa-se com coisas materiais existentes no espaço e presentes para os sentidos no tempo. Sente-se obrigada, portanto, a rejeitar e entabular relações com os fenômenos não-espaciais, não-temporais e não-materiais. Isso é lá com a psicologia, com a qual a medicina do passado e com ela a psiquiatria nada queriam saber, desde o começo da sua história.

Eis porque Mesmer, apesar de tudo, foi levado a procurar uma explicação fisiológica para o seu "magnetismo animal", que considerava uma força física e fisiológica; porque Braid explicou o seu hipnotismo como conseqüência do esgotamento de certos centros nervosos, eis porque Pavlov o quis explicar com base nos reflexos-respostas a determinados estímulos; eis porque Charcot assentou a teoria da patologia fisiológica da histeria e da hipnose; eis porque Freud tanto se aferrou a sua teoria quantitativa da energia-libido como base de explicação científica de suas especulações psicológicas a respeito do inconsciente dinâmico, responsável número UM das neuroses.

Esses homens eram médicos e eram homens de ciência. A psicologia não era, ainda, considerada como ciência. Cheirava a metafísica, a filosofia, a espiritualismo, a magia, numa palavra. Jamais poderia ser aceita por nenhum homem de medicina, que se prezasse e quisesse manter-se na linha da ciência. A luta entre esses dois métodos de tratamento dos distúrbios mentais ou do espírito, o psicológico e o fisiológico, entre a escola fisiológica-psiquiátrica e a escola psicológica-psicoterapêutica, começou irredutível e assim permaneceu até os nossos dias.

4) O desafio e sua resposta. Mas esse hipnotismo, primeiro, e essa psicanálise, depois... Até agora, os médicos, colocados diante dos métodos de cura psicológicos ou sugestivo-religiosos, lavavam as mãos e tratavam de explicá-los como fruto da ignorância e da magia. Mas quanto ao hipnotismo e à psicanálise, os médicos verificaram que não era possível lavar as mãos por mais que as esfregassem... A medicina estava sendo reptada a explicar aquelas curas inexplicáveis, segundo os princípios médicos. A resposta tinha que ser achada, e esta resposta, se queria ser científica, tinha que ser baseada na pesquisa da doença mental em sua própria sede, que não podia ser outra que o cérebro mesmo, segundo a antiga teoria hipocrática. E a resposta científica veio a ser dada pela cirurgia cerebral, pela neurologia, pela endocrinologia e mais tarde pela própria citologia, etc., que concluíram pelo caráter científico da Psiquiatria e dos métodos de tratamento psiquiátrico. Vejamos a sua história.