Historia maravilhosa da intitulada beata d'Evora

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Historia maravilhosa da intitulada beata d'Evora
por Desconhecido
Poema agrupado posteriormente e publicado em Poesias eroticas, burlescas e satyricas, a fim de contextualizar o Soneto XXXIV.

Junto á porta de Alconchel, na cidade d′Evora, vivia na companhia de seus paes uma beata, moça de vinte e dois annos, e de muitos bons bigodes, chamada Anna de Jesus Maria. Esta serva do Senhor fôra por algum tempo confessada de fr. João de Santa Euphrasia, da ordem dos Carmelitas descalços, e morador no convento dos Remedios, da mesma cidade: porém, morrendo este, tomou-a debaixo da sua direcção espiritual um fr. Felix, que passados tempos teve de ausentar-se da cidade e antes da sua partida traspassou a beata a outro masmarro da sua ordem. Este ultimo, satisfeito em extremo de tão bella acquisição, dava a Deus continuos louvores por tel-o ali enviado, afim (segundo elle dizia) de dirigir e encaminhar para a bemaventurança aquella alma predestinada, cujas singulares virtudes apregoava por toda a parte á bocca cheia. Depois de terem ambos abusado por algum tempo da credulidade e fanatismo, não só do vulgo ignorante, mas até de individuos de mais elevada esphera, que por suas circumstancias deveriam julgar-se fóra do alcance de tão ridiculas suggestões, entenderam o frade e a confessada que podiam levar a audacia mais longe, e concertaram entre si uma farça, de que esperavam colher um resultado maravilhoso. Começaram pois a assoalhar entre os seus conhecimentos que por divina revelação fôra annunciado á beata que no dia de S. Miguel, 29 de Setembro de 1792, pelas nove horas e meia da noute havia de infallivelmente morrer; querendo Deus chamal-a a si no proprio instante em que completava os seus vinte e dois annos. A noticia d′esta especie de prophecia espalhou-se velozmente por toda a cidade; isso era o mesmo que os interessados desejavam; e grande numero de pessoas, preocupadas pela opinião de virtude da santinha, guardavam anciosamente o cumprimento da promessa divina. Chegado que foi o dia, em que devia realisar-se o vaticinio, o arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, que era, ou fingia ser um dos que mais acreditavam nos embustes da beata e do seu director, quiz authenticar o milagre, em modo que não ficasse logar para as duvidas dos incredulos. Mandou portanto sair da casa da santa o padre confessor e o prior do convento, seu fiel companheiro; e ordenou a quatro clerigos da sé que alternadamente assistissem dois e dois á beata, dia e noute, até chegar a hora prophetisada, para serem testemunhas do seu miraculoso transito.

Cumpriram os clerigos a determinação do prelado; e tudo correu na melhor ordem. Porém vendo que o praso promettido era passado, e que a santinha se conservava de perfeita saude, sem que apresentasse o mais leve indicio de uma morte proxima, entenderam que deviam retirar-se; despediram-se d′ella, e abalaram para suas casas. Ainda bem não tinham cruzado a porta, e já o pae da menina corria apoz elles, a annunciar-lhes que n′aquelle mesmo instante déra a alma ao creador! — Voltaram attonitos os bons clerigos, pezarosos sem duvida de não terem presenciado o prodigio; acha-ram-n′a com effeito já amortalhada no habito de Santa Theresa; e para ser mais cabal o milagre, tinha as mãos e pés estigmatisados com chagas similhantes ás do nosso divino redemptor! — Quem ousaria ainda duvidar da verdade, depois de tão claramente manifestada? Os clerigos promptamente se persuadiram e correram logo a levar ao arcebispo a noticia do successo.

Entretanto appareceu o padre confessor, declarando aos circumstantes, que começavam a affluir, ter sido elle o que mesmo do convento impozera preceito á santa para que morresse, logo que os clerigos saissem; porquanto sem permissão d′elle o não podia fazer. Apresentou-se em seguida a communidade de cruz alçada, e começou a altercar com o parocho de S. Antonio acerca de quem levaria aquelle bemdicto corpo para a sua egreja. O povo amotinado corria em chusma para a casa da beata; todos pretendiam vêr com os proprios olhos tão estupenda maravilha... Eis que o frade começa a pregar com grande ancia, preconisando a defuncta pela maior de todas as santas nascidas em Portugal; narrou um milhão de suas virtudes e milagres; affirmou a todos que Deus estava n′ella; disse-lhes que a adorassem: e finalmente para mais enthusiasmar os pios ouvintes, volta-se para a bisbilholeira que jazia amortalhada e diz-Ihe: «Anna! Em virtude da santa obediencia abre os olhos!» (E ella os abriu, tamanhos como duas cebolas). «Anna! Cruza os braços!» (E a defuncta, que os tinha estendidos, os cruzou effectivamenle). «Anna! Abençoa os que aqui estamos!« (E ella assim o fez). — Mandou-lhe que declarasse onde estava: ella respondeu que já tinha ido ao céo, e que la encontrara fr. João de Santa Euphrasia, que eslava dizendo missa, o qual lhe dera a chuchar metade do calix! — Finalmente satisfazia com presteza a tudo quanto o frade lhe ordenava. Os espectadores enternecidos á vista de tantos prodigios, e lavados em lagrimas, começaram humildes a beijar-lhe os pés, tocando lenços, contas e veronicas nas suas chagas. Repicaram-se os sinos por todos os campansrios da cidade; começaram de affluir em tropel os coxos, os cegos e paralyticos, que vinham com muitas lagrimas implorar o remedio para seus males: mas infelizmente para elles saiam como entravam.

Crescia de ponto a devota multidão, e cora ella a desordem, até que as auctoridades tractaram de providenciar , mandando vir tropa, que poz fóra a todos, com promessa de voltarem, ficando a final sós na casa o pae, e a mãe com a supposta defuncta. O official que commandava a tropa, tendo-se retirado para baixo, chegou porém passado algum tempo casualmente á porta: e como ouvisse rumor de vozes no quarto onde jazia a santa amortalhada com tochas accezas, empurra a porta de repente, e acha-a sentada muito á vontade, conversando sem cerimonia com o pae e mãe! — Ella mal que o viu, estendeu-se novamente, e deixou-se morrer outra vez querendo sustentar a impostura: e os paes com toda a presença d′espirito contaram ao official que sua filha lhes estava declarando o lugar em que no convento dos Remedios queria ser sepultada. Aquelle, que já desconfiava de tanta maranha, deu logo parte do facto ao Arcebispo. Vieram medicos, e acharam-na mais viva que o azougue!

Descoberta a impostura, o povo amotinou-se novamente: mas d′esta vez com o intento de dar cabo da beata, a quem não podiam perdoar a illusão em que haviam cabido. A final foi mandada presa para o recolhimento de Santa Martha. O reverendo padre confessor fugiu, e todos os seus confrades foram suspensos das ordens, e degradados para um convento do Algarve. Tudo porém ficou impune; porque passado algum tempo a beata sahiu do recolhimento, e casou com um soldado , e os frades regressaram para o seu convento, não se fallando mais em tal.

Se a devota pantomina tivesse ido para diante, é provável que mudariam a moça para alguma cella, e que d′esta sahissem para a roda netos de Santa Theresa; como o corpo havia necessariamente de desapparecer do logar do deposito, os frades fariam crer á pobre gente que ella subira ao céo em corpo e alma. Que novo ramo de commercio tão lucrativo para a communidade, e tão proveitoso para as beatas bonitas! E quantas d′estas se terão engolido no mundo!