Historias de Reis e Principes/IX

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Historias de Reis e Principes por Alberto Pimentel
IX: O paiz dos meninos


I
O menino de S. Domingos

É costume portuguez dizer-se por graciosidade ou disfarce, segundo a idade da pessoa com quem estamos fallando, que as creanças recemnascidas vieram de França.

Os loiros babys, que aguardam impacientemente a chegada de mais um irmão pequenino, contentam-se ingenuamente com a resposta que lhes damos—de que o menino viera de França—e, annos volvidos, quando a malicia do mundo lhes revelou o segredo da procreação da especie humana, elles mesmos continuam a tradição dizendo por sua vez aos filhos curiosos—que viera tambem de França aquelle lindo menino, que lhes offerecem para irmão.

Mas... ó triste idade a nossa, em que já se não acredita em quasi nada, e muito menos em meninos que vêm de França!... mas por que razão se escolheu a França como paiz ideal de onde todos os meninos portuguezes são oriundos! A phrase ficou lendaria entre nós, a tradição subsiste com a mesma intensidade, com ella ludibriaram a nossa curiosidade infantil, e com ella, por nossa vez, respondemos á pergunta, por igual curiosa, de nossos filhos.

Não haveria um facto historico que determinasse a origem d'esta tradição? Aposto que o leitor nunca pensou n'isto! Nunca! É celebre! Tanto mais celebre, se é certo que já alguma vez encommendou para França meninos recemnascidos.

Pois, verdade, verdade, eu nunca tinha pensado tambem, e não o pensaria jámais, se o licenciado Duarte Nunes de Leão, nas suas chronicas de reis portuguezes, especialmente na de Affonso III, não tivesse chamado a minha attenção para uma antiga lenda portugueza, que bem póde ter dado origem á tradição de que é de França que chegam os meninos recemnascidos.

É possivel que eu esteja em erro, mas como isso não prejudica os meninos, nem os pais, e menos ainda a França, afoito-me a emittir uma opinião, que as academias talvez ingratamente repillam, mas que não deixará comtudo de ter uma tal ou qual apparencia de verosimilhança.

Posto este brevissimo exordio, entremos no assumpto, quero dizer na chronica de Duarte Nunes.

Depois de ter contado como o infante D. Affonso casára em França com a condessa Mathilde de Bolonha, viuva de Filippe o Crespo, e como, sendo acclamado rei de Portugal, a repudiára para desposar a filha do rei de Castella, empenha-se Duarte Nunes em demonstrar, por documentos authenticos, que a condessa de Bolonha não houvera filhos de D. Affonso de Portugal.

A dissertação do chronista tem por fim rebater uma lenda, que se enraizára entre o povo portuguez, e sobre a qual assenta a hypothese que eu pretendo formular.

Escreve, pois, o historiador:

«... resta satisfazer ás fabulas da gente popular, que ficaram por historia de mão em mão, e que o chronista Fernão Lopes conta na vida do dito rei, não sabendo o que seguisse, nem o que fugisse, por a pouca informação que d'aquelles tempos rudes pôde alcançar, e por o pouco discurso que elle n'isso podia fazer por falta de noticia das historias estrangeiras. Primeiramente diz que passados alguns annos depois de o infante D. Affonso partir de Bolonha, soube a condessa sua mulher como el-rei D. Sancho era fallecido, e o conde D. Affonso seu marido levantado por rei. E que não sabendo ser elle casado, armou uma frota, em que veiu a este reino. E que aportando a Cascaes, soube do casamento de seu marido com a filha d'el-rei de Castella, e estar com ella recreando-se na aldeia de Friellas, termo de Lisboa. E que fazendo-lhe saber de sua vinda, e requerendo-lhe a recebesse a ella, e se apartasse d'aquella mulher, com que estava em peccado, el-rei lhe mandou que se fôsse fóra de seu reino. Contam mais que a condessa se tornou para França, deixando-lhe um filho que trazia, segundo a opinião de alguns; e outros diziam que o tornou a levar, e de lá o mandou depois a Portugal.»

Aqui é que bate o ponto.

O facto era importante como questão politica: tratava-se da successão á corôa. Uns davam razão ao rei; outros á condessa de Bolonha. E discutia-se a hypothese de existir um filho do primeiro casamento de D. Affonso III; fallava-se muito de um menino que viera de França.

Duarte Nunes de Leão trata de desmentir a lenda com documentos e razões chronologicas. Mas a lenda enraizou-se e floresceu em Portugal, a ponto de sobreviver ao menino que viera de França, e que teria morrido de morte natural ou violenta.

O povo, pelo que se infere de Duarte Nunes, acreditava que o menino estava sepultado na igreja de S. Domingos.

Diz a chronica:

«E para que a gente vulgar, que não se move tanto por razões, quanto pelos sentidos de vista e ouvida, se satisfaça, é necessario declarar-se que sepultura era a de S. Domingos de Lisboa, em que havia fama no povo que estava enterrado um menino filho da condessa Mathilde e d'el-rei D. Affonso seu marido, que diziam que era o que trouxera comsigo ou mandára de França

Duarte Nunes viu a sepultura, e descreve-a. A caixa era de marmore branco, com varios ornatos esculpidos á roda, figurando arvoredo e montaria de porcos e cães. As lettras do epitaphio eram gothicas. Mas as dimensões da sepultura denunciavam o cadaver de um adulto, não de um moço de pouca idade. Vinte annos antes de Duarte Nunes escrever a chronica de D. Affonso III, querendo o prior de S. Domingos «despejar o cruzeiro (onde a sepultura estava) ou por não lêr aquellas lettras, porque constava jazer alli um filho do rei, que fundou aquella casa, ou por cuidar que seria algum menino», abriu-se a sepultura e achou-se um corpo incorrupto, sanissimo, diz o chronista, reconhecendo-se que era de homem grosso. Os ossos foram trasladados para outra sepultura, proxima á capella de Santo André.

«De maneira, escreve o chronista, que a fama de alli estar um menino filho de Mathilde, era falsa e vã, e era certo estar alli o infante D. Affonso, irmão inteiro d'el-rei D. Diniz, que morreu de grande idade com muitos filhos e netos.»

Como se vê, a lenda do menino que viera de França generalisou-se entre o povo portuguez, e atravessou os seculos sem perder uma parcella da sua popularidade. O proprio prior de S. Domingos, que devia ser homem ilustrado, teve duvidas, e só se desenganou depois de ter mandado abrir a sepultura.

A lenda cahiria então em algum descredito, que aliás não foi completo, como logo veremos, mas, a locução, havendo-se tornado tradicional, permaneceria, chegando até nós. Para de algum modo satisfazer á curiosidade ingenua das creanças, dir-lhes-iam que todos os meninos vinham de França, como o da lenda. E assim o phenomeno physiologico da maternidade ficaria na imaginação das creanças envolvido no mesmo mysterio, que pesou sobre o nascimento de um filho de D. Affonso III e da condessa de Bolonha até ao dia em que na igreja de S. Domingos foi aberta a respectiva sepultura.

E quantos espiritos populares não passaram d'esta para outra vida com a convicção de que effectivamente um menino, filho do rei portuguez, viera de França, por ordem de sua mãi! Similhantemente, os espiritos infantis dos loiros babys acreditam ingenuamente que os seus irmãos pequeninos, como elles proprios, vieram de França por ordem de sua mãi e... de seu pai. A differença, que é insignificante, está apenas na parceria da encommenda.

O menino de S. Domingos era um mysterio, um segredo, como aquelle que para as credulas creaturinhas deve envolver o facto da gestação e do nascimento, em toda a sua verdade physiologica.

Com o reconhecimento do cadaver desfez-se o mysterio, mas a lenda subsistiu conservando a locução, tanto mais que ficou a perpetuar a lenda um monumento em que a imaginação popular a materialisou.

Sabe o leitor que monumento é esse? Não sabe, decerto. São alguns rochedos que afloram do mar na barra de Lisboa.

Dil-o Duarte Nunes:

«E para que não fique coisa a que se não responda, outra historia como esta andava entre as velhas, e gente popular, porque contavam que quando a condessa veiu a Cascaes e foi desenganada d'el-rei seu marido, que a não havia de recolher, tornando-se para França, estando já para dar á vela, lhe deixou dois filhos, dizendo que dissessem a el-rei que tomasse lá seus cachopos, e que por isso se chamou Cachopos áquelle lugar do mar, onde os deixou, não entendendo aquella gente vulgar que cachopos é palavra portugueza de homens rusticos, por que chamam aos moços de pouca idade, e que a condessa Mathilde, franceza da Gallia Belgica, não podia fallar por aquelles termos da lingua portugueza, que não sabia, e que aquelle lugar da barra de Lisboa, de penedia e bancos, que vão por debaixo da agua, onde as naus perigam, se diz cachopos, corrupto o vocabulo latino scopulus, como se corromperam pela successão dos godos e dos mouros outros infinitos vocabulos, que temos da lingua latina, d'onde a nossa tem a origem. Isto é coisa de graça...»

Graciosos na sua elegante singeleza são tambem este e os outros relanços da chronica de Duarte Nunes.

Não sei se o leitor ficará inclinado a acreditar que a lenda do menino de S. Domingos haja dado origem á locução proverbial de que os meninos recemnascidos vêm de França.

Se não ficar, releve-me a innocentissima conjectura pelo prazer que decerto lhe deram as transcripções que fui buscar a Duarte Nunes e que, aproveitando-lhe a phrase, diga complacentemente com o chronista: Isto é coisa de graça.<ref name="Nt9">Esta hypothese, que aventamos humoristicamente, tomou maior vulto no nosso espirito desde que, procedendo a averiguações, soubemos que só na peninsula iberica se diz que o menino veio de França. Hay venido de Francia, diz-se em Hespanha, e esta communidade de locução explica-se satisfatoriamente n'este caso, como em muitos outros modismos, adagios e gnomas, pelas relações frequentes, que sempre houve, entre os dois paizes da peninsula. Mas já nos Açores, que communicam menos facilmente com Portugal do que a Hespanha, comquanto sejam territorio portuguez, se não emprega a mesma locução. Na Terceira diz-se que o menino veio do Pico. Mostra isto, talvez, que os Açores não receberam a impressão do facto historico occorrido em Lisboa com a mesma insistencia e intensidade com que a recebeu a Hespanha, por ser nossa visinha, paredes meias.

As variantes de expressão, que vamos reproduzir, tendem a demonstrar que a locução portugueza proveio de um facto privativo a Portugal.

Em França diz-se que o menino nasceu nas couves, qu'il est né dans les choux; e até em algumas participações de nascimento se vê representada uma creança emergindo d'entre folhas de couve.

Em Italia a expressão é outra: que a mamã comprou um menino:—che la mammá ha comperato un bambino. Em Inglaterra a locução tem o mesmo sentido que na Italia: to buy a baby.

Na Allemanha ha uma phrase, que corresponde a uma lenda. A phrase é esta: Der Storch bringt die Kinder aus dem Milchbrunnen. (A cegonha traz os meninos do poço de leite). A lenda conta que as creanças jazem n'um poço, chamado—das creanças—, o qual é muito fundo. Se os meninos querem uma irmãsinha ou um irmãosinho, pedem á cegonha que os vá tirar do poço com o seu comprido bico, o que ella faz de noute, mettendo-os pela janella da casa, onde as respectivas mamãs os vão buscar.</ref>


II
O principe da Beira
(Março de 1887)

E a proposito...

Toda a semana se fallou muito de um principesinho que ha de vir de França, n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem.

Os jornaes não teem fallado de outro assumpto, e os pais de familia vêem-se sériamente entalados para explicar aos bebés o motivo por que esse lindo principesinho que ha de vir de França (e que deve ser lindo como todos os principes) não chegou ainda, a despeito de fazer-se esperar por toda a familia real e por todos os habitantes do paiz.

Tem sido realmente preciso dar tratos á imaginação para explicar phantasiosamente o caso d'essa demora imprevista, para satisfazer a justa curiosidade dos bebés, e se o accouchement da princeza Amelia tardar ainda mais alguns dias, receio muito que chegue a esgotar-se a imaginação dos pobres pais de familia.

Um dia são os pastores dos Pyrenéos que, sabendo que por alli passa um principesinho, se juntam para vêl-o, obrigando o portador a parar e a mostrar-lh'o.

Não tem o portador outro remedio senão parar, descobrir o bercinho, mostrar o principe.

Então os pastores querem beijal-o por força, e pedem ao portador que se demore emquanto elles vão buscar a melhor rez do seu rebanho para offerecel-a áquella linda creança.

Outras vezes é o portador que se enganou no caminho, por ser a primeira vez, depois de muitos annos, que traz um principe a Portugal.

Outras vezes é ainda o portador que, por ter caminhado com muita pressa, ancioso de chegar, cansou a meio do caminho e parou.

Finalmente, são as andorinhas que reclamaram para si o direito de vir trazendo o principesinho nas suas azas, mas como as andorinhas sejam pequenas ainda mais pequenas do que o principe, o emissario vê-se forçado a dar-lhes frequentes descansos.

Durante vinte e quatro horas, os bebés, não tendo ouvido os foguetes, acreditam na desculpa que se lhes dá, mas no dia seguinte, como a demora vá continuando, é preciso inventar uma desculpa, e um pai de familia, por muito amor que tenha aos seus filhos, póde não ter tanta imaginação que chegue para cada um d'elles...

Entretanto, os bebés e os adultos vão esperando pelo principesinho que ha de chegar de França n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem.

Já tudo está a postos para o receber. Os condes de Paris esperam, o principe D. Carlos mostra-se impaciente, e a princeza D. Amelia pergunta ás flôres dos jardins de Belem se ellas sabem o motivo por que o principesinho não chega. Nem as flôres, nem o dr. Ravara, nem o dr. Greneau, nem a snr.ª Prévot teem sido capazes de responder a esta pergunta. Passa-se o dia em interrogações no Paço de Belem. De vez em quando ha um rebate falso, é chamada a côrte a toda a pressa, os artilheiros correm a postar-se junto ás peças, as damas de honor principiam a desdobrar as alfaias do enxoval, os sineiros sobem aos campanarios, vai emfim chegar o principesinho, faz-se um grande silencio respeitoso, olha-se para a porta da rua, a sentinella chama as armas...

E o principesinho não chega!

.    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    

O dr. Ravara encolhe os hombros, a snr.ª Prévot consulta os guias de viagem, o dr. Greneau pergunta se não estará sonhando, mas o que é certo é que a pequenina alteza, sabendo talvez que já vai sendo um pouco amargo ser principe, parece não ter pressa nenhuma de o ser!

Aposto que sua possivel alteza está talvez dizendo a esta hora:

—Querem-me lá para começarem desde logo a discutir-me! Pois vão esperando por mim. Que o Magalhães Lima vá aguçando a penna, e o Consiglieri Pedroso vá ensaiando a voz. Eu bem sei que elles não são meus amigos e o meu coração é tão pequenino que não comporta odios contra ninguem. Como não saberei odial-os, não estou para os aturar por ora. Que vão esperando. Teem lá muito que discutir, encham os jornaes republicanos como pudérem, que eu não estou para me aborrecer. Se eu fosse filho de um saloio de Alcabideche ou de um piloto de Cascaes, não teria duvida em chegar depressa. Ninguem daria pela minha chegada, e eu poderia regaladamente dormir o meu primeiro somno. Mas como sou filho do herdeiro da corôa de Portugal, como eu sei que tenho de aturar os republicanos e as peças de artilheria, os foguetes e os jornaes, os repiques de sino e os repiques dos poetas, como eu calculo que tudo isso deve ser muito massador, vou-me deixando estar onde estou, no paiz dos possiveis, gozando da regalia que tenho de me fazer esperar, visto que, depois que eu fôr crescido, todos ralharão se me fizer esperar cinco minutos em qualquer parte...

O dr. Ravara continúa a vêr-se embaraçado com as perguntas que lhe fazem, o snr. conde de S. Miguel deixa de jantar, a snr.ª Prévot vê-se sériamente atrapalhada, mas a verdade é que o principesinho não chega porque não tem vontade nenhuma de chegar.

E o principesinho tem razão.

—Aqui, dirá sua pequenina alteza, todos os anjos me tratam por tu e brincam commigo. Está-se muito bem, e elles proprios me informam de que lá em baixo ha um monstro terrivel, que devora a paciencia, e que se chama a Pragmatica. Eu tenho medo d'esse monstro, em respeito ao qual todas as pessoas passarão a tratar-me por alteza, a mim, que sou mais pequenino do que ellas!

E emquanto sua alteza assim monologava, sem querer chegar, Lisboa, desesperada por esperar, ia olhando para o Tejo para vêr subir as aguas da grande maré tão annunciada.

Mas a maré passou, só não chegou ainda a maré de sua alteza chegar n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem!

Pobre dr. Ravara!

Pobre snr.ª Prévot!

E pobres pais de familia, porque ámanhã, talvez, já os seus bebés não acreditarão em desculpas!