Horto (1910)/Dadá

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Dadá
por Auta de Sousa
Poema publicado em Horto (1910).


Dadá tinha um filhinho muito louro,
Tão louro como um raio de luar.
Aquela criancinha era o tesouro,
O imaculado encanto do seu lar.

Dadá o amava tanto que no mundo
Su’alma em cousa alguma achava brilho.
Nada alterava aquele amor profundo:
Só via o berço onde sonhava o filho.

Quanto cuidado e que afeição tão santa!
A areia onde brincando ele corria,
Se ela pudesse (ah! se não fosse tanta!)
Mesmo dentro do seio a guardaria.

Desejava que a terra fosse um ninho
Habitado por ela e os seus amores;
Queria mais que o buliçoso anjinho
Só visse o céu e só pisasse em flores.

Pois se ele era o sorriso de seus olhos
Desde que o esposo para o Além se fora!
Se era a luz que surgia entre os abrolhos
De su’alma tristonha e sofredora!

Sorrindo a mãe dizia olhando a terra
E o casto manto azul de lá do céu:
“Sois muito lindo, mas nenhum encerra
Jóia mais linda do que o filho meu.”

E tinha bem razão. O seu Laurinho,
Aquela criatura tão franzina,
Guardava lírios brancos no rostinho
E uma rosa na boca pequenina.

Não consentia que ele um só minuto
Dos cuidados maternos se afastasse:
Era um contraste a sombra de seu luto
Na alvura virginal d’aquela face!

E se às vezes a garrula criança
Disparava a correr jardim a fora.
Dadá pensava que sua esperança
Ia fugindo ou que morria a aurora...

Então cismava cheia de receio,
Como se o seu filhinho mais não visse:
E se alcançava, comprimia-o ao seio,
Temerosa que ainda lhe fugisse..

Se ele morresse, o que seria d’ela?
Dadá cuidava às vezes tristemente -
Se essa criança era como a estrela
Que guiava os Reis Magos no Oriente?

E entre esperanças e temores francos,
Lauro crescia cada vez mais lindo;
Quando falava, os seus dentinhos brancos
Lembravam à gente um bogari abrindo.


Um dia, ao acordar, Lauro queixou-se
De que o corpinho todo lhe doía.
A mãe cercou-o de um carinho doce:
O seu filhinho de que sofreria?

E ele chorava que fazia pena
Naquela alegre e límpida manhã,
Pálida a face como uma açucena,
E o róseo lábio a murmurar: “mamã”!

Dadá beijava aquela mão querida
E os pés e o rosto e o peito nu e a boca:
Queria ver se lhe incutia a vida
Naqueles beijos que lhe dava, louca!

O triste pobrezinho soluçava
Entre as carícias do materno afago;
E, em seus olhos, a morte esvoaçava
Bem como um corvo à tona azul de um lago.

Antes do sol pender sobre o horizonte
O querubim cessava de existir;
E alguém ainda lhe beijava a fronte:
Era Dadá a soluçar e a rir.

Estava louca. D’ora em diante, a vida,
Quem lhe traria ao ninho seu deserto?
Lauro morrera... Branca flor pendida
Caíra murcha num esquife aberto!

Ela bem vira quando carregavam
O meigo arcanjo dentro de um caixão...
Almas cruéis! Do seio lh’o arrancaram
E com ele também seu coração!

Há muitos anos que isto sucedeu,
Mas, entretanto, o que da morte a salva
É que Dadá, quando contempla o céu,
Diz que seu filho está na estrela d’Alva.