Horto (1910)/Loli

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Loli
por Auta de Sousa


À memória da pequena Loli, das Carícias

Formosa e pura como um lírio puro
Na sua alvura virginal de neve,
Loli, no esquife pequenino e leve,
Lá vai caminho do sepulcro escuro.

Vai vestidinha como a Virgem santa
Mãe de Jesus, o doce Nazareno:
Mortalha branca de um alvor que encanta,
Manto estrelado, cor do Azul sereno.

Pálida a face, faz lembrar tão linda
De um lírio murcho a palidez sem fim.
Como é bonito amortalhado assim
Um lírio branco desabrochando ainda!

O caixãozinho tem a cor divina
Do mundo imenso, onde Jesus habita,
E o frio corpo da gentil menina
Repousa n’ele entre jasmins e fita.

Seu cabelito, perfumado e louro,
Cobriram todos de cheirosas flores...
Traz-nos à mente, sepultado em dores,
Um encantado e virginal tesouro.

Todos soluçam, meigos, contemplando
O esquife santo que caminha ali.
Beijos saudosos em formoso bando
Voam, gemendo, a procurar Loli.

Ó criancinha, ó pequenina aurora!
Descerra as folhas, açucena amiga!
Rosa adorada que o tufão desliga
Da haste mimosa, quem te beija agora?

Mas já não ouve, o pobre sonho morto...
Tão longe o esquife! ninguém mais o alcança...
Barco celeste, vai levando ao porto
O corpo amado d’esta flor criança.

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E branca, e branca como um lírio puro,
Na sua alvura virginal de neve,
Loli, no esquife pequenino e leve,
Lá foi caminho do sepulcro escuro.

Jardim - 1897.