Horto (1910)/Prefacio da Iª edição

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Horto por Olavo Bilac
Prefacio da Iª edição
PREFACIO DA 1ª EDIÇÃO
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Encontrar entre os livros de versos (tantos, Santo Deus!) que por ahi se publicam, um livro como este, de uma tão simples e ingenua sinceridade, é coisa que sorprende e encanta. Não ha nas estrofes do Horto o labor pertinaz de um artista, transformando as suas idéas, as suas torturas, as suas esperanças, os seus desenganos em pequeninas joias: certo, a poetisa Auta de Souza não poderia dizer como o Orfèvre de Heredia:

“Mieux qu’aucun maitre inscrit au livre de maitrise,
Qu’il ait nom Ruiz, Arphée, Ximenez Bécerril,
J’ai serti le rubis, la perle et le béryl,
Tordu l’anse d’un vase, et martelé sa frise...”

Aqui a alma vibra em liberdade, sem a preoccupação dos affeites da Forma, livre da complicada teia do artificio. Ingenuamente, commovida e meiga, essa alma de mulher vae traduzindo em versos os mundos de sensações, agora ardentes, agora tristes, que o espectaculo da vida lhe vae suggerindo. A’s vezes, é um aspecto da Natureza:

Findava o mez de maio envolto em preces
O doce mez das Orações formosas...
Iam com ele as encantadas mésses
Dos perfumes, dos sonhos e das rosas...”

Outras vezes é uma recordação da infancia:

Um dia... (eu era menina)
Trouxeram-me um passarinho:
Era uma ave pequenina,
Roubada ao calor do ninho...”

Mais adiante um encontro fortuito, que desperta um pensamento adormecido:

Ella passou por mim toda de preto,
Pela mão conduzindo uma creança...
E eu cuidei ver ali uma esperança
E uma saudade em pallido dueto.

· · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·

Tambem na vida o goso e a desventura
Caminham sempre unidos, de maõs dadas,
E o berço ás vezes leva á sepultura...”

· · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·

Depois um desfallecimento moral, uma hora de duvida, em que a alma pergunta:

Onde fica, Senhor, a terra a que nos levas,
Com as mãos postas no seio e os dois olhos sem luz!”

Mas a nota mais encantadora do livro é a do mysticismo que dá a algumas das suas poesias o amplo e solemne recolhimento de uma nave de templo, resoante da grave harmonia dos orgãos, com balbucios de preces entre suaves espiraes de incenso.

Vejam-se as quadras De joelhos:

“Ajoelhada, ó minh’alma, abraçando o madeiro,
Em que morreu Jesus, o teu celeste amigo!
A seus pés acharás o pouso derradeiro,
O derradeiro amparo, o derradeiro abrigo!

Ajoelha e soluça, implorando a alegria
Que a saudade sem fim do coração te arranca,
E a graça de viver, como a Virgem Maria,
Eternamente pura, eternamente branca...”

E, mais adeante, em Regina cœli:

“Teu nome santo, o’ Maria!
Tem a doçura innocente
De uma caricia macia,
De uma cuimera dolente...

Do céo teu nome nos desce,
N’uma harmonia divina,
Como um cicio de prece
Nos labios de uma menina...”

E, ainda:

Amado Senhor,
Meu doce Jesus,
Que morres de amor,
Suspenso da Cruz!

· · · · · · · · · · · ·

Tu és meu, amigo
Meu sol, minha luz!
Reparte commigo
O peso da Cruz!”

Mas... não convém privar o leitor das sorpresas que encontrará, de pagina em pagina, neste formoso volume, que vem revelar uma poetisa de raro merecimento. Horto será, para os que amam a linguagem divina do verso, um desses raros livros que se leem e releem com um encanto crescente.

Rio. Outubro 99.

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