Horto (1910)/Soledade

Wikisource, a biblioteca livre
< Horto (1910)
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Soledade
por Auta de Sousa
Poema publicado em Horto (1910).


Ó doce morenita
De olhar magoado e triste,
Onde a Saudade existe
E o Desconsolo habita...

Faz pena ver-te assim
À hora do sol posto,
Anuviado o rosto,
Ó meigo serafim!

Às vezes penso e cismo
No que te faz sofrer.
E sinto que o meu ser
Quer desvendar um abismo.

Por que soluça tanto
Um coração de pomba,
Se a noite amena tomba
Cheia de paz e encanto?

Por que teu cílio treme
Interrogando a lua?
Que grande dor é a tua?
Por que teu seio geme?

Acaso esta saudade
Que o teu olhar encerra
Será porque na terra
Chamam-te Soledade?

Será? Mas que lembrança
Foi essa, meu jasmim,
De dar um nome assim
A um’alma que é um sonho.

A um’alma que é um sonho
Mais branco do que um véu,
Caído lá do céu
Neste paul medonho!