Impondo duração além das eras

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(Impondo duração além das eras)
por Desconhecido
Poema agrupado posteriormente e publicado em Poesias eroticas, burlescas e satyricas .

Impondo duração além das eras
Numen te eriges, fanfarrão Bocage,
Envesgando raivoso o vasto mundo
Ante o teu throno serpeando a medo.
Usurpador de louros soberanos.
Ah! não aviltes o Apollineo solio
Em que é dado reinar a augusto vate.
Que equilibrando na invenção madura
Potente phrase, se abalança aos astros,
Até c′os deuses praticar soberbo.
Os titulos sagrados me apresenta,
Com que alardeas profanando Apollo:

Esse idyllio, que tens em gran portento,
Pensas te salva da vorage eterna?
Falle o Tritão, que tu fizeste amphibio,
Pondo-o na terra, namorando a nympha.
Sonetos, glosas lhe attrahis louvores,
Cheios de vento, que empanturra o Paula;
Pècco epigramma, que afugenta o riso,
Fabulas tuas, traducções franjadas;
Essas cantatas de Parny são roubos,
Em que sedento de invenção campéas.
Mas, Tantalo phebêo, em vão cobiças
Á custa alheia eternisar teu nome.
Busco debalde acção nas obras tuas,
Que o Tesejado fim demande altiva;
És emprestado vate: Italia o diga,
Falle a Gallia tambem, d′onde saquêas
Sem ter pejo os relampagos de gloria.
Tentas medir-te c′o soberbo Ovidio.
Na apoquentada epigraphe acoutado
D′essa sem par metamorphose eterna,
Aonde o triste pensamento enjòa.
Pela enfadonha somnolenta phrase!
Nas satyras não fallo venenosas,
Em que impera a calumnia, socia tua.
Ou te divertes com tremendas caras.
Com trombas, que se vão sumindo em lenços.
Ou proferindo, como sempre, á tòa
Mais outros chochos palavrões ensossos,
Com que ha pouco louvaste o Ersaunio vêrme.
Porque fallar só d′elle é dar-lhe a vida.

Tu lhe mandas sequer desprenda um verso,
Um pensamento eu só te peço ao menos,
Que nas azas do metro e sentimento
Não toque ouvidos só, como os teus versos,
Mas subito alvorote o peito arfando;
Echo de auctores, pequenino Elmano,
Sonoroso, monótono, apoucado.
Que não sabes tirar pulsando a lyra
Sem, que arremede a voz da natureza
Hyperbolico auctor desesperado
D′oucas repetições as obras matas,
Coalhas a podre, insupportavel massa,
Metrico impulso te flammeja a mente;
Mas olha inda o declive em que és por ora
De remontar á brilhadora esphera!
Para colher do Pindo egregio louro
Não basta deslizar canoro accento,
Soltando de improviso o dique ás vozes.

Mas debalde minha alma se afadiga,
Que os meus consellios só te valem risos;
Porém desabafei, mostrei-te aos pangas.
Que embasbacados te lauream nume,
Qual o pastrano camponez papalvo,
Pasma, encarando da cidade os nadas.