Invenção dos Aeróstatos Reivindicada/Capítulo 2

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II
Cartas relativas á machina volante e ao seu inventor

Affirma o sr. Ferdinand Denis em a Nouvelle Biographie Générale[1] que Bartholomeu Lourenço de Gusmão fora muito auxiliado em seus projectos de navegação aerea por Isabel de Brunswick-Blankenbourg, esposa de Carlos VI e mãe de Maria Thereza : que a uma carta d'aquella princeza devêra o padre Gusmão favor que D. João V lhe dispensara : que nos archivos de Brunswick se conserva a correspondencia que teve com sua real protectora : que se a guerra de successão não tivesse desviado Isabel de Brunswick para a Allemanha, onde subiu ao throno imperial, teria sem duvida Bartholomeu Lourenço proseguido em suas experiencias ; e finalmente que a rainha affirma na mencionada correspondencia que a barca volante se elevara triumphantemente nos ares.

Desejando ter esclarecimentos ácêrca d'esta correspondencia, a qual segundo a opinião do auctorisado escriptor que em França mais se ha dedicado ao estudo da litteratura portugueza, poderia lançar nova e grande luz sobre as tentativas de Bartholomeu Lourenço, dirigimo-nos ao sr. Jorge Cesar de Figaniere, que tomou o pedido em maior consideração do que nós mereciamos, porem como era de esperar do seu acrisolado amor ás lettras patrias e dos esforços que poz sempre em as servir e illustrar.

Por via do sr. Guilherme Street d'Arriaga e Cunha, Encarregado de Negocios de Portugal em Berlim, obteve-nos o sr. Figaniere a seguinte informação do antigo Ministro do Brunswick n'aquella côrte, cavalheiro que por suas luzes e por estar residindo no proprio logar em que se conserva a correspondencia, temos por mui competente e fidedigno para apurar a verdade em materia tão escura e duvidosa.


«La princesse Elisabeth Christine fille du duc Louis Rodolph de Brunswick et de la duchesse Christine Louise d'Oettingen, née le 28 aôut 1691, épousa le 23 avril 1708 le roi Charles VII d'Espagne, frére cadet de l'empereur Joseph I. Elle résidait á Barcelone jusqu'au printemps 1713, où elle suivit son epoux, aprés la mort de son frére ainé (1711) empereur Charles VI, á Vienne, ou elle mourut le 21 décembre 1750. Elle est mére de l'imperatrice Marie Thérèse.

«La correspondence que cette princesse distinguée, autant par son esprit que par sa beauté, aurait eu avec le pére Bartholomeu Lourenço de Gusmão, portugais, au sujet d'une machine aeronautique, inventée par lui, daterait probablement du temps de son sejour en Espagne (1708 á 1713).

«A Brunswick, où la princesse, aprés son mariage, n'est jamais revenue, il ne s'en trouve rien dans les archives. Tout ce qu'en fouillant les papiers de ce temps j'ai pu trouver a cet égard, est une lettre de la ditte princesse, adressée a sa mere, sous la date de Barcelone 2 juillet 1709, qui indique que dans ce temps la susdite machine á vol a fait sensation, et qu'on en avait parlé á la princesse. Celleci disait a sa mere :


«Je me souhaiterais seulement un seul jour aupres de votre altesse. Que j'aurais de choses á dire ! La reine de Portugal m'a fait faire la proposition de venir la trouver, sitôt navire volant sera fait, étant a Lisbonne un homme qui vante d'en pouvoir faire qui passe par l'air. Si cette invention réussit, je viendrais toutes les semaines un jour trouver vetre altesse. Ce serait un charmant voyage pour moi, mais je doute fort qu'il reussira dans son entreprise.»[2]


Reduzir-se-ha a esta carta unica toda a correspondencia mencionada pelo sr. Ferdinand Denis? É o que nos parece mais provavel, com quanto o illustrado ministro do Brunswick admitta como possivel que ella exista em Hespanha. Do extracto da carta que deixamos transcripto claramente se deprehende que a princeza não tinha conhecimento do padre Gusmão, senão pelo convite que lhe fizera a rainha de Portugal. Advirta-se tambem que o sr. Ferdinand Denis declara mui expressamente que se conserva a correspondencia no archivo do Brunswick, onde, conforme o testimunho insuspeito que obtivemos, não ha senão a carta de 2 de julho. É possivel que este documento fosse visto por pessoa que desse informações inexactas, que fizessem logar ás asserções do sr. Ferdinand Denis. Sendo assim, a correspondencia, de que tanto se poderia esperar, não servirá, como já dissemos, senão de provar o interesse que á côrte de D. João V mereciam as tentativas de Bartholomeu Lourenço de. Gusmão.

E pouco anterior a seguinte carta:


Meu Senhor....A maior novidade que se offerece n'esta côrte, é a que lhe constará a V. S.a da petição inclusa (segue-se o requerimento do Padre Bartholomeu): está concedida a licença, pagos os direitos, passada a provisão pela Chancellaria, e se trabalha na machina. E V. S.a me terá sempre prompto....Deus Guarde a V. S.a muitos annos. Lisboa 22 de Abril de 1709.


Esta carta, sem nome da pessoa que a escreveu nem d'aquella a quem foi dirigida, encontrou-a Francisco Freire de Carvalho entre os documentos manuscriptos de uma collecção intitulada: Papeis originaes d'este tempo (primeiros annos do reinado de D. João V) que existem no cartorio do sr. Manuel Coelho de Lima, dignissimo official de secretaria[3].

D'aqui se deprehende e tambem da nota accrescentada á copia da petição que existe na Bibliotheca da Universidade de Coimbra [4] que Bartholomeu Lourenço irabalhava na machina no tempo em que requereu o privilegio.

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  1. «Nouvelle Biographie Génèrale depuis les temps les plus reculés jusqu'á nos jours etc. Tom. 22.° Paris 1858. De pag. 856 a 860.
  2. O illustrado informador do Brunswick á sua primeira communicação accrescentou a seguinte que egualmente devemos ao favor do sr. Figaniere. «La lettre de la princesse de Brunswick datée de Barcelone le 2.me juillet 1709, contenant la petite notice sur l'invention du P. Lorenzo de Gusmão, que j'avais le plaisir de vous communiquer en extrait, «est originairement écrite en français». Elle est trés longue ; pleine des épanchements de l'amour filial de la jeune reine envers sa mère et des regrets de leur separation. C'est en se plaignant de la longue distance des lieux que les séparaient qu'elle est amenée au désir de voir se réaliser, a son profit, ce projet de machine volante, dont la reine de Portugal lui avait parlé dans une de ses lettres.»
  3. Memoria citada, pag. 139 e 140.
  4. Veja-se esta nota a pag. 20