Iracema/III

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Iracema por José de Alencar
Capítulo III
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Áudio do prólogo ao capítulo V.


III

O estrangeiro seguio a virgem ao travez da floresta.

Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, e a rola desatava do fundo da mata os primeiros arrulhos, elles descobrirão no valle a grande taba; e mais longe, pendurada no rochedo, á sombra dos altos josseiros, a cabana do Pagé.

O ancião fumava á porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os sagrados ritos de Tupan. O tenne sopro da brisa carmeava, como frocos de algodão, os compridos e raros cabellos brancos. De immovel que estava, sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas.

O Pagé lobrigou os dois vultos que avançavão; cuidou ver a sombra de uma árvore solitaria que vinha alongando-se pelo valle fora.

Quando os viajantes entrarão na densa penumbra do bosque, então seu olhar como o do tygre, afeito ás trevas, conheceo Iracema, e vio que a seguia um jovem guerreiro, de estranha raça e longes terras.

As tribus tabajaras, d'alem Ibiapaba, fallavão de uma nova raça de guerreiros, alvos como flores de borrasca, e vindos de remota plaga ás margens do Mearim. O ancião pensou que fosse um guerreiro semelhante, aquele que pisava os campos nativos.

Tranqüilo, esperou.

A virgem aponta para o estrangeiro e diz:

— Elle veio, pai.

— Veio bem. E' Tupan que traz o hospede a cabana de Araken.

Assim disendo, o Pagé passou o caximbo ao estrangeiro; e entrarão ambos na cabana.

O mancebo sentou-se na rede principal, suspensa no centro da habitação.

Iracema, accendeo o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe o resto da caça, a farinha d'agua, os frutos silvestres, os favos de mel e o vinho de cajú e ananaz.

Depois a virgem entrou com a igaçaba, que na fonte proxima enchera de agua fresca para lavar o rosto e as mãos do estrangeiro.

Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho Pagé apagou o cachimbo e falou:

— Vieste?

— Vim: respondeo o desconhecido.

— Bem vieste. O estrangeiro é senhor na cabana de Araken. Os tabajaras tem mil guerreiros para deffende-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos te obedecerão.

— Pagé, eu te agradeço o agasalho que me deste. Logo que o sol nascer deixarei tua cabana e teos campos aonde vim perdido; mas não devo deixa-los sem diser-te quem é o guerreiro, que fiseste amigo.

— Foi a Tupan que o Pagé servio: elle te trouxe, elle te levará. Araken nada fez pelo seu hospede; não pergunta de onde vem, e quando vai. Si queres dormir, desção sobre ti os sonhos alegres: si queres falar, teo hospede escuta.

O estrangeiro disse:

— Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do Jaguaribe, perto do mar, onde habitão os Pytiguaras, ennemigos de tua nação. Meo nome é Martim que na tua língua quer dizer filho de guerreiro; meu sangue, o do grande povo que primeiro vio as terras de tua patria. Ja meos destroçados companheiros voltarão por mar as margens do Parahiba, de onde vierão: e o chefe, desamparado dos seos, atravessa agora os vastos sertões do Apody. Só eu de tantos fiquei, porque estava entre os Pytiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poty, irmão de Jacaúna, que plantou comigo a arvore da amisade. Há tres soes partimos para a caça; e perdido dos meos vim aos campos dos Tabajaras.

— Foi algum máo espirito da floresta que cegou o guerreiro branco no escuro da mata: respondei o ancião.

A cauãm piou, alem, na extrema do valle. Cahia a noite.

Notas[editar]

Pap. 9.—Ibyapaba.—Grande serra que se prolonga ao norte da provincia e a extrema com Piauhy. Significa terra aparada. O Dr. Martius em seu glossario lhe atribue outra athmologia. Iby-terra—e pabe—;tudo. A primeira porém tem a authoridade de Vieira.



Pag. 10Igaçaba—de ig—agua e a desinencia çaba—cousa propria.

II.—Vieste.—A saudação usual da hospitalidade era esta.—Ere ioubê—tu vieste? — Pa-aiotu, vim, sim. Auge-be, bem dito. Veja-se Lery, pag. 286.


Pag. 11.—I.Jaguaribe—maior rio da provincia; tirou o nome da quantidade de onças que povoavão suas margens. Jaguar—onça—iba—desinencia para exprimir copia, abundancia.

II. Martim.—Da origem latina de seu nome, procedente de Marte, deduz o estrangeiro a significação que lhe dá.

III. Pytiguaras.—Grande nação de indios que habitava o litoral da provincia e estendia-se desde o Parnayba até o Rio Grande do Norte. A orthographia do nome anda mui viciada nas differentes versões, pelo que se tornou dificil conhecer a ethmologia.

Iby significava terra; iby-tira veio a significar serra, ou terra alta. Aos valles chamavão os indigenas iby-tira-cua—cintura das montanhas. A desinência jara senhor, acrescentada, formou a palavra Ibyticuara, que por corrução deu Pytiguara—senhores dos valles.

IV.Máo espirito da floresta. Os indigenas chamavão á esses espiritos caa-pora habitantes da mata, donde por corrupção veio a palavra caipora, introduzida na lingua portugueza em sentido figurado.