Iracema/IV

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Iracema por José de Alencar
Capítulo IV
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Áudio do prólogo ao capítulo V.


IV

O Pagé vibrou o maracá, e sahio da cabana, porem o estrangeiro não ficou só.

Iracema voltara com as mulheres chamadas para servir o hospede de Araken, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe.

— Guerreiro branco, disse a virgem, o praser embale tua rede durante a noite; e o sol traga luz a teus olhos, alegria á tua alma.

E assim disendo Iracema tinha o labio tremulo, e humida a palpebra.

— Tu me deixas? perguntou Martim.

— As mais bellas mulheres da grande taba, comtigo ficão.

— Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á cabana do Pajé.

— Estrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. E' ela que guarda o segredo da jurema e o misterio do sonho. Sua mão fabrica para o Pagé a bebida de Tupan.

O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.

A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a dansa em trono a rude cadencia. O Pagé inspirado condusia o sagrado tripudio e disia ao povo crente os segredos de Tupan.

O maior chefe da nação Tabajara, Irapuam, descera do alto da serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão contra o ennemigo Pytiguara. Os guerreiros do vale festejão a vinda do chefe, e o próximo combate.

O mancebo christão vio longe o clarão da festa; passou alem, e olhou o ceo azul sem nuvens. A estrella morta que então brilhava sobre a cupula da floresta, guiou seo passo firme para as frescas margens do Acaraú.

Quando ele transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de Iracema surgio. A virgem seguira o estrangeiro como a brisa subtil que resvalla sem murmurejar por entre a ramagem. — Porque, disse ella, o estrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos Tabajaras?

O christão sentiu quanto era justa a queixa; e achou-se ingrato.

— Ninguém fez mal ao teo hospede, filha de Araken. Era o desejo de ver seus amigos que o afastava dos campos dos tabajaras. Não levava o presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema.

— Si a lembrança de Iracema estivesse n'alma do estrangeiro, ella não o deixaria partir. O vento não leva a areia da varzea, quando a areia bebe a agua da chuva.

A virgem suspirou:

— Guerreiro branco, espera que Cauby volte da caça. O irmão de Iracema tem o ouvido subtil que pressente a boicininga entre os rumores da matta; e olhar do oitibó que vê melhor na treva. Elle te guiará ás margens do rio das garças.

— Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta na cabana de Araken? — O sol, que vai nascer, tornará com o guerreiro Cauby aos campos do Ipú.

— Teo hospede espera, filha de Araken; mas si o sol tornando, não trouxer o irmão de Iracema, elle levará o guerreiro branco á taba dos Pytiguaras

Martim voltou à cabana do Pagé.

A alva rede que Iracema perfumara com a resina do beijoim guardava-lhe um somno calmo e doce. O christão adormeceo ouvindo suspirar, entre os murmurios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana.

Notas[editar]

Pag. 12.—As mais belas mulheres.—Este costume da hospitalidade americana é attestado pelos chronistas. A elle se attribue o bello rasgo de virtude de Anchieta, que para fortalecer a sua castidade, compunha nas praias de Iperoig o poema da Virgindade de Maria, cujos versos escrevia nas areias humidas, para melhor os polir.



Pag. 13.—Jurema.—Arvore mean, de folhagem espessa; dá um fructo excessivamente amargo, de cheiro acre, do qual juntamente com as folhas e outros ingredientes preparavão os selvagens uma bebida, que tinha o effeito do hatchis, de produzir sonhos tão vivos e intensos, que a pessoa fruia nelles melhor do que na realidade. A fabricação desse licor era um segredo, explorado pelos Pagés, em proveito de sua influencia. Jurema é composto de ju—espinho e rema cheiro desagradavel.

II. Irapuam—de ira-mel e apuam redondo: é o nome dado á uma abelha virulenta e brava, por causa da forma redonda de sua calmea. Por corrupção reduzio-se esse nome actualmente á arapuá. O guerreiro de que se trata aqui é o célebre Mel-Redondo, assim chamado pelos chronistas do tempo que traduzirão seu nome ao pé da lettra. Mel-Redondo chefe dos Tabajaras da serra de Ibyapaba foi encarniçado inemigo dos Portuguezes, e amigo dos Francezes.

III. Acaraú.— O nome do rio é Acaracú— de acará garça—co—buraco, toca, ninho e y—som dubio entre i e u, que os portuguezes, ora exprimião de um, ora de outro modo, significando agua. Rio do ninho das garças é, pois, a traducção de Acaracú; e rio das garças a de Acaraú. Usou-se aqui da liberdade horaciana para evitar em uma obra litteraria, obra de gosto e artistica, um som aspero e ingrato. De resto quem sabe si o nome primitivo não foi realmente Acaraú, que se alterou como tantos outros, pela introdução da consoante?

IV. Estrella morta.—A estrella polar por causa de sua mimobilidade; orientavão-se por ella os selvagens durante a noite.