Lourenço (Franklin Távora)/III

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Lourenço por Franklin Távora
Capítulo III


Marcelina e Lourenço, depois do incêndio praticado pelo bando de Luís Soares na casa que Francisco fizera à beira da estrada, no Cajueiro, lugarejo distante de Goiana uma légua, atualmente muito estendido, moravam em uma palhoça, obra de vinte braças para dentro na mesma direção da casa queimada. Fora fácil ao rapaz e à sua mãe de criação, mulher afeita ao trabalho do campo, tão resoluta como Francisco, seu marido, reconstruírem a antiga habitação; mas, estando os tempos muito contrários, e receando a cada momento as hostilidades movidas pelos parciais dos mercadores, pareceu-lhe melhor espaçar a reconstrução para depois, contentando-se com levantarem a ligeira palhoça onde se recolheram, e cuja perda lhes seria de pouco tomo, se houvessem de passar por este novo prejuízo.

A palhoça fôra de propósito feita entre umas árvores grandes e ramalhudas, muito juntas e entrelaçadas, que quase a encobriam do lado da estrada. Do lado oposto, porém, dava ela em um como descampado que se interpunha entre aquelas árvores e a renque de dendezeiros e cajueiros que circulava a lagoa, onde certa manhã Francisco surpreendera Marcelina a cortar juncos para fazer esteiras.

Logo que constou em Goiana o levantamento do cerco, Marcelina mandou Lourenço tomar o caminho do Recife.

— Não percas nem um dia, sequer; prepara o cavalo e corre a buscar Francisco. Ele já há de estar no Recife, ou na cidade; e quem sabe se não espera por condução para voltar? Quantas saudades tenho do meu marido!

E irresistivelmente as lágrimas de um amor sinceramente comovido começaram a bailar nos olhos da cabocla.

Marcelina tinha razão: havia alguns meses que Francisco estava ausente. Caindo na graça do ajudante de tenente, pelos bons serviços que, com lealdade e discrição admiráveis, lhe prestara desde que com ele se encontrara ao sair de Itamaracá, até a completa vitória, no dia 23 de agosto do ano precedente, Francisco, a quem Gil Ribeiro fizera grandes vantagens e prometera outras maiores, o tinha acompanhado ao sul, e se comprometera a não o deixar senão quando acabasse a guerra.

— Se hei de andar almocrevando com risco de me tomarem o meu cavalo e fazerem o diabo comigo - dissera o matuto por ocasião de discorrer com sua mulher sobre a proposta do ajudante de tenente - melhor é que me acoste a seu ajudante, e vá ganhar meu dinheiro prestando serviços à nobreza. Esta guerra não pode durar muito, porque os pés de chumbo estão encurralados. Portanto, no fim de dois meses já estarei de volta com gimbo bastante para encher o nosso mealheiro.

Para fazer a proposta ao matuto, muito influíra em Gil, além das razões referidas, o conhecimento que tinha aquele de toda a região das matas, desde Goiana até Jaboatão. De sorte que Francisco era ao mesmo tempo confidente e guia do ajudante de tenente.

Francisco, porém, enganara-se, e Marcelina, a quem ao princípio se afigurara, pelo interesse esperado, poder arrostar a ausência, nos últimos tempos sentia-se ralada de saudades e todo dia fazia novas promessas aos santos da sua devoção para que permitissem que seu marido voltasse logo.

Recebendo a ordem de sua mãe, Lourenço não gastou mais tempo no Cajueiro que o necessário ao arranjo da jornada. No outro dia bem cedo já estava em caminho.

A vida de Lourenço entrava em nova fase depois do que se tinha passado no memorável 23 de agosto de 1711.

Com o cerco do Recife, os produtos das pequenas lavouras começaram a escassear, e consequentemente a encarecer. Todos os lavradores da zona das matas, que circula o Recife, tinham acudido ao chamado do governo a fim de pegar em armas, arrastando consigo os matutos e escravos que cultivavam suas terras. Por isso, aqueles que por qualquer circunstância especial não se acharam neste caso, e puderam prosseguir o seu trabalho do campo, depressa começaram a vender por bom dinheiro as sementes e cereais que levavam ao Recife. Compravam-lhes os capitães-mores esses produtos por ordem do governo para manter as gentes que sustentavam os presídios. E além de lhes comprarem a mercadoria, consideravam grande favor o apresentarem-se com ela, porque, sem este recurso, sustentar o cerco lhes seria impossível.

Marcelina, que tinha o instinto mercantil mais desenvolvido, entreviu os grandes resultados que deveria tirar das circunstâncias. Infelizmente, não podia encher a medida dos seus desejos, porque, além de Francisco não plantar senão quanto era necessário ao sustento da família (nem dispunha de meios para mais, ainda que o quisesse), o ajudante de tenente o levara para a capital, como dissemos. À vista de tão favoráveis promessas, o matuto não achava argumentos com que se esquivar. Demais, Lourenço estava já um homem, e ficava com Marcelina, a quem defenderia nas horas de perigo. O matuto, conhecendo os ânimos do rapaz, e não havendo motivo de perder os proveitos, disse adeus ao Cajueiro, e partiu, o que não lhe custou pouco. Sempre que se separava da mulher, da casa, do seu mundo, sentia uma como mutilação da alma.

Marcelina, porém, não perdia por falta de quem a dirigisse, porque trazia em si o melhor senso administrativo e comercial que ainda se conheceu em mulher. Terras no engenho Bujari não lhe faltavam; e quanto a braços, tratou de aproveitar os que pôde. Nem lhe foi preciso ir muito longe, para preencher esse fim. Com a morte de Vitorino, por ocasião do assalto contra o engenho e da destruição da casa, ficariam Joaquina e Marianinha ao desamparo, se Marcelina as não chamasse para sua companhia. Outra palhoça foi feita nas proximidades da de Francisco, a aí vieram morar a mãe e a filha do morto. Marcelina disse-lhes o seu pensamento, e como eram mulheres do campo, longe de se oporem, mostraram-se deliberadas a trabalhar com vontade. Dentro de algumas semanas, lavouras graciosas cobriam uma vasta quadra de terra até aonde a vista podia alcançar. E porque tão cedo não estivesse em estado de colher-se, Lourenço, que instruído e educado na escola de Marcelina, não tinha ânimo para ver perdida tão boa ocasião de ganhar com que comprar uma engenhoca, adotou, por conselho da cabocla, outro meio de interesse. Muitos plantadores careciam de coragem para ir ao Recife vender os seus produtos; levavam-nos então a Goiana, onde os deixavam por baixo preço. Ao princípio com algumas economias de sua mãe, e depois já com lucros das primeiras vendas, Lourenço comprava o que ninguém queria mais nas feiras; e depois, conduzia os gêneros comprados para Olinda e Recife, e aí os revendia com grandes lucros. Esse lucros já chegavam para fazer aquisição de terras onde levantar uma engenhoca, e Lourenço tinha de olho uma meia légua de massapé que do outro lado das em que morava, estavam em capoeira, e pertencia a um sujeito que andava oferecendo por falta de braços que a cultivassem.

Não custou muito a Lourenço encontrar-se com Francisco no Recife; mas a sorte parecia querer caprichosamente prolongar a ausência do matuto, e as saudades de Marcelina. Apenas o primeiro viu o segundo, correu para ele e atirou-se em seus braços.

— Tu por aqui, Lourenço? E que novas me dás de Marcelina? Fala, fala logo, filho de minha alma.

— Deixei-a boa, Deus louvado. Foi ela que me mandou buscar vosmecê. E vosmecê ainda está de farda?

— E estarei por meus pecados. Nem tu sabes o que acaba de acontecer. Quando eu já me supunha livre e tratava de arrumar a minha trouxa, sabes o que havia de suceder? Oh! Estes mascates só queimados! Diabos os levem, os malditos.

— Que foi que sucedeu?

— Recebi ordem para continuar a servir el-rei. Maldita foi a hora em que disse a seu ajudante que vinha com ele.

— Que está dizendo, meu pai? Pois vosmecê que até poucos dias serviu aos nobres, vai agora servir aos mascates?

— É verdade, meu filho. Fizeram-me esta os endemoninhados. Mas isto não é o melhor; Queres saber o resto? Por ordem do governador, foram tomadas todas as presas que seu ajudante tinha feito em Itamaracá. Tu sabes que eu devia ter parte nelas, mas, agora, fico em branco.

— Que está dizendo?

— Lá se vão as nove sumacas e tudo o mais pela água abaixo - bois, cavalos, jóias, dinheiro; tudo vai entregar-se ao governador. Eu nas sumacas não tinha parte, porque seu ajudante as tomou em Itamaracá antes de ir para Goiana; mas no restante devia ter meu quinhão, e não era usura, não senhor. Olha, Lourenço, eu estou falando com o coração nas mãos. No ataque do engenho Garapu, em Ipojuca, atirei-me às trincheiras inimigas como doido. Recebi ali uma bala no ombro, que me deixou um rasgão no couro, que já está são e logo te mostrarei. Os inimigos desampararam as trincheiras, e nós daí fomos a Tamandaré, encontrando sempre gente contrária a fazer-nos fogo. Onde seu ajudante se achava, eu com ele. Nunca virei a cara à bala. Se não chega o novo governador, teríamos de contar nova vitória. Mas os tempos mudaram-se, e de Tamandaré partimos para aqui, onde tivemos a notícia desta boa paga. Seu ajudante está muito desgostoso. E pelo jeito das coisas, parece que vamos ter nova guerra dos fidalgos contra os mascates.

— Antes isso, meu pai, de que ficar vosmecê às ordens desta gente ruim, que queimou a nossa casa e levou a nossa criação.

— Eu já me lembrei de desertar. mas além de não ser isso bonito, onde iria me meter, que eles não pudessem dar comigo? Mas, se os nobres quiserem novamente pegar em armas, podes dizer que nem um momento estarei com os pés de chumbo.

Quando ainda nem tinham dito um ao outro o necessário, um soldado aproximou-se de Francisco e intimou-o a que voltasse imediatamente ao quartel, por ordem superior. Para encurtar razões, algumas horas depois Francisco saiu em destacamento volante que devia auxiliar o Camarão em importantes diligências contra certos nobres de Serinhaém.

Lourenço voltou ao Cajueiro verdadeiramente amargurado.

— Diabos levem a vida de soldado. E eu que já quis sentar praça! Deus me livre. Antes ser negro cativo.

Os dissabores de Marcelina foram maiores. Esperava o marido com o coração transbordando de alegrias, e em vez de consoladoras doçura, recebeu o fel da prolongação da ausência por tempo indefinido. Mas logo caiu naquele espírito privilegiado o bálsamo da resignação.

— Que hei de fazer, meu Deus! Tanta promessa pedida a Nossa Senhora do Rosário, a Santo Cristo dos Milagres, ao Bom Jesus dos Martírios. Os meus merecimentos não são nenhuns. Que hei de fazer?!

E voltou-se de corpo e alma ao trabalho, sua esperança, sua fé, sua consolação.

Uma tarde, já em 1712, chamou Lourenço e disse-lhe:

— Vamos aumentar o puxado, que já não tenho onde botar as esteiras novas que acabei. Estou vendo a hora que os ladrões vêem furtá-las do alpendre.

Sendo já quase sol posto. Lourenço, para não se expor e anoitecer dentro da mata, lembrou-se de aproveitar a madeira da casa queimada, que se estava perdendo ao tempo. Pegou de um ferro-de-cova e uma enxada, e encaminhou-se às ruínas. Por baixo de um grande entulho, formado pelo barro das paredes e por pedaços de estacas que a força do vento e das chamas havia atirado em uma só direção, apareciam as pontas de uns caibros que não alcançara o fogo.

Era talvez este o único entulho que não tinha sido bulido. Todo mais o espaço restante, ocupado pelos destroços, mostrava-se resolvido, e em alguns pontos viam-se até fundas covas, algumas das quais se converteram em barreiras onde as chuvas deixaram as águas estagnadas.

Lourenço meteu a enxada no barro com vontade e em pouco tempo ouviu um som cavo ecoar de sob as camadas que cobriam a madeira.

Com uma nova enxadada, um objeto estalou debaixo do instrumento. Lourenço meteu o ferro-de-cova nesse ponto, e forcejando no cabo, revirou parte dos caibros sotopostos. Ao mesmo tempo um embrulho passou por entre a terra solta, trazido na ponta do ferro. O rapaz corre presto a ver ao achado. Era como uma palma de luva de couro cobrindo um objeto brando e flexível. Com a ponta da faca que trazia ao cós, descoseu este envoltório misterioso, e o que lhe fica nas mãos, tirado o couro, é um papel dobrado em quatro faces.

— Que será isto, meu Deus? disse consigo o rapaz.

Abriu o papel e leu o seguinte:

"Dou a Lourenço, órfão que Francisco dos Prazeres e sua mulher Marcelina, moradores no Cajueiro, têm como filho em sua companhia, a casa e as terras que me deu o senhor do engenho Bujari, sargento-mor João da Cunha Cavalcanti, do outro lado da estrada onde têm a sua casa os ditos moradores.

Os limites das terras que ora vão ao referido órfão, estão lançados por escritura nas notas do tabelião Belchior da Fonseca e Silva.

Goiana, 22 de agosto de 1711

PADRE ANTÔNIO DO ESPÍRITO SANTO MARIZ

Estático, os olhos imóveis, as pernas trêmulas, Lourenço exclamou:

— Oh, meu Deus! Eu não sei o que é que estou lendo! Será certo que seu Padre Antônio me deu a sua casa e as suas terras? Mas, como veio isso parar aqui? E quem coseu o papel no couro? Ah! já entendo tudo. Foi minha mãe que guardou esta fortuna. Foi por isso que ela andou fazendo tantos buracos por aqui, e não cessava de procurar nestes entulhos uma coisa que nunca disse o que era. Achei, achei, minha mãe; está aqui, está aqui a minha fortuna, o meu dote. Deus lhe dê o pago, seu Padre. Deus lhe dê muitos aumentos por me ter feito esta esmola de tanto valor. Mas, onde estará seu Padre? Oh! Se eu pudesse vê-lo, abraçá-lo, beijar-lhe, de joelhos, a benfeitora mão... Meu Deus! Meu Deus! Será verdade que a casa que ali está me pertence? E foi "seu" Padre Antônio quem me fez este benefício?

Lágrimas de satisfação indizível acudiram aos olhos do rapaz.

Passado o primeiro momento desta comoção, ele, inclinando-se, examinou o lugar donde o ferro-de-cova tirara aquele tesouro, e pode descobrir uma caixinha onde Marcelina costumava guardar várias orações prodigiosas para a cura de maleita e outras doenças.

Quando Lourenço se ergueu, a fim de ler de novo o papel em que parecia não acreditar estivessem escritas tão agradáveis coisas, sentiu atrás de si rumor de passos.

— É minha mãe, disse consigo.

Voltando-se, viu um homem. Era João da Cunha.

— "Seu" sargento-mor, por aqui! emendou ele, ocultando instintivamente o papel na mão.

— Vai buscar o teu cavalo, para acompanhar-me. Temos de sair já. Não há tempo senão de tomares o cavalo.

— Minha mãe sabe para onde vamos?

— Sabe tudo; já me entendi com ela. Neste momento dirigiu-se a Bujari a fazer companhia à sra. D. Damiana. Não te demores, que já me parece ouvir o rumor surdo dos passos da tropa que vem em busca de mim.

— É já, "seu" sargento-mor.

Não tendo meios de guardar o papel em lugar seguro, ele o atou por dentro da camisa na cintura, envolto no mesmo couro que o tivera ileso debaixo da terra.

Antes de anoitecer tomaram a direção de Tracunhaém.

Ficava o famoso ponto de resistência, estabelecido e sustentado aí por Falcão d'Eça perto do rio que deu o nome à liga, cerca de um quarto de légua. Guarnecido de matos por todos os lados, só se podia ir ter ali por um caminho oculto que começava entre duas pedras quase unidas na beira do rio. Para tomar entrada entre essas duas pedras, era preciso seguir um bom pedaço rio acima, de verão com a água pela barriga, e de inverno a nado. Sem isto o ponto era inacessível, porque pelo lado de Tracunhaém os matos vinham morrer quase dentro das águas, entre talhados que não deixavam nenhum espaço à passagem nem de cabras; e pelos outros lados, árvores seculares, que dois homens não podiam abarcar, serviam de natural paliçada, impossível de romper. João da Cunha, que tinha todas as indicações necessárias para entrar no pouso, mandadas pelo próprio Falcão d'Eça, muito antes, chegou sem novidades ao coração do segredo.

Perto de cinqüenta fidalgos, tendo à sua frente Falcão d'Eça, arrostavam neste majestoso esconderijo todos os rigores da sorte adversa.