Lourenço (Franklin Távora)/IX

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Lourenço por Franklin Távora
Capítulo IX


Os braços de Bernardina, antes irresistível manifestação de estima e contentamento sem malícia, do que indício de paixão desonesta como se pode afigurar ao leitor menos entendido na singeleza dos costumes do campo, deixaram Lourenço num estado de excitação nervosa que não revelava a mesma simplicidade, nem o mesmo puro incentivo. De feito, Lourenço via as coisas por outro lado. Das duas filhas do finado Vitorino, fora sempre Bernardina a que, por muito saída, merecera a sua particular atenção. Demais, havendo tantos meses que não a via, o vulto da sedutora rapariga teve para ele, com o tom misterioso que lhe davam as condições da atualidade, o encanto das visões inesperadas, frescas e gentis, dessas que matizam os sonhos apaixonados da juventude. Bernardina, na fantasia estreita de Lourenço, limitada aos horizontes dos bosques, dos rios, dos engenhos, das ásperas jornadas e dos sambas rudes, surgira como a estrela boeira nas madrugadas de verão. A rapariga iluminara-se com o fogo dos dezoito anos, cujo reflexo revelava nos olhos o calor da alma. Não obstante a vida, não raro orvalhada de lágrimas, que ela arrastava na solidão agreste da sua desgraça, tinha o seu corpo ganhado formas esbeltas, as suas feições distinta vivacidade. Ao clarão da fogueira, vira ele nesse vulto de natural elegância o quer que fosse que lhe descobriu novos mundos até então perdidos na vacuidade do seu espírito mais positivo que sonhador.

Depois que Joaquina fora morar junto de Marcelina, e para assim dizer à sua sombra, quase todos os dias ofereciam-se ensejos de Lourenço conversar a sós com Marianinha, impressionar-se da sua beleza fresca e rósea, e comover-se da brandura do seu natural. Muitas provas de estimação dava-lhe a filha mais nova de Joaquina e ele, se bem que não se havia entregado inteiramente a este amor, porque a juventude raras vezes se deixa cativar das paixões modestas, da ternura passada ainda que pura e imensa, sentia já por Marianinha doce afeição, que começava a encher-lhe o coração como o aroma do manacá silvestre povoa as abóbadas formadas pelas ingazeiras nas margens dos rios.

Ainda na manhã daquele dia, depois da cena de dor e prantos a que assistiu na sala do engenho, quando Lourenço desceu à cavalariça, seguiu atrás dele Marianinha trazendo os olhos arrasados de lágrimas; era a dor da separação que lhe arrancava aos sentimentos aquela triste homenagem.

"— Lourenço, Lourenço - perguntara ela - você se esquecerá de mim?"

"— Não me esqueço, não, Marianinha. Olhe, quando não esperar por mim, há de ver-me bem juntinho de você, de todos de casa."

"— Eu não deixarei nunca de esperar por você; esperarei sempre, de dia e de noite, a todo momento. Não se ocupa com ninguém, senão com você, a minha lembrança, a minha imaginação."

Quando o rapaz estava para tomar o cavalo, Marianinha aproximou-se, cada vez mais comovida.

"— Tome esta oração. Ela serve para você se lembrar de mim, e para o livrar dos perigos."

Era uma oração prodigiosa, um breve, cosido dentro de um saquinho de cetim, e preso a um rosário de contas tão límpidas como as lágrimas que se deslizavam pelas faces da moçoila.

"— Reze todas as noites, e todas as manhãs, a Nossa Senhora do Rosário esta coroa. Ela há de protege-lo."

Com as próprias mãos, hesitantes e trêmulas pela comoção, a filha de Vitorino lançara ao pescoço do rapaz o talismã popular misto de fetichismo e catolicismo, tão conhecido das gentes do campo. Lourenço agradeceu-lhe a lembrança, o presente da despedida, e, para retribuir a fineza, apertou a rapariga ao peito, com vontade de a levar ao sertão, ao deserto, ao desconhecido, onde necessariamente devia precisar de uma companhia, ou antes de uma companheira que suavizasse os rigores da peregrinação.

As despedidas exercem grande influência na vida. Durante a jornada, Lourenço só pensava em Marianinha, chorosa e meiga por ocasião de lhe entregar o rosário e o brevezinho. Não foi uma nem duas vezes que teve vontade de chorar de saudade lembrando-se da menina, da mãe, do engenho, lembrando-se de tudo o que deixara, e que não sabia quando havia de tornar a ver. Foi assim, enternecido por lembrança tão grata e comovente, que ele chegou ao rancho do Cipó.

Mas Bernardina, aparecendo-lhe de improviso com uma alma benfazeja, filha do mato, criada na solidão, uma alma nova, não obstante ser sua conhecida da infância, aparecendo-lhe assim, quando ele menos esperava, ente uma fogueira - símbolo da paixão, e uma rede - símbolo do gozo, por uma noite de inverno - estação propícia ao aconchego, e sem outras testemunhas que os elementos mudos posto que traiçoeiros e irritantes, apagou com a sua imagem, rica de estímulos sensuais, a doce cena de amor inocente em que se deixara entrever a irmã com o recato da alma cândida, como apaga o pintor com o pincel ensopado em tintas vivas, brancas virgens retratadas em quadros ainda mais branco que elas.

Depois de um instante de vacilação, o rapaz correu em busca da fugitiva moça. Esta já estava dentro da casa fazendo que repousava. Nem sombra restava de tão encantadora visão. Afigurou-se a Lourenço um momento ter-lhe ido a vida com ela. Fora um enganoso egoísmo que o provocara, que o exacerbara, e que o havia esquecido, fugindo rapidamente quando ele mais desejava tê-la unido ao peito. Levara consigo todas as formas da sedução; todas? Não; uma tinha ficado no alpendre, talvez contra a vontade daquela tentação revestida em contornos ondulantes como os das serpentes: era o galhinho de alecrim que Bernardina trouxera entre os cachos do cabelo.

Lourenço achou-o pouco antes da porta, no chão, e reconhecendo-o, apanhou-o, aspirou-lhe o brando cheiro, e meteu-o entre a camisa e o corpo. Penetrando aí, a sua mão tocou involuntariamente em outro objeto que lhe veio imediatamente à lembrança - o talismã que lhe dera Marianinha, o qual, pendente do rosário, nadava sobre o peito do rapaz. Lourenço estremeceu, sentindo o contato do breve; e seria capaz de afirmar que as paixões que se lhe haviam mitigado repentinamente com esse contato. Toda a idéia que tinha de forçar a frágil porta da palhoça varreu-se-lhe do espírito. Poderoso cordão aquele, Marianinha, aquele que deste a Lourenço! Poderoso porque lhe acalmou por um instante os ardores infrenes que o atiravam para imprevistos abismos, poderoso, porque o fez volver à rede, quando já ia passando de tempo. De fato, não se meteu um momento, que atravessou o terreiro, encaminhando-se à porta, que abriu, uma sombra em que Lourenço reconheceu a grosseira Manuela.

Lourenço não dormiu mais. Em seu espírito travou-se então uma luta fratricida - a luta das duas irmãs - uma que ressurgira depois de apagada, outra que perdera metade da sua grande força, logo que se achou defronte da primeira.

Que seria dele, solicitado por duas atrações iguais? Ficou sem dar um passo nem para um lado nem para outro. Tinha a inércia de um corpo pequeno entre dois maiores de igual grandeza. Mas se a vontade caíra nessa indecisão passiva, indecisão da criança, que, vendo ao alcance dois quadros sedutores, não sabe por qual deles se há de decidir, o seu espírito parecia incliná-lo para aquela que, a poucos passos de distância, ouvindo talvez o rumor dos seus movimentos, lhe havia despertado no coração alvoroços que se assemelhavam a chamas.

Perto do amanhecer a chuva cessou inteiramente. À claridade do dia, as condições do estado do almocreve modificaram-se consideravelmente. A realidade, eriçada de perigos, ressurgiu-lhe de novo aos olhos. Volvendo-os à baixada, avistou lá a rua de casinhas que lhe avivou a idéia da quadrilha e do chefe, a que ele ia fugindo. Era tempo de deixar a ameaçadora pousada, por algumas horas tão hospedeira e carinhosa.

Mas partir sem ver Bernardina, sem lhe protestar estima recente, cujas raízes vinham do passado, sem receber, talvez, na despedida, uma daqueles sorrisos feiticeiros que, quando a menina cantava e dançava nos sambas, deixaram tantas vezes corações atravessados de desejos mais agudos que pontas de espinho, isto afigurou-se-lhe um tormento, um impossível. Ainda esteve um instante para bater à janela sob qualquer pretexto; mas, receando-se não ter forças para ausentar-se, se a rapariga lhe aparecesse, quando a sua salvação exigia rapidez no apartamento, dominou o desejo, e partiu.

Não tinha ainda perdido de vista a casa, quando, ao emparelhar-se com umas árvores sombrias e fechadas, virando-se para trás, viu vir descendo a rua do rancho a mulher que fizera companhia a Bernardina. Foi o caso que Manuela, tanto que percebera, pelo rumor das pisadas do cavalo, que Lourenço deixava a casa, se despediu de Bernardina e encaminhou-se à sua cabana.

Este incidente, com que o rapaz não contava, reacendeu-lhe o desejo de voltar. Sobresteve um instante, pensando. As árvores ocultavam-no inteiramente. Ele podia refletir por quanto tempo quisesse, sem receio de ser notada a sua presença.

— Estou quase voltando - disse consigo, ao cabo de alguns minutos de reflexão.

Pouco depois, tomada a resolução, acrescentou:

— Ora! Aconteça o que acontecer. Para os perigos é que são os homens.

Não se demorou mais. Com pouco, estava junto da janela que se abriu tanto que ele chegou, para deixar aparecer o rosto da gentil rapariga, mais sedutor do que nunca, porque se mostrava agora orvalhado de lágrimas, como as florinhas do campo estavam nadando entre as águas da noite.

— Eu logo vi que você não havia de se ir embora de um vez sem me dizer adeus, Lourenço - disse ela, recobrando, com a vista do rapaz, o fulgor da sua natural expressão. Lourenço aproximou-se mais, e perguntou-lhe à meia-voz:

— Bernardina, você ainda está no parecer de me acompanhar?

Como ouvira a voz da sua salvação, a rapariga, erguendo-se sobre as pontas dos pés, inclinou-se para fora, e, estendendo os braços como quem queria prender o almocreve, respondeu num assomo de entrega, filho de absoluta confiança.

— Pois ainda pergunta, Lourenço?

— Então venha depressa, antes que chegue alguém - tornou ele. Eu bem sei que vou correr grandes perigos; mas por seu respeito, cometo tudo. Que espero mais? Acabemos já com isso. O que chegar, chegou. Comigo ninguém pode.

Em poucos minutos o cardão passeiro e passarinheiro, que Lourenço tirara da estrebaria do engenho para se meter na jornada, tomou sobre o dorso o rapaz e a rapariga; e não obstante esta dobrada carga, atravessou com pés seguros os atoleiros, e ganhou outra vez o caminho sem mostrar o menor enfado, antes lesto e forte, graças ao milho que comera de noite.

Por toda a parte foram encontrados riachos cheios que se assemelhavam a rios, campos inundados que se assemelhavam a lagos, vales que se assemelhavam a correntes encachoeiradas, e enfim as provas evidentes do inverno que se prolongou em Pernambuco de 1712 a 1713.

Mas Bernardina, na sua qualidade de mulher, tinha ânimo inexcedível. A sua organização parecia de ferro. Nada a fatigava.

Quanto mais se afastavam da colônia de malfeitores, mais animada e contente se mostrava a fugitiva.

— Estou vendo que você é muito forte, Bernardina - observou uma vez Lourenço.

— Ora! retorquiu ela com disfarce. Neste cortado vou até o fim do mundo. Estou tão contente como você não avalia. Vou achando tanta graça nos matos que eu aborrecia ainda ontem... Que bonita manhã, não é Lourenço? Eu vou achando tudo tão bonito, porque me soltei da prisão.

Passados momentos, acrescentou:

— Que prazer vou ter, meu Deus! Há tanto tempo que não vejo minha mãe e minha irmã. Chegaremos hoje à Goiana?

— A Goiana! Pois eu não lhe disse que a nossa viagem não é para Goiana? Se eu voltasse ao Cajueiro ou a Bujari, era o mesmo que ir meter-me na boca da onça.

— E para onde vamos nós?

— Vamos... vamos para o sul - respondeu Lourenço, com voz hesitante. Eu estava me lembrando agora mesmo de um lugar onde podemos demorar algum tempo sem grande risco. Vou cortando para Jaboatão. Aí mora seu Amador, irmão do defunto João da Cunha: Deus se lembre de sua alma. Os Camarões deram-lhe no engenho, e ele, coitado, está preso no Recife; mas como ninguém nos conhece nem a mim, nem a você em Jaboatão, podemos ficar aí mesmo pelo engenho, ou em alguma casinha por perto, até vermos tudo isto em que dá.

— Ora! disse Bernardina. Estava já tão satisfeita de ver os meus de hoje para amanhã!

— Mas que lhe parece, Bernardina? Não acha que meu plano é bom?

— É bom, Lourenço. Que havemos de fazer? Para mim, tendo saído do poder do Tunda-Cumbe, todo lugar me serve para moradia, enquanto não chega ocasião de reunir-me outra vez com minha mãe.

— Muita raiva tem você do Tunda-Cumbe.

— Nem na hora da morte lhe hei de perdoar o que ele me fez contra a minha vontade.

— E por que você não fugiu logo? Nunca achou uma ocasião?

— Nunca. Nos primeiros tempos, Tunda-Cumbe deixava sempre no rancho muitos espiões. Eu não era senhora de sair no terreiro sem ser acompanhada. Fui pouco a pouco perdendo a esperança de voltar para a companhia da minha mãe. Além disso, o Tunda-Cumbe disse-me uma vez que ela se tinha mudado de Goiana, e estava em outra terra muito distante. Então tive paciência. Quando reconheci você ontem de tarde, Lourenço, estava longe de cuidar que você havia de aparecer por estas paragens.

— Ele nunca lhe falou em se casar com você?

— Casar-se comigo? quem? o Tunda-Cumbe? Malvado! depois de ser um parteiro na sua terra, e vendedor de peixe cá, está fidalgo. Ele havia de casar-se com filha de gente pobre?

— E se houvesse quem o obrigasse a casar com você, era do seu gosto o casamento?

— Eu não quero casar-me com semelhante diabo, renego dele! Quem quiser que o tome para si, que eu passo muito bem sem ele. Um diabo que matou meu pai!

Lourenço deixou correr um instante em silêncio, e tornou depois:

— E comigo quer casar-se, Bernardina?

A rapariga, como se não ouvira a pergunta, ou como se fizesse que a não ouvira, nada respondeu.

— Diga, diga, insistiu Lourenço, sentindo rápido calafrio a percorrer-lhe o corpo.

— Pois você há de querer-me para sua mulher, Lourenço? respondeu ela enfim, a modo de quem via um impossível na idéia do rapaz.

— Faça de conta que eu quero, e responda então, tornou ele, cada vez mais empenhado em obter resposta decisiva.

O lugar onde estas coisas se passavam, tinha uma beleza suave, plana e ampla. De um e outra banda estendia-se um varjado, coberto de cajueiros novos, mangabeiras e araçazeiros bravos. Abaixava-se para o lado do ocidente, mas não perdia a sua natural decoração. O sol, que nascera havia pouco, lançava sobre a face dessas milhares de árvores, quase todas do mesmo tamanho, uma neblina de luz, que dando nas gotas de chuva ainda espalhadas nas folhas lisas, fazia sair dali uma imensa esteira de reflexos cristalinos. Dir-se-ia que a maior prodigalidade conhecida atirara por cima daquele extenso arvoredo todos os brilhantes que têm saído das minas do mundo. Era uma região nova, nitente, alegre, fresca, paradisíaca. Lourenço parou o cavalo, e voltou-se para encarar a rapariga, que com um dos braços lhe cingia o corpo. Todo o sentimento dos dezoito anos, vivaz como a natureza circunstante, havia acordado, ora trêmulo e tímido, ora afirmando sua pujança nos impulsos mal refreados. Longe ia a imagem de Marianinha, peregrina na vastidão daquele mundo, apropriada somente à vida do lar, onde não se querem comoções vertiginosas, indomáveis, mas mornas como a família, despertadas pela ternura, não pela paixão. Quem Lourenço sentia junto dele era a mulher ardente, de vigorosas formas, de inebriante contato, mulher que o acompanharia ao coração dos sertões mais adustos, às margens dos rios mais arrebatados, aos braços dos vales mais ingratos, enfim era a mulher que exigia a vida do deserto com todas as suas impressões mordentes, agudas e atrozes.

Mas - a fisiologia humana é um enigma indecifrável - Bernardina, ordinariamente desembaraçada, guardou silêncio. A sua mão esquerda tremia no corpo do cavaleiro. Este, paciente, pegou-lhe da outra mão, e levou-a aos lábios. Em vez de quente, estava resfriada, não pela temperatura, senão por sobressalto invencível.

— Diga, Bernardina - instou ele. Você sabe que seus olhos sempre me renderam, que sua danças e cantigas sempre me cativaram.

E porque, ainda com isto, a rapariga continuou tenazmente calada, Lourenço acrescentou:

— Ora, deixe-se de vergonhas. Ninguém nos vê, ninguém nos ouve; estamos sós neste deserto, e podemos fazer o que quisermos.

— Eu só me casava com você, Lourenço, se tivesse a certeza de uma coisa.

— Que é?

— Só me casava se você jurasse nunca mais voltarmos ao Cajueiro.

— Mas por que não havemos de voltar?

— Por quê? Pois você acha que eu teria cara para aparecer como sua mulher diante de minha mãe e de Marianinha? Se jura que não havemos de voltar lá nunca mais, então sim.

No primeiro momento, Lourenço não soube o que dizer. Compreendeu e achou, além de naturais, muito louváveis os escrúpulos da sua camarada de infância. Desde pequeno na casa do pai, na de Vitorino, nas vizinhanças, o seu casamento com Marianinha considerava-se coisa assentada. Francisco afiançara muitas vezes que esta união havia de realizar-se.

Mas logo depois a paixão, fustigando-o com mais veemência, pôs-lhe no espírito estas interrogações: Por que não havia de sujeitar-se à condição indicada pela moça? Esta condição não estava tão concorde com o tempo? Não ia ele fugindo bem longe, sem saber quando poderia voltar? Marianinha não ficaria solteira, quase certa de não ver realizados os seus sonhos? Enfim, o que Bernardina propunha não era quase a realidade das coisas, na atualidade?

O juramento acudiu aos lábios do rapaz. Se tomasse para a Paraíba, o Ceará ou Piauí, quem saberia mais deles em Goiana? E por que não havia de seguir para um desses lugares estranhos e desconhecidos? Estava assim ele, como ela, na flor da mocidade; ambos tinham grandes energias para o trabalho e a vida; meter-se-iam num retiro ignorado, onde gozariam a existência satisfeitos.

O espírito, ou antes o ânimo de Lourenço, oscilava entre estas idéias de um lado, e aquelas do outro, quando uma lembrança, rompendo como faísca elétrica o nebuloso céu do seu cérebro, o fez empalidecer. Lembrou-se Marcelina e Francisca, seus bons pais, tão ricos de meiguice para ele. Lembrou-se especialmente de Marcelina no momento da despedida, tendo as faces banhadas de lágrimas, rogando aos santos que o protegessem, rogando-lhe que não se esquecesse dela, que esquecê-la era matá-la, não porque precisasse do seu arrimo para viver, mas porque, na sua ausência, o coração dela ficava sangrando de saudades dele, e de sobressalto pela sua conservação.

Saíram-lhe imediatamente dos lábios estas palavras:

— A troco de semelhante coisa, Bernardina, já não quero aquilo que há pouco tanto cobiçava. Deus me livre de não acompanhar minha mãe de perto, a fim de a defender quando ela precisar de ter quem a defenda. Ela fez tanto por mim - você bem sabe - quando eu era pequeno e estava no mau caminho, que a minha primeira obrigação é dar por ela a vida, se tanto for preciso.

Ouvindo palavras tão consoladoras, Bernardina respirou livremente, e sentiu-se aliviada do grande peso que a oprimia;

— E pensa você muito bem. Era isto mesmo o que eu queria e esperava que você dissesse.

— Mas, observou o rapaz, voltando ao estafado assunto, que tem que vamos viver casados no Cajueiro, na mesma harmonia com todos?

— Está bom, está bom; vamos para diante. Logo falaremos sobre o que você propõe.

Tinham ele descido o declive da planície, e estavam perto do rio Tracunhaém. No lugar onde iam, o rio apenas se dava a perceber pelo medonho fragor das águas. Se não fora este, ainda que por ali se notavam pedras espelhadas, ninguém diria que o tinha a poucos passos de distância mais embaixo. Ficava encoberto por uma orla de árvores espessas de cujos galhos caíam largos panos de samambaia a que um poeta chamaria barbas ou guedelhas daqueles monges seculares. De um e de outro lado apareciam pés de manacá, de cujos ramos pareciam namorar a manhã as flores ora roxas. ora brancas, que lhe matizavam a copa.

O cavalo deu alguns passos, e atravessando, por uma lamacenta trilha, a rústica paragem, achou-se quase de repente à beira do Tracunhaém. Do embastido passara ao descampado.

Descobriram então os dois fugitivos na vasta margem, em sua maior parte alagada, três sujeitos armados. Haviam eles passado o rio pouco antes, e estavam apertando as cilhas das selas, e experimentando os loros, como quem se aparelhava para apostar carreira. Do outro lado, seis tangerinos tocavam para dentro da água uma boiada, passante talvez de cem cabeças.

— Meu Deus! disse baixinho Bernardina, tomada de sobressalto, e buscando o mais possível esconder o rosto por trás do corpo de Lourenço. Que homens serão esses?

— Se não me engano, Bernardina, vamos ter caldo derramado; quem está ali é Pedro de Lima, Manoel Hilário e Chico Andorinha. Mas você não esmoreça, que é pior.

A rapariga quase cai do cavalo abaixo, tamanho foi o terror que estas palavras lhe causaram; mas Lourenço, depois de lhe dirigir outras palavras de animação, seguiu adiante na marcha que ia.

— Lourenço, pelo amor de Deus, voltemos.

O rapaz já não tinha ouvidos para rogativas. Todos os seus espíritos estavam concentrados em um ponto - o grupo dos malfeitores.

Logo que Pedro Lima reconheceu Lourenço, voltou-se para os companheiros, e disse-lhes:

— Chegou a hora de tirar uma desforra deste pé-rapado. Meto-lhe a peia e tomo a camarada.

Assim falando, o cabra, que já sabia de quanto o almocreve era capaz, em vez de pegar a peia a que se referiu, segurou o bacamarte e examinou com atenção se a escova estava enxuta.

A esse tempo achavam-se os inimigos a dez passos de distância.

— Tire já o chapéu e apeie-se para passar por baixo da barriga do meu cavalo, pé-rapado de borra - gritou o bandido, pondo as pernas ao cavalo, e indo esbarrar com violência e arrogância em frente de Lourenço.

— Tu não sabes com quem está falando, cabra ruim. Era preciso que eu me chamasse Pedro de Lima, que já apanhou com uma bainha de parnaíba na cara, ou Manoel Gonçalves, que já levou Tunda da mão de escravos no engenho Cumbe, para cobrar esta ação de negro cambado.

Pedro de Lima não esperou por mais nada; levantou com a mão direita o bacamarte até a altura dos peitos de Lourenço, e ameaçando-o com uma tabica que trazia na outra mão, replicou alvoroçado:

— Se queres morrer, patife, repete o que aí disseste.

— Negro, eu te direi já com quem é que estás metido.

Firmando-se nas cordas da cangalha em que se estribava, Lourenço deu um salto para agarrar Pedro de Lima, e com a mão procurou tomar-lhe o bacamarte. A esse tempo um tiro soou, e o cardão, em que se empregara toda a carga da arma do bandido, rolou por terra em sangue, estrebuchando.

Imediatamente Lourenço voltou-se, temendo que debaixo do cavalo agonizante ficasse Bernardina. Pode ver então que um dos companheiros de Pedro de Lima tinha agarrado a rapariga pelos braços, e afastava-a do lugar da luta com quem queria pô-la a salvo de qualquer golpe perdido.

Quando encarou novamente Pedro de Lima, estava este desmontado, e tinha uma espada de ponta direita na mão. O bacamarte descarregado pedia-lhe a tiracolo, pela correia. A seu lado estava também armado com uma catana Manoel Hilário, mameluco reforçado, cuja cara por si só era uma provocação de meter medo. Ambos os malfeitores caíram imediatamente sobre o rapaz decididos a fazê-lo em postas.

Pedro de Lima não era fraco, Manoel Hilário era assassino de profissão. Lourenço era a coragem e a força no mais alto grau. À vista dos outros, poder-se-ia dizer dele que era uma criança. As suas feições corretas e finas, a cor branca que mais parecia indicar sentimento de paz e índole branda, a juventude, fase da existência em que se desconhecem ainda os recursos que a experiência e o traquejo do mundo sugerem e aperfeiçoam deviam torná-lo inferior na luta de vida e morte com os dois malvados, mais velhos que ele, mais experimentas e inteiramente familiarizados com o sangue humano pelo assassinato. Quem os visse antes de travada a briga assombrosa, pouco daria pelo jovem, tudo pelos maduros matadores; mas em pouco tempo de assistência e observação, coisa diversa se lhe afiguraria; porque a intrepidez e a temeridade, a energia muscular, a agilidade mais flexível postas em ação por Lourenço lhe davam inquestionável superioridade sobre os dois contendores, ainda que apostados a destruí-lo e aniquilá-lo.

Como conhecessem, logo nos primeiros golpes com que Lourenço respondeu aos deles, a sua incomparável habilidade no manejo da arma branca, trataram de metê-lo entre eles dois; Lourenço, porém, alcançando a estratégia, encostou-se ao tronco de uma ingazeira, conseguindo por este meio impedir que qualquer deles o pudesse atacar pelas costas, fito principal de Pedro Lima.

A luta prolongar-se-ia por mais tempo, se Chico Andorinha não corresse a aumentar a agressão, fazendo frente a Lourenço, enquanto os outros dois bandidos o tomavam pelos lados. Andorinha amarrara Bernardina pelas mãos com um cabresto a um tronco, para que não fugisse. Ele conhecia-a do rancho do Cipó, sabia que com ela estava amasiado o Tunda-Cumbe, e para prestar serviço a este, por baixa adulação, resolvera levá-la à casa.

Em vão Bernardina estorcia-se e forcejava para romper a sua cadeia; em vão carpia, arrastando-se pelo chão, a sua desgraça extrema; em vão pedia socorro, em altas vozes, rogando que não matassem Lourenço, e protestando a inocência dele.

Dessa tribulação veio arrancá-la um estrupido vasto, medonho, após um tiro que ressoara na imensa solidão. A larga margem do rio estremeceu, com uma onda sonora no interior: os terremotos devem produzir o som cavernoso que saiu naquele instante do chão rudemente percutido. Quem não soubesse o que era, julgaria que um cataclismo, revolvendo as entranhas da terra, ia abrir covas profundas, goelas tenebrosas que imediatamente se iluminariam, deixando passar fogo e lavas abrasadoras. O tiro tinha sido dado por Andorinha contra Lourenço; o ruído subterrâneo não fora produzido senão pela corrida da boiada que arrancara da beira do rio, espantada pela detonação do tiro.

Foi então tudo confusão e burburinho. O fato de arrancar uma boiada é vulgar para os que conhecem a vida sertaneja; mas sempre infunde pavor, ainda nos que melhor sabem esta feição daquela vida. Quando uma boiada arranca, uma boiada de duzentas a trezentas cabeças, pouco depois de ter deixado o pasto usual, isto é, quando está em quase todo o vigor, e não tem ainda perdido, pelo cansaço, parte das forças ganhas na vida livre do sertão, não fica incólume e ileso o que encontra à sua frente. O chão arrasa-se, porque as moitas desaparecem e os arbustos acamam-se torcidos ou quebrados sob os seus pés. Os espinheiros ficam lisos. Onde não havia nenhuma trilha, nem uma aberta, mostram-se depois entradas novas, que o homem aproveita algumas vezes. As longas cortinas de cipó pendentes das folhagens das grandes árvores, esfrangalhadas, despedaçadas, ou deslocam-se das alturas donde as suas flores namoravam o sol e o azul etéreo, e vêm alcatifar confusas e revolvidas o chão, ou, partidas ao meio, oscilavam dali em retalhos que resistiram à invasão das centenas de cabeças bicornes que, através deste floridos cortinados com que a natureza decora os tetos e as abóbadas dos sombrios paços de espessura, abriram improvisa passagem, no desespero do pânico bruto. Tudo leva de rojo a mole ambulante, na disparada. A tempestade muitas vezes não produz tantos estragos, não muda tão prontamente os aspectos da solidão.

Bernardina cosera-se com o tronco da árvore, para não ficar debaixo dos pés dos bois. Quanto a Lourenço, seus dias pareciam estar contados. O tiro covardemente desfechado, ferira-o gravemente em um dos ombros. O facão fugiu-lhe das mãos, as pernas cambalearam, o sangue envolveu-lhe o corpo em rubra mortalha. Enfim, caindo quase sem sentidos somente ele dentre os lutadores, ficou exposto a acabar sob o peso da vaga bravia que assolava a paragem, porque os outros, não tendo podido montar os cavalos que correram espavoridos, se haviam suspendido a galhos superiores de árvores próximas, e dali aguardaram que passasse o vertiginoso soão.