Lourenço (Franklin Távora)/VIII

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Lourenço por Franklin Távora
Capítulo VIII


Receoso de encontrar-se com algum bando inimigo, Lourenço que, ao deixar o engenho, tomara a margem direita do Tracunhaém, pela qual passava o caminho por onde se saía de Goiana atravessou não sem risco o rio com bastante água pelas chuvas torrenciais do inverno, e meteu-se numa capoeira que, ao cabo de um quarto de légua, vinha morrer na margem esquerda.

Era quase noite, e desde a saída, a chuva não cessara ainda, antes aumentara.

Em todas as paragens circunvizinhas, não se descobria uma só habitação. |O rio entrava aqui pelos matos, saía acolá por entre lajedos, espraiava-se além em várzeas cobertas de buritizeiros. De verão, a região que Lourenço percorria agora silencioso e pesaroso, tinha aspecto risonho; era um lindo painel, não obstante ser deserta e quase virgem. Atualmente vêem-se já por ali casinhas de almocreves, quadras de terra cobertas de roças, partidinhos de canas que alegram a vista e comunicam ao espírito a sua graciosa flutuação iluminada e colorida. Por esse tempo, só se avistavam ali águas, matos e céu, que o verão enchia de limpidez, verdura e azul. Aos olhos de Lourenço, porém, não eram estas tintas oferecidas pelas paisagens feiticeiras. Com o inverno elas haviam tomado feições espessas e sombrias. As águas barrentas, em vários pontos encachoeiradas, enovelando-se com arbustos e pedras, semelhavam terras diluídas por forte ebulição, mostrando todas as fezes e lia deixadas no seu seio pelo curso de muitas idades, as folhagens inclinadas para o chão, quando as águas do céu caíam sobre elas sem sopro de tormenta, ou revoltas e confusas quando a tempestade as açoitava com a sua violenta cólera, apresentavam o semblante de tristeza ou do desespero; o céu cor de cinza tinha comunicativa morbidez que penetrava nos corações ternos. Enfim, longe de despertar pensamentos e sensações gratas, essa região demorada não oferecia ao hóspede perdido no seio dela outros presentes senão o tédio, a ingratidão e a aspereza do deserto.

Ao anoitecer, saindo de uns pauis perigosos, onde quase se havia sumido com o cavalo, ouviu, surpreso, o bater de uma caçula por ali perto. Guiado por este sinal, ganhou um alto onde deu de rosto com uma casinha de barro, coberta de palha. Alongando as vistas, descobriu na baixada que ficava do outro lado da eminência, uma como aldeia de índios. Contavam-se talvez de quinze a vinte palhoças. Quase todas estavam fechadas, e somente da que ficava mais próxima da casinha do alto, se levantava aos ares, sem embargo dos pesados pingos d'água que no momento caíam, uma fumacinha azulada, indicando que havia moradores na palhoça.

— Já tenho, graças a Deus - pensou o rapaz - onde passar esta cruel noite de inverno.

E tirou para a casinha, donde lhe chegava aos ouvidos o som levantado pelo alternado bater das mãos do pilão sobre o milho.

Faziam a caçula uma rapariga e uma mulher já de idade. Aquela podia passar por branca, e não era mal parecida: cabelos negros e cacheados emolduravam-lhe o rosto jovial e franco; formas boleadas sem carência de gentileza, acusavam tesouros que se perdiam ocultos ou mal apreciados no ermo.

A outra mulher tinha feição e formas vulgares, que nenhum traço particular tornava distintas, a não ser o olhar suspeitoso e a grossura corpórea: ambas trajavam saia de chita e cabeção de renda. Estavam de pé, na sala posterior da casinha, perto de um banco largo, espécie de porta deitada sobre quatro pés cravados no chão, a qual, pelos indícios, preenchia o ofício de estrado, mesa de jantar e cama de dormir. Sobre o banco via-se um alguidar de barro de tamanho, contendo certa quantidade de milho pilado; junto do alguidar, um rapa-coco de ferro e alguns pratos ordinários. Dentro de um destes estava o coco, partido já em duas bandas, destinado a dar as rapas de que se devia extrair, pela expressão, o leite grosso e saboroso. O leitor entendido nos usos do norte há de ter compreendido por estas particularidades domésticas, que as duas mulheres se ocupavam em fazer o popular e apreciado mucunzá. Ficava de permeio entre uma e outra, o pilão que lhes dava pela cintura.

A quantidade de milho quebrado que se via dentro do alguidar, e o suor que aljofrava o rosto e as espáduas das mulheres, não obstante o tempo frio, revelavam que a caçula já ia puxada, ou antes, estava perto de acabar.

Lourenço, rodeando a casa, foi parar defronte da janela, onde se entregavam àquela ocupação culinária as duas mulheres.

— Ó de casa? disse ele.

Apenas estas palavras ressoaram dentro, as moradoras fizeram uma pausa, e cessou o batecum.

— Ó de fora - respondeu a mais velha, enquanto a mais nova, que estava oculta por trás da parede, estirou o pescoço, e com os olhos procurou ver quem era o hóspede. Tão depressa porém o viu como, deixando a sua mão de pilão metida no milho, deitou a correr para a camarinha, único aposento encoberto que havia na casa.

— Tenha vosmecê muito boas noites, minha senhora - disse Lourenço, chegando o cavalo mais para junto da janela.

— Nosso Senhor lhe dê as mesmas - respondeu a matuta.

— Minha senhora - prosseguiu o rapaz - venho pedir a vosmecê um rancho por esta noite. Com semelhante chuvarada, que vosmecê bem está vendo, é impossível a gente andar por dentro de lamas que querem engolir homem e animal.

— Mas senhor... balbuciou a mulher com evidente embaraço.

E como não passou dali, Lourenço, compreendendo estar ameaçado de eminente recusa, acrescentou:

— Quer vosmecê acredite, quer não, o que eu lhe posso dizer é que ainda hoje não comi nem descansei. Estou resfriado desde os pés até a cabeça. Não sei bem em que altura ando. Além disso, com os rios cheios e de noite pelo escuro, não se pode viajar.

— Meu senhor... retorquiu a mulher sempre hesitante, eu não teria dúvida em lhe dar o rancho: mas o dono da casa não está em casa, e não é de bem... vosmecê bem sabe.

— Sim, se o dono da casa não está em casa, nem aqui por perto, é verdade, vosmecê tem razão. Mas também quero lhe dizer uma coisa: eu com pouco me satisfaço. Basta que vosmecê consinta que eu me recolha debaixo deste alpendre, ao menos enquanto ponho um punhado de farinha e um pedaço de carne na boca, e o meu cavalo descansa.

A mulher não disse uma palavra; continuou indecisa. Estava sem saber determinar-se.

Passado um momento, como visse Lourenço que não cessava a indecisão, disse o seguinte:

— Minha senhora, eu não sou nenhum malfeitor. Pela cara dou logo a conhecer.

— Não digo menos disso - retorquiu ela.

— Meto-me ali debaixo do puxado, e pode vosmecê ter certeza que não arredarei dali o pé senão para ver o meu cavalo, ou tratar da jornada quando as barras vierem quebrando.

A mulher ia reforçar a recusa com outras razões, mas a um sinal feito do dentro da camarinha pela moça mudou de rumo, e respondeu sem os escrúpulos de há pouco.

— Está bom. No alpendre pode vosmecê ficar.

— Deus é que lha há de pagar este favor, disse o rapaz, criando alma nova com a resposta.

E sem mais esperar, tirou para o pequenino alpendre, onde descavalgou.

Quando estava para soltar o cavalo com a peia, como é costume, ouviu dizer da janela:

— Ó meu senhor? Ó meu senhor?

Pela voz reconheceu a mulher, e imediatamente botou-se para aquele ponto onde a encontrou, tendo numa da mãos uma cuia.

— Se vosmecê não tem o que dar ao seu cavalo, aqui lhe ofereço este bocado de milho que sempre há de chegar para ele ir roendo durante a noite.

— Aceito o favor, e muito agradeço a vosmecê a sua lembrança. Eu já ia soltar o animal aí no campo, sem esperança que ele comesse qualquer coisa, porque está tudo debaixo de água.

Pouco depois, sob a folhagem de uma gameleira próxima do alpendre, o cavalo quebrava com estrépito o presente da hospitalidade, e o seu dono, de uma rede que armara, fazia-lhe companhia, comendo, com apetite devorador, da matalotagem que trazia em um saco de couro, onde a água da chuva não pudera penetrar.

Ali mesmo, rendendo-se do enfado da jornada, Lourenço, recostado na rede, adormeceu. A noite fechada, a chuva, o silêncio, o ermo convidavam ao repouso.

Por volta de oito horas, não obstante estar no melhor do sono, foi despertado pelo ladrar do cachorro da casa contra o cavalo. Logo depois ouviu uma porta, rumor de alguém que saía, e as palavras seguintes:

— Não me demoro, não. Vou levar a Joaninha esta tigela de mucunzá para ela cear, e dizer-lhe que eu venho hoje fazer companhia a você.

Compreendeu Lourenço que a mulher era dali mesmo das vizinhanças, e viera ajudar a moradora no serviço da caçula. E como levantara a cabeça, deram seus olhos com a suave claridade no alpendre. Era produzida por um fogo que havia sido feito não muito distante da rede onde ele estava.

Esta fineza com que ele não contara, deu-lhe grande satisfação.

— Boa gente é a desta casa, disse, levantando-se para atiçar o fogo, e ver o cavalo que, com os latidos do cão, se afastara um pouco da gameleira. Pois não me pareceu assim, quando cheguei logo.

Fizera-se uma estiada, o que permitiu a Lourenço ir sem repugnância até o lugar onde estava o cavalo, que ele tocou para junto do alpendre.

Já ia sentar-se novamente na rede, a fim de retomar o sono do ponto em que fora interrompido, quando enxergou, à claridade do fogo, um vulto que se encaminhava para o seu lado. Era a dona da casinha. Mostrava-se cautelosa, olhando para um lado e para o outro.

Quando não faltavam senão alguns passos, Lourenço quis levantar-se; mas antes que se pusesse de pé, a rapariga estava sentada com ele na rede, apertava-o entre os braços com frenesi de alucinada.

— Lourenço, Lourenço, você não me conhece? perguntou ela em voz baixa.

— Estou reconhecendo a sua voz disse o rapaz, tomando posição conveniente para ver o rosto da rapariga.

— Sou Bernardina, disse ela.

— Bernardina! Bernardina! exclamou Lourenço.

Então, afirmando a vista, reconheceu, de feito, com indescritível prazer, a filha de Vitorino que fora raptada por Tunda-Cumbe, por ocasião do ataque contra o engenho.

Bernardina não parecia a mesma que estivera de tarde na caçula, com a outra mulher. Substituíra a saia caseira por um vestido de chita impregnado dos cheiros do coradouro campestre. Entre os cabelos anelados, que o pente alisara momentos antes, um galhinho de alecrim recendia suavíssimo aroma. As faces estavam animadas de irradiação rósea; os braços e as espáduas acusavam recente ablução.

Ninguém diria, em presença daquele asseio modesto, único talvez ao alcance da pobre, ninguém diria que o suor do trabalho umedecera, algumas horas atrás, pele tão fresca e limpa. O que à primeira vista se adivinhava, era que a galante cachopa havia posto particular cuidado em aparecer sem vexame ao seu camarada da meninice.

— Meu Deus! continuou ele. Como são as coisas! Quem havia de dizer que eu teria hoje este encontro? Eu bem ouvi cantar, um pouco antes de chegar a este lugar, um pitiguari no olho de um catolé.

— É verdade - disse ela. Eu reconheci você, logo que o vi chegar à janela, ainda que você está muito diferente. Está um moço alto, e bonito de fazer a gente ter oura de gosto de vê-lo.

— Mas por que se escondeu de mim? Por que fugiu tão depressa, tanto que a não pude ver senão pelas costas, e por isso não pude saber que era você?

— Fugi para lhe poder falar mais tarde. Se eu me desse logo a conhecer à vista da mulher que saiu daqui há pouco, ela não nos deixava sós, e eu não podia abrir-lhe o meu coração, como estou fazendo. Ela é uma boa mulher, mas não havia de consentir que os avistássemos, nem eu quero que ela saiba da minha vida.

— E o que faz você por estas alturas, Bernardina?

— Ora! Foi a minha desgraça. Mas por que não se deita como estava ainda há pouco? Deitemo-nos, para não parecer que estão aqui duas pessoas. Meta o seu braço por debaixo do meu pescoço. Falaremos baixinho. Direi assim tudo que lhe quero dizer. Você não sabe como estou satisfeita com a sua presença. Não tenha vergonha de mim. Faça de conta que ainda somos meninos.

A rapariga foi a primeira a deitar-se transversalmente na rede: o rapaz imitou-a. Os seus hálitos se confundiram. Os negros cabelos de Bernardina espalharam-se, em ondas, voluptuosas, pelas faces nédias e afogueadas de Lourenço, que parecia estar numa fascinação parva.

Perto da rede jazia atirado um tronco seco destinado ao fogo. Bernardina, tomada de frenesi irresistível, alcançou com a ponta do pé a cabeça do tronco, e firmando-se nela, deu balanço à rede. Caiu-lhe então a chinela e com o movimento enfunou-se-lhe parte da saia arrendada, aparecendo, com uma tentação, o pé pequenino e metade da perna de perfeição incomparável.

Mas Bernardina não atentou no seu estado. Era outra a ordem de idéias que lhe andava no cérebro. Fervilhava-lhe aí a serpente do remorso e da saudade.

— Quando eu não quis falar com você diante daquela mulher foi justamente porque os meus segredos não eram para ela ouvir. Mas antes de tudo, não se demore; dê-me notícias dos meus. Minha mãe e Marianinha como estão? Há quase dois anos que as não vejo. Só Deus sabe a minha dor, as lágrimas que tenho derramado, longe dos meus, com saudades deles.

— Elas estão boas, Bernardina.

— Não houve nenhuma novidade?

— Houve somente a morte de seu pai.

— Desta já soube. Meu pai era tão bom para mim!

— Mas que vida é a sua, Bernardina?

— Não me fale, não me fale, Lourenço. Nem sei como me deixei desgraçar, em vez de morrer; antes tivesse morrido. Lá não souberam como eu fui roubada por seu Tunda-Cumbe, quando entraram com ele no engenho os malvados que lhe dão força para fazer tudo o que lhe vem às ventas?

— E o que está você fazendo aqui?

— Aqui é que eu moro. Não sabe que este é o Rancho do Cipó?

— Pois aqui é o Cipó? Aqui é que o ladrão do Tunda-Cumbe tem os seus malfeitores?

— Aqui mesmo. Aí adiante na baixada moram eles. Só eu moro aqui com seu Tunda Cumbe, neste deserto por onde não passa ninguém, com medo de ser atacado e assassinado.

Lourenço estava admirado do que ouvia. Nunca pensara em tal.

— Eu sou mulher - continuou Bernardina; mas assim mesmo, não tenho medo dele nem dos malfeitores; e mais de uma vez tenho feito tenção de deixar este degredo, dê no que der.

— Pois este é o falado rancho do Cipó! inquiriu Lourenço pela segunda vez, parecendo não ter o seu pensamento preso a assunto diferente, ou fingindo-se alheio do que na realidade pusera alerta todos os seus sentidos. Ah! é verdade. Eu vi, quando vinha, as tais casinhas lá embaixo. Em boas estou metido. Venho fugindo do malvado, e caio dentro do seu giqui.

Em poucas palavras referiu Lourenço os acontecimentos em que andara envolvido de manhã, a luta com o Tunda-Cumbe, o juramento que este fizera de vingar-se dele, enfim, as circunstâncias que davam a sua posição atual um caráter melindroso, pelos muitos perigos que o cercavam.

— Para um homem da sua coragem, Lourenço, não há perigos, disse Bernardina. Eu tenho tanta confiança em você que, se você quisesse tirar-me daqui, eu não punha a menor dúvida.

Dizendo isto, a rapariga roçava a face pela do rapaz, que, embriagado e ofegante, devorava com os olhos acesos em estranho anelo aquela imagem provocadora.

— Você diz o que eu tenho no juízo. E fique sabendo que, ainda que houvesse de cair, transpassado de balas, ali diante nos atoleiros, eu a levava comigo para entrega-la à sua mãe. O ajuste de contas com o ladrão do marinheiro se não pudesse ser antes, ficaria para depois. O principal era tirar você do poder dele, que é um ladrão muito desaforado.

— Que está dizendo? Pois você tem esta idéia? Não sei como agradecer a Deus esta mercê.

— Mas, presentemente, Bernardina - observou o rapaz, pegando-lhe de uma das mãos - eu não a procurava. Nos primeiros tempos da sua ausência , andei com Saturnino pelos matos a ver se a achava; não foi uma nem duas vezes que fizemos isto, foram muitas que não tem conta; e se nunca viemos ao rancho do Cipó, foi porque nunca pensamos que o Tunda-Cumbe a tivesse trazido para viver junto dos negros e cabras safados que compõem a sua quadrilha. Mas desta feita o meu destino será outro.

— Eu estou aqui desde que ele me roubou do Bujari. Não viu você a mulher que estava comigo e ficou de voltar? É a caseira do Pedro de Lima, que ele encarregou de me espiar.

Lourenço ficou silencioso um instante, como quem refletia.

— Agora, disse depois, a ocasião não é das melhores para ir comigo, porque não vou para o Cajueiro, vou até fugindo dele.

— Não me diga isso, Lourenço, tornou Bernardina pesarosa. Não o deixarei sair sem me levar em sua companhia. Ainda que vá para o inferno, irei com você, porque tão cedo não se há de oferecer outra ocasião.

Depois de novo instante de silêncio, disse o rapaz:

— Quer tomar um conselho? Deixe-me ir primeiro aonde tenho de ir, a Tracunhaém, a ver se dá algum jeito para livrar-se da prisão seu Cosme Bezerra e os irmãos. Na volta passarei outra vez por aqui, e então você irá comigo.

— Ora, Lourenço! disse a rapariga ainda mais magoada. Você está com isso para se livrar de mim. Sou uma desgraçada.

Os olhos da gentil matuta, há pouco tão cheios de alegres brilhos, inundaram-se de tristeza e lágrimas.

Lourenço reparando na mudança, sentiu-se comovido.

Para consolar a moça, apertou-a contra o coração com ternura e meiguice infantil.

— Para que diz isso de mim, Bernardina? Você bem me conhece, e sabe que eu não sou de prometer uma coisa e fazer outra.

Nisto o cão, que há pouco ladrara, começou a ladrar de novo. Ouvindo os latidos, Bernardina sentou-se na rede.

— É sinhá Manuela que volta. Não posso mais demorar-me.

— Talvez não seja ela. Fique ainda um instantinho só, Bernardina.

— Não; adeus. Se não nos virmos mais, leve este abraço para mamãe, e este outro para Marianinha.

Assim falando, a rapariga, de pé, inclinada sobre a rede, suspendeu e apertou por duas vezes o rapaz aos seios em quantas forças tinha.

— Este agora é o seu - disse por fim.

Lourenço, que estava já também de pé, foi o primeiro a tomar ente os braços Bernardina, cujas formas, com o ardente contato da despedida, lhe deixara no corpo deleitoso quebranto.

— Dou-lhe este abraço, para que você não se esqueça de mim.

Foram estas as suas palavras. Correu para dentro rapidamente e desapareceu.

Pouca era já a claridade espalhada no alpendre. A fogueira estava extinta. O frio da noite invadia o informe aposento. Lourenço, porém, não precisava de calor extremo para se sentir aquecido. Tinha o fogo interior, o fogo das paixões, o fogo dos dezoito anos que as provações quase ingênuas de Bernardina, tão moça como ele, haviam deixado no maior grau de intensidade.