Lourenço (Franklin Távora)/VII

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Lourenço por Franklin Távora
Capítulo VII


Não tinha cessado ainda, se não aumentara, a agitação em Goiânia, quando Lourenço chegou ai Cajueiro, de volta de Tracunhaém.

Vinham com ele vários almocreves com quem se juntara algumas léguas atrás. Iam todos àquela vila, e eram antigos conhecidos de Lourenço, que uma hora por outra se encontrava com eles nos caminhos e ranchos.

Uma circunstância muito contribuíra, pouco antes de chegaram ao Cajueiro, para estreitar cada vez mais as relações de simpatia que já ligavam a maioria deles ao rapaz. Foi o caso que jornadeavam muito tranqüilamente, quando de improviso lhes aparece pela frente uma partida de bandoleiros. Apenas avistam o comboio, o chefe do bando e mais três que o seguiam de perto, foram ao seu encontro; e sem mais nem menos, intimam-lhe que entreguem os animais por ordem de Tunda-Cumbe, para que o bando pudesse realizar certa diligência de que estavam incumbidos. Naqueles tempos o terror dominava todos os que não pertenciam à classe elevada do partido do governador. O povo não tinha direitos. Qualquer bandido julgava-se autorizado para apoderar-se da propriedade do pobre, e fazer dele o seu moço de recados. Inúmeros pais de família, pertencentes à classe desfavorecida, perderam muitos dias de serviço por se ocuparem na condução de ofício ou outro qualquer objeto a pontos longínquos, por ordem de agentes subalternos. Por isso a intimação foi ouvida pelos almocreves como uma sentença de que não havia onde apelar.

Não estavam os bandidos acostumados a declarar as suas vontades sem as verem imediatamente cumpridas. O chefe, que vinha a cavalo, atirou-o com força que pôde sobre o matuto que mais próximo estava, dizendo arrogantemente:

— Ainda estão montados? Não ouviram o que lhes disse?

Seus olhos tinham a expressão da insolência brutal que caracteriza o poder nos agentes subalternos.

— Montados estão e estarão - advertiu a este tempo um grito que viera ecoando por sobre as cabeças dos almocreves parados na frente.

Súbito, por entre eles, rompe o que soltara aquelas palavras. Era Lourenço.

Logo que se achou diante do chefe, o rapaz prosseguiu assim:

— Então vosmecê entende que quem comprou um cavalinho com o suor do seu rosto, e dele precisa para seu meio de vida, há de entregá-lo a quem quer andar montado à custa dos outros?

— Que desaforo! gritou o chefe em brasas. Atreves-te a fazer-me observações, confiado?

— Este pé-rapado precisa de uma roda de pau - disse um dos da tropa, aproximando-se de Lourenço.

Este já tinha o facão desembainhado na mão.

— Desaforo é o seu - respondeu ele ao chefe. Nenhum de nós está resolvido a entregar o seu animal. Ainda quando todos entregassem o seu, eu cá não entregarei o meu castanho. Se os senhores andam em diligência, sigam o seu caminho devagar, para não serem pressentidos; agora se andam fazendo coisa que não devem, estão pior um pouco.

Soava ainda o veemente protesto, quando um dos bandoleiros fez menção de pegar no cabresto do castanho; mas antes que mão tocasse a corda já o braço se retraía à dor de uma forte pancada que sobre ele vibrara Lourenço, o qual, voltando-se aos almocreves, lhes falou com gesto imperioso.

— Para diante, para diante, camaradas!

E deu o exemplo, esporeando o castanho que tão depressa sentiu a espora, como rompeu caminho, aos pinotes e aos coices, por entre a tropa, debaixo de um chuveiro de pancadas.

A tropa tentou então impedir a passagem dos almocreves; mas já foi tarde: o exemplo de Lourenço levantara os espíritos. Não houvesse um só dentre aqueles que não desse mostras de grande valor. Aos golpes dos bandidos, respondiam com chicotadas e pranchadas. Estando a maioria dos bandidos a pé, não foi difícil aos almocreves escapar-lhes. O chefe e dois ou três, quando muito, que estavam cavalgando, cansados animais, ainda tentaram atalhar a fuga, descarregando as armas de fogo que traziam sobre os que fugiam. Mas, assim que viram Lourenço seguidos de três ou quatro mais animosos torcer para trás, e de facão em punho, fazer-lhes frente, sobrestiveram, espantados de tanta coragem e receosos de serem vítimas deles.

— Havemos de encontrar-nos muito em breve - disse o chefe.

— É quando quiser. Ando sempre por estas estradas a qualquer hora do dia e da noite - retorquiu Lourenço.

Assim falando, voltou com os quatro a reunir-se aos outros, que, livres do embate, já corriam à brida solta pela estrada afora.

Começaram agora as reflexões sobre o que poderia acontecer-lhes. Fracos homens do povo, sem o menor amparo, porque o único que tinham eram os senhores de engenho, por então ainda em mais estreitas condições do que eles mesmos, levaram algum tempo, não a mostrar-se arrependidos do seu procedimento, mas lastimando-se por ter a sorte criado para eles tão perigosa alternativa. Lourenço porém tratou de tranqüilizá-los, o que lhe não custou muito, porque a sua energia impusera os seus sentimentos aos outros, que, se já o estimavam antes, agora não só começaram a respeitá-lo, mas até a chamá-lo digno de sua confiança.

— Não tenham medo destes assassinos, destes ladrões do alheio, que só têm valentia par as mulheres que vestem saia, para os poleiros de galinhas, as estrebarias de bestas velhas mal guardadas e os chiqueiros dos porcos.

— Eles são capazes de esperar-nos na vila e prender-nos.

— Pois então, em vez de tomarem vocês o rancho, façam a sua pousada no mato. Mas afora me lembra uma coisa. O rancho é na entrada da vila, e eu moro muito para cá do Cajueiro, como vocês sabem, e a minha casa, que por ora é uma palhoça, está sem gente, porque a minha mãe foi fazer companhia à senhora do engenho Bujari. Podem vocês arranchar-se na minha palhoça, que fica da estrada muito para dentro, e de noite não se vê; amanhã de manhãzinha seguirão então para Goiana. De dia e dentro da vila já eles, se aí ainda se acharem, não farão o que lhes vier nos narizes; porque, ainda que os mascates estão de cima, sempre nos povoados há alguém que fala pelos perseguidos.

Este alvitre de Lourenço foi aceito com reconhecimento por todos os almocreves, e ainda mais acrescentou o seu vulto, já desenhado em grande tela na imaginação deles.

Quando chegaram à palhoça, era quase noite. Lourenço apenas lhe deu os esclarecimentos necessários, continuou a jornada até Bujari, onde não se demorou, e mais tarde, com o intento de saber se o encontro com o bando já era conhecido na vila e se tomavam providências contra os desobedientes, dirigiu-se até lá.

Goiana estava cheia de uma notícia, mas de estrondo - a prisão dos irmãos Cavalcanti.

— Quero ter o gosto de vê-los entrar aqui amanhã com as cordas nos pulsos - dizia um mascate. Quero chegar-me ao Cosme, que de todos ele é o mais peitudo, e perguntar-lhe: "Onde está a tua fama, pé-rapado mofino?"

Outro dizia:

— Hei de dar-lhe uma bofetada e ameaçá-lo de dar outra se ele não disser em altas vozes: —"Viva quem me deu". Só assim me pagará o pouco caso em que sempre me teve esse ruim e arrogante mazombo.

— Cá as minhas contas são com o André, que ainda pela última quaresma teve para mim gestos de desprezo, por lhe parecer que estavam mal pesadas umas caixas de açúcar que mandara para o meu armazém. Chegou a chamar-me ladrão. Hei de lhe perguntar quem é mais ladrão - se o que está solto e livre, tratando do seu negócio, ou se o que vem amarrado, e em pouco tempo há de subir à forca?

É impossível dar uma idéia aproximada da angústia de Lourenço, quando soube a cruel notícia, e da aflição, que o possuía por não poder dar incontinenti o castigo a quem o merecia, quando nos adjuntos pelas ruas, e nas portas das tabernas e das boticas, ouvia semelhantes projetos de vilãs vinganças contra os nobres em quem se acostumara a não pôr as vistas senão com respeito.

— Que desgraça, meu Deus! Parece que não ficará um fidalgo que não seja preso. Mal pensa seu Cosme o que está para lhe acontecer.

Cosme Bezerra, entretanto, confiando na promessa do Coronel Braga, pôs o espírito ao largo, e da grandeza do infortúnio tratou de tirar forças e resignação maiores que o mesmo infortúnio para o vencer com dignidade.

— Estou preso como um cativo, mas no meu crime há um protesto em favor da liberdade dos pernambucanos. Demais, desobedecer ao despotismo, à violência, em lugar de crime, é direito. Poderão matar-me, porque são assassinos; poderei subir à forca, e outro fim não espero, se antes disso não me assassinarem por estes caminhos, sob qualquer pretexto para se verem logo livres de mim. Mas, meu nome passará, com meu ânimo, ao grande quadro da história de Pernambuco, onde vêem desenhados vultos tão ilustres, que basta ocupar um lugar ao pé deles para ter seguro o respeito dos pósteros.

Mal acabara este solilóquio, quando, erguendo a vista à roda de si, sentiu que o espírito se lhe abatia repentinamente. Conhecera os lugares que o dia, ao romper, lhe ia mostrando aos olhos. Estava na estrada de Goiana.

Mas o abatimento foi rápido; a antiga energia correu de novo pelas veias do brioso goianista; o espírito ergueu-se-lhe fresco, forte, diante das paisagens natais, alentado pela sua gentileza em que se deliciara nos bons tempos da mocidade.

— Vamos entrar em Goiana, disse a Luís Vidal.

— É verdade, respondeu este tristemente.

Neste momento passou por junto dos presos o Coronel.

— Sr. Coronel, disse-lhe Cosme, quer ter a bondade de ouvir uma palavra?

Braga aproximou-se.

— Se não me engano, este caminho vai dar à vila de Goiana.

— É verdade.

— Mas vós me prometestes que passaríamos por fora.

A estas palavras, Jerônimo Paes, que se aproximara também dos prisioneiros, disse:

— O Sr. Coronel fez esta promessa, é verdade, mas mudou de resoluções, por eu lhe lembrar uma circunstância. Como extremosos filhos, segundo inculcais, da terra que vos viu nascer, seria grande crueza cortar, para não vê-la pela última vez, por escusos atalhos e rodeios.

— Eu não me dirijo a ti, vilão imundo, retorquiu Cosme.

— Sr. Cosme Bezerra! advertiu o Coronel Braga.

— Dirigia-me a vós, Coronel, que aliás sois também um vilão ruim, um homem infame, um soldado covarde, que outros não cabem a quem falta à palavra dada a um nobre prisioneiro.

— Os cães acorrentados ladram com mais fúria do que os soltos, replicou Braga.

E deu o andar, enquanto Paes, achegando-se mais da mó formada pelos prisioneiros, ia talvez erguer o chicote para flagelar Cosme na face, quando foi compelido a voltar-se para inquirir com as vistas a causa de um ramalhar violento que um dos lados do caminho se fizera sentir.

E volver as vistas, ao ponto, foi o mesmo que ver uma partida de cavaleiros armados de facões e pistolas correr sobre a tropa. O Coronel deu imediatamente ordem para que as forças cercasse os presos e disparasse as armas contra os assaltantes. Poucos tiros soaram; com a umidade da noite, as escovas da maior parte das armas haviam esfriado e muitas destas mentiram fogo. Não se viu depois senão um torvelinho medonho e indescritível. Os cavaleiros caíram sobre a tropa, e a patas de cavalo, começaram a atropelar os que não lhe davam passagem. Braga, que descalvagara momentos antes de falar com Cosme Bezerra, não teve tempo de tomar o seu animal. Jerônimo Paes, porém, homem de lutas desabridas e de valentia, tivera tempo de saltar sobe a sua cavalgadura, e com a espada investia, em defesa dos que formavam um círculo à roda dos presos, como possesso do gênio do mal.

Esta luta durou poucos momentos, porque um dos assaltantes correu acesso em valor, ao círculo, e expondo-se a dezenas de golpes, pode romper o cordão, e chegar até aos prisioneiros.

És tu, Lourenço, és tu, Lourenço! clamaram os nobres admirados de tanta bravura, e satisfeitos com a nova face que a sua sorte apresentava, um momento depois de ter para eles uma das mais feias carrancas.

— Sou eu mesmo, seu Cosme. Em poucos instantes, seu Cosme, havemos de mostrar a estes safados mascates para quanto prestam os pernambucanos.

O facão de Lourenço cortava já os últimos nós da corda passada à roda dos braços de Cosme, quando uma pranchada vigorosa fez o rapaz sobressaltar. Com este novo estímulo, o homem mudou-se em fera. Perdida a sensibilidade que o momento exigia, deixou a obra de salvação em mais de meio, e voltou-se para investir contra o seu ofensor. Inexperiência da idade que frustrou a grande obra quase terminada.

O ofensor era Jerônimo Paes. A sua coragem, se fosse ajudada de força tão extensa como ela, seria, talvez, digna de competir com a de Lourenço; mas só este, de todos os que ali estavam, trazia os dois tesouros reunidos. Descarregar um golpe sobre Jerônimo foi o mesmo que prostrá-lo; mas quando ia acabar com este inimigo, teve que volver a sua atenção para outro ponto, donde um da tropa dissera aos camaradas:

— Não esmoreçam, minha gente, que ali vem o Tunda-Cumbe.

João da Mota, receando que os nobres que andavam foragidos pelos matos se reunissem e tentassem tomar os presos trazidos do norte, dera a ordem para que Tnda-Cumbe, que já voltara do Recife, onde deixara os outros presos, fosse reforçar com gente fresca e descansada a que trazia tantos dias de jornada passando rios cheios, fomes e outras inclemências naturais da longa digressão pelo sertão. E porque tinha recebido informação do Coronel Braga sobre a hora da entrada na vila, muito cedinho fizera partir o Manuel Gonçalves com trinta homens do seu séquito.

Tunda-Cumbe caiu sem piedade com os seus sobre os assaltantes, e não obstante terem estes já do seu lado a vitória, pode, a golpes e a tiros, dispersar os que não morreram no meio da luta.

Os assaltantes não eram outros senão os matutos a quem Lourenço dera pousada em casa à noite anterior.

Eis o que tinha havido:

Voltando à palhoça, com grande mágoa, pelo que vira e ouvira nas ruas e tabernas onde se tratava da recepção hostil a Cosme e aos irmãos.

— Trago o coração negro, como tinta de escrever - dissera. Meu desgosto é tão grande que, se não tivesse pai e mãe ainda vivos, eu me atiraria por aí além, em busca da morte.

— Ora, deixe-se disso, Lourenço. Não vejo razão para essa zanga.

— Olhem vocês. Enquanto eu não tomar uma desforra desses mascates, e dos ladrões que andam aí prendendo a gente limpa da terra, eu não fico bom nem tenho sossego. Estou em termos de arrebentar.

Então lhes referiu o que ouvira e presenciara na vila.

— Mas, por que não tiras a desforra? Que te falta? A ocasião não podia ser melhor. Vamos tomar os nobres pelo poder da força.

— Este é o meu intento, e se vocês me ajudam...

— Ora! disse um. Somos tão somente nove, mas assim mesmo havemos de dar o que fazer.

— A minha birra é com o ladrão desse peixeiro desprezível, o desavergonhado Tunda-Cumbe, que traz galões dourados nas mangas, quando devia trazer algemas.

— Pensa você então em se pegar com o Tunda-Cumbe que, além de não ser peco, valha a verdade, traz consigo tanto cabra matador, e tanto negro feio mandingueiro?

Lourenço sorriu em ar de mofa e impaciente.

— E por que não me hei de pegar com ele, Manoel Félix. Eu só sou capaz de lhe dar com a bainha da minha faca nas ventas quanto mais se vocês lhe fizeram uma perna. O marinheiro bem me conhece, e tem-me ronha. Em um samba que houve o ano passado, em casa do defunto Vitorino, o Tunda-Cumbe bem viu o pau da minha canoa. Há pouco tempo mesmo ele sentiu no braço o dente da minha faca; se as folhas dos paus não estivessem tão embrenhadas, havia de sentir o gosto dela, não no braço, mas no coração, que foi para aí que eu a atirei. Eis aí. Vocês bem sabem a cantiga que eu canto:

Não tenho medo de homem

Nem do ronco que ele tem

O besouro também ronca

Vai se ver, não é ninguém.

— Está bem, basta, Lourenço.

— Você também parece que está com medo, Antonio Luís. Ora não seja mofino, que um homem quando come carne e farinha é para ser duro.

— Eu não tenho medo. Por mim está já assentado que tomaremos os presos das mãos dos malvados.

Os matutos escorvaram algumas armas de fogo que traziam, examinaram os facões e as facas, e puseram-se a espiar o momento do assalto. No outro dia de manhã apontou a escolta na extremidade do caminho. Foi então quem por entre as folhagens que lhes serviam de graciosa e natural moldura, caíram os almocreves sobre os soldados.

Lourenço lutou até não poder mais, até ficar só em campo, e seria vítima debaixo do peso do grande número do bando, se Cosme Bezerra, que chegara a ter um braço livre, não descarregasse uma arma contra o Coronel Braga. Supondo que este ia morrer, as atenções dos bandidos e soldados dividiram-se entre os prisioneiros e o ferido. Neste momento pôde Lourenço escapar-se. O chão estava juncado de cadáveres.

Das onze horas para o meio-dia, um homem, que entrara gacheiro, afastando os matos aqui, unindo-se acolá, para passar sem ser visto, meteu a cabeça por entre as estacas do engenho Bujari, e correu para a casa grande.

Quando o desconhecido, cujas roupas se mostravam rasgadas em alguns pontos, cobertas de sangue em outros, penetrou na sala onde somente se achavam as mulheres - D. Damiana, Marcelina, Joaquina e Mariana - algumas delas amedrontadas da inesperada visão, chegaram a procurar os quartos para se trancarem, supondo que estavam com um malfeitor em casa. Marcelina, porém, reconhecendo logo com mágoa o filho, correu ao seu encontro, e tomou-o nos braços.

— Minha Nossa Senhora do Rosário, Virgem Santíssima! Que te fizeram, Lourenço?

Este respondeu por interrogação:

— Não passou por aqui seu Cosme com os irmãos?

— Não fales nisso Lourenço - observou Marcelina. Tem piedade daquela senhora que mal pode enxugar as lágrimas de tantas que são. Nem tu sabes o que disseram, o que praticaram os malvados. Eles aí vão ainda. Quase nos matam. Olha para aquelas urupemas. Não vês como estão quebradas e esburacadas? Não vês as paredes como estão? As balas e as pedras dos endemoninhados choveram aqui dentro. Parecia que o mundo ia se acabar, tamanho foi o estrondo, o estrago, o desatino. Com as balas e as pedras, chegavam aqui também os desaforos e as poucas vergonhas que eles diziam. A canalha do Tunda-Cumbe foi quem teve a maior parte nisso. A outra gente ia ocupada com o seu Cosme, seu André e seu Luís, e pouco se demorou à porta da casa. Sinhá D. Damiana ainda quis abrir a urupema para falar a seu Cosme. Se não sou eu, ela fazia esta asneira, e talvez não vivesse. Mas, quem foi que te pôs neste estado?

— Quis ver se podia livrá-los das mãos dos malvados, minha mãe; mas Deus não quis. Quando já estavam quase soltos, chegou o Tunda-Cumbe com a quadrilha, e não houve meio de vencer. Os meus camaradas morreram quase todos; e eu fiquei jurado pelo Tunda-Cumbe de morrer mais cedo ou mais tarde às suas mãos. Talvez que hoje mesmo ele ainda venha correr esta casa, ou vá à palhoça para ver se me encontra.

— Santo Cristo de Ipojuca! Valei-nos, minha Nossa Senhora da Conceição!

— Olhe, minha mãe, tenha paciência; porque o pior é o que eu lhe vou dizer agora. Eu não tenho medo do marinheiro, mas ele tem muito quem o acompanhe. Por isso acho bom ganhar o mato por alguns dias, até ver se as cousas tomam outra cara.

— Filho de minh'alma, queres deixar-me?

— Lourenço, Lourenço, não nos desampares - disse Marianinha.

— Que resolução é esta, Lourenço? perguntou D. Damiana, quase soluçando.

O rapaz não soube o que dizer. Calado, impassível, confuso, lançava olhares estúpidos de uma para outra das mulheres, que assim recebiam a triste declaração e sua ausência.

— Mas, minha mãe... sinhá D. Damiana... Marianinha... Se eu ficar aqui, ainda pode ser pior. Se eles me prenderem, se me levarem para o Recife, que será de vosmecês? Eu não vou desamparar esta casa por uma vez, minha mãe; Deus me livre disso; nem tenho coração para fazer semelhante ingratidão. Andarei por aqui mesmo em roda da casa, mas dentro do mato. Se os negócios forem ficando muito feios, irei para Tracunhaém; irei reunir-me a seu Falcão, que já deve ter muita gente junta.

As mulheres ouviram atentas, no maior silêncio, estas palavras, nascidas do sentimento da prudência, que era aliás obra de Marcelina no coração do corajoso jovem.

— Valha-me Deus! disse Marcelina, como quem compreendia que era absolutamente necessário resignar-se à ausência daquele que, com ser filho de outra mulher, se tornara objeto dos seus maternais afetos.

— Ele nos queria valer, Marcelina - acrescentou D. Damiana. Longe estava eu ainda há bem pouco tempo de pensar neste novo revés da minha infeliz sorte.

— Ontem era seu Francisco, hoje é Lourenço que vai deixar-nos - disse Joaquina. Será o que Deus quiser.

— Já não há corda em meu coração que não tenha estalado - acrescentou Marcelina. mas, já que Deus assim ordena, vai Lourenço, mete-te no mato, esconde-te bem dos facinorosos; e por nosso respeito não te percas. A Virgem Maria, na tua ausência há de ser a nossa advogada, há de proteger-nos.

Esta cena de dor foi interrompida pela chegada de um negro que acompanhara João da Cunha às matas e com ele seguira para a prisão no Recife. Vendo-o coberto e suor, e ofegante de cansaço de longa jornada, D. Damiana foi a primeira que lhe falou, não sem grande sobressalto.

— Que novas nos trazes, José?

O escravo fiel e respeitoso, por única resposta, entregou-lhe um papel que ela inquieta e nervosa, desdobrou rapidamente. Era uma carta do seu cunhado Amador Cavalcanti, senhor de engenho, residente em Jaboatão.

Eis o que continha a carta:

"Prezada prima

Escrevo-lhe estas regras quase às escuras, porque estou na semi-tumba das Cinco Pontas, onde me recolheram ontem, por ordem do governador depois de sofrer os maiores vexames da quadrilha do Camarão que me prendeu.

Vim aqui encontrar o meu irmão, o seu marido João da Cunha.

Mal poderá imaginar em que estado o encontrei. Ferido, enfermo, maltratado pelos nossos verdugos... não tenho ânimo para lhe dizer tudo; mas o parentesco e a amizade não permitem furtar-me a este penoso dever.

Hoje, pela manhã, ele chamou-me para junto de si; os seus ferimentos tinham se agravado. Mal pude entender o que me disse; digo mal: não entendi uma só das suas palavras.

Abraçou-me, e inclinou a cabeça sobre o peito. Não a levantou mais, senão talvez para comparecer perante o Criador, que nos há de julgar e vingar.

Resigne-se

AMADOR CAVALCANTI

D. Mariana caiu quase sem sentidos nos braços de D. Marcelina. Os soluços queriam arrancar-lhe a vida.

A este tempo, Cosme Cavalcanti e os irmãos, atravessavam a rua principal de Goiana no meio do mais público espetáculo cujo único objeto eram eles.

Para que fosse esplêndida a recepção das ilustres vítimas, os principais mercadores da vila tinham ordenado comédias e cavalhadas.

Fogos estouraram de todos os cantos e alguns sinos repicaram em sinal e alegria, logo que os presos se aproximaram. Na rua das Portas de Romão armara-se um tablado pelo modelo do que se tinha levantado em Olinda para festejar a chegada do governador, a 7 de dezembro de 1711. Aí apareceram cinco figuras ricamente vestidas; quatro representavam as quatro partes do mundo, e outra, Goiana.

O tablado ficava como o de Olinda. debaixo de uma "parreira agradável na forma, e abundante de uvas, com passarinhos que as depinicavam".

Quando os presos passaram pela frente do tablado a figura que representava Goiana fez sinal que parasse o troço, e com ênfase dirigiu "em romance curioso, uma alocução a Jerônimo Paes, que exaltou como benemérito do povo e da realeza". A rua não tinha mais onde se pôr um pé de pessoa. A vila em peso, uns por satisfação, outros por natural curiosidade, assistia ao estrepitoso espetáculo.

Os mercadores mais dinheirosos distribuíam aos soldados peças de ouro e bebidas finas; a plebe atirava insultos e injúrias aos algemados.

Estes nunca haviam demonstrado tanta nobreza no gesto e no porte. Tinham a serenidade de mártires. O silêncio dava-lhes gravidade, e a elevação da face deixava manifesto que os seus espíritos, longe de rastejarem, se sustentavam na altura do seu nome e posição.

A um insulto que lhes dirigiu o taberneiro Joaquim Rodrigues, Cosme Bezerra retorquiu:

— Insulta os nobres que vês presos, marinheiros; mas fica sabendo que se não pudermos algum dia ajustar as nossas contas contigo, ajustá-la-ão com os teus malungos, que para cá vierem, os nossos filhos, os nossos netos, enfim a nossa geração; ódio eterno à tua raça é a primeira herança que ensinaremos e deixaremos aos nossos descendentes.

— Toma lá que te dou, profeta sujo - retorquiu-lhe em ar de zombaria o taberneiro.

E atirou-lhe uma moeda de cobre.