Lourenço (Franklin Távora)/VI

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Lourenço por Franklin Távora
Capítulo VI


João da Mota chegou com a tropa à Goiana, no dia seguinte ao da partida de João da Cunha para as matas.

Faltam-me expressões para pintar o estado de agitação da vila, desde as primeiras horas do dia. Soubera-se da fuga do sargento-mor, e não fora preciso mais para que os que eram pelos mascates se considerassem absolutamente invencíveis e irresponsáveis, e os que pertenciam ao partido oposto se sentissem mortalmente desanimados. Não havia então em Goiana os dois partidos que antes lutavam para aniquilar-se mutuamente. Agora ela se mostrava dividida em um campo vencedor e outro vencido; neste dominava o terror, naquele exercia poder absoluto a vingança sedenta de escândalo e sangue. Os nobres de grande representação na vila, que antes da chegada do governador, tinham, à frente de uma parte da população, batido o pé à outra parte que lhes fazia face, esses desapareciam do dia para a noite, por não serem vítimas. Ficava o povo fraco e desamparado, e em cima dele caía o peso da desforra.

Das dez para as onze horas da manhã foram presos Jorge Cavalcanti em seu sítio da Conceição, e Manoel de Lacerda quando saía da sua propriedade do Tanquinho.

Antes disso já se soubera em Goiânia da prisão do sargento-mor Jorge Camelo de Valcácer, e dos capitães Antônio Rebello e José de Barros Cavalcanti na Paraíba, para onde se haviam retirado, logo que em Goiana, onde, pela sua longa residência, contavam contra si muitos dos principais mercadores, se teve conhecimento das prisões no Recife.

Jerônimo Paes e os filhos, que chegaram com João da Mota, ao saberem que, além de João da Cunha, puderam escapar-se os irmãos Cavalcanti, lastimaram tão importantes perdas. Por sua conta procederam imediatamente as indagações a fim de averiguarem onde paravam os fugitivos. Os segredos, por mais bem guardados, acham sempre reveladores. Tanto indagaram eles que, por boca de um fâmulo, vieram a ter certeza de estarem os Cavalcantis no Açu, onde possuíam fazendas de gado.

Jerônimo Paes, vencido do ódio que votava a Cosme, ofereceu-se a João da Mota para ir, pelo Ceará, prender-se os três expatriados. Aceito este oferecimento, expediram-se as necessárias ordens ao governador Manoel da Rocha Lima; e Jerônimo partiu a seu destino.

A ausência destes ardentes sequazes dos mascates moderou, mas não fez cessar inteiramente a agitação, que, como febre, dominava o povo da vila. Belchior, Manoel Rodrigues, Manoel Gaudêncio, Romão da Silva, e até o preto Lauriano alentavam a efervescência pública, ora percorrendo as ruas, em vociferações, ora comentando em adjuntos nas esquinas e adros, os acontecimentos que se davam; agora, soltando vivas e morras, agora penetrando nas casas onde se achavam as mulheres e filhas dos nobres, para as insultar e desacatar. A medida da desforra era como o tonel das Danaides: não se enchia nunca.

Nos semblantes desfigurados desses homens que as bebidas alcoólicas, larga e gratuitamente fornecidas por taberneiros sem fé nem moral, tornavam mais malvados do que na realidade eram liam-se baixos sentimentos e paixões indignas que a polícia do tempo, em vez de açular como fazia, visto que era conivente nas desordens e motins, devia refrear e punir.

Quando constou a prisão do senhor do engenho Bujari, subiram à altura de delírio as demonstrações e regozijo com que os inimigos a festejaram.

À frente de um espesso magote, de que faziam parte os mais afamados vultos da gentalha, Belchior correu ao condenado engenho, alvo das mais entranháveis animadversões vilãs. A casa grande mereceu as honras da primeira vítima: apedrejaram-na, tomados de brutal sanha. Os insultos praticados foram tanto mais agravantes quanto aumentaram a dor de uma senhora ilustre, que, no resignado martírio, buscava remédio contra a saudade. D. Damiana teve, por fim, de suster as lágrimas para cuidar da sua defesa. Afigurou-se-lhe não sem razão, que o engenho passaria pelo mesmo transe de que fora vítima um ano antes, como o sobrado do pátio do Carmo. Poucos eram os escravos restantes, e estes mesmos em sua maioria, velhos. Marcelina estava ao seu lado. Por conselho dela, trancaram-se todos a fim de ver se quebravam a fúria da canalha, por esta demonstração de fraqueza. Os exaltados que capitaneavam a partida desordeira tiveram um momento de senso comum, e dando-se por satisfeitos com o apedrejamento da casa, a gritaria da plebe, as injúrias atiradas a Escopeteira, voltaram à vila, onde repetiram o que nos dias precedentes haviam feito - o insulto às famílias, a violação do lar doméstico, destruindo o que não tentava a sua cobiça e levando aquilo em que ela se comprazia.

Dias depois da feroz romaria ao engenho, novo ensejo ofereceu-se ao espírito de perturbação para prolongar o seu estúpido entusiasmo - a notícia da prisão de Cosme Cavalcanti, André Cavalcanti e Luís Vidal. Parecia que a vila vinha abaixo, tamanha foi a vertigem das turbas sem freio.

Era situada a fazenda de gado de Cosme Cavalcanti na comarca de Açu, à margem de um rio. Receando ser aí mesmo perseguidos, não obstante estarem muitas léguas distantes dos rancores e vinganças pessoais, resolveram ocultar-se não na casa da fazenda, mas em uma palhoça em que os vaqueiros se recolhiam por ocasião da ajunta do gado. Para mais segurança, somente tomavam a palhoça de dia: as noites iam eles passá-las numa caatinga.

Cosme pouco ou nada pudera fazer para a formação do corpo de milicianos que planejara. Todos os vaqueiros e criadores tinham sido chamados antes de sua chegada, pelo governador Manoel da Rocha Lima, a pegar em armas; a maioria deles ocupava-se em proceder a diligência contra a nobreza. Depois de esforços incomparáveis, reconhecendo que somente lhe estava como único recurso, encobrir-ser às vistas dos que tramavam incessantemente o seu aniquilamento, chamou para junto de si os poucos sertanejos que pôde reunir, e os escravos fiéis. Mas esta resolução quando foi tomada, já não podia surtir o efeito esperado, era de todo sabido que ele estava no lugar, e o governador já aparelhava expedição para dar no rancho, quando chegou Jerônimo Paes, com as requisições do governador de Pernambuco. Então não houve mais demora, Rocha Lima encarrega o Coronel do Açu, João de Barros Braga, de prender a todo custo os emigrados pernambucanos. Um vaqueiro, encontrando-se com a força, deitou a correr para preveni-los. Fizeram-lhe fogo pelas costas, e ele caiu com uma perna quebrada, correndo-lhe o cavalo. Ao estrondo dos tiros, o mulato Barnabé, de um dos homiziados, acode com uma espingarda que dispara contra a tropa. O tiro emprega-se em um dos soldados e prosta-o morto, por terra; mas imediatamente dão uma descarga, contra o escravo, que cai atravessado por balas. Dando-se estas tristes cenas quase defronte a palhoça, não tiveram os homiziados tempo de fugir. Perdido esse recurso, trataram de combinar meios de defesa.

— Não vejo nenhum, a não ser a fuga - disse Luís Vidal.

— A fuga? inquiriu André Cavalcanti. Mas por que modo? A tropa aí está.

Cosme cortou a discussão com estas palavras decisivas.

— Cosme Bezerra Cavalcanti, quando tem pela frente o inimigo, não sabe dar-lhe as costas. Para que nos hão de servir as armas e munições que trouxemos de Goiana? Lutaremos como homens até morrer, mas não fujamos jamais, como fracas mulheres, quando está com vistas em nós o inimigo, que atiraria contra nós pelas costas, como se faz aos covardes, se usássemos esse meio indigno.

Não tinha ainda acabado, quando rompeu o fogo de fora sobre a frágil cabana.

Eram doze a dezesseis homens os que haviam dentro, doze a dezesseis para um troço de cinqüenta a sessenta, bem municiados, tendo consigo a força da autoridade. Travou-se desigual, porém fortíssima luta; mas a vitória, ainda que demorada, não podia caber a quem estava cercado, e recebia balas por todos os lados cada qual mais exposto às agressões. No medonho conflito, Cosme chegou a matar um dos agressores, e ferir dois mortalmente. E porque, não obstante a superioridade em número da tropa sobre os da casa, a resistência se prolongava tenazmente, lembrou-se o coronel Braga de um recurso trivial e covarde contra os que de dentro combatiam como heróis - o de por fogo na palhoça. Então a defesa tornou-se de todo o ponto impossível. Logo que as chamas começaram a invadir o âmbito, André e Luís Vidal, depondo as armas, entregaram-se à prisão. Cosme não fez outro tanto; os seus ânimos não se compadeciam com esta solução de prudência extrema: resistiu até onde foi humanamente impossível. Quando as labaredas, cercando-o por todos os lados, o ameaçavam com mais fúria do que os inimigos que, aliás, de fora não cessavam de ajudar o terrível elemento com tiros sem conta, saltou por uma janela resolvido a abrir, ainda assim, caminho por entre as chamas e os agressores, intento que se frustrou.

— Isto não é nada, é a vossa hora derradeira, Sr. Cosme Bezerra - disse um dos da escolta, levantando-o do chão onde o nobre caíra por ocasião do salto.

Cosme, ainda aturdido da queda, volvendo as vistas ao que lhe falara, reconheceu Jerônimo Paes.

Trazia este na mão uma catana desembainhada. Dos olhos fuzilavam-lhe brilhos indescritíveis. O rancor, a cólera, a vingança satisfeita nunca tiveram mais fiel e completa expressão.

— Eu contava com o assassínio como termo natural desta perseguição - respondeu Cosme. Quando saltei pela janela para não morrer pelo fogo que a vossa covardia pôs na casa, escapuliu-me a arma da mão, e caindo em baixo desloquei um pé. Estou que nem posso andar; valho menos que uma criança. Não é pois de admirar que me assassineis.

— Não vos façais de fraco e inocente. Há algumas horas que resistis com as armas nas mãos, ferindo e matando gente. Ali estão três camaradas a quem tirastes a vida; vede aqui quanto sangue derramado de outros três que nem se podem mexer. Como é que agora que vos pondes numa cruz, dizendo que somos assassinos?

Cosme nada respondeu. Tinha nesses momento os olhos voltados para André e Luís Vidal que, no centro da escolta, recusavam entregar os pulsos às cordas com que, por ordem do coronel Braga, pretendiam manietá-los.

— Somos nobres e não temos nenhum crime, dizia Luís Vidal. Não nos sujeitaremos jamais à infâmia de nos deixar amarrar como cativos ou vilões.

— O tempo da nobreza acabou - respondeu um, chacoteando.

— Falais ainda em nobreza, mazombo? Tu e teus irmãos não passais de rebeldes. Havemos de pôr as cordas em todos vós. Haveis de pagar-nos o novo e o velho.

Foi frustrado todo o esforço dos vencidos. No meio dos maiores impropérios, seis robustos ilhéus que acompanhavam a força, ataram os três irmãos com os vaqueiros, e, o que é mais, com os próprios escravos que não haviam caído na luta. Quando Cosme, passada a exaltação, reconheceu que sem forças, sem armas, sem um braço livre que o defendesse, não era mais que um réu no poder de verdugos apaixonados, pensou em diminuir a humilhação; e valendo-se do momento de vir o coronel fazer-lhe certas perguntas sobre os bens que possuía, dirigiu-lhe estas palavras:

— Não sei, Sr. Coronel, se alguma vez vos ofendi. A minha consciência apressa-se a dizer-me que nunca dei motivo ao vosso desagrado, quanto mais ao vosso ódio. Mas se não é esta a verdade, peço-vos me declareis a minha culpa, que talvez possa convencer-vos da sem razão.

Braga respondeu:

— Sr. Capitão, de vós nunca recebi a menor ofensa. Apenas vos conheço.

— E por que então procedeis tão atrozmente conosco?

— Cumpro ordens. As instruções do governador, que me foram transmitidas, são positivas e rigorosas. Parece-me que, se por qualquer circunstância, o que Deus não há de permitir, viésseis a escapar de meu poder, a minha cabeça pagaria esta desgraça.

— Não penseis que estranho a parte que tomaste em nossa prisão; o que estranho é a descortesia que tendes com presos a quem a adversidade não pode ainda, nem poderá nunca fazer esquecer a nobreza natural do seu caráter. Uma vez presos, Coronel, nem Cosme Bezerra Cavalcanti, nem André Cavalcanti, nem Luís Vidal Cavalcanti fugiriam jamais ainda que lhes fosse fácil a fuga. A sua palavra honrada tornaria indispensáveis cordas e algemas.

— Sr. Cosme, eu não acredito na honra, na nobreza e ainda menos nas palavras dos rebeldes - respondeu o coronel. Haveis de seguir amarrados até o Recife. As instrução que me foram dadas não permitem lugar a outro procedimento.

Cosme sorriu com amargura.

— Enganai-vos, coronel, se pensais que vos peço misericórdia. Podeis em lugar de cordas mandar pôr em nossos pulsos pesadas algemas; podeis pôr-nos à ração de pão e água: com isso não fareis mais que antecipar os tratos que nos esperam na semi-tumba das Cinco Pontas. Não vos peço que mandeis afrouxar as cordas que estão cortando os meus braços, tamanha foi a força que Jerônimo Paes os amarrou. Seriam indignos da causa que nos faz sofrer, se vos pedíssemos brandura em vez do rigor a que temos direito.

— Não sei o que quereis dizer.

— Quero saber se nas vossas instruções vem determinado o itinerário, como vem, ao que parece, o modo de sermos levados presos.

Depois de refletir por alguns instantes, Braga respondeu:

— Quanto ao itinerário, nada se me determinou.

— Portanto uma vez que nos leveis ao Recife, tereis preenchido a vossa obrigação?

— Certamente.

— Pois bem. É agora que vos peço um favor.

— Qual é?

— Imaginai que em vez de sermos vossos prisioneiros, éreis vós nosso; e que, em vez de seguirmos para o Recife, teríamos de ir a um ponto além do Açu, donde sois natural, onde viste correr a vossa mocidade, onde tendes representação. Qual dos dois caminhos preferidos - o que passa por dentro do lugar do vosso nascimento, ou que rodeia por fora?

— Compreendi já o que desejais, disse Braga.

— Em Goiana, Coronel, nasci eu, e nasceram os meus irmãos, que estão presentes. Sou ali juiz ordinário e Capitão de ordenanças; tenho aí família e amigos que me prezam com todas as veras. Meus amigos e parentes, vendo-me passar por dentro da vila neste estado lastimoso, sentiriam o mais acerbo desgosto. Para poupar-lhes este golpe, peço-vos, que ordeneis outro caminho, onde só encontremos inimigos ou indiferente. Eis o favor.

Braga respondeu:

— Estais servido. Passaremos por fora de Goiana.

— Prometeis então que não passarei por dentro de Goiana, Coronel?

— Podeis ficar tranqüilo, que há de ser satisfeita neste ponto a vossa vontade.

— Coronel, perdôo-vos a parte que tendes tomado nos meus males, e desde já vos agradeço tamanha graça. Eu tinha-vos por vilão, mas agora reconheço que sois nobre. Beijo-vos as mãos.

Cosme fez um sinal de cabeça em sinal de reverência a Braga.