Luxo e Vaidade/II

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Luxo e Vaidade
por Joaquim Manuel de Macedo


O teatro representa um ponto do Jardim Botânico; ao fundo vê-se o lago e a pequena ilha; à esquerda grupos de bambus, à direita aparece sobre o seu outeiro um lado da casa de cedro; árvores e arbustos convenientemente dispostos.

CENA I[editar]

Maurício, Hortênsia, Leonina, Fabiana, Filipa, Frederico, Reinaldo, Lúcia e Pereira; uns contemplam o lago, descem outros da casa de cedro, etc: Anastácio, meio deitado na encosta do outeiro.

Hortênsia - Deveras que nunca vi rosa mais bela, nem mais perfeita.

Fabiana - Mas de quem seria a mão cruel que se atreveu a roubar aquela princesa do jardim? Vimos a rosa apenas alguns momentos, e quando voltamos a contemplá-la, tinha já desaparecido!

Reinaldo - A tal rosa tem dado que pensar às senhoras! oh! quem pudera transformar-me em um pé de roseira!

Hortênsia - É o mistério de uma flor, um começo de romance que enche de poesia o agradável passeio que nos proporcionou o comendador.

Pereira (Á parte) - Conheço agora que sou um homem muito espirituoso!

Lúcia - E não há quem rompa esse mistério?...

Filipa - Que mistério! Não há coisa mais simples: quem roubou a rosa foi o senhor Anastácio.

Pereira - Não, não; sou capaz de apostar que a rosa se oculta junto de algum coração apaixonado, e está reservada para ser a palma da beleza.

Frederico - E que pensa Vossa Excelência?...(A Leonina) Nem mesmo o destino misterioso dessa rosa pode arrancá-la às tristes meditações, de que hoje se mostra apoderada?

Filipa - E quem tem culpa disso é ainda o senhor Anastácio. (Rindo-se)

Hortênsia - E desta vez adivinhou, Dona Filipa: o mano levou a conversar toda a noite com Leonina, e, certamente, lhe pregou tal sermão, que ainda hoje a faz estar pensativa e triste.

Maurício - Pois vençamos a sua melancolia obrigando-a a passear; creio que as senhoras já descansaram.

Frederico - Sim, e as flores esperam as borboletas.

Fabiana - Vamos, e eu quero ser o cavalheiro de Dona Leonina: hei de conseguir torná -la prazenteira e alegre. (Dá o braço a Leonina).

Pereira (Dando o braço a Hortênsia ) - Minha senhora! (Vão saindo Fabiana com Leonina pela esquerda e Frederico com Lúcia, Pereira com Hortênsia, e Reinaldo com Filipa pela direita).

CENA II[editar]

Maurício, que vai sair, e Anastácio, que o suspende.

Anastácio - Abre os olhos, Maurício, e atenta bem: não achas que aquela mulher, levando tua filha pelo braço, se assemelha muito a um algoz que arrasta consigo a sua vítima?...

Maurício - Mas, em tal caso, que papel entendes que eu represento?

Anastácio - Pior do que um pai tolo: o papel de um pai que desconhece os seus mais santos deveres.

Maurício - Sempre impertinente, Anastácio!

Anastácio - Escuta: há vinte cinco anos aquela mulher supunha-se amada por ti, e viu em Hortênsia uma rival preferida, quando com esta te ligaste em casamento. O desprezo de um homem abre no seio da mulher uma ferida envenenada que nunca cicatriza. A ofensa, foste tu que a fizeste, mas a mulher desprezada detesta ainda mais que ao ofensor a rival que triunfou. Assim, pois, diz a lógica, que Fabiana aborrece profundamente a tua esposa.

Maurício - Viste ainda há pouco como ela beijou-a com ardor?

Anastácio - Judas também beijou a Cristo poucas horas antes de vendê-lo. Tua mulher escapou outrora à vingança de Fabiana, porque esta, casando com um oficial do nosso exército, teve de acompanhá-lo para o Rio Grande do Sul donde só voltou há dois anos, depois de viúva.

Maurício - Estás perfeitamente informado da sua história.

Anastácio - Estabelecendo a sua residência nesta capital, Dona Fabiana dissipa loucamente a medíocre fortuna que lhe deixou seu marido, e mancha-lhe o nome honrado, conquistando uma reputação tristemente famosa. É uma libertina, para quem são apenas vãos prejuízos alguns dos preceitos que constituem a moral das famílias: sua casa é o ponto de reunião de um círculo licencioso; sua conversação espalha princípios desmoralizadores, e o se exemplo é uma lição corruptora.

Maurício - És severo demais, e por isso, sem o pensar, te fazes o eco de indignas calúnias.

Anastácio - Cometeste o erro de abrir s portas de tua casa à natural inimiga de tua mulher. Tu...que se importa ela contigo?...uma mulher nunca fere um homem, quando tem uma mulher para ferir; minha cunhada está defendida por um passado que a abona, e pela idade precisa para escapar às ciladas de algum galanteio que a leve á desonra; mas leonina, moça e bela, aí está, e Dona Fabiana, envenenando a vida inteira de Leonina, de um só golpe fará a tua desgraça e a da sua antiga rival. Maurício! Abre os olhos! Por aquela rua foi um algoz arrastando consigo a sua vítima.

Maurício - Faz-me tremer, Anastácio!

Anastácio - E, supondo extinto o ódio de Dona Fabiana, não bastam os seus princípios demasiadamente livres e sua reputação dilacerada pelo público, para que o dever te mande afastar Leonina de sua companhia? Um pai que expõe sua filha às conseqüências das relações perigosas, não é um pai, é um louco, para não ser um monstro. Oh! quando uma pobre moça, uma filha pervertida pela más companhias se deixa corromper, e se avilta, o mundo antes de castigá-la com o seu desprezo, devia primeiro cuspir na face do pai desnaturado que a levou pelo caminho do vício. Era isto, que eu precisava dizer-te: agora podes ir fazer os teus cumprimentos a Dona Fabiana.

Maurício - Dezoito anos de ausência da corte puderam tornar-te hoje, e apesar da tua instrução, como um estrangeiro no meio dela; desconheces os costumes e os usos da alta sociedade, e confundes a civilização com a licença.

Anastácio - No Rio de Janeiro, como em todas as capitais do mundo, a alta sociedade conta duas classes de freqüentadores que a deslustram: uma, é dos imorais e libertinos, que dela devia ser expelidos como indignos; a outra, é a dos elegantes caricatos, ridículos macaqueadores dos grandes; pobres tolos que são castigados em sua própria vaidade: a gente que te cerca, meu irmão, pertence a essas duas classes, e tu fazes parte da última.

Maurício - Anastácio, é demais!

Anastácio - Qual demais! Eu tenho ainda que dizer-te um milhão de verdades amargas...

Maurício - Pois eu não as ouvirei, agora ao menos; e fica certo de que nem sempre são os mais avisados aqueles que presumem ter mais juízo que os outros. (Vai-se)

Anastácio - Vai, abre porém os olhos, Maurício! (Seguindo-o) Porque por aquela rua foi um algoz arrastando a sua vítima!

CENA III[editar]

Anastácio, e logo Henrique.

Anastácio - Eis aí um homem que tem uma cabeça de ferro; mas tão oca como um cabaço sem miolo!

Henrique - Meu tio, o que vossa mercê praticou hoje comigo chama-se uma traição: foi provocar-me a um passeio no Jardim Botânico, sabendo que vinham aqui passar o dia pessoas que me olham com o mais insultuoso desprezo, e obriga-me, para não encontrá-las, a correr a medo para as alamedas mais solitárias e afastadas, como se eu fora um miserável criminoso.

Anastácio - E vossa mercê, chegou há quatro meses da Europa com fumaças de artista de gênio; foi ao baile, apaixonou-se por sua prima que o não conhecia, e que voltou-lhes as costas, mal soube que o seu namorado era um pintor; então, lembrou-se vossa mercê do seu tio da roça; correu a Minas, confessou-me o seu amor, pôs-me ao fato da vida que levam seus tios da cidade, e arrancou-me da fazenda, sob o pretexto de que só eu podia salvá-los.

Henrique - E ainda bem que veio...

Anastácio - Ainda mal, porque estou desconfiando que cheguei tarde. Maurício disparou em tal carreira pela aristocracia adentro que é bem de crer que não pare senão à porta do palácio da Praia Vermelha. No entanto, eis-me arvorado em médico de loucos, e o senhor, que me impôs este mister, vem agora dizer-me que lhe estou armando traições!...Começo a acreditar que tenho na minha família mais doidos do que pensava...

Henrique - E considera-me talvez no número desses...

Anastácio - A falar a verdade, ainda não te suponho doido; mas, orgulhoso, olha que és muito, Henrique.

Henrique - É a vossa mercê que devo este meu orgulho: desde os primeiros anos senti arder em minh'alma o amor da arte; e foi meu tio que com a sua riqueza facilitou-me os meios para ir estudar na Europa. Ali, no foco da civilização, e no meio dos grandes mestres, a cada passo que avançava na conquista dos segredos da arte, reconhecia que me ia enobrecendo por ela; e quando depois de doze anos de um estudo incessante, ao apresentar um quadro que me fora inspirado pelas saudades da pátria, meu mestre correu a abraçar-me, chorando, e pintores célebres que têm um nome no mundo, me aplaudiram e me chamaram irmão, tive consciência de que valia alguma coisa; amei a minha palheta como um rei a sua coroa, e apreciei devidamente o meu nome de artista para não curvar a cabeça diante de papelões dourados. Eis aí o meu orgulho: é vossa mercê que o devo.

Anastácio - Segue-se daí que te mandei estudar para te fazer pintor, e que tu não me borraste a pintura; sê portanto orgulhoso com esses que em sua soberba desprezam o artista que vale mil vezes mais do que eles; quando porém se tratar de tua prima, perdoa-lhe as fraquezas, e humaniza-te com ela, mesmo porque a rapariga é bela como as virgens do teu Perugino.

Henrique - Quer então, meu tio, que eu me sujeite aos desdéns e aos insultos de parentes que se envergonham de mim?...Deseja, por exemplo, que Leonina suponha que eu vim hoje aqui de propósito para admirá-la...para beijar os vestígios de suas pisadas...para...Oh! não, meu tio.

Anastácio - Amas ou não amas tua prima?...Sim, ou não?...

Henrique - Ameia-a.

Anastácio - Falo-te no presente, e respondes-me no pretérito?...Tu não sabes gramática.

Henrique - Como quer que lhe responda?...

Anastácio - Sim, ou não?...amas, ou não amas?...

Henrique - Não devia amá-la.

Anastácio - Pior: tu não nasceste para pintor; nasceste para advogado e havias de ser grande na chicana.

Henrique - Não devia amá-la porque o seu coração é uma urna impura que guarda os restos de cem amores fingidos; não devia amá-la porque a sua vaidade amesquinha e desbota os seus encantos; não devia amá-la porque...

Anastácio - Mas, a pesar teu, morres de amores pela rapariga!...

Henrique - Ao menos saberei fugir dela.

Anastácio - Sim?...pois olha para aquela rua; de quem será aquele balão pavoroso, que não sei como entrou pelo portão do Jardim?...

Henrique - Oh!...é ela...eu fujo...adeus, meu tio...

Anastácio - Foge, corre depressa; mas eu no teu lugar deixava-me ficar, ocultando-me atrás destes bambus.

Henrique - Tem razão: vê-la-ei sem ser visto; mas não me atraiçoe.(Oculta-se)

Anastácio - Que ele não fugia, sabia eu muito bem! Os namorados parecem-se todos uns com os outros, com a mão direita com a mão esquerda.

CENA IV[editar]

Anastácio, Leonina e Henrique, que se conserva oculto.

Leonina - Então, meu padrinho, sempre se resolveu a vir jantar conosco!...

Anastácio - Não, senhora; não sou mulher nem político para andar mudando de opinião da noite para o dia.

Leonina - Entretanto, nós o viemos encontrar aqui.

Anastácio - É verdade, mas preferi à companhia dos seus fidalgos a de uma pessoa a quem tributo verdadeira estima.

Leonina - Sim, creio mesmo que me pareceu ter visto dois vultos, quando agora vinha chegando.

Anastácio - E encontrou só um, porque espantou o outro com a sua presença.

Leonina - Palavra de moça, que é a primeira vez em minha vida que assim espanto um homem! Quem é esse senhor espantadiço!...

Anastácio - É seu primo-irmão. (Silêncio). Sabe quem é seu primo-irmão?...

Leonina - Demais o sei e todos o sabem; ontem à noite vossa mercê descarregou um golpe terrível na minha vaidade; e embora aqueles, que nos cercavam, nos dissessem depois que raras são as famílias que não tem de envergonhar-se de algum parente menos digno, não pude mais esquecer que um irmão de meu pai é mestre marceneiro, e meu primo-irmão um pintor!

Anastácio - E perdeu por isso uma noite de sono...coitadinha!

Leonina - Perdi, sim, meu padrinho, porque a lição que vossa mercê nos deu, e depois a longa conversação que comigo teve, me convenceram de que uma fraqueza de meus pais me fez representar até hoje na sociedade um papel ridículo; porque eu ostentei um orgulho que não me assentava; pois agora eu vejo bem que não sou fidalga.

Anastácio - Ah! O juízo vai entrando nessa cabecinha de vento?...Mas por que andas hoje tão melancólica?...pensas que perdeste muito com a baixa da fidalguia?...

Leonina - Oh! meu tio, vossa mercê nunca leu no coração de uma moça. Escute: eu sei que muitas vezes o pergaminho de um nobre não pode disfarçar a torpeza de suas ações; sei que outras tantas, o cofre de um milionário é um abismo cheio de lágrimas derramadas por infelizes, mas a mulher deixa-se sempre deslumbra por esse ouropel das grandezas e ambiciona o cofre de ouro; porque, com o prestígio da nobreza suplantará as outras mulheres, e com a riqueza terá brilhantes, sedas, palácios, ostentação e luxo!...oh! nós outras somos as escravas da vaidade, e como todas eu desejava ser bem rica e bem nobre, para humilhar as minas rivais!

Anastácio - Muito bem, Leonina, essa confissão franca e sincera te absolve; ao menos não és hipócrita; continua, que estás falando perfeitamente.

Leonina - Quem mais posso dizer-lhe?...esses sonhos ambiciosos acabaram para mim, e de ora avante cumpre que eu abaixe a cabeça diante das outras senhoras, porque nas sociedades que freqüento, a menos nobre sou de certo eu.

Anastácio - Pois levanta a cabeça, menina! Porque tu és honesta e pura, e só as senhoras honestas é que são as mais nobres.

Leonina - Oh! meu padrinho! O que vossa mercê acaba de dizer é grande e generoso; infelizmente, porém, não são todos que pensam assim.

Anastácio - Aqueles que negam a primazia à virtude, são uns miseráveis. Já se foi o tempo em que um sandeu valia mais do que um sábio; um depravado mais do que o homem honesto, quando o homem sábio ou honesto era filho de um sapateiro, e o acaso dera ao depravado ou ao sandeu meia dúzia de avós, falsa ou realmente ilustres. Não temos senão uma nobreza, a nobreza da constituição, que é a do merecimento e das virtudes. Já não se reconhece privilégios, graças a Deus, e as portas das grandezas sociais estão abertas a todos os que sabem merecê-las: nobre é o estadista que se consagra ao serviço da pátria; nobre é o estadista que se consagra ao serviço da pátria; nobre é o diplomata que sustenta no gabinete a causa do país; nobre é o soldado que a defende no campo de batalha; nobre é o sábio, nobres são todos aqueles que ilustram e honram a nação, e nobre é, principalmente, a virtude que é a sublime benemérita aos olhos do Senhor!...

Leonina - Oh! e como há então pessoas que olham com desprezo para um artista?(Com viveza). O artista não pode também chegar a ser nobre, meu padrinho?...

Anastácio (Á parte) - Como ela vai escorregando para o pintor...(A Leonina) O verdadeiro artista já é nobre de si mesmo, Leonina; e a sua nobreza lhe vem de Deus, que acendeu em seu espírito a flama do gênio.

Leonina - Oh! meu padrinho? Por que não veio a mais tempo de Minas?...

Anastácio - Sim?...estás me fazendo supor que já te apaixonou por algum artista...

Leonina - Eu?...eu nunca me apaixonei por homem algum. (Rumor) Que é isso?...parece-me que senti o ruído que faz alguém, que se aproxima...

Anastácio (Indo aos bambus) - Qual! Havia de ser o vento. (A Henrique) Fica quieto, pintor desastrado!...(Volta) Continuemos: deixa-te de fingimentos comigo: tu não amas a teu primo, Leonina?...

Leonina - Por que não tratamos de outro assunto, meu padrinho?...

Anastácio - Porque é exatamente deste que eu quero tratar: dize, tu amas a Henrique?...

Leonina (Hesitando) - Não, senhor, não.

Anastácio - Mentirosa! E aquele namoro do Clube Fluminense?...

Leonina - Foi...foi um namoro, meu padrinho.

Anastácio - Namoro sem amor? Não compreendo.

Leonina - Ora! Todos o compreendem perfeitamente.

Anastácio - Menos minha sobrinha...creio eu.

Leonina - Mas por quê?...diga

Anastácio - Porque é principalmente a pureza do coração que torna a donzela quase um anjo na terra.

Leonina - Tem razão; pois bem...eu lhe digo tudo: eu amei...talvez ame ainda Henrique...(Rumor) Que maldito vento!...(Anastácio vai ao fundo).

Anastácio (A Henrique) - Não ficarás quieto, plebeu de uma figa!...(A Leonina) Deixa o vento e vamos ao caso: então, amas Henrique...

Leonina - Sim, foi o primeiro homem a quem amei, será o último a quem ame; amei-o, e quantas o viram invejaram-me o seu amor; mas desde que soube no Clube que ele era pintor e filho de um marceneiro, todas as senhoras riram-se de mim, ou mostraram-se compadecidas do meu erro...a vaidade falou...e a vaidade fez-me esquecer o amor.

Anastácio - Continua; desta vez o vento não soprou.

Leonina - Agora, tudo está acabado; e esse amor não passa de um sonho belo...suavíssimo...e ainda assim...bem triste!

Anastácio - Mas se teu primo ainda te amasse como dantes?...

Leonina - Embora, a vergonha que me acanha e o ressentimento que ele deve guardar, levantaram entre nós uma barreira insuperável.

Anastácio - Bravo, Leonina!...

Leonina - Que estou eu a dizer? Oh! meu padrinho, jure-me que não dirá a meu primo uma só das palavras que me ouviu.

Anastácio - Juro-te um milhão de vezes; mas desconfio muito que ele já saiba de tudo...

Leonina - Como?...

Anastácio - O vento, Leonina, o vento!...

Leonina - Meu Deus!...

Henrique (Aparecendo) - Adoro-te, Leonina! Adoro-te, como no primeiro dia do nosso amor!...

Leonina - Ah! Meu padrinho atraiçoou-me.

Anastácio - É a segunda vez que hoje me acusam de traidor...mas...aí temos conosco a velha Fabiana com o ilustre comendador.

Leonina - Oh! que não me encontrem aqui...

Henrique - Não tenha receio; eu me retiro por este lado...não...lá vejo o coronel Reinaldo...seguirei esta rua...é impossível...iria encontrar-me com seus pais, minha senhora...

Anastácio - Em tal caso recolhe-te aos bambus; é o recurso que te resta; e adeus, que me resolvi a jantar com Leonina. (Henrique oculta-se) Vem, menina, fujamos...aquela mulher é a peste (Vão-se).

CENA V[editar]

Fabiana, e o Comendador Pereira.

Pereira - Não é tanto assim, minha senhora; convenho em que um homem na minha posição, um milionário, comendador e em vésperas talvez de ser barão, deva despertar as simpatias das senhoras; mas ás vezes elas têm idéias tão extravagantes, que podem chegar até a desprezar uma personagem da minha ordem, por algum doutorzinho, ou mesmo por uma qualquer coisa assim a modo de artista...

Fabiana - Mas, Dona Leonina tem bastante juízo para não cair em tal; fale-lhe em casamento e verá; eu sou muito amiga de Dona Hortênsia e sei em que princípios educou a filha; Dona Leonina é um anjo de virtudes, e o seu único defeito, que proveio da educação que recebeu, é ainda uma garantia para o amor de Vossa Excelência.

Pereira - E qual é esse defeito?...

Fabiana - Preferir a tudo a riqueza; se Vossa Excelência fosse pobre, apesar de todo o seu merecimento, duvido que conseguisse ser amado; rico porém como é, pode contar com o amor de Dona Leonina.

Pereira - Sim...até certo ponto ela tem razão; porque enfim, o dinheiro é uma grande coisa; mas...por outro lado...isso não me parece muito lisonjeiro...

Fabiana - Pelo contrário...Olhe, quero contar-lhe em segredo: Dona Leonina amava não sei por que ao coronel Reinaldo; o galanteio entre ambos tinha ido além de certos limites; desde porém que Vossa Excelência se apresentou como pretendente, o coronel, embora tenha ainda licença para amar, perdeu já a esperança do casamento.

Pereira - Era de prever: desde que se mostrava um homem rico, um comendador, talvez em vésperas de ser barão...mas, pelo que vejo, conta-se comigo...

Fabiana - Se se conta! Dona Leonina não cabe em si de contente: e os pais então! Esses estão entusiasmados: excelente família! É o céu que lhe depara este casamento. Senhor comendador, Vossa Excelência está destinado a ser o salvador desta honrada gente, porque o senhor Maurício, segundo dizem, deve tanto...tanto...que terá de sofrer alguma horrível desgraça, se lhe não valer um genro dedicado e generoso.

Pereira - Mas eu penso que um genro não tem obrigação de pagar as dívidas do sogro...

Fabiana - E que há de fazer Vossa Excelência, quando sua esposa, banhada em pranto, lhe pedir que salve a se pai?...que diferença farão em sua fortuna, quarenta ou cinqüenta contos de menos?...Deixemos porém isso, arrependo-me até de ter falado em tal; o que lhe importa saber é que Dona Leonina o ama apaixonadamente.

Pereira - Vossa Excelência o assegura com toda a certeza?

Fabiana - Pois se eu já lhe disse que a garantia do seu amor está na sua riqueza, e nas conveniências da família! Dona Leonina é uma menina virtuosa, mas bastante interesseira; deseja ser muito rica para gastar, brilhar, e ter sempre a seus pés um a roda de adoradores. É o que eu chamo ter juízo, sinto bem que minha filha não seja assim! Filipa é uma doidinha que se deixa levar somente pelo merecimento pessoal. Eu sei que ela ama um homem muito rico, mas a pobre tola abafa a sua paixão com receio de que a suponham ambiciosa.

Pereira - Sim...até certo ponto Vossa Excelência tem razão; porque o dinheiro é uma grande coisa; mas também sua filha parece ter bom coração.

Fabiana - Qual! Juízo o de Dona Leonina, que até se entusiasma ouvindo falar em dinheiros, mas...que impertinência! Estou roubando momentos preciosos que pertencem à sua amada; vá, senhor comendador...vá ter com Dona Leonina.

Pereira - A companhia de Vossa Excelência nunca pode ser impertinente.

Fabiana - Basta de sacrifícios...(Empurrando-o docemente) Vá...ande...

Pereira - Irei...irei...obedecer também é servir. (Vai-se)

Fabiana - A paixão cega este homem; mas ainda assim se ele tivesse o que no mundo se chama honra e dignidade, por certo que teria sentido os efeitos do veneno que lhe lancei no coração.

CENA VI[editar]

Fabiana, Frederico e Filipa.

Frederico - Acabamos de encontrar Dona Leonina com o original do tio de Minas.

Fabiana - Não fale assim de seu tio, senhor Frederico!

Filipa - Como minha mãe conta com o jogo!

Fabiana - É porque se trata de uma partida segura.

Filipa - E se aparecer alguém que baralhe as cartas?...

Fabiana - Ninguém pode baralhá-las. Maurício está a ponto de ficar de todo perdido. Sei que em breves dias os seus numerosos credores aparecerão decididos a fulminá-lo.

Filipa - Por que então não esperamos pelo resultado desse golpe?

Fabiana - Porque era possível que o irmão se lembrasse de pagar-lhe as dívidas.

Frederico - Como Vossa Excelência calcula e planeja bem!...

Fabiana - É um cálculo que dura há vinte e cinco anos! É uma dívida que tenho de remir e de pagar com usura; não me peça explicações que não as darei; aborreço Maurício e sua mulher e vingo-me em sua filha: se lhe vai aproveitar o meu ódio, tanto melhor.

Frederico - Mas o comendador Pereira...

Fabiana - Ontem em casa de Maurício, e aqui mesmo ainda há pouco, disse-lhe tudo quanto convinha dizer-lhe: mas o comendador é um estúpido e não me compreendeu; ou está pronto a sacrificar até mesmo alguns contos de réis por amor de Leonina. Embora! O nosso plano é infalível! Aproveitando a confusão do baile de máscaras, na chácara de Maurício, às duas horas depois da meia-noite levarei Dona Leonina para o caramanchão que fica junto da rua; o senhor aparecerá então; dou-lhe minha palavra de honra que a vítima do rapto não poderá soltar um grito, e a carruagem que deve estar perto o levará com ela para onde lhe parecer.

Filipa - E depois, minha mãe?

Fabiana - Até aí a desonra, e logo depois em seguida virá a miséria. É a vingança; é a parte que me toca. Depois um casamento inevitável dará ao senhor Frederico direitos à herança do tio e padrinho da noiva; e tu, Filipa, com uma rival de menos, contarás uma probabilidade de mais para conquistar o comendador.

Frederico - Tudo bem calculado, quem ganha mais no negócio, sou eu; uma bela moça...uma grande herança em perspectiva...(A Fabiana) Minha senhora, Vossa Excelência é um anjo!

Fabiana - Anjo ou demônio, pouco importa, contanto que eu consiga o meu fim. Dê-me o seu braço senhor Frederico; tu, Filipa, insinua-te no espírito do comendador, e trata de fazer acreditar que o coronel Reinaldo ama com ardor a Dona Leonina: precisamos de um homem, sobre quem recaiam as primeiras suspeitas imediatamente depois do desaparecimento de Leonina. Até logo. (Vão-se)

CENA VII[editar]

Filipa e logo Henrique, que tem estado oculto.

Filipa - Pois as cartas deste jogo serão por mim baralhadas. Ver Leonina mulher de Frederico que é moço, elegante e belo!... oh! não, não! Muitas e até eu ainda mesmo casada com o comendador lhe invejaríamos a sorte: esse casamento o salvá-la-ia da desonra; perca-se, portanto, ou pelo menos veja manchada a sua reputação, e fique solteira. Um rapto que se malogra no momento de executar-se, é de sobra para desacreditar a mulher que se encontra nos braços do raptor...Sim...é isso que deve acontecer; e para que aconteça só me falta um homem...um homem dedicado que eu hei de achar...um homem...que a minha boa fortuna há de mostrar-me...

Henrique - Ei-lo aqui, senhora!

Filipa - Oh!...o senhor Henrique!

Henrique - Não percamos tempo nem palavras. Ouvi tudo...eu estava ali...ouvi tudo. Estou no domínio do segredo de sua mãe e do seu; poderia destruir os seus projetos; quero porém ser cúmplice neles: sabe que tenho sido profundamente ofendido e que devo estar sequioso de vingança. Eu sou o homem de que precisa. Aceita-me?...

Filipa - Farei chegar às suas mãos um convite para o baile de máscaras do senhor Maurício. O senhor procederá de modo que não comprometa minha mãe, e ao arrancar leonina dos braços do seu raptor, provocará com seus gritos o concurso de testemunhas.

Henrique - Fá-lo-ei melhor do que calcula, minha senhora!

Filipa - A vingança aproximou-nos: unir-nos-á a cumplicidade. Adeus, senhor, até a noite do baile!...

Henrique - Até a noite do baile!...

Filipa (Indo-se) - Oh!...agora estou segura. (Vai-se)

Henrique - Baralhaste demais as cartas do vosso jogo, minha senhora! A partida não será vossa, e menos de vossa mãe: a partida será minha! (Vai-se)

CENA VIII[editar]

O Comendador Pereira.

Pereira - O senhor Maurício anda mal de fortuna; isso é tão positivo que ainda há quatro dias descontei com dez por cento esta letra de três contos réis, assinada por ele; não é boa firma, não; mas tem uma filha que vale cem contos com os olhos fechados. Nada tenho com as dívidas do pai; o que eu quero é a filha, e há de ser minha. Segundo ouvi há pouco, ela vem esperar aqui Dona Hortênsia, e eu não hei de perder este ensejo. Vou oferecer-lhe a decantada rosa (Tira-a do seio); mas há de ser uma fineza toda especial. Dona Fabiana assegura que a menina é muito interesseira; pois então, apresentar-lhe-ei a rosa em um cartuchinho feito com a letra de três contos de réis.(Prepara o cartucho). Aposto que o cartucho produzirá mais efeito do que a rosa? Dona Leonina não terá de envergonhar-se, porque o presente será recebido em particular, e, além disso, não posso admitir que o dinheiro envergonhe a pessoa alguma. Ei-la aí.

CENA IX[editar]

O Comendador Pereira e Leonina.

Leonina - Esperava encontrar aqui minha mãe.

Pereira - E eu dou-me os parabéns por não ter ainda chegado a senhora Dona Hortênsia; desejava achar-me a sós com Vossa Excelência para testemunhar-lhe o meu profundo afeto, oferecendo-lhe a palma da beleza. (Apresenta a rosa no cartucho).

Leonina (Recebendo) - Oh! a rosa!... (Deita fora o cartucho).

Pereira - Não deite fora o cartucho!...não deite fora o cartucho!...

Leonina - Mas que tem de singular este cartucho?...

Pereira (Apanhando-o e oferecendo-o de novo) - Minha senhora, é que há cartucho e cartucho!...

Leonina (Recebendo e à parte) - Querem ver que é um bilhetinho amoroso?... (Abre) Oh!!!

Pereira - Perdoe-me Vossa Excelência... é um simples sinal...

Leonina - Senhor! Há dois insultos neste indigno papel! Há dois insultos, porque o senhor fez-me corar por meu pai, e porque ousou fazer-me um presente de dinheiro! Há dois insultos...ou não há insulto algum, porque Vossa Senhoria, senhor comendador, não compreende quanto respeito se deve a uma senhora. Eis aí o seu papel!...Ei-lo...vê bem que o não posso rasgar; é uma dívida de meu pai.

Pereira - Minha senhora...por quem é...

Leonina - Eis aí a sua letra! Está me queimando os dedos: ei-la aí! E pois que não a vem receber, apanhe-a no chão. (Atira a letra ao chão e volta as costas).

Pereira - Perdão, minha senhora, eu sou um bruto. (Apanha a letra).

CENA X[editar]

Pereira, Leonina e Hortênsia.

Hortênsia - Oh! a rosa!...a palma da beleza na mão de Leonina!...

Leonina - A rosa?... é verdade...nem dela me lembrava!...(Desfolha a rosa).

Hortênsia - Que fazes, minha filha?

Leonina - Oh! minha mãe! Esta rosa tinha espinhos: feriu-me!

FIM DO SEGUNDO ATO