Luxo e Vaidade/III

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Luxo e Vaidade
por Joaquim Manuel de Macedo


Sala interior em casa de Maurício; sempre o mesmo luxo e elegância; mesa pequena, mas de rico trabalho, à direita e um pouco ao fundo. Portas laterais e ao fundo.

CENA I[editar]

Hortênsia e Maurício, tendo na mão um livro que logo depois vai colocar sobre a mesa.

Maurício - Não, Hortênsia, as ilusões desapareceram; a hora da desgraça vai soar para nós; já dissipamos toda a nossa fortuna, e legaremos a Leonina a mais horrível miséria.

Hortênsia - Ora, que andas sempre a sonhar futuros pavorosos!

Maurício - Não, este livro não mente; ele me assinala a ruína e a vergonha, porque me traz à memória dívidas que não posso pagar; ele me lança em rosto um crime, porque em um momento de desvario ousei vender escravos que tinha hipotecado. Estão aqui vestidos de seda que apareceram em uma só noite; brilhantes e enfeites, que importam em contos de réis. Devo às lojas de modas, devo aos joalheiros, devo aos tapeceiros, devo as mobílias e o aluguel das nossas casas; devo tudo e a todos! E o que é mais! Essa hipoteca, que não soube respeitar, me denuncia um crime de estelionato, e não há meio de escapar às suas conseqüências.

Hortênsia - E choras o que gastaste comigo e com tua filha?

Maurício - Não; mas quando penso que me arruinei para engolfar-me em prazeres que duraram instantes; quando penso que sacrifiquei o futuro de nossa filha a vãs pretensões que só a vaidade inspirava, maldigo mil vezes a loucura que me arrastou à perdição.

Hortênsia - E pretendes lançar-me em rosto essas despesas que somente agora lastimas?...querias que eu fosse a bailes e teatros e neles me apresentasse vestida pobre e miseravelmente, para ficar exposta ao escárnio das senhoras e ao desprezo dos homens?...

Maurício - Eu não me queixo de ti, Hortênsia; choro apenas a nossa desgraça e maldigo a minha imprudência.

Hortênsia - Fora talvez melhor que tivéssemos vivido ignorados; que uma vez por outra nos reuníssemos com uma ou duas famílias de classe baixa, e que enquanto jogasses a bisca com os maridos, eu conversasse sobre receitas de doces com as mulheres?... Não faríamos dívidas e teríamos a glória de casar Leonina com algum empregado de pouco mais ou menos, se escapássemos de casá-la com o filho de algum marceneiro.

Maurício - Hortênsia! Não assenta bem tanta soberba em quem está batendo às portas da miséria.

Hortênsia - Ora! O que nós estamos é chegando ao dia do triunfo. O comendador se mostra loucamente apaixonado por Leonina...

Maurício - Mas o infame procedimento que teve ontem...

Hortênsia - Não pensou no que fez e deu-me a satisfação mais completa. Leonina há de tornar-se às boas com ele e eu te asseguro que o comendador nos pedirá nossa filha em casamento no dia dos anos desta.

Maurício - Oh! se isso não fosse uma nova ilusão!

Hortênsia - Não o duvides. O próprio comendador mo deu a entender; o que, portanto, nos cumpre é disfarçar a crise que nos ameaça e salvar as aparências por alguns dias.

Maurício - Entendo; devemos representar o último ato da comédia da impostura.

CENA II[editar]

Maurício, Hortênsia e Anastácio, que fica junto à mesa.

Anastácio - Juntinhos a conversar! Os meus dois fidalgos estão de certo desenrolando a sua genealogia: quero apreciá-los de parte. (Vê o livro e abre-o) Oh! o livro de receita e de despesa! Isto é uma obra rara e proibida na casa do desmazelo e da dissipação. (Examina).

Hortênsia - Tratemos da nossa festa: convêm que seja de estrondo, e que se fale durante um mês inteiro do baile de máscaras dado em honra dos anos de Leonina.

Maurício - E se esse casamento não se concluir, onde iremos parar, Hortênsia?...

Anastácio (Batendo com o livro sobre a mesa) - Miserável!...

Hortênsia (Voltando-se) - Meu mano!...

Maurício (Correndo para o livro) - Oh! leu...sabe tudo!...(Pena no livro).

Anastácio (À parte) - Desgraçado!...desgraçado!...(Outro tom e à parte) Mas antes assim, meu Deus; eu temia que ele fosse já um infame, e apenas tem sido um louco; antes assim!

Hortênsia - Que tem, meu mano?...

Maurício - Anastácio, eu compreendo o teu desespero; foi este livro...

Anastácio - E que tenho eu com esse livro?...pela encadernação parece-me obra moderna, e eu só acredito nos autores do século passado.

Maurício (Á parte) - Não leu, ainda bem! (Vai guardar o livro num gabinete e volta logo).

Anastácio (À parte) - Coisa singular!...quer me parecer que este meu irmão ainda tem vergonha!

Hortênsia - Mas por que motivo entrou tão irritado?...

Anastácio - Porque...porque...ah! querem saber por quê?...pois eu lhe conto. Fui visitar uma família de minha íntima amizade, e a quem como a vocês, não via há dezoito anos, e quando esperava encontrar a prosperidade, encontrei somente a desgraça e a miséria.

Hortênsia - Infelizes!...

Anastácio - Infelizes, não; infeliz é o lavrador que trabalha meses inteiros e vê num dia o vento impetuoso ou a enchente assoladora destruir-lhe as plantações; infeliz é o negociante a quem a tempestade roubou a riqueza, fazendo soçobrar seus navios; infeliz é o proprietário a quem o incêndio devorou as casas e a fortuna; mas o perdulário, e o dissipador, vítimas somente do luxo e da vaidade, não têm direito à compaixão dos homens; são entes imorais, que pervertem a sociedade com o seu mau exemplo, e que merecem o castigo da desgraça.

Maurício - Anastácio...levas a austeridade até o excesso...

Anastácio - Não, eu sou apenas justo: escutem; o meu antigo amigo era empregado público, tal e qual como és, Maurício; casara-se com uma senhora que tendo todas as virtudes, tinha também e, infelizmente, o defeito da vaidade e do amor da ostentação...nesse ponto não sei se ele se parece contigo; mas como a ti, Maurício, também sua esposa lhe trouxera em dote uma fortuna modesta; o homem da mediocridade, impelido por sua mulher e por seu próprio gosto, esqueceu a sua esfera, quis ombrear com os grandes, fruir os prazeres, e ostentar o tratamento dos milionários, e nem os cuidados do futuro de uma filha que o céu concedera a esse casal desvairado, puderam arredá-lo do caminho da perdição. Os anos foram correndo nas asas das festas...a fortuna própria foi dissipada...vieram depois as dívidas, e finalmente chegou o dia da ruína e do opróbrio. Que dizem vocês a isto?...

Hortênsia - É um quadro muito comum hoje em dia.

Anastácio - Quando eu ainda há pouco chegava à casa dessa triste família, os credores saíam dela levando os trastes penhorados. Vi soldados à porta, entrei; corri aos meus velhos amigos, oh que destino o seu! O marido ia ser levado para a prisão como estelionatário; a mulher para o hospital, porque havia endoidecido; e a filha...a filha tinha diante de si o desamparo, e perto do desamparo a desonra e a prostituição!...

Maurício - Meu Deus!

Anastácio - Oh castigo do céu! Castigo de Deus!...eram meus amigos; mas foi muito bem merecido!...

Hortênsia - Meu mano , eu o estou desconhecendo!

Anastácio - A razão fala pela minha boca: um empregado público que não é rico, que ganha pouco, e vive no seio da opulência e do fausto, ou rouba ao Estado ou aos particulares; porque ou é malversador, ou contrai dívidas que sabe que não poderá pagar. É verdade ou não, Maurício?...

Maurício - É verdade!

Anastácio - A mulher casada que impele seu marido a fazer despesas loucas e superiores aos seus recursos; que para trajar brilhantes vestidos e adornar-se com jóias custosas, o expõe ao opróbrio, ao infortúnio, à infâmia, não ama a seu marido, desconhece os seus deveres de esposa, não é somente louca, é ainda altamente criminosa. É verdade ou não, senhora?...

Hortênsia - É verdade.

Anastácio - E se esse homem e essa mulher têm uma filha, e dão-lhe a educação perniciosa do luxo e da vaidade; se lhes matam a inocência e a abandonam a mil perigos, atirando-a imprudentemente nas garras de sociedades sem escolha; se esse homem e essa mulher ajudam por tal modo a corromper o anjo que o céu lhes concedera; esse homem é um pai desnaturado, essa mulher é mãe depravadora. Pai e mãe, que me ouvis, não é verdade?...

Maurício - Oh!...

Hortênsia - Meu mano!...

Anastácio - E os resultados desses erros, que são verdadeiros crimes, ei-los aí no quadro que apresentou a mísera família. Chega um dia em que os credores e a justiça entram na casa da dissipação; os credores apoderam-se dos restos de uma fortuna esbanjada; a justiça arrasta para uma cadeia o homem que perpetrara um delito infamante; a mulher vendo-se sem pão, sem riqueza, sem fasto, cai fulminada pelo raio da vaidade e enlouquece; e a filha, a única vítima inocente, acha-se no mundo só, em abandono, ardendo em desejo de brilhar como dantes, invejando as jóias, os vestidos, e esplendor das outras mulheres, e aí vem um pérfido sedutor, que lhe oferece bailes, teatros, sedas e carruagens, e em troco lhe pede a honra!...oh!...a filha do luxo e da vaidade acaba por abrir os braços! A serpente da libertinagem morde-lhe o seio...o anjo da pureza a desampara, e a desgraçada escreve o seu nome na lista das mulheres perdidas. Pai, que me escutas comovido; mãe, que me olhas espantada, respondei: quem precipitou essa infeliz na vergonha da corrupção?...Dizei!...

Hortênsia - Ah!!! senhor...

Maurício - Meu irmão...basta!...

Anastácio - Não, ouvi-me até o fim; ninguém deplora essa família; ninguém dela tem piedade. O Estado diz ao empregado público: "Empregado malversador! Mereceste a punição do teu crime" Os credores bradam-lhe ressentidos: "Miserável, tu nos arrancaste o nosso dinheiro!". A pátria volta-se contra a mulher e clama: "Insensata! Em tua filha tu me roubaste uma mãe de família!". E a sociedade repele a moça infamada, a essa triste filha, a quem não ensinaram a trabalhar, e que preferiu a desonra com o fausto, à honestidade com o trabalho: e a bela corrompida envelhece; seus encantos murcharam depressa nas orgias da devassidão, e um dia, anos depois, o pai sai da prisão, a mãe sai do hospital, e encontram na rua uma mendiga esfarrapada, com o letreiro da prostituição escrito na face, e que lhes estende a mão, pedindo esmola...oh! não volteis o rosto, pai e mãe dissipadores! Pai e mãe escravos do luxo e da vaidade! Socorrei a mendiga! Socorrei-a, porque é vossa filha!...

Maurício - Basta!...basta!...

Hortênsia - É horrível!...

Anastácio (Outro tom) - E que têm vocês com isto?...estarão porventura no mesmo caso?...

Hortênsia - Oh!!! não...não...mas temos uma filha, e o quadro foi medonho.

Anastácio - Pois corrijam-se dos seus erros, se ainda é tempo. Maurício, a ostentação e o luxo com que tua família se apresenta, desabonam o teu crédito; toda essa gente que freqüenta hoje a tua casa; todos esses figurões que te festejam, hão de desaparecer e abandonar-te na hora da adversidade. Mana Hortênsia, é simples o segredo da felicidade: quando por acaso nos sentirmos entristecer por não poder gozar os prazeres que gozam os que são mais ricos do que nós, basta que olhando para baixo, contemplemos aqueles que ainda podem menos do que nós.

Maurício - Tem razão...nós nos corrigiremos...

Hortênsia - O mano deu-nos uma lição proveitosa; falou-nos com o coração e há de ver o seu triunfo.

Anastácio - Ainda bem; e principiem a ter juízo desde hoje...

Maurício - Sim...nada mais de ridículas pretensões...

Hortênsia - Nada mais de falsas amizades; nada mais de vaidades...

CENA III[editar]

Maurício, Hortênsia, Anastácio e Petit.

Petit - Excelentíssimas baron e baronesa do Rio Mirim!

Hortênsia - A baronesa!...ah! eu vou imediatamente... (Vai-se)

Anastácio - Maldita baronesa! Oh! mana...ouça primeiro...

Maurício - O senhor barão! Depressa a receber Sua Excelência. (Vai-se)

CENA IV[editar]

Anastácio e Petit, ao fundo.

Anastácio - Maurício! Qual! Deixaram-me por amor dos barões Mirins! Perdi a minha retórica, e está decidido que meu irmão precisa receber uma lição amarga e rude. Desgraçados! Debatendo-se já no fundo do abismo, e tão cegos e tão vaidosos ainda! Oh! é esta sociedade envenenada e corrupta que estraga todos os corações! É esta sociedade que deixando-se escravizar pela paixão do luxo, sacrifica todos os sentimentos e todas as considerações ao ouro; devorada por esta paixão funesta, prefere o ouro à sabedoria, o ouro à honra, o ouro à virtude! É ela que despreza o vestidinho branco da senhora pobre, mas honesta, pelas sedas e pelos veludos das grandes libertinas! É ela que ensina a abafar o pudor, e a menosprezar a própria reputação para satisfazer a paixão do luxo...sim! é uma sociedade depravada, que zomba e ri da consciência, da lealdade, da justiça, da pátria, de Deus, e que violenta se arroja pela estrada da desmoralização, tendo na mente uma única idéia - ouro! ouro! ouro! - (Vendo Petit) Que fazes tu aqui?...estavas ouvindo o que eu dizia, não?...

Petit - Oh! non pode ser; eu non entende português.

Anastácio - Que temos então?...

Petit - Um cavaleire comme il faut quer fala com monsieur Anastace palavra particular.

Anastácio - Conduze-o para esta sala. (Vai-se Petit) Quem será?...uma palavra particular?...não tenho negócios na corte, e mesmo já perdi as minhas antigas relações. Sou inimigo de segredos e de mistérios; gosto da franqueza, que é a arma do justo, e me acho de muito mau humor para sofrer segredinhos de homem. Diabo!...deixem o cochichar para as senhoras que gostam de falar com a boca fechada.

CENA V[editar]

Anastácio e Henrique.

Anastácio - Henrique!...tu aqui?...

Henrique - É verdade, mas meu tio; desde ontem que vossa mercê não aparece, e eu precisava absolutamente falar-lhe. Foi necessário que se desse uma circunstância bem grave para que eu ousasse entrar nesta casa.

Anastácio - Pois então senta-te. (Senta-se)

Henrique - Não, meu tio; falarei de pé e depressa, porque devo retirar-me antes que me encontrem aqui, e que me lancem para fora.

Anastácio - Lançarem-te para fora?! E não vês que sairiam dois ao mesmo tempo?...

Henrique - Embora, ou ainda por essa razão.

Anastácio - Nesse caso fala de pé; mas eu fico sentado.

Henrique - Meu tio, desde ontem que se prepara uma trama infernal contra minha infeliz prima...

Anastácio - Eu logo adivinhei que tua prima entrava na história.

Henrique - Trata-se nada menos que de perpetrar um rapto...

Anastácio (De pé) - E a vítima?...quem é?...

Henrique - Minha prima.

Anastácio - Leonina?...será possível!...(Outro tom e sentando-se) Vamos adiante; continua.

Henrique - A vítima deve, pois, ser minha prima...Ouviu, meu tio? Leonina...minha prima...

Anastácio - Sim, tua prima; ouvi perfeitamente.

Henrique - E pode estar ouvindo com essa frieza?...

Anastácio - Henrique, em regra geral nunca se furta uma moça senão quando ela se deixa furtar.

Henrique - E então...

Anastácio - E então, quem não é seu pai, nem sua mãe, e apenas seu namorado, deixa-a ir com o raptor, que por fim de contas é o mais enganado, porque julgando levar consigo um tesouro precioso, apenas carrega às costas um saco de moeda falsa.

Henrique - Mas é que meu tio ignora as circunstâncias...

Anastácio - Pois vamos a elas.

Henrique - No baile de máscaras, que vai dar-se na chácara de meus tios, às duas horas da noite, Leonina será atraída para um caramanchão, que fica junto de uma rua deserta; aí dois máscaras atirar-se-ão sobre a infeliz, abafarão seus gritos e arrastando-a para uma carruagem, que está perto, um dos máscaras desaparecerá com ela.

Anastácio - E esses máscaras serão uma mulher perversa e um homem libertino: Fabiana e Frederico, não é assim?...

Henrique - Exatamente: mas quem lho disse?

Anastácio - Eu o tinha previsto...Miserável!...Como descobriste este segredo?...

Henrique - Surpreendi-o, quando me deixou oculto atrás dos bambus, no Jardim Botânico; surpreendi-o, e oportunamente me ofereci à filha de Dona Fabiana, que pedia à sua boa fortuna um cúmplice, que impedisse a realização do rapto ao tempo em que o escândalo fosse já bastante para manchar o crédito de Leonina.

Anastácio - Tens em tuas mãos os fios dessa trama criminosa: qual é o teu propósito?...

Henrique - Vim consultá-lo sobre isso. No meu pensamento brilhou a idéia de uma nobre vingança; lembrou-me que podia abater a soberba de meus tios, forçando-os a reconhecer-se devedores da salvação de sua filha a aquele que tão indignamente desprezaram...

Anastácio - Pobre plebeu! Haviam de dizer-te que às vezes também um náufrago pode ficar devendo a vida a um cão da Terra Nova.

Henrique - Ainda não acabei. Lembrou-me depois, que eu deveria apresentar-me hoje aqui, e patenteando o crime projetado, e nomeando os criminosos, dizer a meus tios: "Eis aí as brilhantes relações de que vos ufanais! Eis a vossa sociedade que arremeda o que não é! Eis aí os vossos falsos nobres, ridículas caricaturas daqueles, com quem procuram confundir-se; ei-los! São infames réus da polícia, são..."

Anastácio - Tempo perdido! Os três figurões chamar-te-iam caluniador e Maurício correria a dar um abraço a Frederico; Hortênsia a trocar um beijo com Dona Fabiana, e um criado viria mostrar-te a porta da rua.

Henrique - Mas também nenhum desses pensamentos foi aceito pelo meu coração: em qualquer deles transpirava um desejo de vingança, generosa embora, e a vingança, oh!...não cabe em um coração que está cheio de amor! Meu tio, eu quero salvar Leonina, mas quero salvá-la sem que uma suspeita, uma simples dúvida possa deixar a mais leve nuvem no límpido céu da sua vida...quero salvá-la ficando para todos imaculada a sua pureza; quero salvá-la sem que ela o perceba, sem que se fale no seu nome, sem que ela tenha de corar ante a idéia do atentado, de que ia ser vítima; quero salvá-la, como um pai salvaria sua filha!...não quero nem o abatimento da soberba, nem a confusão do crime, nem a vingança, nem a gratidão; quero a reputação de Leonina intacta, e o seu nome saindo de todos os lábios que o pronunciaram, suave como uma harmonia de Haydn, puro e celeste como a oração de um anjo.

Anastácio - Excelente; mas havemos de levar ao fim a obra modificando um pouco as tuas idéias poéticas. Já fui delegado de polícia em Minas, e quando me denunciavam que s e pretendia cometer algum roubo, a minha regra era apanhar os ladrões com a mão na ratoeira.

Henrique - Mas se um descuido qualquer...

Anastácio - Já cumpriste o teu dever; o cumprimento do meu começa agora. Hás de dar-me amanhã algumas lições de baile mascarado. Uma dificuldade única me embaraça...Com hei de eu tolerar a presença desses tratantes, que vêm hoje aqui jantar?...Já, porém, que é preciso fingir, já que no meio desta gente sem fé, os próprios homens honestos devem às vezes trazer uma boa máscara no rosto, verão para quanto presta este velho roceiro!

CENA VI[editar]

Anastácio, Henrique e Leonina.

Leonina - Meu padrinho...meu padrinho...(Vendo Henrique) Ah!...

Anastácio - Assustou-se?...pois o rapaz não é feio.

Henrique - Minha senhora...

Leonina - Perdão, eu pensava que meu padrinho estava só.

Anastácio - Mas achaste-me bem acompanhado, o que é ainda melhor. Que é isto?...parece que choraste, Leonina?...

Leonina - Não...não chorei...

Henrique - Eu me retiro... (Anastácio o suspende, segurando-lhe na mão).

Anastácio - Vieste para confiar-me um segredo, podes falar; em vez de um, tens a teu lado dois amigos.

Leonina - Meu padrinho...

Henrique - Eu a deixo em liberdade, minha senhora; sei bem que não tenho direito algum à sua confiança...(Indo-se).

Anastácio - Tu o deixas ir, Leonina?...

Leonina - Senhor...meu primo, fique.

Anastácio (À parte) - Com tenho domesticado este bichinho!...(A Leonina) Fala...

Leonina - Ah! Meu padrinho...tenta-se contra a minha felicidade, contra o futuro da minha vida...

Anastácio - Como?...

Leonina - Querem casar-me com um homem grosseiro e mau, cuja única recomendação é a riqueza...

Henrique (À parte) - Meu Deus!

Anastácio - O comendador Pereira...

Leonina - Ele mesmo!

Anastácio - Que dizes tu a isto, Henrique?...

Henrique - Meu tio!

Leonina - Meu padrinho!

Anastácio - Creio que ninguém se lembrará de casar-te contra a tua vontade, e menos de te impor à força um marido...

Leonina - Oh! mas meu pai pede, minha mãe chora, e um pai que pede, obriga: uma mãe que chora, impõe!...

Anastácio - E além disso trata-se de um fidalgo da gema; e um fidalgo, ainda que seja estúpido, grosseiro, e ainda mesmo tratante, é sempre um fidalgo, minha afilhada!

Henrique - Senhor...meu tio...atenda que ela chora!...

Leonina - Veja, meu primo, ele zomba de mim, quando as lágrimas correm de meus olhos!

Anastácio - Tens razão! Fui mau: oh! mas nunca hei de consentir que te façam desgraçada! Leonina, enxuga esse pranto...não quero que chores! Os teus olhos não devem chorar; olha-me, olha-me bem? Sabes?...o teu rosto tem um encanto indizível para mim. Tu tens o rosto de minha mãe, Leonina! Velho, ainda me lembro daquele anjo de amor e de virtudes...oh!...e lembra-me também meu pai, que morrendo nos meus braços, me recomendou Maurício, meu irmão mais moço, e me pediu que por minha vez fosse para ele um pai!...(Comovido) Oh! bom e honrado homem, que hoje gozas a bem-aventurança do céu! Oh meu pai!... eu cumprirei à risca a tua última e santa vontade! Leonina é a filha de teu filho!...é o retrato de minha mãe...não há de ser, não quero que seja desgraçada!...(Com ternura) Leonina! És também minha filha!...e para fazer-te feliz, eu tenho um tesouro de amor neste seio, que se abre para receber-te...vem! Leonina! Minha afilhada! Minha filha!... (Aperta Leonina nos braços).

Leonina - Oh!...meu padrinho!...

Henrique - Que coração o deste homem, meu Deus!

Anastácio (Soluçando) - Eis aí! Creio que estou chorando!... mas como é doce o abraçar-te, Leonina! Não achas que deve ser muito agradável Henrique?...e querem fazer-te desgraçada, bela menina?...pela alma de meu pai, juro que não!

Leonina - Ouço vozes...(Observa) Ah! Meu padrinho, contenha-se; aí vêm todos os nossos amigos para o jantar.

Henrique - E vão encontrar-me aqui...é um verdadeiro vexame para mim!

Anastácio - Entra para o meu quarto e espera. (Leva até a porta do quarto a Henrique que entra) Ora vejam com quem queriam casar minha afilhada!...(Observando).

CENA VII[editar]

Anastácio, Leonina, Maurício, Hortênsia, Fabiana, Filipa, Frederico, Pereira, Reinaldo e Lúcia.

Vozes - Senhor Anastácio!...(Cumprimentam-no)

Anastácio - Minhas senhoras...meus senhores... (À parte) Devo estar com uma cara de enforcado: a presença desta gente irrita-me.

Hortênsia - Meu mano, os nossos amigos vêm dar-nos o prazer de jantar conosco para obsequiá-lo...

Fabiana - A nossa maior ambição é a conquista da sua amizade.

Anastácio - A minha amizade, Excelentíssima...(À parte) Eu não ofereço a minha amizade a esta fúria, nem que me serrem!

Filipa - A sua amizade é um tesouro que todos desejamos possuir.

Frederico - E eu muito particularmente.

Anastácio - Por quem são...os senhores confundem-me...(À parte) Está visto...eu não posso fingir...

Reinaldo - Eu cá sou amigo velho. (Dá a mão a Anastácio, que deixa apertar a sua friamente).

Pereira - E eu desejo merecer um título igual. (Á parte) Este homem não tem espírito.

Anastácio (À parte) - Reconheço-me incapaz de dizer duas palavras; mas enfim, é indispensável rebentar com alguma coisa. (A todos) Eu...eu sou um agreste roceiro que não presta para nada...(À parte). Até aqui vou bem. (A todos) Porém...ainda assim...protesto e juro a Vossas Excelências e Senhorias... (A Leonina) É assim que se diz, Leonina?...(A todos) Sim...que fui, sou, e serei sempre um bom amigo, bem entendido, de quem merecer a minha amizade.

Frederico - E nós faremos tudo por tornar-nos dignos dela.

Maurício - Desde muito que o são: eu respondo pelo reconhecimento de Anastácio.

Anastácio - Menos essa! Ninguém responde por mim...quero dizer...que...meu irmão fala muito bem a linguagem cá da cidade, e eu...roceiro, velho e rude...tenho um modo de falar que não agrada a todos...mas tal como sou, aprecio devidamente...(Á parte) Eles hão de pensar que eu sou um estúpido...pois que pensem! (A todos) E os senhores podem ficar certos de que...eu já os conheço tanto...que declaro...sim declaro...(À parte) Ora viva! Eu vou declarar o diabo! (A todos) Declaro...

CENA VIII[editar]

Os precedentes, e Petit, da porta do fundo.

Petit - Madame est servie. (Vai-se)

Anastácio (Indo a Petit) - Abençoado sejas tu, Petit de uma figa.

Hortênsia - Vamos jantar; senhor coronel, o seu braço. (Toma-lhe o braço) Leonina, pede o braço ao senhor comendador...

Anastácio - Não é possível; Leonina já está engajada comigo. (A Leonina) É engajada que se diz, não é, Leonina?...

Hortênsia (A Reinaldo) - Meu cunhado é um homem muito vexado. (Vão saindo)

Reinaldo (A Hortênsia) - Pois olhe, não era assim no outro tempo. (Saem)

Fabiana (Tomando o braço de Pereira) - É um original!

Pereira (A Fabiana) - Não tem espírito...parece-me até idiota. (Saem)

Maurício (Dando o braço a Filipa) - Venha meu irmão. (Saem e Frederico com Lúcia)

Anastácio - Eu já os sigo; quero dizer primeiro uma palavra a Leonina. (À parte) Este jantar de hoje não me passa da garganta.

CENA IX[editar]

Anastácio, Leonina, e logo Henrique.

Leonina - Que me quer dizer, meu padrinho?...

Anastácio - Eu, nada. Quero despedir-me de Henrique.(Vai à porta do quarto) Agora podes sair; e até logo.

Henrique - Adeus, meu tio; minha...prima... (Cumprimenta-a)

Anastácio - Então como é isso?...não lhe dás a mão, Leonina?...(Leonina dá a mão, e Henrique a beija com ardor). Bravo! Agora sim; jantarei como um frade, e vou até fazer uma saúde ao comendador Pereira. (Vão-se)

FIM DO TERCEIRO ATO