Luxo e Vaidade/IV

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Luxo e Vaidade
por Joaquim Manuel de Macedo


Jardim espaçoso e todo iluminado; ao fundo uma casa de campo de bela aparência, assobradada e com escadaria na frente: pelas janelas abertas vê-se brilhar as luzes; bancos de relva no jardim: à esquerda um caramanchão coberto de jasmins; perto dele um portão de grades de ferro.

CENA I[editar]

Há um baile de máscaras; música, e ruído de festa; os máscaras sobem e descem pela escadaria, e aparecem às janelas; dirigem-se uns aos outros. Dois Máscaras: o primeiro sentado em um banco, o segundo chega e pousa-lhe a mão no ombro.

Segundo Máscara - Belo máscara, porque deixaste o baile?...esperas ou descansas?...

Primeiro Máscara - A esperança é falaz como a mulher, e o descanso é o marido fidelíssimo da preguiça; aborreço-os a ambos: não espero, nem descanso.

Segundo Máscara - Dá-me então o segredo de tua vida...

Primeiro Máscara - Medito sempre e ainda mesmo quando trago uma máscara no rosto. Agora estava pensando na grande loucura de um baile de máscaras, e procurava determinar com certeza quem é a pessoa que o baile em que estamos, assinala, como tendo menos juízo.

Segundo Máscara - Isso não tem que ver, é o dono da casa.

Primeiro Máscara - Pois enganas-te: é o credor ou são os credores do festeiro, que provavelmente nunca mais tornarão a ver o cunho do dinheiro que emprestaram para as despesas da festa.

Segundo Máscara - És má língua, e te levantas contra o santo, e contra a esmola.

Primeiro Máscara - Esquecia-me dizer-te, que há meia hora perdi um conto de réis ao lansquenete! Parei na dama de copas, que dez vezes consecutivas deixou-se cair no lado direito!...oh!...dama constante assim, é a primeira vez que encontro!

Segundo Máscara - E achas que deves desforrar-te do dono da casa?...

Primeiro Máscara - Desforrar-me?! Pronunciaste uma palavra de bom agouro: voltemos ao baile, e na sala do jogo paremos de parceria na primeira carta...

Segundo Máscara - Menos se a carta for alguma dama, porque as damas...

CENA II[editar]

Os dois Máscaras, que logo se retiram: Fabiana, Filipa, Frederico e todos os mascarados.

Filipa - Fazem o martírio dos tolos; não é assim, belo máscara?...

Segundo Máscara - Ei-las comigo: imagens mundanas, fugité!...(Vai-se)

Primeiro Máscara - Três! Má conta: um sonha; dois suspiram; três conspiram! (Vai-se)

Fabiana - Que horrível calor faz lá dentro! (Tiram as máscaras) Conversemos ao menos alguns instantes aqui no jardim.

Frederico - Parece-me ter achado Vossa Excelência um pouco pensativa?...sobreviria algum contratempo?...

Fabiana - Não; tudo vai bem. Um pouco antes das duas horas da noite, Dona Leonina sentirá a cabeça pesada e um sono irresistível, e acompanhar-me-á ao jardim para adormecer logo depois naquele caramanchão.

Filipa - Mas a explicação desse sono?

Fabiana - Está encerrada nesta caixinha de pastilhas. (Mostra-a)

Filipa - Oh! minha mãe...

Fabiana - O fim justifica os meios: além disso há de ser um sono de uma ou duas horas e nada mais.

Frederico - E dormirá reclinada sobre o meu seio...

Fabiana - E despertará com o movimento da carruagem. (À Filipa) Mas pela tua parte, que tens feito insigne medrosa?...

Filipa - Nada; o comendador acha-se possuído da mais acerba melancolia, e lança olhares fulminadores sobre o coronel Reinaldo, a quem supõe um rival preferido...

Fabiana - Melhor; tornar-se-á, portanto, mais verossímil uma fuga do que um rapto; e o coronel Reinaldo receberá daqui a pouco uma carta que o fará deixar o baile inesperadamente, dando-me ocasião de fazer sobre ele recair as primeiras suspeitas do atentado, enquanto o senhor Frederico se põe a salvo. (A Frederico) E a carruagem?...

Frederico - Já está no lugar determinado.

Fabiana - O cocheiro?...

Frederico - Respondo por ele.

Fabiana - Tudo corre à medida dos nossos desejos: até o velho roceiro teimou em não ficar para o baile.

Frederico - Coitado! Apenas acabou de jantar, deitou a correr para a cidade antes que aparecesse algum máscara: é um montanhês lá de Minas, que ainda tem medo de máscaras!

Filipa - Foi uma pena que não ficasse, tomá-lo-ia à minha conta a noite toda.

Fabiana - E eu digo que foi muito melhor que se tivesse ido embora. Senhor Frederico, que horas são?...

CENA III[editar]

Fabiana, Filipa, Frederico e Anastácio, vestido de dominó preto: os três põem as máscaras.

Anastácio - É meia-noite.

Filipa - Que voz! Pareceu-me ouvir o sino grande de S. Francisco de Paula dando horas.

Frederico - Belo máscara, quem és tu?...

Fabiana - Qual belo! Quem és tu, feio máscara!

Anastácio - Todos podem dizer o que foram; poucos o que são; nenhum o que há de vir a ser. O que fui, não vos importa; o que eu sou agora, acabastes de testemunhar; sou o cronômetro vivo que vos anuncia a hora que desejais saber; o que hei de ser ainda hoje...vê-lo-eis.

Frederico - Bravo! É um dominó que toca o sublime.

Fabiana - Mas estás me fazendo raiva; porque sou obrigada a reconhecer que és o primeiro máscara do baile.

Anastácio - Não te desconsoles; tu és a primeira máscara do mundo.

Fabiana - Senhor!...

Frederico (Dando um passo) - Dominó, confundes o espírito com o insulto!...

Anastácio - Às vezes, quando a verdade pode ser um insulto...

Fabiana (A Frederico) - Voltemos à sala...este homem assusta-me...

Filipa (Tomando o braço de Frederico) - Venha, senhor Frederico, venha...

Frederico (Voltando a cabeça para trás) - Encontrar-nos-emos de novo, não?...(Vão-se)

Anastácio (Seguindo-o) - Malgrado vosso, palavra de honra que sim!...

CENA IV[editar]

Maurício e Hortênsia. (A música toca uma valsa brilhante; movimento de máscaras. Anastácio, que tem ido até a escadaria, pára, vendo Maurício e Hortênsia; volta, observa-os um momento à distância e retira-se para um dos lados até encobrir-se).

Hortênsia - Maurício...meu amigo...

Maurício - Deixa-me fugir dessa multidão que me exaspera; eu tenho a morte no coração, Hortênsia.

Hortênsia - Silêncio...cuidado...(Olhando) Talvez nos escutem, Maurício.

Maurício (Olhando) - Não...estamos sós...livres de todos...menos da desgraça; sabes que recebi hoje uma carta em que o meu principal credor me previne de que amanhã ao meio-dia em ponto se apresentará apara receber quinze contos de réis ou para entregar-me à justiça, como um vil estelionatário?...pois bem: ainda há pouco no meio da confusão e do tumulto, uma voz soou a meus ouvidos, e disse-me: "Amanhã ao meio-dia, Maurício!..."

Hortênsia - E essa voz...

Maurício - Não sei de quem foi: olhei e vi-me rodeado de máscaras: ouvi zombarias e gargalhadas: zombariam de mim?...Rir-se-iam de mim, Hortênsia?..oh, isto é horrível!...Estas músicas soam a meus ouvidos como um canto infernal; este ruído me ensurdece...eu enlouqueço!...Hortênsia!...Hortênsia!...dize-me uma palavra de esperança...uma palavra que me faça esquecer essa ameaça sinistra: Amanhã ao meio-dia, Maurício!..."

Hortênsia - A nossa situação tornou-se realmente grave: Leonina tem desde ontem tratado com azedume e até com desprezo ao comendador...

Maurício - Meu Deus! E que recurso então nos resta?...

Hortênsia - Lancei mão do último. Acabo de expor à nossa filha as circunstâncias desesperadas em que nos achamos; apelei para a sua generosidade, e conto vencer a sua repugnância: pediu-me dez minutos para refletir, e eu corro, porque é tempo de receber a sua resposta a fim de comunicá-la já ao comendador.

Maurício - O sacrifício da vida inteira e da felicidade de Leonina?...oh!...o luxo! A vaidade! Eis aí as suas conseqüências!...

Hortênsia - Nossa filha há de ser feliz, eu te afianço...

Maurício - Não pareces mãe, Hortênsia!...

Hortênsia - Maurício, é a primeira vez que me maltratas.

Maurício - Oh! perdoa-me! Eu não sei o que digo...minha cabeça desgoverna...salva-me, Hortênsia...

Hortênsia - Sossega e confia em mim; mas onde encontrarei agora Leonina?...

CENA V[editar]

Maurício, Hortênsia e Anastácio, sempre de dominó.

Anastácio - Meditando e a chorar junto à última janela da galeria. (Vai-se)

Maurício - Esta voz!...quem é este máscara?...

Hortênsia - Sabê-lo-emos depois; agora cumpre salvar-nos. (Vai-se)

CENA VI[editar]

Maurício, só - Continua a música alegre.

A música soa festiva e alegre! As luzes brilham! Admira-se em toda parte o luxo, a riqueza, o fausto e a magnificência do baile...tudo isto partiu de mim, e eu sou mais pobre do que o último mendigo!...hoje a festa...e amanhã ao meio-dia a miséria e o opróbrio!...oh! e medroso do infortúnio que eu preparei por minhas mãos; aterrado pela idéia do mais justo castigo; eu, no meio das músicas estridentes, do ruído da alegria, do movimento jubiloso de todos, eu, pai desnaturado e mau, consinto que vão arrojar minha filha no abismo que cavei debaixo de meus pés!...minha filha!...Leonina!...misericórdia, meu Deus! Sou vil, sou infame, reneguei, desprezei meus parentes...reneguei a honra e a virtude, e ainda vou renegar minha filha!...sinto as ânsias do seu coração, vejo as lágrimas dos seus olhos, e ainda assim com as minhas mãos arrasto-a para o altar do sacrifício...oh! não!...não! este crime, esta abominação, este sacrilégio não há de realizar...não quero...não! não! (Partindo).

CENA VII[editar]

Maurício, que logo se retira, e Anastácio.

Anastácio - É tarde: Leonina deixou-se vencer por sua mãe.

Maurício - Não! Não...não é tarde nunca para correr um pai e salvar sua filha!...(Vai-se).

Anastácio - Vai, desgraçado, vai: a obra é tua, não tens portanto que maldizê-la: vai! Enxuga e esconde as tuas lágrimas, esmaga o teu coração e ri, e ri mil vezes aos olhos dessa sociedade mentirosa, em que quase todos são vítimas, e quase todos querem parecer triunfadores!...Oh! que sociedade! Ali dentro daquelas salas há homens que soltam gargalhadas e que têm no seio o fogo do inferno; há mulheres que se festejam e desejariam poder dilacerar-se; há moças que se estão beijando e que têm vontade de morder-se; ali dentro a inveja derrama veneno, a traição forja ciladas, a calúnia despedaça reputações, a corrupção se propaga, a hipocrisia triunfa, e melhor, e mais sublime que tudo isso, a miséria contradança e o calotismo dança a polca! Oh que mundo do diabo! (Sente passos) Quem vem lá?...é ela. (Vai-se)

CENA VIII[editar]

Leonina (Só)

Está lavrada a minha sentença...meu Deus! Não há mais riso para meus lábios, nem felicidade para o meu coração. Máscara! Máscara! Não me deixes mais: agora tu és o meu único recurso. A desgraça feriu meus pais, um crime vergonhoso está a ponto de desonrá-los...oh!...não há que hesitar..é preciso que eu me sacrifique para salvá-los. Coragem! Há por aí tantas como eu vou ser...ânimo! mas, meu Deus, é muito!...uma vida inteira é muito!...Oh! meu Deus, manda-me um anjo que me salve!

CENA IX[editar]

Leonina e Henrique - Ambos têm as máscaras nas mãos.

Henrique - Leonina!

Leonina - Eu te pedia um anjo, meu Deus!...

Henrique - Oh! o amor às vezes é quase um anjo, porque o amor puro e santo é todo cheio de influxo divino!...Leonina, eu amo!

Leonina - Não mo diga, não...agora é muito tarde, para quem a tempo não quis ouvi-lo! Não é um anjo, não, meu primo! Para mim o senhor é um remorso! Ah! Eu estou no caso dos moribundos, que uma hora antes de expirar pedem perdão àqueles a quem ofenderam; perdão, Henrique!...

Henrique - Leonina, coragem!...nós seremos ainda felizes...

Leonina - Impossível!...

Henrique - A idéia do impossível é quase um sacrilégio: a esperança somente apaga na alma do ateu.

Leonina - Mas quando o próprio dever e o mesmo Deus ordenam o sacrifício de uma vida inteira...quando para salvar seus pais o único recurso que tem uma pobre filha é aceitar a mão de um homem que detesta...quando...

Henrique - Não diga mais...eu sei...eu adivinho tudo...o rubor de suas faces revela o que lhe parece um segredo, e o que ninguém ignora...Leonina...vão condená-la a uma desventura eterna...e eu lhe oferecia no meu coração um altar de amor...Leonina!...

Leonina - E para sentar-me nesse altar, Henrique, já que o sabe, lembre que eu precisaria fazer um degrau da honra de meus pais!...um homem se apresenta para salvá-los...atiro-me nos seus braços...não! não! Eu abraço-me somente com a salvação de meus pais!...

Henrique - Tem razão, é assim mesmo. O santo amor de filha que lhe aconselha tanta abnegação, a engrandece ainda a meus olhos. Tem razão; procede, como deve. Oh! vã filosofia que zombas do poder do ouro! reconhece um tal poder e curva-te diante dele!...ei-lo!...aqui está o ouro comprando uma mulher, e uma mulher vendendo-se nobremente ao ouro por amor da virtude!

Leonina - Meu primo!...

Henrique - Miserável orgulho de artista!...artista!...de que te vale essa palheta, que amas com um cetro, essa glória, com que sonhas incessantemente? De que te vale o gênio, artista?...Oh!...quem me dá um cofre de ouro por essa palheta, que me custou tantos anos de fadiga? Quem me dás um cofre de ouro pela glória de meus sonhos, pelo talento que me inflama?...Oh! vãs quimeras!...a glória é uma ilusão! O talento é nada! O gênio é a túnica de Nesso, o merecimento, a probidade, a sabedoria são mentiras: há só uma grande verdade, é o ouro!

CENA X[editar]

Leonina, Henrique e Anastácio.

Anastácio - Blasfêmias!... há só uma grande verdade, é Deus; e por Deus são verdades o gênio, o merecimento, a probidade e a sabedoria.

Leonina - Meu tio!

Henrique - Salve-nos, meu tio! Quem nos reconciliou, quem nos animou com suaves esperanças, deve salvar-nos.

Anastácio - E hei de salvá-los. Não saí de Minas para assistir ao casamento de minha sobrinha com o comendador Pereira.

Leonina - Que hei de fazer...ensine-me?...

Anastácio - Resiste.

Leonina - Mas eu já dei o meu consentimento à minha mãe...

Anastácio - Resiste.

Henrique - Ainda é tempo, vá retirar a sua palavra.

Leonina - É tarde!...ei-los aí...(Anastácio e Henrique põem as máscaras).

Henrique - Lembre-se do nosso amor, minha prima.

Leonina - Oh! e meu pai?...e meu pai?

Anastácio - Resiste. (Vão-se Anastácio e Henrique)

CENA XI[editar]

Leonina, Maurício, Hortênsia, Pereira, Fabiana, Frederico, Filipa, Reinaldo e Lúcia.

Reinaldo - Festa sublime e inimitável! Mas foi o diabo; apesar do meu disfarce conheceram-me logo pelo arreganho militar.

Pereira (À parte) - Se eu fosse ministro da guerra havia de reformar este coronel em cabo de esquadra; tenho-lhe um ódio!

Lúcia - Só o senhor Maurício e a Dona Hortênsia sabem dar bailes com tanta riqueza e tão apurado gosto.

Leonina (À parte) - Como meu pai está sofrendo!...o meu pobre pai!...

Hortênsia - O esplendor da nossa festa é todo devido ao brilhante concurso que nos veio honrar...

Pereira - E eu sou o mais ditoso entre todos os que vieram a ela.

Fabiana - Bem o merece, se o é; porém Dona Hortênsia chamou-nos ao jardim com um ar de mistério que me vai dando que pensar.

Hortênsia - Escolhi os nossos mais diletos amigos, para que fossem eles os primeiros a quem eu tivesse o prazer de participar que o senhor comendador Pereira fez-nos a honra de pedir Leonina em casamento, e que esta correspondeu como devia a tão notável distinção, aceitando ufanosa a felicidade que o céu lhe destinou.

Vozes - Parabéns! Parabéns!

Pereira - Falta-me só receber a confirmação da minha dita da própria boca da formosa noiva...

Maurício - Um momento...devo dizer ainda uma palavra a Leonina; perdão...é o último conselho de um pai. (Leva Leonina para um lado; Hortênsia toma o outro lado da filha, ficando um pouco para trás). Minha filha, eu corri há pouco para impedir uma promessa fatal, e cheguei tarde; agora, porém, o momento é supremo; o teu sacrifício não impediria o meu infortúnio...

Hortênsia (À Leonina) - O comendador jurou-me que salvaria teu pai, Leonina!

Maurício (À Leonina) - No meio das maiores desgraças, a tua felicidade seria para mim a única e a mais doce consolação...

Hortênsia (À Leonina) - E amanhã a vergonha e a desonra...

Maurício (À Leonina) - Consentir neste sacrifício fora um verdadeiro crime; minha filha...não ousas falar...falo eu...

Hortênsia (Suspendendo Maurício) - E o estelionato, Maurício!...Salva teu pai, Leonina!

Leonina (À parte) - Oh!oh!...é muito! Eu não posso mais; meu Deus! Eu cumprirei o meu dever. (A Pereira) Senhor...comendador...serei...sua...ah! (Desmaia).

Maurício - Minha filha!

Hortênsia - Leonina...Ela torna a si...foi a emoção...o excesso de prazer...

Reinaldo (À parte) - Aquela conversa e este desmaio não podem ser de bom agouro para o noivo.

Pereira - Minha senhora, eu vou dever-lhe a felicidade da minha vida...

Leonina - Senhor...

Maurício (À parte) - Sou eu que sacrifico a pobre vítima!

Fabiana - Poupemos o pudor da noiva; é uma impiedade martirizá-la assim. (A Frederico) Vai tudo às mil maravilhas para nós.

Frederico (À Fabiana) - Só um estúpido como o comendador deixaria de compreender o que se está passando.

Filipa - Não esqueçamos o baile: senhor comendador, Dona Leonina ainda não é sua; pertence-nos durante esta noite; voltemos ao baile; eu estou louca por encontrar de novo o dominó preto; já viram o famoso dominó preto?...

Pereira - Dizem-me que tem intrigado a todos; mas eu ainda não o vi, nem ouvi.

Lúcia - Nem eu, e ardo em desejos...

CENA XII[editar]

Os precedentes e Anastácio.

Anastácio - Pois ei-lo aqui, senhores!

Vozes - Oh! ainda bem! Ainda bem!...

Frederico - Todos estamos sem máscara; tira também a tua.

Anastácio - Ainda me assiste o direito de conservá-la no rosto.

Hortênsia - Sem dúvida,e pelo menos até a hora da ceia.

Frederico - Desse modo é fácil exercer uma certa superioridade; porque conheces a nós todos, e ninguém ainda pôde descobrir quem sejas.

Anastácio - Tanto melhor para mim; mas quem vos disse que vos achais sem máscaras?...engano, senhores, todos estais mascarados!...

Reinaldo - Excelente! Excelente!

Pereira - Pois tira-nos as máscaras, dominó pretensioso.

Anastácio - Vós o quereis?...

Vozes - Sim! Sim!...

Filipa - É um máscara singular! Quando todos falam em falsete, ele conversa em baixo profundo!

Anastácio - Então aí vai: Maurício, a placidez do teu rosto é uma máscara; tu tens na alma o desespero. Também não te devias chamar Maurício, porque o nome que te cabe é a - Fraqueza.

Maurício - Oh!...

Vozes - Impagável! Impagável!

Anastácio - Hortênsia, a felicidade que ostentas é a tua máscara; porque o medo te oprime, e o remorso te despedaça o coração. Também não te devias chamar Hortênsia, o nome que te assenta, é a - Vaidade!

Maurício - Senhor!...

Anastácio - Leonina, és a única que não trazes máscara; porque o teu pranto e a tua aflição estão a todos dizendo que és uma vítima.

Pereira - Que pretendes significar com isso, senhor dominó?...

Anastácio - Comendador Pereira, a tua nobreza é uma máscara; porque tens tu mesmo consciência da tua nulidade. Também não te devias chamar Pereira, o nome que mereces é a - Fatuidade.

Pereira - É...é uma insolência!...

Frederico - Qual! É sublime!

Anastácio - Coronel Reinaldo...

Reinaldo - Dispenso...dispenso, absolutamente; eu e minha filha queremos guardar o incógnito...Anda, Lúcia...este dominó traz o diabo no corpo. (Vai-se com Lúcia).

Filipa - Pois eu não o dispenso.

Anastácio - Pobre moça! Também a tua leviandade é uma máscara; porque sofres tormentos incessantes; não te devias chamar Filipa, o nome que te compete; é a -Inveja.

Fabiana - É demais!...

Anastácio - Frederico, esse alegre estouvamento que ostentas é uma máscara; porque a tua alma está enregelada pelo egoísmo, e o teu coração ressecado pela prática dos vícios. Não te devias chamar Frederico, o nome que te assenta é a - Libertinagem!

Frederico - Ah! Ah! Ah ! é incomparável, palavra de honra!...

Anastácio - E o teu agrado, a tua afabilidade, a tua lhaneza são uma tríplice máscara, Fabiana! Porque no teu espírito refervem negras idéias; não devias chamar Fabiana; o nome, que te define, é a - Traição!

Fabiana - Miserável!

Pereira - E deixaremos assim impunes tantos insultos...

Maurício (Avançando um passo) - Protegido pela máscara e pelo indulto da hospitalidade, acabasse de injuriar a todos nós; perdeste portanto os teus direitos, e me impuseste o dever de arrancar-te essa máscara, e de mostrar o teu rosto aos olhos...(Quer arrancar-lhe a máscara e Anastácio suspende-lhe o braço).

Anastácio (A Maurício) - Amanhã, ao meio-dia, Maurício!...

Maurício - Oh!...(Deixa cair o braço)

Hortênsia - Este homem é um atrevido, e como tal deve ser expulso da nossa casa...(Anastácio leva Maurício para um lado).

Anastácio (A Maurício ) - Nós vamos entrar de novo na sala do baile, e tua mulher aceitará sem dúvida o meu braço...

Maurício (Aterrado) - Senhores...é um amigo...zombou de todos nós...mas não houve ofensa...é um amigo...tornemos ao baile...

Fabiana - Como?...depois dos insultos que nos dirigiu...

Maurício - É um amigo...já disse...respondo por ele...e a prova é, que Hortênsia vai tomar-lhe o braço...

Hortênsia - Eu?...nunca!...

Maurício (À Hortênsia tremendo) - Toma-lhe o braço, Hortênsia!...

Hortênsia (Tomando o braço de Anastácio) - Meu Deus!... (Vão-se retirando).

Frederico (Dando o braço a Fabiana) - Hora e meia!...

Fabiana - Vamos. (Vão-se)

CENA XIII[editar]

Filipa e logo Henrique.

Filipa (Olhando em torno) - Hora e meia!...e alguém me falta...

Henrique (Aparecendo) - Hora e meia!...Estou pronto.

Filipa - O momento terrível se aproxima, um leve descuido poderia ser-nos fatal; cuidado!

Henrique - Eu velo.

Filipa (À parte, apertando-lhe a mão) - E eu triunfo! (Vão-se)

CENA XIV[editar]

Reinaldo e Lúcia.

Lúcia - Mas, meu paizinho, isto é intolerável! É revoltante!...

Reinaldo - Que queres, minha filha?...o primeiro dever do soldado é a obediência, e principalmente agora que, segundo corre, estamos em vésperas de promoção. O negócio é necessariamente muito grave; a carta é do oficial de gabinete do ministro, e tão atrapalhado escreveu que quase lhe desconheci a letra...

Lúcia - Ah, meu paizinho, tomara eu que caia este ministério.

Reinaldo - Olha, ele está por teias de aranhas...e ao primeiro vento, vai-se como um passarinho; mas enquanto se demora no poleiro, é preciso não faltar-lhe com as continências devidas. Às duas horas devo estar em casa do ministro...tenho apenas tempo de deixar-te em casa e de ir apresentar-me à Sua Excelência...Há negócio grave...há negócios grave...anda...vamos...

Lúcia - Ai! Cá para mim não há ministro que valha um baile.

Reinaldo (Saindo com a filha) - Não digo o contrário...porém que remédio! Vamos...e...adeus, minhas contradanças!...

Lúcia - Adeus, minhas boas valsas!...(Vão-se)

CENA XV[editar]

Frederico, só - De máscara e com uma capa no braço.

Lá se foi o coronel, e ao menos durante o resto da noite carregará com a responsabilidade do rapto de Leonina. É chegada a hora; cumpre abrir o portão para facilitar a retirada. (Faz o que diz) Oh, que doce peso vou carregar sobre os meus ombros! Que moça encantadora,q eu noite de embriaguez e que bela herança a esperar! Se Dona Fabiana se lembrasse de dar a comer uma boa dose de pastilhas ao tio e padrinho da minha noiva!...Mas... é tempo de esconder-me...É célebre! Parece-me que a despeito de todo este meu entusiasmo, estou começando a recear as conseqüências deste passo...que puerilidade...avante!...vou ocultar-me entre jasmins para roubar uma rosa. (Oculta-se por trás do caramanchão)

CENA XVI[editar]

Frederico, oculto; Fabiana e Leonina.

Fabiana - Venha...o ar da noite e o aroma das flores hão de fazer-lhe bem.

Leonina - A cabeça pesa-me horrivelmente...como que os olhos se vão fechando...

Fabiana - É um incômodo passageiro; havia de ser a emoção que lhe causou o pedido do casamento...

Leonina - Não...não...mas é impossível resistir ao sono que sinto; eu vou retirar-me para o meu quarto..

Fabiana - Não faça tal, o calor aumentaria este pequeno incômodo. Olhe, descanse antes ao pé de mim, no banco do caramanchão.

Leonina - É melhor que eu me vá deitar...não posso...quero dormir.

Fabiana (Puxando-a) - Venha...eu me sentarei a seu lado.

Leonina (Cedendo) - Oh! é muito! É demais!...

Fabiana - Venha!...(Leva-a para o banco do caramanchão; Leonina reclina-se sobre Fabiana)

Leonina - Pesam-me os olhos...ah...se eu dormir...acorde-me...

Fabiana - Sim...descanse; esta aragem suave que sopra lhe fará bem, durma bem, durma...no meio das flores...como um anjo...como...e dormiu! Dona Leonina! Minha boa amiga! Dona Leonina! Qual! Dorme profundamente. Bem! A hora da ceia deixa o jardim em solidão; eu tinha calculado com isso; mas é preciso não perder um instante. Psiu! Psiu! É tempo.

Frederico (Aparecendo) - Pronto; dê-me esse precioso tesouro!

Fabiana - Espere, atemos-lhe primeiro este lenço na boca; podia por acaso despertar, e, se gritasse, ficaríamos perdidos. (Atam o lenço)

Frederico - Sim...mas não magoemos estes lábios de rosa...

Fabiana - Como já está zeloso da sua noiva! Ei-lo atado de leve; mas ao primeiro movimento aperte com força o nó.

Frederico - Hei de, durante quinze dias, ser o mais apaixonado e constante dos maridos. (Tomando com cuidado Leonina nos braços)

Fabiana - Enfim...ei-la aí.

Frederico - Leonina! És minha!

CENA XVII[editar]

Fabiana, Leonina, Frederico, Anastácio e Henrique.

Anastácio - Ainda não.

Fabiana - Oh!...

Frederico (Descansando Leonina no banco e avançando com um punhal) - Sempre ele! Miserável, morre!...(Ferindo)

Henrique (Suspendendo o golpe) - Assassino! Somos dois!...(Subjuga Frederico)

Anastácio (Arrancando a máscara de Fabiana) - Ei-la, a traição!...(O mesmo a Frederico) Ei-lo, a libertinagem!... Infames, fugi!...(Vão-se Fabiana e Frederico. Anastácio e Henrique correm a Leonina) Oh!...este sono é sinistro...

Henrique - Leonina!...meu Deus!...permiti que nós a salvemos.

FIM DO QUARTO ATO