Luxo e Vaidade/V

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Luxo e Vaidade
por Joaquim Manuel de Macedo


Sala em casa de Maurício; ainda riqueza e luxo; agora porém sinais de alguma desordem; sobre uma mesa vê-se uma pêndula de primoroso gosto.

CENA I[editar]

Hortênsia, e logo depois Maurício.

Hortênsia - Só! Abandonada! Debatendo-me se esperança nas garras da miséria e da vergonha! Oh! é horrível! E minha filha...a minha Leonina...meu Deus! Se ao menos me restasse minha filha!...(Silêncio) Todos os meus cálculos destruídos como nuvens desfeitas pelo vento! Misericórdia, meu Deus!...(Vendo entrar Maurício) E Leonina?...e nossa filha?...

Maurício - Perdi os meus passos, e as minhas lágrimas; ninguém sabe de Leonina.

Hortênsia - O nome do infame raptor ao menos...

Maurício - Hortênsia, não houve rapto, houve fuga. Qual é a mulher que se deixa roubar sem que solte um grito ou brade por socorro?...Não houve rapto; Leonina fugiu-nos e fez bem; queríamos sacrificá-la e ela salvou-se; fez bem.

Hortênsia - Mas desonrou-se...e desonrou-nos...

Maurício - Desonrados estamos nós desde o dia em que sem medir os nossos recursos nos atiramos no golfão do luxo e da vaidade, e nos carregamos de dívidas, que não podíamos remir. Hortênsia! Olha aquela pêndula, ela marca onze horas; ao meio-dia, em ponto, virão pedir-me o pagamento de uma dívida sagrada, e os meus credores terão o direito de chamar-me ladrão; porque eu vendi escravos que tinha hipotecado,e me utilizei do seu dinheiro, enganando-os com essa fraude vergonhosa.

Hortênsia - Oh, Maurício! E não temos esperança, não temos recurso algum?...as minhas jóias?...

Maurício - As tuas jóias! Eis aí o seu produto; importaram em mais de doze contos de réis, e deram-me por elas menos de cinco!Aqui estão; uma gota d'água no oceano!

Hortênsia - Se te dessem algum tempo de espera, Maurício...

Maurício - E com que fim o pediria eu?...daqui a um ano estarei em melhores circunstâncias do que hoje?... Não, Hortênsia, basta de enganar; em minha própria consciência fui até agora apenas um louco, e de agora em diante seria um velhaco.

Hortênsia - E te u irmão tão rico! Por que não te abres com o mano Anastácio?...no fundo do coração ele é bom.

Maurício - Meu irmão não pode ignorar em que situação nos achamos, e se quisesse socorrer-nos, não precisava que eu lho pedisse.

Hortênsia - Falaste a algum dos nossos amigos?...

Maurício - Os nossos amigos! A minha desgraça já é conhecida: bati em dez portas e achei-as todas fechadas, ou glacial frieza naqueles que ainda me quiseram receber. Entendi que não me devia expor a outras desilusões.

Hortênsia - Oh! o mano Anastácio tinha razão.

CENA II[editar]

Maurício, Hortênsia e Petit.

Petit - Senhor barão do rio Mirim não recebe ninguém hoje.

Hortênsia - Também ele!...

Petit - Senhor conselheire vai sair fora de cidade quinze dias, madame não faz nem recebe visitas.

Maurício - Como os outros!

Hortênsia - Abandonada de todos...

Petit - Oh! non, tem muito gente na escade.

Hortênsia (Com viveza) - Quem são?...

Petit - Mais de vinte caixeiros que traz contas, e faz bulha de mil diables, dizendo que quer dinheiro por força.

Maurício - Irei falar-lhes imediatamente.

Petit - E da minha parte, eu também faz cumprimento a monsieur e a madame, e pede três meses de salário que não recebeu, e agora mesmo vai embora.

Hortênsia - Tal e qual como Fanny ainda há pouco!...até eles nos abandonam!...

Maurício (Tira a carteira e dá dinheiro) - Toma; vai-te: pelo menos não se dirá que caloteamos até os nossos criados.

Petit - Eu faz cumprimento e deseja muitas felicidades...

Maurício - Deixa-nos (Vai-se Petit). Estás vendo a triste posição a que temos descido?...

Hortênsia - E Leonina?...e Leonina?...

Maurício - Quase que estimo que ela não tenha sido testemunha de tão vergonhosas cenas.

Hortênsia - Até o mano Anastácio nos desampara!...

Maurício - Paciência. Espera-me, Hortênsia; vou falar aos caixeiros e aos cobradores que me enchem a escada: vou corar diante deles, e entregar-lhes todo o dinheiro, que me renderam as tuas jóias. (Vai-se).

CENA III[editar]

Hortênsia e logo Anastácio.

Hortênsia - Oh! meu Deus, quem dissera que eu me veria em tão lamentável situação?!

Anastácio - Eu lho predisse, minha cunhada.

Hortênsia - Meu mano! Meu mano!...

Anastácio - Onde está a multidão de amigos que dia e noite enchia as salas desta casa?...de que lhe serviram esses bailes, esses banquetes, essa vida de ostentação, com que enganava o mundo?... que é feito do seu orgulho de nobreza?...oh! as músicas dos saraus e o ruído das festas trocaram-se pela gritaria que levantam ali na escada os caixeiros insolentes; e aos aplausos dos parasitas sucederam as maldições dos credores enganados.

Hortênsia - Meu mano, não redobre os nossos sofrimentos; as desgraça que caiu sobre nós é horrível!

Anastácio - Essa desgraça é justo castigo da Providência. Consulte a sua consciência, que é a voz de Deus que lhe fala n'alma, e reconhecerá que ela lhe está dizendo: "Mulher, tu és um exemplo doloroso que deve ensinar às esposas e às mães a seguir o caminho da virtude. Mulher, tu foste a causa do infortúnio de teu marido, porque o arrojaste no abismo da dissipação; tu empurraste tua filha para a sua perda, porque lhe deste uma educação perniciosa e fatal. Mulher, tu foste má esposa; mulher, tu foste mãe desamorosa; tu foste parenta ruim: recebe portanto o merecido castigo. O teu vício foi o luxo; fica pois miserável: a tua paixão foi a vaidade; fidalga improvisada! Fica abaixo da plebe!...

Hortênsia - Oh! piedade! Compaixão!...

Anastácio - Olhe que não sou eu quem lho digo; é a sua consciência que, sem dúvida, lho está dizendo.

Hortênsia - Tem razão, pragueje contra mim; mas nem por isso desconheça que a nossa infelicidade é cruel e atroz.

Anastácio - Pelo contrário, eu a considero muito proveitosa, e útil.

Hortênsia - O senhor zomba dos seus parentes no infortúnio: é um homem sem generosidade, um homem mau!

Anastácio - Acima dos meus parentes está a nação que pode colher benéficos resultados da lição que oferece a sua desgraça. A sociedade acha-se corrompida pelo luxo e pela vaidade, e um quadro vivo das conseqüências desastrosas dessas duas paixões talvez lhe seja de prudente aviso. Em Maurício verá o homem de medíocre fortuna e especialmente o empregado público, que a ostentação e o fausto de alguns anos determinam a miséria de todo o resto da vida; nas suas lágrimas de esposa e de mãe, as mães e as esposas verão os horrores a que as pode levar o abuso do amor de um marido extremoso e cego e a falsa educação dada às filhas. A sua triste pobreza proclama a necessidade da economia. A própria desonra de meu irmão ensina que desvairado pela paixão do luxo, um homem honesto é capaz de arrojar-se até o crime. As suas pretensões de nobreza, enfim, dizem ao mundo que o ouropel não é ouro, que a máscara não é o rosto, e que nobre, verdadeiramente nobre é só o que é virtuoso e probo, o que é grande e generoso, o que é digno de Deus e da pátria. Sofra pois, sofra! E de joelhos agradeça a Deus a punição que recebe.

Hortênsia - E minha filha...a minha Leonina...

Anastácio - Sua filha é uma órfã, porque nunca teve pais que a guiassem pelo bom caminho. Ela é órfã e Deus é o pai dos órfãos.

Hortênsia - Oh! que homem este! Ao ver os nossos martírios somente acha para dizer-nos palavras de amargor e quase de insulto!

Anastácio - Sou rude, senhora; mas a minha boca não sabe dizer senão a verdade.

Hortênsia - Nem se lembra de que está humilhando e desprezando os seus parentes!

Anastácio - Orgulhosa fidalga de ontem! Como trataste os parentes de teu marido, durante dezoito anos de vaidade e de presunção?...que fizeste há cinco dias, quando se apresentaram em tua casa teu cunhado, o marceneiro, e teu sobrinho, o pintor?...prova, mulher, prova hoje por tua vez o cálice da humilhação e do desprezo!

Hortênsia (Curvando-se) - Perdão.

Anastácio - É o castigo de Deus!

Hortênsia (De joelhos e com veemência) - Perdão!...perdão!...

Anastácio (Sentindo-se comovido) - Levante-se minha irmã; tarde chega às vezes o arrependimento para os homens; mas nunca ele vem tarde para Deus. Que tem feito desde que lhe roubaram sua filha?...

Hortênsia - Chorar.

Anastácio - As lágrimas são estéreis, senhora; nas maiores aflições o recurso é o Onipotente. Reze.

Hortênsia - Sim...sim...tem razão.

Anastácio - Não derrame lágrimas sobre a terra; levante os olhos para o céu e espere. Vá orar. Deus é grande.

Hortênsia - Eu vou; é dele somente que agora espero tudo. (Vai-se)

CENA IV[editar]

Anastácio (Só)

Pobre senhora! Fui talvez austero demais: a vaidade germina espontaneamente no coração da mulher; mas é o homem que cultiva e dá vigor a essa planta venenosa. O mais culpado é meu irmão,q eu deveria ser o protetor e o guia de sua esposa; que devera ser forte e prudente, que por sua fraqueza levou sua família a uma ruína completa. Que será feito desse infeliz? Creio que ouço suas pisadas: observá-lo-ei de perto. (Vai-se)

CENA V[editar]

Maurício ( Só - depois de alguns instantes de silêncio, observa a pêndula).

A hora se adianta, pouco falta: ao meio-dia o meu opróbrio estará consumado. Hão de vir enxotar-me desta casa, e à porta da rua eu encontraria talvez soldados,q eu me levassem à prisão. Coberto de dívidas, desonrado por um crime vergonhoso, desonrado pela desonra de minha filha, lancei uma nódoa indelével no nome de meu pai e na tenho esperança, senão na morte. Não hão de arrastar-me a um cárcere; não curvarei a cabeça ao peso de injúrias e de maldições; não!...porque em lugar de um homem, só acharão um cadáver. Acabemos com isto. (Vai buscar uma garrafa d'água e um copo, e deita naquela o veneno que traz em um vidro). Era exatamente pelo suicídio que devia terminar uma vida desgraçada e louca. Perdão, meu Deus! Minha filha, perdão! Ora pois...bebamos a morte. (Pega na garrafa e deita água no copo).

CENA VI[editar]

Maurício e Anastácio

Anastácio - Maurício!

Maurício (Estremecendo) - Quem é...Anastácio...(Larga a garrafa e o copo)

Anastácio - Não ouviste um grito de tua mulher?...

Maurício - De Hortênsia...

Anastácio - Lembra-te ao menos dela, acode-a depressa.

Maurício - Hortênsia! Que mais devo sofre, meu Deus!

CENA VII[editar]

Anastácio (Só)

Um suicídio! Mas de que me admiro? Maurício não é homem fraco? Na hora da adversidade a fraqueza mata-se para poupar-se ao incômodo de lutar. Sublime recurso! Um extravagante enche-se de dívidas, e no dia do vencimento das letras, suicida-se, pregando assim um calote a Deus, além dos que pregou aos credores. Nos cálculos dos dissipadores o único que ganha é o Diabo. Um suicídio! Que bela idéia! O homem despoja-se da vida a pretexto que a honra a isso o briga. Mentira! A honra é o cumprimento do dever. Mas o extravagante abre com o punhal ou com o veneno o caminho do inferno, e no dia seguinte os jornais referem a história da loucura e do crime tão romanescamente, que fazem a outros loucos vontade de imitar aquela ação heróica!...(Deita fora a água da garrafa e enche esta de outra água). Muito bem: vou apreciar os efeitos da água da Carioca.

CENA VIII[editar]

Anastácio, ao fundo. O comendador Pereira.

Pereira - Chego deitando a alma pela boca...não importa; bato,ninguém aparece; grito, ninguém me responde: eis o que importa muito. Então certos são touros! É uma indignidade e uma infâmia! O homem está perdido, deve os cabelos da cabeça, não tem onde caia morto, e os meus três contos de réis foram devorados! Deixaram-me sem mulher e sem dinheiro! Ainda se eu me casasse com a moça, sofreria com paciência o prejuízo; mas enquanto o pai rebentava financeiramente, a filha batia as asas amorosas, e ambos me pregavam dois calotes desastrados; nada, ao menos quero os meus três contos de réis...isto é uma patifaria, este homem é um...

Anastácio - Acabe!

Pereira - É um...sim...um...um infeliz!

Anastácio - E o senhor que é?

Pereira - Eu?...eu...sou um comendador...

Anastácio - Não! É somente um miserável!

Pereira - Senhor Anastácio...Anastácio...Anastácio não sei de quê...

Anastácio - Aquele que durante anos foi recebido no seio de uma família honesta, e por ela tratado como um amigo; que jantou cem vezes à sua mesa, que foi objeto de atenções e cuidados penhoradores; que gozou de sua confiança inteira; que mereceu, enfim, ser considerado digno de receber em casamento uma jovem cheia de encantos e virtudes, o anjo querido de seus pais,e que no momento em que essa família cai em desgraça, vem insulta-la, lançar-lhe em rosto a sua miséria, pelo receio vil e mesquinho de perder três contos de réis, é...oh! não é um malvado, não; não é um tigre; é menos do que isso, é um homem vil e abjeto!...é um réptil asqueroso, em que nem mesmo se pisa sem repugnância: não tem coração, não tem alma, não tem... não tem ao menos dignidade fingida para revoltar-se, quando ouve as injúrias que lhe estou atirando ao rosto!

Pereira - Tudo isso é bom de se dizer; mas três contos de réis é dinheiro! E se ao menos...

Anastácio - A sua letra!

Pereira - Ei-la aqui; mas que pretende fazer?...

Anastácio (Tira a carteira e dá dinheiro) - Rasgue-a! que não toque nas minhas mãos um papel que passou pelas suas. (Pereira rasga a letra). Dou-lhe minha palavra de honra, que a sua alma vale este trapo que piso com os meus pés!

Pereira - Sim...porém a emoção...a fadiga...o calor...com licença, um copo d'água...(Bebe) Ah! Sinto-me um pouco melhor.

CENA IX[editar]

Anastácio, Pereira, Maurício e Hortênsia.

Hortênsia - Meu mano, Maurício imitou-me; rezou também.

Maurício - Senhor Comendador...

Pereira - Meu caro amigo...minha senhora...

Hortênsia - Ainda bem, senhor comendador, que Vossa Excelência não pertence ao número daqueles que esquecem os amigos na adversidade.

Pereira - Oh! essa é boa! Isso não está no meu caráter.

Anastácio - Mas sempre é bom que saibam o motivo que trouxe aqui o senhor comendador.

Pereira - Não é preciso. (A Anastácio) Por quem é...poupe-me...

Anastácio - Senhor comendador, o baile de máscaras foi ontem.

Pereira - Sinto-me de novo incomodado...que tonteiras diabólicas...mais um copo de água...(deita água no copo).

Maurício - Não beba! Não beba!...

Pereira - Então por quê?...

Maurício - Essa água...

Pereira - Acabe...esta água...que tem esta água?

Maurício - Oh! eu tive a idéia infernal de suicidar-me!

Hortênsia - Maurício!

Maurício - Essa água está envenenada!...

Pereira (Deixando cair o copo) - Misericórdia! Eu já bebi!

Hortênsia - Senhor comendador...

Pereira - Minha senhora, seu marido suicidou-me!

Maurício - Isto é horrível!

Pereira - Horribilíssimo! Já sinto dores pela barriga...Oh! um médico! Chamem um médico! Eu quero um contra-veneno. Diga-me depressa: qual foi a substância assassina?

Maurício - Arsênico...

Pereira - Arsênico! Estou morto: pois se eu já estou reconhecendo todos os sintomas do arsênico! Um médico! E ninguém me acode! Vou eu mesmo...um médico! Um médico! (Vai-se)

CENA X[editar]

Anastácio, Maurício e Hortênsia.

Maurício - Que fatalidade!

Anastácio - Não se assustem, a água que ele bebeu é inocente; eu destruí os preparativos para o último ato de loucura de meu irmão.

Maurício - Ainda bem!

Anastácio - E não te envergonhas, Maurício, do atentado que ias cometer contra Deus e a sociedade? Nem te lembrou a esposa?

Hortênsia - Ingrato!

Anastácio - Nem a filha...

Maurício - Minha pobre Leonina! Se eu a tivesse junto de mim resistiria com mais coragem ao golpe tremendo da fortuna.

Anastácio - E nada sabes ainda a respeito de Leonina?

Maurício - Ignoro o principal. Sei que essa indigna Dona Fabiana e Frederico, seu infame cúmplice, estavam a ponto de realizar um plano de antemão forjado, raptando minha filha, quando apareceram dois máscaras que arrancaram a vítima de suas garras; mas depois eles por sua vez me roubaram Leonina. Eis tudo quanto pude descobrir; e além disto, nada...nada mais!

Anastácio - Maurício, tu desprezaste pelos falsos os teus verdadeiros amigos, e eles se vingaram de ti, salvando tua filha.

Hortênsia - Onde está minha filha?

Maurício - Anastácio! Minha filha...onde está minha filha...

Anastácio - Junto de sua tia...da mulher de Felisberto...

Maurício - Ah! Que felicidade tão grande! E quem a salvou?...

Anastácio - Olha!...

CENA XI[editar]

Os precedentes, Leonina e Henrique.

Leonina (Correndo a abraçá-los) - Meu pai!...mãe!...

Hortênsia - Minha filha!

Maurício - Leonina!...

Anastácio (À parte) - Pior está essa...penso que já vou ficando com os olhos molhados...pois se eu sou um chorão!...

Maurício - E o teu salvador...onde está ele?... (Vendo-o) Henrique!

Hortênsia - Meu sobrinho...nos meus braços. (Abraça-o)

Anastácio - Sem a menos dúvida, a desgraça dá juízo aos parvos...

Leonina - Minha mãe, meu primo é o mais nobre e honrado dos cavalheiros...

Anastácio - Saiu ao pai que é tal e qual, apesar de ser mestre marceneiro.

Henrique - Cumpri em tudo o meu dever de parente e de homem de bem.

Maurício - Henrique, desprezei-te, quando me iludia ostentando grandezas fictícias, e hoje na mais cruel adversidade, hoje na miséria, e quase perdido pela desonra, eu te peço que sejas o esposo e o protetor de minha filha!

Hortênsia - Chama-me tua mãe, Henrique!

Henrique - Juro que farei a felicidade de Leonina! E de joelhos eu vos agradeço a esposa que me dais, e que vai transformar a minha vida, em um paraíso!

Maurício - Meu filho!

Henrique - Oh! meu pai! Minha mãe!...(Abraçam-se).

Leonina - Meu padrinho, como somos ditosos!...

Maurício - Ditosos!...(Dá meio-dia - Aterrado) Meio-dia!...

Hortênsia - Meio-dia...é a hora terrível...

Maurício - Justo céu! Sobem a escada...

Anastácio - Pois que subam! Agora podem subir...

Hortênsia - Meu mano...

Anastácio - Pois que subam...repito!

Leonina - Que é isto?...

CENA XII[editar]

Os precedentes e Felisberto.

Maurício - Felisberto!

Anastácio - Felisberto!

Leonina - Meu tio!

Henrique - Meu pai!

Hortênsia (À parte) - Eu tremo de confusão...

Felisberto - Bom dia, Maurício; Deus a guarde, minha senhora.

Anastácio - Com que cara vens tu, Felisberto?

Felisberto - Venho dizer-te, Anastácio, que tu és um homem mau.

Anastácio - Heim?...como é lá isso?...

Felisberto - Homem mau, sustento ainda. Tu és rico, mesmo até muito rico; não és casado, nem tens filhos, sobram-te pois os recursos; nosso irmão te recebia em casa, e és o padrinho de sua filha; no entanto esquecido de nossos pais, do nosso sangue, do nosso amor de crianças, e do mais santo dever, tu consentias que nosso irmão passasse pelo maior vexame do mundo! És um homem mau, um avarento, um parente ruim. (A Maurício) Maurício, foi somente há uma hora que eu soube de tua desgraça; eu sou um pobre marceneiro, e trinta e cinco anos de economias deixaram-me apenas ajuntar estas oitos apólices de conto de réis. (Apresenta-as) Eu as reservava para meu filho...mas vejo que precisas muito...oito contos de réis talvez não cheguem...diabo! não tenho mais vintém; arranja-te, porém, conto com isto, enquanto eu trato de vender a minha casinhola, que nos dará ainda uns cinco ou seis contos. Nada de cerimônias...por fim de contas tu és meu irmão...anda...toma...aceita, Maurício; aceita...e meu filho que trabalhe...

Maurício (Chorando) - Felisberto!...

Leonina (Abraçando Felisberto) - Meu querido pai!...

Henrique (Abraçando-o) - Abençoado sejas, meu pai!...

Felisberto (Confuso) - Que algazarra por uma coisa tão natural!

Hortênsia (Curvando-se) - Meu irmão, perdoe-me o mal que lhe tenho feito!

Felisberto - Minha senhora...então que é isto?...o passado, passado; viva Deus! A mulher de meu irmão é minha irmã...Abro-lhe este peito... é rude, é grosseiro, mas venha...pode vir que é um peito de madeira de lei! (Abraça Hortênsia)

Anastácio - E eu então, Felisberto?

Felisberto - Toma lá (Indo a ele) Mas tu és um homem mau.

Anastácio - Alto, senhor mestre marceneiro! Dobre a língua, guarde a suas apólices; o que veio fazer, já está feito.

Leonina - Meu padrinho...

Anastácio (Dando papéis a Leonina) - Toma esta escritura de hipoteca, e estas letras, Leonina, entrega-as a teu pai, e dize-lhe que para o futuro tenha mais juízo.

Hortênsia - Maurício! De joelhos aos pés destes dois anjos! (Vão ajoelhar-se aos pés de Anastácio e de Felisberto, e eles os suspendem)

Anastácio - De joelhos, a Deus, meus irmãos! De joelhos a Deus e agradecei-lhe a lição que recebestes, e a felicidade de vossa filha!

FIM DO QUINTO E ÚLTIMO ATO